Capítulo 9. A Lâmina em Sua Garganta
- Ly Anne B.

- 3 de mar. de 2017
- 36 min de leitura
Atualizado: há 3 dias
— Leve o gato.
— Eu não vou levar o seu gato.
— Pare de ser teimosa e leve o gato.
Jinx miou quando foi passado dos braços de Bervely até os de Anne, aborrecido por ser tratado como um saco de batatas, não bastasse ser trazido para aquele lugar barulhento e cheio de humanos pequenos. Ele mandou uma vibração de insatisfação na direção da sua humana, mas Bervely o ignorou, ocupada em transportar magicamente o malão de Anne até o compartimento de bagagens do Expresso de Hogwarts.
— Eu sinto que o assunto poderia ter sido mais discutido — a caçula resmungou, cruzando os braços e apertando o gato no processo. Ela não podia ver, mas ouvia o burburinho agitado das famílias ao redor delas enquanto embarcavam seus filhos para mais um ano escolar; a noção de que havia tantas pessoas em torno a fazia se sentir inquieta — Não vejo como voltar para Hogwarts pode ser uma boa ideia na presente circunstância.
— Você tem alguma ideia melhor? — Bervely sibilou em retórica. Já haviam repassado os argumentos na noite anterior, numa reunião familiar no quarto do hospital com Sirius — Uma que não inclua voltar para o Instituto Flamel e continuar servindo de sapo de laboratório sabe Merlin até quando, enquanto sua educação mágica desce pelo ralo?
— Minha educação mágica vai bem! Eu sou ótima autodidata, tenho passado em todos os testes semestrais que o Ministério mandou nos últimos anos com Ótimos!
— O que só significa que enquanto você se torna cada vez mais nerd, as suas habilidades sociais definham — Bervely disse em tom de ponto final, colocando a mão no ombro da irmã e a girando na direção do trem — Anda, embarca logo, te despachar não é a única coisa que tenho que fazer hoje.
— O que você sabe sobre habilidades sociais? — Anne ainda resmungou, mas obedeceu a irmã e subiu o primeiro degrau do vagão à sua frente, usando a mão livre para se apoiar na porta. Seu coração fez um contorcionismo estranho no peito e ela se voltou incerta para Bervely, o lábio inferior sofrendo entre seus dentes antes de murmurar — Não quero ficar longe de vocês por tanto tempo.
— Não comece a ficar toda sentimental — Bervely repreendeu, arrefecendo quando a irmã começou um bico amuado — Você vai poder visitar Hogsmeade esse ano, lembra?
— Vocês vão me encontrar lá? — perguntou Anne esperançosa. Tinha se esquecido sobre os passeios à vila bruxa, já que ela não tinha estado em Hogwarts anos o bastante para ter permissão de fazê-los, da última vez.
— Se sobrar um tempo, vamos ver.
O trem apitou, avisando que estava prestes a partir. Anne deu um suspiro, ajeitando Jinx melhor em seus braços e se conformando em embarcar.
— Me escreva toda semana com notícias — disse para Bervely, que rolou os olhos diante do tom mandão — Não fique achando que é só me mandar para o fim do país e eu vou esquecer de tudo que está acontecendo aqui.
— Vou mandar relatórios semanais, mestra suprema — zombou, torcendo o canto da boca — Agora anda, vai encontrar seus amigos esquisitos e sambar em cima de umas enciclopédias, ou seja lá o que vocês corvinais fazem quando estão juntos.
— Pelo menos não dançamos nus em torno da lareira e sacrificamos pequenos roedores para reverenciar Salazar Slytherin — Anne retrucou enquanto subia as escadas, tateando com a mão para se guiar.
— Isso deixa claro qual casa se diverte mais, não é? — Bervely provocou, assistindo-a sumir de vista corredor adentro, onde outros estudantes se apinhavam para cima e para baixo — Não faça nada que um lufa-lufa faria!
A última ponta de cabelo negro sumiu na volta do corredor. Sentindo um inadvertido vazio, Bervely se afastou do trem, que começava a soprar baforadas de fumaça e roncar, avisando que estava a minutos de ir embora. Ela cruzou os braços em torno de si, assistindo o Expresso de Hogwarts fechar as portas, enquanto vários pais e mães davam recomendações de última hora aos filhos. Um nó desavisado foi se inflando no topo de sua garganta, enquanto se dava conta de que os seus anos em Hogwarts jamais voltariam; ela nunca mais embarcaria no Expresso, nunca mais assistiria uma seleção e nem deitaria em sua cama no dormitório da Sonserina após um banquete farto no Salão Principal.
Supere o sentimentalismo desnecessário, ralhou consigo mesma. Não pensara muito em Hogwarts nos últimos anos, no Instituto Flamel. Não se dera a chance de sentir nostalgia, já que não via sentido na prática de um modo geral. O passado era passado, qual era a utilidade de remoer o que ela não teria de novo? Aprendera essa lição do jeito difícil nos anos anteriores, as coisas perdidas no passado continuavam perdidas, não importava o quanto as quisesse de volta.
O trem foi se movendo devagarinho, seus trinta vagões passando por ela um depois do outro até deixar o trilho vazio para trás. Os familiares na plataforma começaram a fazer seu caminho até a passagem encantada, a fim de retornar à King’s Cross e levar o dia adiante. Estava prestes a fazer o mesmo, bem no processo de girar seus calcanhares, quando uma voz familiar chamou seu nome. Bem, seu nome do meio.
— Rose?
Não era muita gente que tinha aquele hábito. Bervely podia contar numa mão as pessoas que se referiam à ela pelo seu nome do meio e até onde se lembrava, só uma tinha o poder de levantar os pêlos da sua nuca quando o fazia.
Você tem que estar de brincadeira, pensou com resignação, resistindo em se virar. Talvez ele seguisse em frente. Talvez se ela não olhasse, ele achasse que ela era outra pessoa e fosse embora.
— Uau, não pensei que reencontraria você aqui, entre todos os lugares.
Beverly girou o corpo, sem outra alternativa, ao que ele entrou no seu campo de visão. Cabelo cor de avelã, com um novo corte rente e arrepiado, os mesmos ombros largos, pele morena de sol e olhos castanhos, redondos e surpresos em sua direção. As mesmas sobrancelhas bagunçadas e arqueadas, ainda mais erguidas pela incredulidade, um insuspeito colete azul escuro com a insígnia dourada do Puddlemere United, que lhe dava um ar profissional e colegial ao mesmo tempo. Oliver Wood seria o mesmo de dois anos atrás, não fosse a barba rente e cheia cobrindo a parte inferior do rosto, lhe dando uma aparência mais viril que a dos tempos de escola. Ah, e ele parecia mais sólido, ela achou. Alguma coisa no jeito que ele estava lá parado, esperando ela dizer alguma coisa.
Toda essa leitura se deu em cerca de cinco segundos, tempo o qual ela ficou parada ali segurando a respiração sem perceber.
— Oliv– Wood — se corrigiu rápido. Pareceu estranho falar o primeiro nome dele depois de tanto tempo sem nenhum contato — Acho que posso dizer o mesmo.
Oliver usava jeans escuros e tênis trouxas. Por que isso a irritava? De repente isso a irritava muito mais do que deveria. Ele não era um jogador profissional de quadribol agora? Será que não podia se vestir como um bruxo decente?
— Quem… hum, quem você veio embarcar?
O jeito com que ele enfiava fundo as mãos no bolso de sua jaqueta oficial de quadribol mostrava que estava sem jeito. Pelo menos isso, Bervely pensou com azedume. Porque ele não tinha passado direto? Ela teria passado direto se o tivesse visto primeiro!
— Anne — disse secamente, olhando para um lado e outro. De relance viu o topo vermelho das cabeças de Molly e Arthur Weasley se afastando na direção da saída, seguindo o fluxo, e imaginou que eles deviam ter vindo embarcar o filho, já que a caçula Weasley continuava no hospital padecendo da mordida de dragão. Ela percebeu que estava buscando desesperadamente uma desculpa para fora daquele encontro quando lhe passou pela cabeça ir atrás dos Weasley para perguntar sobre a garota.
— Anne está de volta à Hogwarts? — Wood a arrastou penosamente de volta à interação. A voz dele era uma tentativa casual, como se eles fossem o quê, velhos conhecidos se encontrando por acaso? Ela devia parecer uma estátua de mármore naquele momento, seus braços firmemente cruzados em frente às vestes bruxas verde musgo — Então ela conseguiu uma cura, está vendo de novo?
— Não — lambeu os lábios, que estavam secos — Nada que fizemos deu certo, parece que é mesmo irreversível.
— Sinto muito — E era verdade, ela sabia, já que Oliver sempre tivera uma afeição especial por Anne — Sinto falta daquela pilantrinha, que pena que não a vi antes de embarcar.
— É, você a perdeu por pouco. Eu suponho que você veio embarcar sua irmã? — Bervely puxou da memória, mas não conseguia se lembrar quantos anos a irmã caçula de Oliver teria agora.
— Não até o próximo ano, Megs está com dez — ele apertou o lábio numa linha fina. Bervely apertou os olhos, esperando que ele complementasse o pensamento, ao que ele pareceu relutante. — Eu vim embarcar uma amiga, na verdade.
— Uma amiga? — ela repetiu astutamente.
— Mais como, uh, uma namorada, na verdade — os olhos dele corriam para qualquer lugar, menos para o rosto dela. As sobrancelhas de Bervely se ergueram juntas.
— Você está namorando uma menina em idade escolar…?
— Ela é maior de idade — exclamou ele na defensiva, percebendo em seguida como tinha soado abrupto, o que o deixou ligeiramente constrangido. Oliver pigarreou, novamente passando os olhos pelo rosto de Bervely e os deixando desviar pela tangente — Ela é muito madura para a idade. Uma garota muito… muito… ela é ótima.
— Hum. Certo — Bervely estalou a língua, a estranheza daquela situação queimando-lhe as entranhas — Escuta, Wood, eu preciso mesmo…
— Então você está de volta? — ele perguntou ao mesmo tempo em que ela tentava arranjar uma desculpa para ir embora, suas palavras se misturando no ar. Bervely respirou, olhando furtivamente ao redor. A plataforma estava quase vazia, só um casal tentando consolar uma criança pequena que se acabava de chorar e um funcionário da estação com um macacão vermelho parado perto da saída, esperando para selá-la. Ela apertou mais seus braços cruzados, os dentes cerrando-se em conjunto. Não conseguia parar de olhar para a barba dele, como tinha ficado tão cheia em só dois anos? Oliver escolar tinha uma péssima desculpa de barba que mau cobria o seu queixo— De volta à Londres?
Ela piscou, tentando se lembrar o que ele estava perguntando.
— Não. Sim. É complicado — soprou, tentando manter respostas curtas. Aquela em especial fez com que ele sorrisse ligeiramente divertido.
— Se não fosse complicado não seria você, não é mesmo?
A familiaridade do tom brincalhão foi como um beliscão desagradável no seu estômago. Nostalgia das coisas que ela não tinha mais, não era isso? Oh, ela não estava contando com esse tipo de luta naquele dia, não fora para isso que tinha saído da cama.
— Eu preciso mesmo ir — disse a ele, ou na direção dele, porque no geral estava evitando encará-lo para se prevenir de mais revoluções nas entranhas — Tenho coisas a fazer… dia cheio. Nos vemos por aí, acho. Ou mais provavelmente não.
Oliver ficou lhe olhando com as sobrancelhas levemente erguidas, mas Bervely tinha terminado e decidiu que o próximo passo era ir embora dali (agora eram os últimos na plataforma, o funcionário os esperava sair com certa impaciência).
— Então… tchau.
— Tchau.
Os saltos de sua bota fizeram um barulho seco e alto na plataforma vazia, marcando seus passos quando se virou de costas e começou a andar para longe do rapaz, num ritmo controlado para que não parecer que estava fugindo. Demorou um século até alcançar a passagem e quando a atravessou, ela ainda sentia o olhar de Oliver Wood queimando em sua nuca.
— Merlin santo, será que você pode ser mais devagar? — Alguém reclamou às suas costas, tão perto dela que mais um passo e eles se chocariam.
Anne se virou 180 graus, o queixo erguido para o colega impaciente.
— Eu sou cega, então sim, eu posso ir ainda mais devagar. Algum problema com isso?
Houve um momento breve de silêncio que ela desfrutou, tentando imaginar a cara do babaca que a quem estava estava respondendo.
— Bem, sinto muito, eu não sabia — disse o estranho de má vontade — Você precisa de ajuda para achar uma cabine?
— Não, eu me viro — praguejou com mau humor. Ouviu o garoto (ela estava certa de que era um garoto) resmungar qualquer coisa e passar por ela, se apertando no espaço estreito ao seu lado. Não era o primeiro esbarrão e nem o primeiro confronto que ela tinha no corredor do vagão nos últimos quinze minutos; sua parte racional estava repetindo que devia parar de ser ridícula e entrar em qualquer cabine logo, antes que fosse atropelada. Jinx em um braço e a varinha — magicamente estendida para funcionar como uma bengala — tateando à frente, enquanto com os ouvidos atentos ela tentava distinguir alguma voz familiar ou ainda melhor, encontrar uma cabine vazia.
Apenas entre numa maldita cabine. Você tem setenta e cinco por cento de chances de encontrar uma sem sonserinos. Foi no meio dessa luta interna que seus olhos queimaram com a súbita entrada de luz e cor. Soltando uma exclamação de dor quando suas pupilas foram forçadas a dilatar sem aviso, Anne deu um passo para trás e pisou no pé de alguém.
— Ops, desculpe — disse um garoto gordinho, que imediatamente assumiu que a destrambelhamento dela era culpa dele. Passando por ela sem olhar, ele alcançou a pessoa mais à frente — Oi, Harry!
— Neville! — Harry Potter se virou parecendo aliviado, seu cabelo como sempre um caos, os olhos cintilando atrás dos óculos redondos. Anne recuou ligeiramente numa reentrância do corredor do trem, tentando passar despercebida, inclinando o rosto para baixo. Foi quando ela sentiu um cheiro familiar de baunilha e pimenta, ao mesmo tempo que uma garota loira passou por ela seguindo Neville.
— Olá, Harry — cumprimentou Luna com um ar sonhador, de costas para Anne.
— Luna, oi, como vai?
— Ótima, obrigada.
— O Pasquim continua firme e forte? — Harry voltou a perguntar, olhando para a revista que Luna segurava apertada nos braços.
Anne sentiu o impulso de dar meia volta, mas se afastar dali significava parar de ver, e por mais que achasse a coisa toda de enxergar-quando-Potter-estava-por-perto um tanto perturbadora, poderia ser útil para achar uma cabine. Se ela conseguisse ficar invisível até eles entrarem em algum lugar, e depois desse uma olhada por perto…
— Ah, sim, a circulação aumentou muito — respondeu Luna com felicidade. Anne ficou ali parada, se perguntando como Luna poderia deixar passar o fato de que pessoa bem atrás dela era a primeira (e por muito tempo única) amiga que tivera em Hogwarts.
— Vamos procurar um lugar para sentar? — ouviu Harry os convidar, uma nota de desconforto em sua voz chamando a atenção de Anne. Só então ela percebeu qual era o problema; as pessoas nas cabines perto deles e até as que iam passando no corredor ficavam olhando na direção do garoto como se ele fosse uma planta exótica. Então ela os assistiu dar as costas e ir atravessando a horda de colegas em busca de uma cabine - à medida que Harry se afastava, a visão de Anne foi ficando mais e mais escura, até desvanecer por completo.
— Você vai ficar ai parada para sempre? — alguém perguntou atrás dela. Anne pensou em dar uma resposta mal criada, mas desistiu logo em seguida. Não valia a pena se indispor.
— Desculpe — disse, se achatando na parede para sair do caminho.
Sua grande covarde.
Naquele mesmo momento, Jinx escapou de seus braços, cansado de ser carregado de um lado para o outro, e pousou macio no chão do trem.
— Não, Jinx, volta aqui!
Mas logicamente ele não lhe deu ouvidos, sendo um gato como era. Praguejando, Anne puxou a varinha e fez um feitiço útil de audição seletiva que ela tinha aprendido no ano passado, pois lhe permitia ouvir alguns sons em detrimento de outros. Ela o usou de forma que ouvisse o gato se afastando. Com tudo mais abafado, saiu tateando atrás dos passos abafados de Jinx, que iam na mesma direção em que Harry acabara de desaparecer.
Alguns metros e uma série de esbarrões adiante (ela os ignorou, já que não podia mais ouvir os colegas reclamando), sua visão retornou, com um novo e dolorido clarão. Piscou várias vezes, acostumando os olhos à luz, perdendo a pista dos passos de Jinx no processo. Ela estava agora bem à frente de um grupo de garotas que pareciam ter a sua idade; elas estavam cochichando, agitadas, se revezando para espiar para dentro da cabine.
— Vocês viram um gato prateado passar por aqui? — perguntou para uma delas, a que tinha um ar obstinado e queixo saliente, grandes olhos e cabelos negros. Anne se lembrava dela vagamente como sendo do seu ano em Hogwarts, mas da Grifinória. Não obteve resposta; a garota a ignorou completamente, ocupada em espiar dentro da cabine. Suas colegas, uma de cabelo curto e aparelho trouxa nos dentes, a outra loira com brincos de argola, discutiam:
— Você pergunta!
— Eu não, pergunta você!
— Eu pergunto! — anunciou a garota que acabara de ignorar Anne. Ela abriu a porta da cabine e entrou, sob o olhar de expectativa das colegas. Anne viu de relance o topo do cabelo arrepiado de Harry e a ponta da revista de Luna em seu colo, sobre suas meias listradas azuis e verdes. Conseguiu ouvir com clareza - e uma certa dose de vergonha alheia também - as palavras seguintes — Oi, Harry, eu sou Romilda, Romilda Vane. Por que não vem se reunir a nós em nosso compartimento? Não precisa se sentar com eles.
— Eles são meus amigos – Anne entreouviu a voz fria de Harry vir de dentro da cabine.
— Ah. Ah, ok — Disse a tal Vane, sua postura confiante murchando. Ela se retirou, fechando a porta ao sair.
— Uau — Anne deixou escapar quando Romilda retornou. Recebeu um olhar feio, que foi dos seus óculos escuros até os seus all-stars azuis desbotados.
— Eu conheço você? — perguntou Romilda com irritação, como se Anne tivesse vindo testemunhar sua humilhação de propósito.
— Não – Anne mentiu. Elas eram da mesma turma e de casas diferentes, o que significava que Romilda entrara em Hogwarts no mesmo ano em que Anne o fizera da primeira vez, mas não achou que ela se lembraria.
Romilda trocou um olhar de questionamento com as suas amigas, que também deram de ombros. Anne, que se posicionou de um jeito a ficar oculta para quem olhasse de dentro da cabine de Harry, fez uma indicação na direção da porta.
— Por que você estava tentando fazer Harry Potter ir sentar com vocês?
A loira de aparelho tomou a frente, explicando o que Vane parecia constrangida demais para falar em voz alta.
—Não dá pra entender porque Potter fica sentando com essa gente estranha se pode andar com o pessoal legal, quer dizer, ele é famoso… a gente só queria dar uma chance pra ele subir o nível, sabe?
— Eu suponho que vocês são “o pessoal legal”? — ela sondou, franzindo as sobrancelhas atrás dos óculos. Sempre se espantava em como as pessoas podiam ser absurdas. Será que elas não se ouviam?
Aparentemente o teor irônico do seu comentário foi a gota d’água para Romilda.
— O que você quer aqui afinal? Não estava procurando um gato ou algo assim?
A porta da cabine voltou a se abrir e Harry meteu a cara por ela, tão abruptamente que fez as meninas darem pulos. Parecia prestes a perguntar o que elas ainda estavam fazendo ali quando avistou Anne, o que o deixou completamente estupefato.
— Johanne?
— Ei — acenou sem graça. Não estava fazendo nada de errado, mas sentia como se tivesse sido pega espiando pela fechadura.
— Eu não sabia que você estava no trem!
— Parece que eu estou — disse sem jeito. Harry não tinha como saber, é claro, visto que o arranjo tinha sido feito de última hora na noite passada. A única razão pela qual Anne conseguira embarcar é porque Alvo Dumbledore respondia cartas muito rápido.
O garoto olhou desconfiado para Romilda e as outras duas, que ainda estavam paradas lá feito bobas.
— Você está com elas?
— Não, eu só estava passando.
Ele deliberou um momento, depois fez um aceno com a cabeça na direção da cabine.
— Entre aqui, vou te apresentar meus amigos.
Anne sentiu o olhar de Romilda furar sua nuca quando entrou na cabine atrás de Harry, mas nem se importou. Estava muito mais inquieta com aquele reencontro do que previra; como Luna ia reagir à sua volta? Fazia um bom tempo que não trocavam nenhuma carta.
A loira levantou o rosto quando Anne entrou; ela usava Espectrocs promocionais enormes que lhe davam a aparência de uma coruja multicolorida. Neville não virou logo - tinha o traseiro apontado para cima enquanto tateava procurando alguma coisa debaixo do banco.
— Hum, pessoal, essa é Johanne. Ela é, hum, filha do meu padrinho. Esses são Luna e Neville.
— Eu os conheço, Harry — ela disse baixo, ao mesmo tempo que Neville batia a cabeça no banco tentando se levantar rápido, enquanto que os olhos de Luna se arregalavam na direção dela.
— Você era minha vizinha em St. Sensille, não é! — Neville anunciou, surpreso e sorridente — Tem uma foto minha e sua no meu álbum de bebê, nossas mães não eram amigas? Espera, ela é filha do seu padrinho… aquele padrinho?
Luna, passado o momento de choque, saltou do banco como se o estofado tivesse lhe mordido a bunda.
— Você pode ver! — exclamou para Anne em tom de acusação — O Instituto Flamel curou você!
— Hum. É. Mais ou menos — mordeu o lábio, trocando um olhar rápido com Harry, que parecia perdido sobre o fato de que ambos os seus amigos conheciam a garota melhor do que ele.
— Eu sabia que estava cheio de zonzóbulos por aqui, foi você, não foi? E eu achando que eles estavam atrás do Harry.
Anne sorriu para aquele comentário tão Luna.
— Eu senti sua falta — confessou, ignorando os olhares intrigados de Harry e Neville na periferia. Luna no entanto não parecia tão feliz com o reencontro como esperado. Ela cruzou os braços e inclinou o rosto.
— Eu pensei que você me contaria quando estivesse de volta — disse amuada.
— Os zonzóbulos não te contaram? — Anne perguntou, arriscando fazer piada em terreno perigoso.
— Eu queria ter ouvido de você, não é?
— Sinto muito, Luna. Foi tudo rápido demais. Até ontem eu nem mesmo sabia que ia voltar para Hogwarts. Você me perdoa?
Esperou com expectativa enquanto Luna pensou, engraçada em seus óculos de papel cartão. Pelo canto de olho, viu que até Harry e Neville olhavam de uma para a outra, eles próprios sem entender muita coisa. A loira repuxou um penduricalho em seu pescoço que parecia feito de tampinhas, inclinando a cabeça.
— Você ainda sabe caçar periscopéles alados como eu te ensinei? — sondou, suspeitosa.
Anne assentiu solenemente — Fizemos isso uma centena de vezes, como eu poderia me esquecer?
Luna abriu um sorriso amplo, os óculos enormes amplificando os olhos azuis.
— Nesse caso eu digo que você está perdoada.
Uma aglomeração incomum atravancava o corredor em frente à ala de cuidados intensivos do quarto andar quando Bervely chegou no St. Mungus quase uma hora mais tarde. Ela tentou entender por que metade do hospital estava ali, incluindo visitantes e vários pacientes de avental arrastando intravenosas flutuantes e outras parafernálias médicas. Eles faziam barulho e tentavam todos chegar à porta da ala, enquanto o curandeiro daquele turno tentavam colocar ordem na bagunça.
— Ele vai receber vocês de um em um, mas vocês precisam formar uma fila! — disse o rapaz, que Bervely ainda não conhecia — Quem não entrar na fila não vai falar com ele – não, Sra. Tompson, não temos um fotógrafo lá dentro, e não Melina, ele não vai autografar o seu terceiro braço porque você não vai entrar, não sabemos se o que você tem é contagioso…
Bervely se aproximou do curandeiro, abrindo caminho por entre um rapaz de cabeça inchada segurando uma pena e alguém que estava coberto de penas e soltava um silvo agudo e impaciente.
— Oi, o que diabos está acontecendo aqui?
— Ah, alguém da família, graças à Merlin! — o curandeiro exalou, pálido. Com o cabelo arrepiado e um nariz curto, ele lembrou à Bervely imediatamente um porquinho da índia — Alguém passou a informação e agora todo mundo sabe que é ele quem está aí dentro!
Ela arregalou os olhos, checando ao redor. Todo mundo parecia ansioso para entrar e não apavorado de estarem internando o temível Sirius Black no hospital. Alguma coisa não estava fazendo sentido ali, e espera, ela tinha dito…
— Ele falou que vai recebê-los um por um? — ela recapturou, sua voz subindo um tom.
— Sim! Só vão entrar os que não oferecem risco, é claro! Mas ele insistiu, disse que jamais recusaria o carinho de seus fãs, é até bastante generoso na condição dele, eu acho, mas não sei se é recomendado…
— Fãs? — Bervely engasgou, lançando um segundo olhar para a multidão impaciente.
— Você é a nova esposa dele? — alguém a agarrou pela manga, era uma mulher de meia idade com uma criancinha completamente verde no colo — É verdade que ele deixou Doris Purkis por você depois que vocês fizeram um dueto em Podovídia?
— Você acha que Toquinho pode dar uma palhinha de A Minha Varinha Escolheu Você? Não tem nada errado com a voz dele, tem?
— Toquinho? Toquinho — ela rosnou, sua ficha caindo. Tinha esquecido completamente daquele boato estúpido que Andrômeda resolvera alimentar para esconder a verdadeira identidade de Sirius.
— Você pode colocar um pouco de senso no seu marido? — o curandeiro sussurrou, a voz tremendo ligeiramente, percebendo que a multidão aumentava. Era quase hora do almoço, de forma que os visitantes a caminho da cafeteria estavam interrompendo sua rota para ver o motivo da balbúrdia. — Ele está sendo gentil, mas não acho que seja recomendado… quero dizer, é a ala de cuidados intensivos afinal de contas…
Bervely exalou com irritação, se perguntando onde estava a chefe de cuidados mágicos ou sua tia, a medibruxa-chefe daquele andar quando esse tipo de absurdo acontecia. Ela tirou a varinha do bolso e apontou para a garganta, enfeitiçando a voz com um Sonorus.
— Toquinho não vai receber mais ninguém hoje! — exclamou para a multidão, que imediatamente começou a reclamar e lançar olhares irritados. O paciente coberto de penas ao seu lado deu um pio agudo de protesto — E vocês deviam se envergonhar de sobrecarregá-lo dessa maneira, arriscar a saúde dele por um autógrafo!
— E quem raios é você para decidir? Ele disse que faz questão de nos receber! — protestou um adolescente com um caso patológico de espinhas lá no fundo.
— Eu sou a segunda esposa e empresária de Toquinho Boardman, e se vocês não sumirem agora mesmo desse corredor, vou fazer questão de que nenhum de vocês seja autorizado a assistir a turnê de retorno dos Duendeiros no próximo verão!
— Os Duendeiros vão voltar? Mas que ótima notícia!— a mulher com a criancinha verde guinchou empolgada, quase derrubando sua carga — Era a minha banda preferida na adolescência!
— Bem, eles vão voltar se vocês não matarem o vocalista agora, com toda essa aglomeração de doenças na porta dele!
Para a sua surpresa, as pessoas começaram a dispersar, algumas comentando maldosamente que gostavam mais da primeira esposa. Ela ouviu o adolescente espinhento jurar que “aquele tratamento rude aos fãs seria para sempre uma mancha na carreira de Toquinho, vou mandar uma carta para Rita Skeeter pessoalmente”.
— Obrigada, Sra. Boardman — suspirou com alívio o curandeiro com cara porco-espinho. — Eu estava em pânico, o Sr. Boardman insistiu em recebê-los, a segurança está em troca de turno e eu não queria atrapalhar o almoço da Dra. Tonks…
— Você devia ter atrapalhado o almoço da Dra. Tonks — Bervely retrucou, entrando na ala intempestivamente, seguida de perto pelo rapaz — Ou melhor, você devia saber dizer não ao Sr. Boardman!
— …imagina meu bem, é um prazer! Eu tocaria Espelho Macabro pra você se a minha mão não estivesse machucada, quem sabe da próxima vez? Sim, até a próxima, foi um prazer autografar seu coturno…
A cortina da baía de Sirius se abriu quando Bervely estava a meio caminho da ala e de lá saiu uma garota pálida, cuja única cor no rosto era um batom roxo escuro. Ela tinha tatuagens coloridas pelos braços que se moviam enquanto ela andava, a maioria de morcegos perseguindo ratos, e combinava o avental de paciente do hospital com pesados coturnos de cadarços.
— Ele é tão legal — suspirou ela para ninguém em particular quando passou por Bervely, os olhos vidrados de emoção.
— Próximo! — Sirius chamou feliz lá de dentro. Bervely irrompeu cortina a dentro, varrendo o sorriso do rosto dele rapidamente — Ah, é você.
— Sim, Sr. Boardman, sou só eu, desculpe decepcioná-lo — ironizou, olhando feio pra ele.
O curandeiro porco-espinho se aproximou nervoso, trazendo uma bandeja de poções na mão trêmula.
— A Sra. Boardman achou melhor deixar a sessão de autógrafos para outro dia — ele explicou, beirando o tom de desculpas — Eu não sabia que ela era também a sua empresária!
— A Sra. Boardman? — Sirius achou graça, imediatamente entrando no jogo, olhando divertido para Bervely cujo tom corado no rosto só piorava — É, ela cuida bem das coisas. Tudo bem, Eliott, espero que o pessoal não tenha ficado muito desapontado.
— Eles precisam entender que a sua saúde é prioridade — disse o rapaz com um tom mais firme, encorajado pela gentileza de Sirius e o seu sorriso cheio de dentes.
— Engraçado, eu achei que essa era a sua função, para começo de conversa — Bervely retrucou para o curandeiro, que murchou imediatamente.
— Agora, meu bem, não precisa ser má com o Elliot, é o primeiro dia dele — Sirius ralhou com Bervely, se voltando para o curandeiro logo depois e lhe dando uma piscadela — Mais tarde eu cumpro a minha promessa, Elliott. Pode me dar um tempo a sós com a Sra. Boardman?
— Claro — ele assentiu, dividido entre seu olhar preocupado na direção de Bervely e um meio derretido na direção de Sirius. Bervely fez um dramático rolar de olhos quando ele se foi.
— Black, mas que diabos…?
— Toquinho – ele a corrigiu em tom de bronca — Já falei que não uso mais esse apelido, as pessoas ficam achando que eu sou aquele bruxo horroroso que escapou da prisão há três anos!
— Você ficou maluco? Chamar o hospital todo para seu quarto? Não é melhor escrever na TESTA quem você é pra ficar mais óbvio? Acha mesmo que vai continuar convencendo como Toquinho Boardman as pessoas que conhecem Toquinho Boardman?
— Tem funcionado até agora — Sirius disse tranquilo, jogando o lençol para longe e se espreguiçando. Ele aparentemente estivera recebendo fãs sentado em sua cama, lhes dado autógrafo com uma grande pena de pavão albino que só Merlin sabia de onde tinha surgido — As pessoas veem o que querem ver, Bervely. Você nunca ouviu falar da expressão “se esconder em plena vista”?
Ela meneou a cabeça, resignada demais até para continuar aquela discussão. Ainda de cara feia, foi conferir a ficha médica que ficava pendurada aos pés da cama. Bervely ainda tinha uma boa noção do que os termos médicos significavam, desde que os tinha aprendido em sua época de “estágio” em Azkaban. Fez uma careta para a última linha do pergaminho.
— Você teve uma alteração significativa no ritmo cardíaco na última hora.
— O que eu posso dizer, é emocionante receber o carinho dos fãs — Sirius suspirou dramático, vindo remexer as sacolas que Bervely tinha trazido com ela — Você trouxe o que eu pedi?
— Eu vou falar com Andrômeda pessoalmente para tirar esse Elliot da sua ala. Que ideia é essa de colocar um novato para cuidar de você? E o que raios você prometeu pra ele?
— Não precisa ficar com ciúmes, Sra. Boardman — ele zombou, achando graça do jeito que as sobrancelhas dela se arqueavam como as costas de um gato raivoso — Prometi que ia tocar para ele sua música preferida, se ele conseguisse um violão. Acontece que Elliot também é fã do Toquinho, quero dizer, meu fã. Surpreendente o número de jovens que gostam dos Duendeiros, visto que quando nos aposentamos eles ainda estavam engatinhando…
— Seu fã vai ter uma grande decepção quando descobrir que você não sabe tocar violão nem cantar. Será o fim de Toquinho Boardman — zombou maldosamente, tendo rolado os olhos tanto em “meu fã” quanto em “nos aposentamos”.
— Quem foi que disse que eu não sei? Bervely, você trouxe?
— Trouxe, não está aí — ela o afastou das sacolas que ele tinha revirado, nas quais tinha basicamente alguns ingredientes que comprara no boticário mais cedo. Ao invés disso, lhe entregou a caixa que encolhera para caber no bolso — Ainda não sei porque você precisa de algo que vende em uma loja para homens trouxas. Qualquer coisa que os trouxas façam, tenho certeza que temos uma opção dez vezes mais eficiente numa loja bruxa.
— Você está particularmente azeda hoje — Sirius comentou, recebendo sua encomenda e usando a varinha dela, que puxou do seu bolso sem pedir, para trazê-la ao tamanho original, ainda meio desajeitado com sua mão direita — Aconteceu algo na estação? Anne embarcou bem?
— Resistente. Mas no fundo ela sabe que é a melhor opção.
— Ela vai ficar bem — ele disse com aparente segurança, mas Bervely sabia que Sirius estava tentando convencer a si próprio de aquilo era verdade. Nenhum dos dois sabiam se Hogwarts era a melhor opção naquele momento, com tudo que estava acontecendo no mundo bruxo, mas a segunda opção, deixar Anne passar os dias desocupada enquanto Sirius se recuperava, também não parecia boa.
Sirius pegou a caixa comprida e achatada de madeira que ela trouxera da loja trouxa chamada Murdock e a carregou para o banheiro sem dizer uma palavra. Bervely rolou os olhos; ele estava sendo misterioso a respeito da sua “encomenda”, e ela sabia que era só para irritá-la. Por que ela aguentava aquilo?
— Você não vai me dizer o que tem dentro da caixa? — resmungou alto, projetando a voz para alcançar a porta do banheiro que ele deixara aberta.
— É coisa de garotos.
— Não seja ridículo.
Mas é claro que não havia sentido em pedir, não é como se ele pudesse evitar. Dando um longo suspiro, ela foi atrás dele. O encontrou parado na frente do espelho, tirando uma série de apetrechos da caixa e os dispondo sobre a pia. Um pincel grosso, uma lâmina comprida e esquisita, com uma articulação central, um tubo de espuma, uma toalha branca e felpuda. Bervely estreitou os olhos para a combinação esquisita de apetrechos.
— O que você está aprontando, se não se importa que eu pergunte? — desconfiou. A lâmina especialmente lhe causava certo alarme.
— É um kit de barbear trouxa — Sirius explicou, espremendo espuma na mão e começando a espalhar pelo rosto, sobre a barba que fora aparada há alguns dias mas ainda estava cheia e cobrindo grande parte de seu rosto — Pedi a Remus para deixar uma encomenda ontem, depois de ele comentar que a loja ainda existia.
— Por que você simplesmente não usa um feitiço?
— Não é a mesma coisa se eu não fizer com a minha varinha, e eu certamente não sou louco de deixar outra pessoa fazer, sou? Bruxos já foram decapitados acidentalmente por menos.
— Não pode ser mais perigoso do que essa lâmina de meio metro!
— Você ficaria surpresa.
Bervely balançou a cabeça, se abstendo. A última vez que Sirius fizera a barba na presença dela, eles estavam fugindo ainda dos dementadores após o escape de Azkaban. Tinham se hospedado num hotel trouxa em Devon após muitos dias dormindo no chão das ruínas de Tantallon - ela se lembrava de nunca ter ficado tão feliz em deitar numa cama de verdade. Na ocasião, Sirius usara um barbeador trouxa descartável e sabonete, mas ele ainda preferira isso a usar a varinha dela. Talvez fosse uma daqueles hábitos esquisitos que ele trazia, coisas que lembravam a ele a vida antes de Azkaban. Ela podia imaginar um jovem Sirius Black tirando os seus primeiros fios de barba ao modo trouxa para irritar a família…
Bervely recostou no portal e ficou olhando o reflexo dele enquanto Sirius preenchia o resto do rosto com a espuma branca e cheirosa, depois abria a lâmina com alguma dificuldade. Sua mão ainda estava enfaixada, a queimadura misteriosa que sofrera dentro do véu curando muito lentamente. Qualquer poção ou pomada cicatrizante que os curandeiros tentavam aplicar só deixavam a dor pior, então eles resolveram que a deixariam sarar por si mesma. Em razão disso, ele não podia segurar uma varinha na mão esquerda e, sem surpresa, não podia ter o controle daquela lâmina. Na primeira tentativa que fez, a coisa escorregou seu seus dedos e raspou no seu pomo de Adão, antes de cair dentro da pia com um estrépito.
— Merda! — Sirius praguejou, abrindo e fechando a mão cheia de ataduras como se ela latejasse.
Ele pegou a lâmina por uma segunda vez, teimoso, mas Bervely conseguia ver que não havia jeito de Sirius fechar a mão num aperto seguro o bastante sem sentir dor. A mão tremia quando ele a apertou contra a pele para uma nova tentativa.
— Você vai se cortar desse jeito — ela disse impaciente atrás dele.
— Bem, dane-se, o que é mais uma cicatriz ou duas a essa altura? — rosnou, fechando a mão e segurando um resmungo de dor quando os nervos pinicaram na palma queimada.
Ela balançou a cabeça numa negação aquela manifestação de teimosia típica. Foi até ele e tirou a lâmina de barbear do seu alcance.
— Me deixe fazer isso antes que você arranque o nariz fora.
— Nem pensar. Eu estive nessa aula de “nunca deixe uma garota louca com uma faca afiada perto da sua garganta”.
Ela o ignorou, ao mesmo tempo que o empurrava na direção do vaso sanitário.
— Senta e fica calado.
Sirius obedeceu, resignando-se a sentar sobre a tampa do vaso, cruzando os braços. Bervely encostou a porta (ela não queria ter que explicar para um bruxo porque estava raspando a cara do paciente com uma faca) parou na frente dele e empurrou a testa de Sirius para traz, fazendo com que ele inclinasse a cabeça.
— Entre todas as coisas idiotas que os trouxas fazem, essa tem que ser a pior. Pelo amor de Salazar, você é puro-sangue! — murmurou, soando mais revoltada do que estava de verdade. Sirius esperou e ela hesitou, de repente percebendo que também não tinha a menor ideia do que fazer.
— Firme e suave, movimentos retos de baixo para cima — ele explicou, segurando seu pulso e posicionando sua mão no lugar que ela deveria começar, bem abaixo da sua jugular — Vá em frente, não é grande coisa.
Não é grande coisa. Se não era, porque ela estava sentindo aquele peso no fundo no seu estômago, que era ao mesmo tempo agonia e excitação? Três anos depois de ele tentar estrangulá-la em sua cela em Azkaban, acreditando que ela era o fantasma de Bellatrix o assombrando, lá estava Sirius, confiando tão completamente nela que era capaz de, com os olhos fechados, deixar que ela arrastasse uma lâmina perto da sua garganta. Eles tinham chegado tão longe, e pensar que ela quase o perdera no caminho, que tudo teria sido em vão se ele nunca voltasse do maldito véu…
— Bervely, amor? Não tenho a noite toda — o que era engraçado, porque na verdade ele tinha.
— Só estou procurando a melhor posição, tenha paciência — ela resmungou, provocando um sorriso nele — Fique quieto, não sorria.
Uma vez que ela conseguiu começar, era fácil abrir caminhos de pele visível no rosto dele, o atrito da lâmina contra os pêlos ásperos provocando uma vibração engraçada em seus dedos. Sirius ficou bem quieto, lhe dando a chance de observar cada detalhe do seu rosto à medida que se revelava. Cada traço que ela de uma forma ou de outra decorara anos antes, mas que o tempo estava transformando. A curva que formava o canto da boca dele, as rugas no canto dos olhos; antes elas só apareciam quando Sirius sorria, agora seus contornos estavam lá mesmo quando ele relaxava; havia uma sugestão do par de linhas em sua testa, que era onde sua pele dobrava quando ele franzia o cenho. Não pudera acompanhar essas mudanças estando no Instituto, mas eram evidências de que não eram mais as mesmas pessoas que eram quando se conheceram. E isso na verdade era uma coisa boa…
— Você vai me contar o que aconteceu na estação? — perguntou ele de repente, quando pela centésima vez ela afastou a lâmina da pele dele para limpá-la na água (sinceramente, aquele sistema trouxa de barbear não tinha nada de prático!).
— Nada demais — Bervely disse, concentrada na tarefa de não degolá-lo ou arrancar uma fatia do rosto dele por acidente.
— Então teve alguma coisa — ele concluiu, vitorioso. — Estava quase pensando que aquilo tudo tinha sido só por causa dos meus fãs. A Sra. Boardman devia saber que não pode ter ciúmes deles, é só trabalho…
— Eu não estava com— se interrompeu, bufando. — Você sabe que foi uma ideia estúpida. Se eu chegar aqui e achar você dando autógrafos novamente, a próxima notícia do Profeta Diário vai ser que Toquinho Boardman teve sua mão arrancada por uma lâmina de barbear trouxa!
Um sorrisinho no canto da boca de Sirius dizia que ele não estava intimidado. Bervely rolou os olhos, deixando a lâmina na pia. Ela pegou a toalha e molhou no fluxo de água, usando-a para tirar a espuma restante do rosto dele tão devagar quanto pode. Sirius não parecia incomodado com a sua lentidão, apesar da posição desconfortável do pescoço.
— Então, o que aconteceu na estação?
Ele não ia deixar passar, é claro. Estava no modo teimosia extrema naquele dia.
— Encontrei alguém que não estava esperando ver de novo, só isso.
— Você vai me fazer adivinhar?
Ela rolou os olhos. Minha nossa, Sirius Black era um pé no saco.
— Oliver Wood — disse de má vontade.
— Humm. O namorado, não é? Do seus tempos de escola. — disse Sirius com um sorrisinho pirracento — O que ele queria?
— Ex—namorado. E quem disse que ele queria alguma coisa?
— Se ele não quisesse nada, você não estaria tão mordida. Ou é por isso que você está mordida, porque ele não quis alguma coisa?
— Não seja abestalhado, eu não queria que ele quisesse nada, eu não vejo Wood há anos, nem lembrava da existência dele.
— Claramente ele é página virada — Sirius debochou, sorrindo de boca fechada com ar de sabido.
Bervely guardou um silêncio carrancudo, terminando de tirar os resquícios de espuma e observando seu trabalho. Ela escorregou a ponta dos dedos pelo rosto dele, da maçã do rosto até o queixo, sentindo-a tão lisa como se nunca tivesse crescido barba ali. Talvez o método trouxa fosse melhor do que o feitiço de barbear… nunca tinha sentido o rosto de Oliver liso daquele jeito, e tinha certeza que ele não usava lâmina, não iam deixar um aluno entrar com uma coisa daquelas em Hogwarts. Toda vez que eles se beijavam ela sentia o toque áspero da barba dele contra sua bochecha, não que isso fosse ruim, mas ela se perguntava como seria a sensação agora que ele estava deixando a barba crescer e ela parecia tão macia…
Pare. Apenas pare.
— Ele estava embarcando a nova namorada dele — sua boca lhe traiu por fim. Sirius esperou o resto da sentença, tentando não sorrir para o tom despeitado da filha — Uma aluna de Hogwarts, isso é, uma criança! Ele não se enxerga?
— Vocês dificilmente se consideravam crianças naquela época, não é?
— Isso é diferente. Ela está na escola e ele não! — ela não conseguia ir além disso, por alguma razão. Havia uma coisa engasgada a meio caminho da sua garganta.
— Bem, se ela for maior de idade e madura o suficiente, não vejo grande coisa — Sirius declarou tranquilamente. — Ali, pegue a loção pós-barba.
— Foi o que ele disse — resmungou ela entre os dentes, alcançando dentro da caixa o frasco de vidro com rolha e um rótulo antiquado. Ao invés de passo-la para Sirius, arrancou a rolha e deu uma olhada nas instruções na parte de trás. Pelo visto era só passar na parte do rosto barbeada, nada muito sofisticado, como era de se esperar se tratando de trouxas.
— Eu nunca entendi muito bem porque vocês terminaram — Sirius comentou de forma despretensiosa. Era bem óbvio que ele queria saber, mas ela preferia comer aquela lâmina do que ressuscitar o assunto.
— Não vamos ter essa conversa — avisou num tom perigoso, virando o líquido na palma de sua mão e depois pressionando contra o rosto dele. O aroma da loção pós-barba tomou o banheiro, uma das coisas mais cheirosas que ela já tinha sentido na vida, o que era dizer muito, dado sua longa carreira com ingredientes de poções. — Uau.
— Costumava fazer sucesso na época — ele insinuou, sabendo que ela se referia ao cheiro do produto — Acha que meus fãs vão gostar?
Bervely lhe deu um tapa sonoro no braço, ganhando a risada latida de cachorro. Sirius levantou para ir olhar o trabalho dela no espelho.
— Nada mal, filhota.
— Eu sou boa com instrumentos afiados.
— Não sei se isso me deixa feliz ou apavorado — ele deu um risada, admirando o novo rosto barbeado. O conjunto rosto limpo e sorriso como sempre o deixando uns dez anos mais novo, mas também evidenciando sua magreza, suas olheiras, a palidez do rosto pela falta de sol por um tanto tempo. Como se ele fosse um vampiro que acabara de se levantar do túmulo — de um jeito charmoso e totalmente rock and roll.
— Você não tem que ficar sozinha o tempo todo — Sirius disse para o reflexo dela, que lhe observava furtivamente ao fundo — Vá se divertir um pouco. Mesmo que seja com os antigos peguetes de escola.
Ela fez uma careta ultrajada.
— Eu não estou sozinha.
— Você sabe o que eu quero dizer — disse sugestivo, e porque ser sugestivo não bastava, completou com um sorriso amplo — Vá ter um pouco de sexo, de preferência selvagem e sem compromisso. Isso vai com certeza te deixar menos mal humorada.
Ela se indignou e virou o rosto, sumindo do reflexo do espelho.
— Nós não vamos ter essa conversa, Sirius Black.
Sirius deu outra risada rouca de cachorro, se sentindo muito mais leve e otimista do que acontecia há vários dias.
— EU ACHEI ELA! — Rony Weasley entrou gritando na cabine, quase matando os quatro ocupantes do coração. Ele ficou ligeiramente sem graça ao perceber que Harry não estava lá sozinho. — Ah, olá, Luna, Neville. Johanne. — Quando os três acenaram para ele em diferentes graus de choque, Rony se voltou para Harry imediatamente — Hermione! Ela estava na cabine dos monitores! Ela está bem!
— E cadê ela? — Harry quis saber, sua preocupação com a amiga se tornando aborrecimento, porque se ela estava bem, porque é que não dera notícias o verão inteiro?
— Está vindo — disse o ruivo com menos empolgação — Parou no caminho para falar com Cormac McLaggen.
— McLaggen? O que é que ela quer com…
— Oi, Harry! — Hermione irrompeu na cabine no mesmo instante, ligeiramente esbaforida. Harry deu uma breve olhada na amiga e constatou que ela estava ok, o que o deixou tão mais aliviado quanto chateado.
— Oi Harry uma ova, onde foi que você se meteu o verão inteiro que não podia responder nossas cartas?
Hermione piscou surpresa para a recepção hostil, mas logo puxou ar para se explicar.
— Tanta coisa aconteceu nesse verão! Você não vai acreditar quando eu te contar, mas isso pode ser depois. Me desculpe não responder as suas cartas…
— Os seus dedos caíram? Porque esse seria um bom motivo para não responder as nossas cartas.
— Minhas exatas palavras — Rony anuiu, embora dificilmente essas teriam sido as suas palavras exatas.
— Eu precisei despistar Edwiges um par de vezes, sinto muito. Ela atrai atenção, entende? Eu vou te explicar tudo quando… oi, Luna! Neville, como vocês passaram o verão? — Se virou enérgica para os outros dois, finalmente os enxergando.
— Bastante bom, quer dizer, fora aquela coisa que teve no Ministério no início do mês…
— Sim, aquilo foi horrível, não foi? — Hermione empalideceu ligeiramente — Eu vi no jornal, fiquei tão preocupada que vocês estivessem no meio da confusão! Mas depois pensei que não seriam loucos o bastante de deixarem vocês irem àquele evento… — ela se dirigiu à Harry e Rony.
— Na verdade nós estávamos lá — Harry disse num tom desafiador, sentindo satisfação ao ver o choque tomar o rosto da amiga. — Você saberia disso se tivesse lido a minha carta.
— Aconteceu alguma coisa com vocês? — perguntou ela, preocupada.
— Sim. Um monte de coisas.
— Harry, de verdade, eu sinto muito. — Hermione pousou os olhos na quinta pessoa na cabine, que ela não conhecia. — Oh, olá. Acho que não fomos apresentadas, sou Hermione Granger.
— Johanne Black — Anne levantou e estendeu a mão para ela. Hermione não deixou passar o sobrenome, suas sobrancelhas se franzindo ligeiramente.
— Black como em…
— Isso também estava na carta — Harry disse prontamente, feliz com o choque no rosto de Hermione. Isso nem mesmo era verdade, ele não tinha falado sobre Anne em suas cartas, mas Hermione não tinha mesmo como saber.
A garota olhou com novo interesse para Anne, que logo se transformou em pesar, misturado ainda com a confusão da notícia.
— Você e Almofadinhas se conheciam?
— Um pouco.
— Nesse caso, eu sinto muito pela sua perda.
— Ah — Anne teve dificuldade em reprimir o sorriso. Foi impossível não trocar um olhar com Harry, que também estava segurando o riso — Isso. Obrigada, mas acabou que não perdi nada.
— Quê? — Hermione piscou, atazanada. — O que isso– Harry, o que é que está acontecendo?
Harry decidiu que podia parar de torturá-la, só porque ele estava muito ansioso para dividir as notícias com Hermione e até mesmo com os outros; achava que não tinha problema compartilhar a verdade com Neville e Luna, já que eles também estavam lá na tentativa de salvar Sirius, e no exato momento que ele caíra no véu.
— Bem, algo aconteceu no Ministério… — então se lembrou de que aquela história não pertencia só a ele, ao que procurou o olhar de Johanne no outro lado da cabine — Você se importa se eu contar para eles?
— Claro que não.
Hermione lançou um olhar de estranhamento para aquela solicitação, mas não disse nada. Estava bem claro que tinha perdido um monte de coisas naquele verão. Harry recomeçou a falar, sabendo de antemão que deixaria a parte do punhal para um momento em que estivessem só os três. Por enquanto, só o resgate do véu interessava.
— Eu imagino que eles já tenham chegado à Hogwarts à essa altura? — Sirius perguntou em voz alta, entediado. Bervely levantou os olhos do livro em seu colo (Venenos naturais e antídotos fabricados) — e puxou a varinha para um feitiço horário.
— Não, mais um par de horas ainda. O que isso muda em sua vida?
— Só quero ter certeza de que eles chegaram em segurança — comentou, movendo uma peça do tabuleiro de xadrez bruxo. Ele estava jogando xadrez consigo mesmo porque segundo suas próprias palavras Bervely “não era um oponente à altura”. O que isso significava que eles eram ambos terríveis no jogo e acabavam empatados no meio da partida na maior parte das vezes.
— Tonks vai esperar na estação, ela vai mandar uma mensagem quando eles chegarem — disse Bervely, repetindo a informação que ouvira da prima no café da manhã. Nimphadora fazia parte da equipe de aurores enviada pelo Ministério para acompanhar o desembarque dos alunos de Hogwarts. Mas Bervely ouvira dizer que Dumbledore também tinha seu próprio e paralelo esquema, de forma que ela estava tranquila sobre isso.
— Eu continuo pensando sobre aquela garota maluca que tentou sequestrar Harry na casa dos tios. Não consigo entender o que ela poderia querer com ele. — Sirius mencionou, enquanto sua rainha branca destruía um cavalo preto. Pedacinhos da peça despedaçada voaram na página aberta do livro de Bervely, ao que ela espanou com as costas da mão.
— A cabeça de Potter anda bem cotada ultimamente, não espanta que gente de fora esteja querendo entregar ele para o Lord em troca de algum benefício, prestígio ou até dinheiro — comentou distraída, passando a página.
— Pare de chamar ele assim, você soa como um deles — disse Sirius por entre os dentes — E aí é que está, eu não acho que ela era gente de fora! Harry tem a impressão de que Bellatrix a conhecia.
— Como é? — Bervely abaixou o livro, interessada — Por que Potter acha isso?
— Logo antes de a seqüestradora atirar nela, Bellatrix a chamou de bastarda desgraçada. Por isso Remus teve a impressão de que se tratava de você, aliás. Quem mais sua mãe chamaria de bastarda com tanta ênfase?
Bervely franziu o cenho, tentando abafar a inquietação que o assunto trazia e deixar apenas o seu lado racional funcionando. Ela não teria acreditado que alguém atingira Bellatrix com uma arma trouxa se ela mesma não tivesse sentido isso. Na noite em que Potter fora ‘quase sequestrado’ pela trouxa louca e em seguida quase sequestrado de novo por sua querida mãe, Bervely tinha acordado com uma dor horrível na lateral do seu corpo e com o seu braço esquerdo ardendo, os espinhos da rosa pinicando a sua pele como não acontecia há muito tempo. Vez ou outra ela sentia algum reflexo vindo da conexão; era raro e Bervely conseguia bloquear esse tipo de coisa muito melhor agora; assim o fizera aquela noite, empurrando a dor para o fundo até que fosse só uma sensação desconfortável.
— Talvez Bellatrix também pensou que fosse eu? — sugeriu, incomodada — Por alguma razão insondável ela achou que eu estava tentando sequestrar Potter? Vai saber, ela não é a mais certa das criaturas.
Sirius pareceu pensativo, sua cabeça se inclinando ligeiramente enquanto ele olhava para o nada.
— Bellatrix sabe sobre o livro? Aventuras em Neverland e toda a sua história com… bem, com seu primo, suas alucinações… a coisa toda?
— Acho que sim — murmurou, ansiosa para mudar de assunto — Ela estava sempre rondando minha cabeça nessa época.
— Então talvez foi o que aconteceu. Ela achou que era você por causa do nome que a garota estava usando.
— Nome? — Bervely franziu, sem entender — Que nome?
— Wendy — Sirius lhe encarou surpreso — Você não sabe disso? A garota que tentou sequestrar Harry se chamava Wendy, ou assim ela disse. E a descrição da aparência dela se parecia muito com o disfarce que você usou para se infiltrar em Azkaban naquela época em que ajudou com a minha fuga… Bellatrix teria como saber disso também, eu penso? Se ela via seus pensamentos…
— Wendy? Você tem que estar de brincadeira comigo.
Bervely se levantara, o livro escorregando de suas pernas e caindo no chão sem que se desse conta. Sirius a olhou intrigado.
— Você sabe quem ela é?
— É lógico que sim, e você também sabe! Não é a primeira vez que ela usa um nome do livro para se disfarçar… COMO ninguém me disse isso antes? O que há de errado com vocês?
Sirius não conseguiu entender do que Bervely estava falando. Naturalmente, o nome de um elfo com o qual ele nem tinha interagido por mais de cinco segundos há quase três anos não tinha ficado bem gravado em sua mente.
— Bervely, o quê…?
— Eu preciso enviar uma coruja. Potter pode estar em perigo, e sinceramente, isso pode ser ainda pior do que… mas que droga. Todo esse tempo e ninguém me diz nada! Não se mova daqui, não receba visitas! Por tudo que sabemos, ela pode estar em qualquer lugar… ser qualquer pessoa… droga!



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