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O Crime de Ondina

  • Foto do escritor: Ana E.
    Ana E.
  • 2 de set. de 2025
  • 3 min de leitura

Atualizado: 5 de set. de 2025



“Culpada”, Malach sinaliza ao tribunal que aguarda o veredito. Com um gesto de sua mão, eu perco tudo.

“Proibida de tocar cauda e nadadeiras nestas águas para sempre”, ele continua, sem me dirigir um único olhar.

Baixo os olhos para o fundo do oceano, um nó enorme no peito.

Deixar a minha casa. Me passar por um deles, me exilar entre os humanos.

A ironia da sentença não me escapa. Ousei andar entre eles, aprender sua língua, fingir ser uma igual — e agora sou obrigada a assumir essa identidade por completo.

Meu crime e meu castigo são duas faces da mesma concha corroída.

“É melhor assim”, Anatolia me diz, movendo suavemente braços e nadadeiras.

“Vou sentir falta da sua cara de peixe”, sinalizo de volta, tentando transformar esse adeus impossível em uma piada.

Ela sempre foi como uma irmã. Como aceitar que nunca mais vou vê-la? Nunca. A palavra, sua infinitude, não faz sentido para mim. No nosso recôndito de algas e cardumes aprendemos a viver só o hoje — o amanhã tão imprevisível quanto a linha de águas além do recife.

Ela não tenta me convencer a lutar contra a sentença, nem sugere que possamos nos encontrar em terra firme. Anatolia nunca pisou em solo seco e nunca vai pisar, nem por mim. Tem o orgulho das nereidas — e eu deveria ter mantido o meu, se tivesse mais juízo.

Orgulho… e não medo, certo?

Junto os poucos pertences que me deixam levar: uma rara concha arco-íris que encontrei na última viagem com mamãe; um colar de ossos polidos de tartaruga; minha lança de pesca. Só a lança pode ser útil, mas me agarro a tudo que me lembre quem eu sou, com medo de desaparecer quando romper a superfície pela última vez.

Anatolia e eu entrelaçamos as caudas — a dela, dourado-acastanhada; a minha, azul-arroxeada, iridescente, que mamãe dizia lembrar o amanhecer em alto-mar.

Antes do sol nascer, nossos anciãos, Malach e Marina, me acompanham até as águas escuras perto da Praia de Itara, junto às cavernas. É o mais perto da terra que ousam chegar.

Malach parece triste. Talvez se arrependa de ter me acolhido, doze ciclos atrás.

“Se cuide, menina.”

Eu o ignoro.

“Boa sorte, Ondina”, Marina segura minhas mãos — um gesto tão humano que me surpreende. Só então percebo que ela desliza discretamente um pequeno objeto duro na minha palma. Não quer que Malach saiba desse presente de última hora.

Não há despedida para uma sereia banida. Viro as costas para o oceano — meu lar, meu direito de nascimento — e deixo meu corpo seguir com as ondas até a praia, os seus olhares me empurrando para longe como a correnteza.

Quando minhas nadadeiras tocam a areia, sento e enrolo a longa cauda fora d’água. Ela brilha como joia sob os primeiros raios do sol. Conforme a luz aquece minhas escamas, elas se tornam pele. Por dentro, a ponta da minha coluna se divide, dando lugar a duas pernas de pele castanho-clara. Perco nadadeiras e guelras; as escamas desaparecem, levadas pelas águas escuras. Em pouco tempo, sou feita apenas da carne quente e macia da humanidade.

Respiro fundo, os pulmões me perfurando por dentro ao se expandirem. Fico de pé — já acostumada, depois de tantas escapadas.

Sentir-me inocente já não importa. Não olho para trás ao me afastar — não por orgulho, mas por medo de chorar. Desta vez não há água salgada para disfarçar as lágrimas.

Quando estou longe da praia, abro a mão e vejo o que Marina me passou às escondidas. É uma chave enferrujada, com uma inscrição em uma das faces. Apesar da dor de respirar, esboço um sorriso frágil.

Um objeto humano. Se preciso me reinventar, pelo menos já tenho um indício.


✍️ Escrito em agosto de 2024 para o desafio Deadlines for Writers: 750 palavras, tema: julgamento. Imagem de capa: Mermaid, de Akia.


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2 comentários

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Gabi Germano
14 de set. de 2025
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Como sempre, incrível. Tudo que você escreve é perfeito. Fiquei curiosa para vê-la recomeçar a vida longe dos mares.

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Ly Anne B.
Ly Anne B.
07 de jan.
Respondendo a

Nossa, só vi aqui agora, Gabi, obrigada! A minha ideia é que a história de Ondina se torne um livro um dia, então quem sabe!

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