Os Perigos de um Coração que Bate
- Ana E.

- 2 de set. de 2025
- 5 min de leitura
Atualizado: 2 de set. de 2025

Era uma vez um anjo que desejou ter um coração que batesse.
Não para abrir ao meio e tentar desvendar os seus segredos, como tantos haviam tentado antes. Não para desfazer em peças, nem para devorar.
O anjo desejou um coração dentro do peito, onde nunca nada batera.
Foi até a Criadora e pediu um coração que preenchesse o vazio em seu peito.
— Para quê? — indagou Ela.
— Quero me tornar mortal — disse o anjo, que não podia mentir.
A Criadora recusou. Aquele anjo era um dos Seus primeiros, mais preciosos dons à Existência.
— Dá-me um coração que bata — suplicou o anjo, o pedido insistente reverberando grosso acima das nuvens pesadas.
— Você precisa compreender — disse Ela, sua voz como brisa sobre um rio. — Se eu lhe der um coração, terá de dar algo em troca, tais são as regras.
E por um coração que batia, o preço mais alto se requeria.
— Você jamais ascenderá novamente. Quando seu coração mortal parar de bater, seu corpo poderá se dissolver e tornar-se parte do Todo. Então, ninguém, nem mesmo Eu, poderá recuperar o que você foi um dia.
— Eu aceito sua condição.
Quando suas asas negras foram cortadas, dizem que o anjo caiu do céu como relâmpago e trovão sobre a terra.
A consciência do anjo despertou dentro de um corpo mortal, já não sagrado. Notou, mas não se importou com a coceira, a fome, as dores, a fraqueza, o desequilíbrio do corpo que agora habitava — sexuado, colorido, mutável, instável, insaciável.
Havia um coração batendo dentro de seu peito. Ele estava, enfim, vivo. Deu por si em um hospital, que deixou com pés ágeis, despercebido.
Era chegada a hora.
A mulher o viu no caminho de casa — o homem balançava na beira da ponte Jacques-Cartier. Suas mãos apertaram os freios de imediato, os pneus da bicicleta rasgando o asfalto com um guincho. Ela encarou aquela silhueta alvo contra a noite — um pé descalço suspenso acima do nada escuro, o outro apoiado de forma precária no parapeito. Um ar estranho de resolução rondava sua figura, como se desejasse o vazio abaixo, em vez de temê-lo.
— Vem sempre aqui? — ela gritou, a voz curta erguida contra o vento cortante, tentando soar leve apesar do peito trêmulo.
O homem se virou. Parecia confuso com a interferência — primeiro irritado, depois neutro, ao vê-la ali parada, tão pequena.
— Espero que seja só desta vez.
Ele permaneceu à beira, uma mão tamborilando no ferro, dedos leves sem se importar com o próprio peso. O cabelo — loiro sujo, sem corte — chicoteava contra o vento com uma graça violenta, lembrando à mulher uma pintura que já vira em um livro de mesa sobre o Renascimento.
Ela certa vez lera que, se alguém estava prestes a tirar a própria vida, distraí-lo por cinco minutos era muitas vezes suficiente para fazê-lo reconsiderar. Quanto tempo já se passara? Ali, tão perto da borda, o tempo se esticava, distorcido pela corrente furiosa do rio São Lourenço lá embaixo.
— Engraçado como o tempo é relativo, não? — ela soltou, arrependendo-se na hora. Sério, mesmo? Papo de elevador sobre o tempo? Se ele não pulasse antes…
O homem sem asas inclinou a cabeça, intrigado o bastante para trazer de volta o pé que pendia. Ela soltou o fôlego que nem percebera estar prendendo.
— O que você sabe sobre o tempo, criança mortal?
Pergunta estranha… e ele acabara de chamá-la de “criança mortal”? O que era aquilo agora, um romance da Anne Rice? Cinco minutos, garota! Pensa rápido!
— Que tal eu te pagar um café e te contar tudo o que sei sobre o tempo?
Tempo. O anjo estava lá quando Ela criou a humanidade, e quando a humanidade criou o tempo.
Estava lá quando o tempo se voltou contra eles, perecendo os seus sonhos. Assistiu suas guerras inúteis contra relógios, calendários, prazos, estações e aniversários… e, ainda assim, jamais o entendeu de verdade.
Com asas, era Atemporal.
Agora que tinha um coração, cada nova batida era uma a menos. Cada pulso inundava aquele corpo frágil com, ao mesmo tempo, alimento e veneno, sustentando-lhe a vida tanto quanto a sua decadência.
O pensamento o enchia de esperança imensa. Não importava se não tivesse conseguido pular naquela noite; mesmo que nunca pulasse, se afogasse, se envenenasse ou destruísse o corpo de outra forma intencional — a Morte ainda viria, infalível.
Os humanos eram cegos à própria fortuna, incapazes de perceber o dom que a Criadora lhes concedera, e negara a todas as Suas Graças: a certeza de um fim. A mortalidade da consciência.
Não, não havia gratidão. Em sua maneira tipicamente humana, tinham ao invés disso feito da Morte sua maior inimiga.
A mulher — a que achava o tempo engraçado — comprou um café para ele e um para si, em um Tim Hortons 24h no fim da ponte. Sentaram-se, ela empurrou um dos copos em sua direção e segurou o outro para aquecer as mãos, observando-o sorver.
Ele retribuiu o olhar, observando-a. A pele dela era escura sob os olhos amendoados, sinal que ele entendeu como falta de sono.
Seus lábios arderam contra o café, a dor disparando pelos nervos. Incômoda, mas previsível. Para os mortais, a dor era onipresente até nas coisas mais simples.
Por que, então, temiam mais a Morte do que a Dor? Não era a Morte o fim de toda dor?
Ele tinha tantas perguntas. Talvez ela, portadora de um coração pulsante há muito mais tempo que ele, pudesse oferecer respostas. Não as guardaria quando o coração parasse, mas ainda assim estava curioso — outro sintoma humano.
Por onde começar?
Escolheu o silêncio, sorvendo outra vez. Quando o calor diminuiu, o café revelou um gosto complexo, quase desagradável. Ele não compreendia sua popularidade.
A mulher quebrou o silêncio.
— Se não se importa eu perguntar… por que você estava prestes a– digo, por que você quer–?
— Morrer?
Ela assentiu, estreitando os olhos, como se a palavra por si só fosse dolorosa.
O anjo buscou uma explicação que, em sua simplicidade mortal, ela pudesse compreender.
— Morrer é um privilégio que me foi negado por tempo demais. Agora que posso, devo experimentá-lo sem demora. Preciso entender como as coisas terminam.
Ela inclinou a cabeça, como se tentasse encontrar a falha em sua lógica.
— Mas você já viveu tudo o que havia para viver?
Ele pensou que sim. Guerras, a ascensão e queda de montanhas e impérios humanos, a morte de florestas e a erosão de montanhas, o buraco aberto no céu por onde a vida lentamente escapava.
E, ainda assim. Como poderia alegar ter vivido de verdade? A morte nunca fora uma possibilidade; logo, a vida tampouco o fora. Como o mero existir poderia se comparar à complexidade de saber que tudo pode simplesmente… acabar?
— Eu sempre me pergunto o que mais existe por aí — ela disse. — Parece tão injusto que só possamos viver uma vez, não acha?
Outro presente da Criadora que eles, os mortais, não compreendiam. Uma vida, sim, mas infinitas possibilidades. Livre-arbítrio para moldá-la como desejassem. Algo que anjos, apesar de toda sua Graça e poder inimaginável, jamais poderiam almejar.
E então, ali, ele entendeu a última lição de sua Criadora.
Suas asas lhe haviam lhe comprado a certeza da morte, sim... mas também da vida. O maior privilégio negado ao seu tipo, concedido sob a condição da dor e do medo. Madrugadas frias e café amargo, noites em claro e corações que ardiam.
— Eu…
Duas asas, em troca de Infinitas Possibilidades.
E, como compreender de fato a morte, sem antes compreender a vida?
A mulher, percebendo a dúvida que plantara em sua face, deixou um sorriso esperançoso se espalhar pelo rosto.
No peito do anjo, o seu coração bateu mais rápido.

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