Capítulo 10. O Fantasma de Uma Árvore Queimada
- Ly Anne B.

- 11 de mar. de 2017
- 28 min de leitura
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— E ai, Harry, beleza?
Tonks encontrou Harry na estação de Hogsmeade quando ele desceu do trem, perfeitamente seguro e intacto na companhia de Rony e Hermione. Eles tinham se perdido dos outros na confusão do desembarque, que estava se tornando difícil porque caía uma chuva torrencial sobre o pequeno vilarejo. Harry viu que Tonks não era a única auror esperando os alunos na estação; seus uniformes de botões e gola alta se destacavam dos uniformes escuros de Hogwarts com facilidade. Os aurores os dividiam em pequenos grupos e os apressavam para as carruagens puxadas por testrálios mais à frente; Harry viu Hagrid de relance, mas não teve chance de falar com ele no meio de toda a agitação.
Tonks entrou na carruagem com eles; o cabelo dela, em dois tons de azul, estava encharcado, mas ficou seco com um aceno de sua varinha. Ela fechou a porta e a carruagem começou a se mover.
— Fiquei encarregada de você, Harry. Uma coisa e tanto escoltar O Escolhido, não é mesmo? — lhe deu uma piscadela — Rony, Hermione, vocês tiveram boas férias? Ah, desculpe, Rony, que pergunta mais besta a minha. Eu ouvi sobre a sua irmã. Sinto muito.
— O que é que aconteceu com Gina? — Hermione virou para ele, preocupada. Não tinham chegado ao assunto na cabine, porque os dois precisaram ir fazer a ronda dos corredores pouco depois de Harry terminar a sua história sobre o retorno de Sirius.
— Ela foi atacada na reserva de dragões — ele disse com as mandíbulas travadas, olhando através da janela.
— Por um comensal?
— Por um dragão, Hermione — disse, meio mal-humorado. Sinceramente não sabia qual das duas opções era pior. Hermione tapou a boca com a mão.
— Ela está bem?
— Não realmente. Eles não conseguem curar a mordida, então ela não pode voltar para a escola.
— Ela vai ficar bem, Rony. Os curandeiros do St. Mungus são bons de verdade, eles vão arranjar um jeito — Tonks tentou consolá-lo, mas o silêncio pesado tomou conta da carruagem depois disso.
Passou pela cabeça de Harry, muito furtivamente, o seu beijo com Gina. Isso vinha acontecendo de tempos em tempos, como se o seu cérebro precisasse ficar repassando a coisa para que ele acreditasse que tinha mesmo acontecido. Fora só no dia anterior, mas parecia um pedaço absurdo de sonho. Supunha que tinha que contar ao Rony, em algum momento? Não sabia como o amigo ia reagir. Será que ia odiá-lo? Harry decidiu que contaria quando soubesse o que ia acontecer entre os dois: coisa que não tivera a chance de descobrir ainda. Talvez devesse escrever para ela, mas o que ia dizer? “Nós nos beijamos, e agora o acontece?” Parecia bem ridículo.
Tonks os deixou nos portões principais quinze minutos mais tarde, ainda debaixo de chuva pesada.
— Mandem meu beijo à Anne quando a encontrarem. Ah, e boa sorte esse ano.
— Por que vamos precisar de sorte? — Rony desconfiou. A metamorfomaga deu de ombros com o mistério e um sorrisinho, depois os enxotou para dentro dos terrenos da escola.
— Mande minhas lembranças a Remus quando o encontrar — Harry disse quando passou por ela. A auror sorriu marota.
— Eu vou me certificar de que ele as receba — ela garantiu com uma última piscadela.
Harry entrou relativamente feliz no Salão Principal; era loucura se sentir otimista, ele sabia, com todas as coisas horríveis que vinham acontecendo. Por outro lado, os seus amigos estavam bem – Hermione estava a salvo, embora ainda não tivesse conseguido explicar o seu sumiço— Sirius estava vivo e desde o massacre no Ministério, nada terrível acontecera com ninguém que conhecia… além de Gina, mas ela ficaria bem, decidiu, porque ela era Gina, sempre estivera lá e ia continuar estando, ponto final (e eles tinham se beijado, precisava se lembrar disso, realmente tinham se beijado).
Os três tomaram seus lugares habituais na mesa da Grifinória no Salão Principal, que como sempre estava decorado com velas flutuantes. Ele ignorou as pessoas que o encaravam quando passava e se negou a escutar o que sussurravam ao seu respeito. Um olhar de relance para a mesa da Corvinal lhe informou que Johanne tinha encontrado um lugar ao lado de Luna —as duas conversavam de cabeças juntas, Luna abençoadamente destituída dos Espectrocs.
— Quem é aquela? — Rony cortou seu raciocínio, apontando para um lugar na mesa.
— Nova professora de Defesa? — Hermione sugeriu, observando intrigada.
A bruxa tinha um rosto comprido, ar altivo e ligeiramente arrogante, qualquer coisa de familiar em torno do nariz e dos olhos — que eram de um tom claro de castanho amarelado, como o das corujas das torres que costumavam existir naquela região da Escócia. O seu cabelo longo, castanho-avermelhado com fios grisalhos, vinha adornado numa trança intrincada por cima do ombro. Em contraste, sua túnica bruxa era simples — lisa, azul escura, mangas longas e abertas nos punhos. O único detalhe especial de sua roupa era uma faixa larga e bordada abaixo do busto. Harry tentou, mas não conseguiu adivinhar a idade da bruxa. Podia ser tão velha quanto a professora McGonagall, mas não haviam rugas profundas que lhe denunciasse. Por outro lado, o olhar astucioso em seu rosto denunciava ao mesmo tempo uma vida longa e repleta de experiência e uma energia jovial pulsante. Harry demorou a reparar que atrás dela haviam duas pessoas de pé, imóveis. Eram mulheres a julgar pela sua silhueta, mas os rostos estavam cobertos por véus. Elas claramente estavam paradas de forma a se confundir com o fundo e passarem despercebidas, até suas vestes eram castanho-amareladas como a parede do castelo atrás delas.
— Isso é esquisito — Rony murmurou, olhando na mesma direção que ele — Ela parece um pouco assustadora, não é?
Mas eles tiveram que parar de falar, porque a professora McGonagall entrou no salão segurando o banquinho e o Chapéu Seletor. Atrás dela vinha uma fila sofrida e molhada de primeiranistas. Como sempre, eles pareciam pequenos como anões de jardim e assustados como fadinhas num pote.
O chapéu cantou sua música; alguma coisa sobre sobre união e inimigos, mas Harry logo se viu distraído passando os olhos pelas mesas. Primeiro ele fez isso com a Grifinória inteira, e depois pela mesa da Sonserina. Hermione o pegou se esticando e se torcendo para enxergar direito os pontos mais afastados.
— O que é que você está fazendo? — ela sibilou.
— Vendo quem está faltando — Harry respondeu em voz baixa. A amiga lhe lançou um olhar de grave compreensão.
— Eu não vi Dino Thomas ainda — ela murmurou, passando o olho de novo pela Grifinória, para se certificar.
— Talvez os pais não tenham deixado ele voltar — Rony murmurou, entrando na conversa. — Ouvi que muitos pais estavam resistentes em deixar os filhos voltarem, depois do que aconteceu no Ministério.
— Não acho que seja o caso — disse Hermione com uma estranha certeza — Além do mais, vi Cho procurando por ele mais cedo.
— Cho? — Harry virou-se, intrigado. Ele por acaso acabara de avistar a garota, que ao perceber que ele a olhava desviou o olhar rápido. Harry fez o mesmo.
— Parece que eles começaram a namorar sério no verão — Hermione explicou.
— Vai ver ele não aguentou a choradeira dela e preferiu nem voltar para a escola — Rony comentou com ressentimento. Ele nunca tinha perdoado Cho por ter ficado do lado de Marietta Edgecombe no ano passado, quando a garota delatara a Armada de Dumbledore para Umbridge; Harry achava que também não tinha, mas descobriu que não se importava mais tanto assim. Ele tinha beijado Gina agora… porque ia ficar aborrecido com Cho? Aquilo era tão ano passado.
Os alunos foram selecionados um por um pelo chapéu, deixando Harry progressivamente impaciente. Ele estava ansioso para ouvir o discurso de Dumbledore; será que ele mencionaria Voldemort? Tinha tentando encontrar os olhos do diretor lá da mesa dos professores, mas quando Dumbledore o olhou, a mulher ao seu lado se inclinou e cochichou alguma coisa para ele. O diretor se voltou para respondê-la e não olhou mais na direção de Harry pelo resto da seleção. Hagrid, por sua vez, acenou para ele, derramando uma taça de vinho no prato de Flitwick no processo.
Harry deu risada, seu olhar vagando… até cruzar com o de Snape, o que fez seu sorriso morrer imediatamente, virando um esgar de raiva. Não deixe ele chegar até você esse ano, ordenou a si mesmo. A boa notícia é que não ia precisar ter aulas com Snape; não tirara nota suficiente nos seus NOMs para fazer parte da turma dele, já que o professor exigia Ótimos de seus alunos do sexto ano. A parte ruim era que a sua carreira de auror estava arruinada, mas Harry estava tentando não pensar nisso muito seriamente, para não estragar seu recém-descoberto otimismo.
— SONSERINA! — O chapéu anunciou o destino do último aluno da fila, para o alívio de todo mundo no salão. A mesa da Sonserina terminou de bater palmas – Harry viu Malfoy de relance nessa hora e rolou os olhos, irritando-se com sua mera existência – ao mesmo tempo em que Dumbledore se levantava para o seu habitual discurso de boas vindas.
— Uma grande noite para todos! — Começou ele, abrindo os braços como se quisesse abarcar o salão. No entanto, McGonagall, que estava indo guardar o chapéu e o banquinho na sala dos fundos, parou no meio do caminho. Ela se inclinou para ouvir alguma coisa do chapéu, suas sobrancelhas se ergueram ligeiramente. A professora andou até o diretor e falou alguma coisa em seu ouvido. Dumbledore assentiu, seu olhar perscrutando a mesa da Corvinal com interesse — Perdoem a interrupção, mas parece que o chapéu tem mais um aluno a selecionar.
Os estudantes se olharam sem entender, procurando qual aluno do primeiro ano que escapara do chapéu. Será que finalmente algum deles tinha se aterrorizado o suficiente a ponto de se esconder debaixo de uma das grandes mesas das casas?
— Não é um aluno novo, mas um que retorna à nossa escola após alguns anos de ausência — os olhos dele pousaram vivazes no seu alvo na mesa da Corvinal — Johanne Black, você faria a bondade de vir até aqui e experimentar o Chapéu Seletor?
Anne, que estivera distraída limpando seus óculos escuros na manga das vestes, sentiu uma massiva pedra de gelo se instalar no estômago. O salão inteiro se virara na sua direção.
— Está tudo bem, querida, é só uma formalidade — McGonagall procurou tranquilizá-la, vendo que Anne estava paralisada no assento, sua boca entreaberta de choque.
Ela enfim conseguiu se levantar, dispensando a ajuda de Luna e caminhando até a frente do salão, ignorando as centenas de olhos pregados nela. Ao menos podia ver o caminho; a mesa da Grifinória era bem ao lado da mesa da Corvinal e Harry estava há poucos metros, mas a medida que se aproximava da frente do Salão a visão foi escurecendo. Ela só via sombras quando alcançou McGonagall e sentou no banquinho.
— Não se preocupe — a bruxa a consolou, colocando o chapéu em sua cabeça — O Chapéu Seletor gosta de ser minucioso, mas ele raramente muda de ideia.
Sua visão escureceu por completo, dessa vez porque o chapéu cobriu seus olhos. Anne só ouvia o coração pulsando alto em suas orelhas… estava com um péssimo, terrível pressentimento sobre aquilo… na verdade, precisava admitir que tudo estava indo bem demais até o momento, devia ter desconfiado.
Johanne Black, não é? Não foi só o seu sobrenome que você optou por mudar nesses últimos anos, eu vejo. Você está pronta agora, ou você precisa estar… porque a canção está tocando, então é hora de dançar, minha garota, de seguir a melodia e dançar… você precisa estar onde a canção está tocando, não é isso? Muito bem, nesse caso…
— GRIFINÓRIA!
Bervely aparatou no Caldeirão Furado às nove em ponto usando um disfarce. Ela era uma bruxa de sessenta anos com uma única mecha branca em seu cabelo vermelho escuro, usando uma capa de viagem de barra desfiada que já vira dias melhores muitas décadas atrás.
Correu o olho direito (o esquerdo era cego, tomado pela catarata) pelas pessoas sentadas no bar-estalagem, até identificar quem estava procurando; um bruxo encurvado numa mesa do canto, segurando uma caneca enorme de quentão. Ele também tinha uma mecha branca em seu cabelo, que de resto era castanho escuro e ratinhento. Parecia que o tempo o tinha ressecado; as mãos eram como cascas de árvore, o rosto tinha bochechas chupadas e com profundas marcas de rugas.
— Obrigada por vir — ela disse ao se aproximar da mesa, sua voz saindo arranhada e idosa. O velho ergueu os olhos cansados para ela e assentiu devagar.
— Sua mensagem foi bem contundente.
— Não posso falar sobre isso aqui — o advertiu, num tom carregado de obviedade. O velho assentiu erguendo a mão, mostrando uma chave pendurada no dedo torto e rígido que parecia um galho.
— Aluguei um quarto pra a gente.
— Eu vejo que alguém está se sentindo sortudo hoje.
Ele se ergueu com pretensa dificuldade, um sorriso torcendo a boca chupada. Bervely abriu espaço para que ele passasse, em seguida acompanhou os passos arrastados dele até a escada que levava para o segundo andar da estalagem, onde os quartos ficavam. Quase ninguém olhou para eles; um par de idosos se esgueirando para o andar de cima não era interessante. Ele demorou uma eternidade para subir, mas ela não disse nada.
Quando finalmente fechou a porta do quarto atrás deles, Bervely deixou escapar um suspiro misto de frustração e admiração.
— Eu sempre me espanto com os seus disfarces, considerando que você não é metamorfomago nem nada.
— Algumas pessoas precisam usar o caminho difícil, não é mesmo? — ele disse, já com a sua voz normal, jovem e grave. Ao mesmo tempo em que Bervely deixava cair seu disfarce com pungente alívio, o via se despir do dele, retirando magicamente as várias e intrincadas camadas de feitiços glamour. Logo quem estava à sua frente não era mais o velho carcomido que encontrara no andar de baixo, mas um rapaz jovem e forte, com olhos claros rasgados e um ar de competência militar da qual ele jamais pudera se livrar. Theodor Shadowtamer sorriu amplamente contemplando a aparência original de Bervely, os olhos apertados virando dois riscos cor de grafite. — Então você finalmente resolveu sinalizar que está viva?
— Você sabia que eu estava viva — retrucou, tirando aquela capa horrível do disfarce e revelando vestes bruxas perfeitamente alinhadas por debaixo. Era um dos seus melhores pares, que jamais combinariam com aquela velha bruxa desmazelada que estivera fingindo ser, especialmente não do jeito que marcava sua cintura e ressaltava a área do busto — Eu acho que você até mesmo sabia onde eu estava. Sei que Snape andou se comunicando com o Instituto pelas minhas costas.
— Bem, sim — admitiu Theodor, uma sombra de pesar alcançando seu rosto. — Eu sinto muito pelo seu pai, aliás. Snape mencionou o fato.
— Ah, isso. Já foi resolvido.
— Resolvido…? — Theodor soou perdido, para não dizer desconfiado.
— Não estou autorizada a fazer declarações sobre o assunto com as autoridades — ela disse econômica, mas não resistiu a completar com um sorriso atravessado — Mas ele está bem.
— Black está vivo? — Theodor exclamou, surpreso. Ela fez um aceno com a mão, sem querer se prolongar no assunto. Não estava completamente certa de que Theodor acreditava que Sirius era inocente e ele ainda era um auror apesar de tudo.
— Não foi por isso que eu te chamei aqui — se adiantou, começando a andar pelo quarto, acenando a varinha para selar janelas e portas com feitiços de imperturbabilidade, encantamento de detecção de intrusos e feitiços anti-escuta-remota.
— Espero que você tenha me chamado aqui para dizer que está voltando ao Instituto. Hey, eu já fiz tudo isso antes de você chegar, o quarto é seguro.
— Só garantindo — teimou, terminando sua verificação do jeito que fora ensinada por Sirius. — E não, não é sobre voltar.
— Você disse que era algo do meu interesse! — protestou o rapaz, se sentindo enganado. Bervely achou graça.
— Meu retorno é a única coisa que te deixaria interessado? — zombou, se virando para ele com humor — Eu faço toda essa falta ou isso é você querendo alguém para escravizar com seus debridamentos intermináveis?
— Nossos debridamentos intermináveis. Do nosso projeto. Que você quis começar, se bem me lembro.
Ela se sentiu tentada a perguntar como o projeto andava, mas sabia que uma vez que entrassem no tema alquimia a conversa poderia tomar horas; eles não tinham todo esse tempo. Resistiu à tentação, indo ao que interessava.
— Com que regularidade o prisioneiro 912 tem sido checado?
Theo ficou sério, como ele costumava ficar quando o assunto era esse.
— Recebo relatórios semanais, a situação continua a mesma. Ele está contido e sem contatos externos. Completamente isolado do mundo exterior.
— E você tem certeza de que ele não tem dado nenhum passeio fora do corpo?
— Sim. Bervely, é impossível escapar de Azkaban por qualquer meio — acrescentou uma ênfase ao ver o olhar de incredulidade teimosa dela crescer.
— Nós sabemos que não é impossível — insinuou, provocando uma careta no rosto dele. Houvera uma única fuga na época que Theodor era parte da segurança de Azkaban, a de Sirius Black, a qual fora uma mácula irretratável na carreira dele. Theodor tinha perdido a confiança do seu pai, que era o diretor da prisão, e perdera também sua posição como chefe de segurança. Por fim ele acabara abandonando o posto de Quarter na fortaleza e retornado à sua antiga vocação na Alquimia, o que Bervely particularmente achava que era muito melhor. Até onde ela sabia, tinha lhe feito um favor.
— A segurança está melhor agora — ele retrucou com seriedade.
— Eu ouvi dizer que os dementadores estão debandando — comentou ela, sabendo que isso o alfinetaria. Como esperado, os olhos de Theodor faiscaram com aborrecimento.
— Os dementadores de Azkaban estão perfeitamente sob controle, como sempre estiveram. O problema é quando as pessoas começam a tirá-los da ilha e colocá-los dentro de escolas!
Ela assentiu; não queria irritá-lo, precisava de Theodor do seu lado. Ele capturou sua inquietude pelo modo como ela não conseguia parar de se movimentar pelo quarto.
— O que foi que houve, Bervely? Apareceu algum olho de Hórus no meio das suas coisas?
— Não, cruzes. Pelo sangue de Salazar, não — a mera ideia a horrorizou muito mais do que gostaria de admitir. — É só… é outra coisa. Há uma pessoa que pode estar agindo sob ordens dele, pelo menos essa é a única explicação na qual consigo pensar. Já aconteceu antes — ela esperou ter a completa atenção de Theo para continuar — Eu acho que Charlotte Summers está recebendo instruções do Olho de Hórus novamente.
A menção do nome teve nele o efeito que Bervely esperava; os olhos de Theo se estreitaram, as narinas inflaram e os punhos se apertaram. Provavelmente Charlotte Summers era a pessoa que Theodor mais odiava no mundo; Bervely nunca desfizera aquele pequeno mal entendido, revelando o fato de que fora ela disfarçada de Charlotte, e não a própria, a contribuir na fuga de Black. Essa se provara a decisão acertada, de outra forma Theodor não estaria disposto a ajudá-la agora.
— Você me disse que ela estava morta.
— Eu disse que achava que ela tinha morrido queimada no incêndio que destruiu a casa de Romansek, mas parece que não foi o caso. Alguém tentou sequestrar Harry Potter no verão, uma garota usando o nome de Wendy. É o nome de uma personagem do livro, ela já fez isso antes, quando estava se disfarçando como a elfa do falso Gavril Romansek, e a aparência que Potter descreveu também bate.
— Que interesse Summers teria em Harry Potter?
— Exatamente, nenhum! Mas eu posso pensar em alguns interesses que o Olho de Hórus teria em Potter. Potter é moeda valiosa no momento, não é, com todo mundo espalhando essa bobagem de ele ser O Escolhido. Talvez o Olho de Hórus queira negociar a própria liberdade em troca de Potter, talvez ele queira entregar Potter ao Lord das Trevas em troca de algum favor, ou como pagamento ou como chantagem… eu não sei! Mas eu tenho certeza que ele está por trás disso, Summers não tentaria algo assim sem receber instruções de alguém!
— Bervely, calma aí. Mesmo se for Summers… o que garante que ela não está trabalhando para Você-Sabe-Quem agora? É ele quem sempre esteve atrás de Potter, não Thor Carmichael!
Bervely sacudiu a cabeça, frustrada.
— Não, Theodor, não! O Lorde nunca aceitaria Charlotte, você não entende, ela é aborto!
— A garota que se infiltrou em Hogwarts e libertou Sirius Black bem debaixo do meu nariz é qualquer coisa menos um aborto — ele disse entre os dentes travados.
Ela suspirou em vão, já que não tinha como justificar essa parte. A verdadeira Charlotte jamais teria sido capaz de uma incursão em Azkaban, ele estava certo. A verdadeira Charlotte jamais pisara seus pés em Azkaban até onde sabia, e certamente não tivera qualquer interesse na libertação de Sirius Black.
— Bervely — Theodor chamou num tom mais razoável, procurando os olhos dela como forma de assegurá-la — Confie em mim, Carmichael está sob vigilância estrita em Azkaban, ele não move um dedo sem ser supervisionado. Ele tem um dementador particular na frente da cela e dia e noite, eu me certifiquei disso. Ele nunca vai alcançar você, dentro ou fora do Instituto.
— Não é com a minha segurança que eu estou preocupada — mentiu, ao menos em parte. Porque é claro que havia uma parte dela que ficava gelada só de pensar que o Olho de Hórus estava de volta à ativa, especialmente porque fora ela quem o tirara de circulação e ele certamente guardava um monte de rancor à esse respeito.
— Potter também deve estar seguro, eu tenho certeza que o Esquadrão de Aurores do Ministério tem um esquema para protegê-lo e eu não duvido que Alvo Dumbledore também tenha um. Eu não me preocuparia se fosse você… mas é claro que eu vou investigar — completou, captando o olhar incisivo dela — Se você acha que há uma chance de Charlotte Summers estar viva, eu vou caçá-la até o fim do mundo. Temos umas contas a acertar, afinal.
Bervely assentiu, grata até certo ponto. Estavam chegando aonde ela queria.
— Me avisa se descobrir alguma coisa?
— Claro.
— No minuto que tiver alguma pista, qualquer que seja?
— Ok. Eu aviso — prometeu no tom tranquilizador que tinha o hábito de usar quando via um olhar inquieto de qualquer tipo passar o rosto dela. Normalmente era quando se encontravam em um beco sem saída de alguma poção que estavam inventando juntos.
Ela se permitiu relaxar na poltrona desgastada do quarto da estalagem. Só se dera conta agora de que ele pegara o quarto mais caro; não era nem de longe luxuoso, não existia esse tipo de coisa no Caldeirão Furado, mas era certamente mais limpo e apresentável do que os outros. Bervely achou gentileza da parte dele. Quando levantou o rosto, Theodor lhe olhava em expectativa.
— Será que podemos ir para a parte divertida agora?
Ela assentiu, igualmente interessada. Só um pouquinho, disse a si mesma. Só porque estava morrendo de saudade, tanto que seu peito ardia.
— Finalmente! — Theo exclamou, vindo sentar perto dela na beira da cama —Então, onde foi que paramos quando você foi embora?
Não é como se tivesse qualquer possibilidade de esquecer.
— Fase quatro da cristalização da crismalina. Estávamos prestes a conseguir cristais perfeitos para a próxima fase, a condensação hermética do pirito…
— Sim! — Os olhos dele brilharam com a lembrança — E que cristais nós conseguimos, você precisava ver!
— Você guardou algum? — ela quis saber, esperançosa. Theodor fez um pouco de suspense antes de responder, o sorriso de empolgação lhe traindo.
— Estão esperando por você no Instituto. Eu preservei todas as etapas. Não vou seguir o projeto sem você.
— Theodor…
O jovem auror-alquimista enfiou a mão no bolso da calça e tirou um frasquinho com tampa, balançando na frente dela. Cristais azuis-violeta cintilaram na luz do candeeiro, mas quando Bervely estendeu a mão, querendo olhá-los mais de perto, ele voltou a guardá-los no bolso de novo.
— Como eu disse, estão esperando por você no Instituto.
Anne ficou parada no banquinho sem saber o que fazer. Os grifinórios não batiam palmas; a situação era sem precedentes e eles não sabiam bem como agir. Nunca antes uma aluna retornara à Hogwarts e fora selecionada para uma casa diferente da que entrara na primeira vez. O Chapéu Seletor cometera um erro?
Ninguém falou nada para corrigir o Chapéu. McGonagall o puxou da cabeça de Anne, ela mesmo parecendo bem surpresa. A vice-diretora pigarreou.
— Você pode ir para a mesa da sua… nova casa agora, querida.
Anne levantou sentindo as pernas pesadas. Na sua visão as luzes das velas dançavam bem embaçadas, mas à medida que foi se aproximando da mesa da Grifinória foi ficando mais e mais focada até que conseguia ver o rosto surpreso e confuso de cada colega. Não arriscou olhar na direção da Corvinal – de Luna.
Não gostou do olhar que viu no rosto de Harry Potter, tampouco. As sobrancelhas dele eram as mais franzidas, desconfiança impressa nos olhos verde-esmeralda. Foi Rony Weasley o primeiro a se levantar, indicando um lugar vago entre ele e Neville.
— Seja bem vinda à Grifinória — o ruivo sorriu, numa tão incrível quanto inesperada demonstração de sensibilidade. Anne, em seu presente estado de nervos, ficou emocionada com o gesto. Ela aceitou a oferta com rapidez, querendo sumir do centro das atenções.
— Você é uma Black como em Sirius Black? — Um menino na frente dela perguntou, suspeitoso. Outros grifinórios se viraram para ouvir a resposta.
— Sim — ela disse rigidamente, achando por bem tirar aquilo logo do caminho — Black é meu pai.
— Você quis dizer era, não é? — o colega insistiu — Black não morreu no fim do ano passado? Saiu no jornal e tudo.
— Já chega, Simas — Neville rosnou, surpreendendo a todos — Você está sendo grosseiro.
— Hey, não se pode mais perguntar as coisas nessa mesa? — Simas retrucou com uma careta, recebendo um olhar feio de Rony também. Anne não pegou nada disso, estava encarando seu prato e tentando entender o que tinha acabado de acontecer. O que diabos tinha acabado de acontecer.
Felizmente as muitas e muitas travessas começaram a se encher com comida para todos os gostos naquele momento, distraindo a atenção dos seus colegas famintos. Ela se sentiu desencorajada a experimentar a torta de carne à sua frente; achava que o nó apertado em seu estômago não ia aceitar a entrada de comida com receptividade.
Pareceu uma eternidade até que todo mundo tivesse comido e repetido. A sobremesa foi servida no lugar da janta. Anne arriscou um pedaço de torta de morango, ouvindo a conversa dos seus novos colegas de casa sem tentar participar. Ela foi uma das primeiras a reparar quando Dumbledore se levantou, se aproximando do púlpito para o discurso final daquela noite.
— Agora… boas vindas aos alunos novos; bom retorno aos alunos antigos! — Dumbledore disse lá da frente, cortando o burburinho dos alunos — Mais um ano de muita educação mágica aguarda a todos! O Sr. Filch, nosso zelador, pediu para avisar que estão banidos todos os artigos de logros e brincadeiras comprados na loja chamada Gemialidades Weasley.
“Os que quiserem jogar nas equipes de quadribol das casas devem se inscrever com os diretores das Casas, como sempre. Estamos também procurando novos locutores de quadribol, que são convidados a fazer a mesma coisa.”
“Esse ano tenho o prazer de anunciar que o Professor Snape está assumindo uma segunda disciplina do nosso currículo, Defesa Contra as Artes das Trevas…”
— Snape o quê? — Os murmúrios de indignação se repetiram mesa acima e abaixo. Um sonoro “NÃO!” escapou da boca de Harry a dois lugares de distância. A Grifinória não era a única demonstrando sua indignação, a Corvinal e Lufa-Lufa estavam se manifestando também, alguns palavrões escaparam. Anne achou que ouviu alguém na mesa da Sonserina puxar palmas. O estômago dela despencou mais um pouco, se é que isso era possível. Ela ia ter não uma mas duas matérias com Snape naquele ano, será que tinha como piorar?
Snape, que estava sentado à direita de Dumbledore, não se ergueu ao ouvir seu nome, apenas levantou a mão displicentemente para agradecer os aplausos da mesa da Sonserina.
— Não devem ter arranjado ninguém para o cargo esse ano — Hermione concluiu, infeliz.
— Mas então quem é ela? — Rony indicava de novo a mulher à esquerda de Dumbledore.
— Não importa, não é, isso só quer dizer que Snape vai embora até o fim do ano — disse Harry com selvageria.
— Como assim? — perguntou Neville.
— O cargo é azarado. Ninguém aguentou mais de um ano… Quirrel até morreu. Pessoalmente vou torcer…
Dumbledore pigarreou, tentando acalmar o salão que explodira em murmúrios à notícia da grande realização de Snape. O diretor, parecendo indiferente à natureza sensacional da notícia que acabara de dar, nada falou sobre a sua designação e esperou até obter absoluto silêncio antes de prosseguir.
— Nem todos os presentes nesse salão sabem que Lord Voldemort e seus seguidores estão mais uma vez em liberdade e cada vez mais fortes.
O silêncio se expandiu e retraiu à menção daquela frase. Harry olhou de má vontade para Snape, que parecia estufado e realizado. O diretor continuou o discurso:
— Não posso enfatizar suficientemente o perigo da situação, e o cuidado que cada um de nós, em Hogwarts, precisa tomar para garantir que continuaremos seguros. As fortificações mágicas do castelo foram reforçadas durante o verão, estamos protegidos de maneiras novas e mais poderosas, mas ainda assim precisamos nos defender escrupulosamente dos descuidos de estudantes e funcionários. Peço, portanto, que respeitem as restrições de segurança que os professores possam impor a vocês, por mais incômodas que lhes pareçam, particularmente a norma de não sair da cama depois do toque de recolher. Imploro que, ao notarem alguma coisa estranha ou suspeita dentro ou fora do castelo, comuniquem imediatamente a um funcionário. Confio que agirão sempre com o maior respeito pela segurança dos outros e da sua própria.¹
Os olhos azuis de Dumbledore percorreram os rostos dos estudantes e, por fim, ele voltou a sorrir.
— Mas no momento suas camas estão à sua espera, quentes e confortáveis como poderiam desejar, e sei que a sua maior prioridade é descansar para as aulas amanhã. Vamos, portanto, dizer boa noite. Pip pip!
Com o atrito ensurdecedor habitual, os bancos foram afastados e centenas de estudantes começaram a sair do Salão Principal em direção aos dormitórios. Harry adiantou o passo para alcançar Hermione, que como monitora tinha a responsabilidade garantir que os primeiranistas achassem o caminho até a Torre. Ele esperou que ela os juntasse em um pequeno bando (eles olhavam curiosos em sua direção, mas Harry não fez caso da curiosidade indiscreta) e a seguiu de perto em direção à Torre.
— O que é que está acontecendo ali? — Hermione fez um aceno com a cabeça para um ponto mais à frente. Havia um grupo de alunos mais velhos da Grifinória abrindo caminho, Rony entre eles; o ruivo se adiantara para mostrar o caminho da torre à Johanne, então eles seguiam juntos. Rony falou alguma coisa e a garota riu. Harry sentiu seu mau humor aumentar.
— Nem me pergunte — ele resmungou.
— Eu nunca ouvi dizer que o Chapéu Seletor podia mudar de ideia, você não acha isso estranho?
— Muito — concordou, as sobrancelhas franzidas.
— E essa coisa de ela ser filha de Sirius… como é que ninguém soube disso antes?
Harry deu de ombros, de cara fechada.
— Sopa da coroação — foi Rony quem disse ao alcançarem a entrada da Torre. Harry viu Hermione rolar os olhos.
— Ele nem saberia a senha se não fosse por mim, nunca lê os memorandos de monitoria — Harry a ouviu resmungar baixinho.
Harry se sentou ali pelo Salão Comunal, sem querer subir ainda. Hermione precisou se afastar para cuidar da acomodação dos primeiranistas, então ele ficou sozinho e pensativo, observando o fogo da lareira estalar.
— Você vai descobrir que o pessoal da Grifinória é muito legal, eles só precisam se acostumar primeiro. Acho que todo mundo anda meio desconfiado, sabe, não é nada com você.
Isso era a voz de Rony, soando em algum ponto atrás do ponto em que Harry estava.
— Obrigada, Rony. Eu realmente agradeço — ele ouviu Johanne responder.
— Sem problemas. Sabe o caminho para o dormitório feminino?
— Eu me viro.
— Tudo bem, eu vou subir então. Harry, você vem? — Rony projetou a voz para alcançar o amigo.
— Em um minuto.
— Tá bem, eu vou, estou morto. Boa noite então.
Harry ouviu os passos de Rony sumirem escada acima, se misturando com os dos outros colegas que procuravam se acomodar, fosse em seus quartos ou ali pelo salão, ainda sem querer se recolher. Alguns estavam lhe encarando, um ou outro cochichando, mas ninguém se aproximou para lhe perguntar nada e ele ficou grato; Hermione comentara mais cedo que alguns deles tinham chegado até ela e Rony, querendo saber o que tinha acontecido no Ministério e se Harry era mesmo o Escolhido. Harry não podia estar menos interessado naquele tipo de conversa.
Um gato saltou em seu colo, aparentemente vindo do nada, fazendo Harry soltar uma exclamação de susto. Não era Bichento vindo lhe dizer alô; era o gato prateado esquisito que costumava ficar na cabana de Remus. Aquela combinação de pelo iridescente e olhos amarelos era única.
— Jinx, aí está você! — Anne exclamou, vindo recuperar o animal de cima dele — Mas como é que você sabia… deixa pra lá. Você sempre sabe de tudo, né? Desculpe, Harry. Eu não sei porque ele gosta de você, no geral ele não é muito sociável com estranhos.
Harry acompanhou-a com o olhar, silencioso. Anne percebeu a ausência de resposta e olhou para ele. Como já esperava, achou inquietação nos olhos verdes.
— Você está aborrecido — ela apontou. Ajeitou o gato nos braços, trocando o peso do corpo de um pé para o outro. Usava os óculos escuros, impedindo Harry de saber que tipo de expressão estava em seus olhos.
— Você acha? — retrucou o garoto com má-vontade.
— Eu não queria me intrometer entre você e os seus amigos, no trem, sabe — Anne disse rápido — Desculpe.
— Eu não… não é nada disso — Harry dispensou, ainda mais aborrecido de que ela pensasse que era isso que o incomodava — Eu convidei você para dentro da cabine, lembra? Eu fui sincero com você o tempo todo.
A nota de acusação não passou despercebida para ela.
— O que isso quer dizer? Você acha que eu não estou sendo sincera sobre algo?
— Isso — ele disse sem rodeios. — Não acho que você está me contando a história inteira.
Anne olhou ao redor deles. Harry se deu conta de que um monte de colegas testemunhava a conversa com certo interesse. Depois de anos espectando Harry, polêmica atrás de polêmica, eles já não viam a necessidade de disfarçar.
Anne se afastou de onde ele estava, andando até a janela alta da torre. Era o ponto mais isolado do salão, onde ninguém estava sentado no momento, o que lhe garantia uma relativa privacidade, pelo menos acústica. Harry percebeu a intenção do movimento a seguiu, parando ao seu lado e de costas para o resto do salão. Através da janela, o céu tempestuoso relampejava. A janela dava para o campo de quadribol; quando o céu clareava em lampejos ele podia ver a silhueta das traves contra o veludo negro da noite.
— Primeiro você misteriosamente sabe como encontrar Sirius e como chegar até o véu. Você consegue invadir minha mente como se fosse um panfleto. Você misteriosamente recuperou sua visão, mas só quando eu estou por perto. Você me disse que não frequentava mais Hogwarts, mas de repente está de volta, e agora, misteriosamente, você dá um jeito de mudar de casa, para a minha casa — enumerou, sua exasperação crescendo fato após fato despejado.
— E o quê, você acha que estou fazendo essas coisas de propósito?
— Eu não sei, você está? — Harry pressionou mantendo a voz baixa, mas sua irritação bem evidente.
— Como raios eu iria fazer o Chapéu Seletor me trocar de casa?
— Você só precisava pedir! — chispou o garoto.
— Pedir? Por que eu faria uma coisa dessas? Eu gosto da minha casa! Gostava, droga. Não acredito que isso está acontecendo!
— Como você explica, então? Por que é que para todo lugar que eu vou agora, você de repente aparece?
— Eu não sei! — ela exclamou com indignação — Eu não estou perseguindo você, se é o que está insinuando!
— Eu só acho que você sabe muito mais do que está me contando! Sobre o punhal, sobre a profecia e sobre essas coisas estranhas que acontecem quando você está por perto! O véu, e essa sua cura misteriosa e seletiva que só acontece quando eu estou no mesmo cômodo…
— Profecia? — Anne perguntou, pescando a palavra no meio da explosão passivo-agressiva dele.
— Johanne, eu não tenho mais paciência para esse jogo de detetive, o que é que você quer aqui?
— O que eu quero? Eu não gosto do seu tom! — Anne protestou, alto o bastante para atrair a atenção dos grifinórios de novo, se é que eles em algum momento tinham esquecido de reparar em mais um Show do Harry Potter acontecendo no Salão Comunal.
Harry se virou e olhou de frente para ela, a postura acusatória, as mãos enfiadas nos bolsos.
— Eu acho que você pediu ao Chapéu Seletor para vir para a Grifinória, desse jeito você podia passar mais tempo perto de mim, porque isso garante que você continuaria enxergando. E por essa mesma razão você resolveu voltar para Hogwarts. E eu acho isso tudo muito estranho.
— Eu acho que você está sendo imbecil e se quer mesmo saber, eu preferia passar o resto da vida cega a escolher isso aqui ou mesmo a voltar para essa droga de escola!
Xingar Hogwarts foi a gota d’água para Harry.
— Então porque é que você veio? Ninguém está obrigando você, Hogwarts é opcional!
Anne deu um passo para trás, ofendida.
— Essa conversa termina aqui. Faça um favor para nós dois e fique longe de mim, Harry.
— Não será um esforço — ele devolveu com aspereza.
Anne saiu pisando duro, carregando o gato na direção do dormitório. Harry bufou e virou de costas para o salão de novo, ignorando a plateia, mas sendo forçado a encarar seu próprio reflexo irritado no reflexo da janela.
Uma coruja peculiar bateu na janela de Bervely de manhã bem cedo. Sua penugem era toda preta a não ser pela asa esquerda, coberta por penas brancas.
— Olá, Asa — ela abriu a escotilha para deixar a ave bem treinada de Theodor entrar. Desenrolou o pergaminho de sua pata e lhe ofereceu uns pedaços de pão que tinham sobrado da sua ceia.
Tenho uma pista. Aparate no fundo do chalé.
Bervely vestiu uma roupa e lavou o rosto. Graças à metamorfomagia ela podia ir de uma cara amassada até uma compleição aceitável em dez segundos. Pouco depois estava aparatando no fundo do chalé dos Tonks, onde Theodor de fato a esperava, sentado sobre uma pedra alta. Ele usava o uniforme cinza chumbo de Quarter, o que foi uma surpresa e tanto.
— Você esteve em Azkaban?
— Bom dia. E sim, eu estive. Eu precisava checar pessoalmente Thor Carmichael depois do que você me contou.
— E então? — Bervely esfregou as mãos geladas, controlando a ansiedade. Um vento gelado se infiltrou pela sua roupa, arrepiando sua pele, mas o auror à sua frente parecia imune à temperatura.
— Como eu disse, Carmichael continua completamente isolado. Nenhum indício de que está se comunicando com alguém fora da fortaleza nem fazendo viagens para fora do corpo. Eu mesmo desenhei as runas de selamento, Bervely, o homem está tão amarrado que nem um espirro vai conseguir sair dele.
Ela tentou ficar tranquila, mas Theodor não sabia do que aquele demônio era capaz. Parte disso era culpa de Bervely, que nunca lhe contara a história inteira, algo impossível de fazer sem implicar a si mesma.
— Então qual a sua pista? Achou Summers?
— Talvez — Theo tirou do bolso uma garrafinha pequena e usou a varinha para trazê-la ao tamanho original, estendendo-a para Bervely. — Já viu isso antes?
Era uma garrafa de uísque de fogo bem especial. O rótulo fora gravado em tinta-ouro com um slogan intrincado de um coração em chamas. O nome da bebida lhe trouxe um choque de reconhecimento e náusea.
— Blackburn. Sim, eu já vi antes. Era o uísque que a família Lestrange produzia antes de Rodolphus ir para Azkaban da primeira vez. Como isso nos ajuda? Essa bebida está fora de produção há uns dezesseis anos.
— Olhe o rótulo.
Bervely obedeceu. A data de fabricação era de dois meses atrás.
— Alguém está tentando re-inserir a bebida no mercado sem causar muito estardalhaço. A produção é lenta, só algumas dezenas de garrafas entregues para consumidores muito específicos, escolhidos a dedo. Você mencionou que Charlotte Summers tem um parentesco com a família Lestrange?
— Ela é uma Lestrange. Ou era, antes de ser mandada para adoção. Você acha que ela está tentando relançar Blackburn?
— Quem mais teria acesso às propriedades da família? Esse é tipo de coisa que responde ao sangue e a feitiços antigos. Não importa se ela não usa o sobrenome, desde que ela seja a única herdeira a magia responderá à ela, bem como os elfos. Agora, eu vasculhei os registros e não consegui a localização exata da propriedade Lestrange em que a produção acontecia. Preciso de um mandado para quebrar o sigilo mágico do endereço e isso pode demorar alguns dias… ou meses, do jeito que o Ministério anda ultimamente.
— Você acha que Charlotte está na propriedade? — perguntou Bervely com incredulidade.
— Onde mais? Se ela está produzindo o uísque e se escondendo, o lugar serviria a ambos os propósitos.
— Eu suponho que sim — murmurou, esfregando as mãos geladas com mais vigor. A ideia de Charlotte reinando na velha casa de sua mãe e padrasto lhe provocava um desconforto estranho misturado com repulsa.
— Você não saberia onde é a propriedade? Se puder me dizer, passo lá agora mesmo e dou uma boa olhada não-oficial, só para saber se o meu palpite está certo. Pouparia muito tempo. Não quero dar chance a ela de fugir, se estivermos certo e esse for o esconderijo de Summers.
— Claro. Tem razão — Bervely assentiu, pensativa. — Mas eu não faço ideia de onde o lugar fica.
— Tem certeza? — Theodor franziu — Lestrange não era o seu padrasto?
— Eu não o vejo desde que eu tinha cinco anos. Nessa época o endereço das propriedades da família não era um assunto recorrente entre nós, como você pode imaginar.
— Está bem — ele soltou um suspiro desanimado — Vou continuar procurando um jeito, então.
Bervely assentiu. Ele fez menção de pegar a garrafa de volta, mas ela não lhe entregou.
— Posso ficar com isso?
Pensou que ele resistiria a abrir mão de uma evidência, mas Theodor deu de ombros.
— Claro. Tenho outra amostra. Você vai ficar bem? Não precisa ficar preocupada. Como eu disse, Thor Carmichael não está envolvido nisso.
— Não estou preocupada — garantiu. — Até mais, Theo. Me avise se descobrir mais alguma coisa.
Ele lhe deu um sorriso fraco e, com um aceno, desaparatou. Bervely esperou alguns minutos ali na clareira, estreitando os olhos para a garrafa.
— Te peguei, Charlie querida — sibilou para o Blackburn, feliz da vida.
Aparatou um minuto mais tarde, sendo recebida por um vento cortante que espiralava no topo da colina mais remota de Lancaster. O cheiro doce de trigo apodrecendo alcançou seu nariz, familiar e nauseabundo. Vinte metros adiante, a segunda mansão da sua infância se erguia como o fantasma gigantesco de uma árvore queimada.
Blackburn Hall. Morara ali por pouco mais de oito meses, há mais de quinze anos… mas ela nunca se esqueceria.



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