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Capítulo 8. O Caminho da Herança

Atualizado: há 4 dias




Você pegou minha mão, você me mostrou como

Você prometeu que ficaria por perto

Anham, tá certo

Eu peguei as suas palavras e acreditei em tudo que você me disse

É, aham, tá certo

Se alguém dissesse que daqui a três anos você já teria partido

Eu me levantaria e socaria todos eles porque eles estão todos enganados

Eu sei melhor que eles

porque você disse “para sempre”


Quem diria?


Who Knew – Pink

 

A porta do escritório de Andrômeda se escancarou com violência, a maçaneta afundando na parede num estrondo surdo. Tanto a medibruxa quanto a Sra. Weasley, a quem ela viera tentando acalmar na última meia hora, saltaram das cadeiras com expressões de alarme. Bervely apareceu no portal, lívida e furiosa.

— ONDE ELE ESTÁ? ONDE ELE ESTÁ?

Andrômeda sentiu seu sangue gelar, entendendo de imediato o que devia ter acabado de acontecer. A Sra. Weasley pressionava o peito como se quisesse impedir o coração de saltar fora.  

— Pelas barbas de Merlin!

— Bervely, é melhor você se…

— NÃO! ME DIGA ONDE ELE ESTÁ! EU QUERO VÊ-LO!

Ela fechou os olhos, resignada. Prevenira Snape de que aquilo aconteceria e é claro que não era ele quem estava ali para lidar com as consequências agora.

— Quem contou a você? — perguntou com a voz calma, tentando impor um contraponto à explosão da garota.

— O QUE IMPORTA QUEM CONTOU? — Bervely tinha o rosto branco, os olhos injetados e furiosos. — COMO VOCÊ PÔDE ESCONDER ALGO ASSIM DE MIM? COMO…?

Engasgou com sua próxima indignação, o que deu a Andrômeda a chance de pedir licença à Sra. Weasley, para quem lançou um olhar de desculpas ao mesmo tempo que a indicava até a porta. Bervely bloqueou a passagem, suas narinas infladas, uma veia de seu pescoço tremendo.

— Então é verdade? É verdade, ele está…? Onde ele está? Andrômeda!

— Ele está na ala de recuperação intensiva, Bervely. Se você esperar só um minuto para que eu possa explicar…

— PRO INFERNO COM VOCÊ E SUAS EXPLICAÇÕES! — exclamou ela, enojada. — EU NÃO ACREDITO QUE VOCÊ TEVE A CORAGEM–

Balançou a cabeça, palavras não eram o bastante para transmitir o quanto estava transtornada. Andrômeda deu um passo à frente tentando segurá-la, mas Bervely se desvencilhou dela, girando os calcanhares em direção ao corredor.

— Bervely, espere!

A garota esbarrou com Gui que estava vindo daquela direção, mas ele não pode fazer muito para segurá-la também. O rapaz se deparou com a mãe e com Andrômeda, a expressão da segunda como a de quem presenciava um descarrilhamento de trem se desenrolar.

— Eu sinto muito — ele ofegou, arrependido. — Eu não sabia que era um segredo. Quer dizer, é o pai dela…

Andrômeda franziu os lábios, se preparando para a tempestade. Era o pai dela sim, e era muito, muito mais do que isso, mas dificilmente alguém de fora entenderia.

 

— Você não pode entrar aqui sem permissão! — A curandeira da noite, uma mulher que Bervely lembrava vagamente de tê-la prendido à cama da primeira vez que ela se internara no hospital St. Mungus, tentou impedir a sua entrada na ala de cuidados intensivos. A bruxa arregalou seus olhos quando a viu puxar a varinha, um olhar maníaco em seu rosto.

— Se afaste ou eu vou virar você do avesso — ela rosnou. A bruxa sabiamente abriu caminho, obedecendo ao seu instinto de sobrevivência.

Bervely tentou pensar. Estava difícil, porque seu cérebro latejava e um medo monstruoso mastigava suas entranhas. No fundo da sua mente, ela sabia que estava delirando em algum canto do hospital, finalmente engolida pelo sono e tendo mais um dos malditos sonhos. Quando acordasse não seria real e ela ia de novo precisar aceitar que ele estava morto. Mas enquanto estava sonhando, ela precisava chegar nele de qualquer maneira, não havia uma segunda opção.

Quatro leitos na ala de cuidados intensivos, só um deles tinha a cortina puxada em torno da cama, os outros três estavam vazios. Ela avançou na direção do que devia haver um paciente. Quando puxasse as cortinas, ela saberia… ela o veria. No momento que os dedos tocaram o pano pôde ouvir o retumbar constante do coração do paciente, audível pelo feitiço que ela mesma usara no passado. Sim, era ele. Sentiu as juntas amolecerem como se fossem desmanchar, alívio e esperança misturados ao medo.

Arrastou as cortinas para o lado, tão agoniada que por um segundo nem conseguiu enxergá-lo de fato, só uma confusão de aparatos mágicos, tubos, feitiços girando ao seu redor, monitorando cada aspecto de seu metabolismo. Só então achou o rosto pálido e sério, o cabelo preto embaraçado contra o travesseiro, uma faixa pequena de seu torso onde sobressaiam os contornos das runas negras que Azkaban lhe deixara sobre a pele.

Não acorde. Não acorde, não acorde, não acorde, não acorde, repetiu em sua cabeça como um mantra. Às vezes ela acordava antes de conseguir tocá-lo e comprovar que era real. Eram os piores, mais frustrantes sonhos, quando sua cabeça lhe negava o breve e enganoso alívio de sentir a pele de Sirius, quente e viva, contra a dela.

Não. Acorde. Agora.

Bervely cobriu os três passos que a separavam da cama, estranhando a quietude. Nos sonhos Sirius sempre estava sorrindo para ela e não raro fazendo uma piada sobre o quão mal acabada ela se parecia. Mas não, ele estava dormindo dessa vez; seu peito subia e descia devagar, no ritmo de uma respiração arrastada. Ele estava pálido, os ossos do rosto saltados, os lábios branco-acinzentados. O ritmo do seu coração era lento, mais lento do que deveria ser.

— Pai?

Arfando, assustada (porque ele não abria os olhos logo?), Bervely deixou a varinha de lado e colocou a mão sobre o peito dele, achando a pele fria.

— Black, acorda, isso não tem graça nenhuma — pediu, ouvindo a própria voz tremer. Aquele era um novo tipo de sonho, ele não podia morrer nos seus sonhos também, não fazia sentido, era cruel, era completamente…

— Ele está em coma induzido, Bervely. Era o que eu estava tentando lhe dizer. A razão pela qual não lhe contamos é  que achamos que era mais sensato esperar até que a situação se estabilizasse.

— Se afaste de mim — sibilou para Andrômeda que acabara de entrar no quarto, lhe lançando um olhar tão cortante que a bruxa recuou. Atrás da tia, Bervely percebeu com vago interesse, havia dois bruxos da segurança do hospital aguardando instruções.

Ela se voltou para Sirius. Por mais doentio que fosse e por mais que fosse doer quando acordasse, precisava ver o sorriso dele antes, mais uma vez, os olhos dele acesos e brilhando, qualquer coisa.

— Pai, acorda por favor. Por favor — O segundo por favor soou mais como um sussurro de desespero.

— Ele não vai acordar, está dopado. Os danos do véu foram muito extensos… Olhe, vamos conversar lá fora, está bem? Vou lhe explicar tudo. Eu tenho certeza de que você quer saber como ele voltou e depois que eu terminar você pode me odiar o quanto quiser, eu vou entender.

Bervely fechou seus dedos em torno da grade da cama e com a outra mão recuperou sua varinha, apontando-a pra a medibruxa. Andrômeda fez uma careta de desagrado.

— Tire as drogas dele e o faça acordar.

— Isso não é uma boa ideia. Não sabemos como ele vai reagir e provavelmente vai haver dor…

— EU NÃO LIGO, ACORDE ELE!

— Não! — recusou-se em tom de ultimato. — Já chega, a vida do seu pai está por um fio e você está agindo como uma criança! Acordá-lo agora só gastará energia da qual ele não pode dispor!

Bervely apertou seu maxilar, irredutível. Ela deu a volta na cama, puxou a única cadeira para perto de Sirius com um gesto deliberado e se sentou rígida, um olhar duro em seu rosto.

— Eu não vou levantar daqui até ouvir a voz dele. Eu não me importo com o quanto isso vai demorar. Eu tenho a vida inteira.

Procurou os dedos inertes dele sob o lençol e entrelaçou com os seus. O outro braço passado sobre o peito de Sirius, a varinha apontada para Andrômeda e quem mais ousasse se aproximar, o olhar feroz em seu rosto a prova de não estava brincando.

— Nós devemos retirá-la, doutora? — perguntou um dos seguranças, incerto. Andrômeda sacudiu a cabeça com desânimo.

— Não, deixe-a. – Andrômeda observou a cena à sua frente de modo pensativo, por fim tomando uma decisão arriscada. — Odélia?

Ao ouvir seu nome ser chamado a curandeira veio até Andrômeda, ainda com medo de Bervely cumprir a sua promessa de virá-la do avesso.

— Doutora?

— Diminua os sedativos dele devagar ao longo da noite e veja como reage. Hipócrates permita que eu não me arrependa disso mais tarde.   

— BD –

Bervely dormiu por doze horas sem sonhar nenhuma vez. O som rítmico do que pareciam batidas de tambor embalavam seu sono como uma canção de ninar e apesar da posição terrível em que estava sentada, ninguém tentou movê-la dali. Quando acordou, ainda estava segurando a mão de Sirius com a sua mão direita, o outro braço atravessado sobre o peito de Sirius; tinha deixado cair a varinha, que rolara para debaixo da cama.

Teria dormido mais. Pela primeira vez em muito tempo havia essa impressão pairando em torno do seu sono, como se tudo fosse ficar bem quando acordasse, a sensação de não precisaria enfrentar nenhuma realização terrível e esmagadora ao abrir os olhos. Só abriu os olhos por conta do toque suave sobre sua testa, afastando a franja de cima dos seus olhos,  ao mesmo tempo em que uma voz rouca vibrou debaixo de seu ouvido.

— Hey, garota.  

Bervely sentiu o coração doer, ao mesmo tempo em que um arrepio corria pela sua coluna. A voz era inconfundível – rouca e danificada, mas única no mundo. Ela fechou os olhos, os apertou na verdade, desejando com todas as suas forças que fosse real.

— Não que eu não aprecie ser feito de travesseiro, mas acho que você está esmagando meu diafragma — ele murmurou, bagunçando o resto do seu cabelo ao invés de arrumá-lo.

— Desculpe. — Bervely ajeitou-se, sentando-se. Todos os músculos de seu corpo, do pescoço até a base da coluna, se esticaram e protestaram. Ela deu um gemido de protesto que logo evoluiu para um sorriso quando viu os olhos abertos de Sirius lhe fitando com diversão. O fundo de seus olhos arderam, o peito queimou com um alívio em brasas. — Você está acordado.

— Isso é um grande feito? — Sirius olhou ao redor, tanto quanto ele podia apenas movendo a sua cabeça. — O que aconteceu, isso é um hospital? Droga, eu fui atingido no Ministério?

Bervely sentiu vindo e até tentou controlar, mas era tão inútil quanto conter uma inundação. Seu corpo tremeu, sua garganta fechou como um torno e ela cobriu a boca com a mão, impedindo um soluço que misturava alívio e o terror daquelas últimas semanas. Não conseguia conter o que logo se tornou um estranho choro entrecortado. Os olhos de Sirius se alargaram com preocupação e ele tentou se sentar, querendo alcançá-la.

— Bervely, o que foi? Você está está me assustando. Alguém mais se machucou? Alguém morreu?

Ela assentiu, incapaz de falar. Conseguia ouvir o coração dele se acelerando com a ansiedade, o feitiço se tornando mais alto e martelando em seus ouvidos.

— Quem? — Sirius exigiu, ao mesmo tempo que tentava chegar alcançá-la, sendo impedido pelo tubo conectado ao seu braço. — Quem?

Ela balançou a cabeça; não importava, mas não conseguia parar de chorar. A sua parte racional sabia que estava ali, mas a emocional, aquela que fora moída e transformada em pó, tinha dificuldades de se recuperar tão rápido.

— Bervely, me responda! Quem morreu no Ministério?

— V-Você – ela conseguiu balbuciar, buscando ar. Sirius piscou sem entender.

— Eu estou bem aqui.

— Eu sei. Eu sei.

Ele finalmente conseguiu puxá-la contra si, o movimento lhe exigindo toda a sua energia. Sirius passou um braço em torno do ombro dela, a apertando com força contra seu peito, sentindo o corpo de Bervely tremer inteiro. Nunca a vira tão assustada, nem quando a salvara de um psicopata com doze corpos. Nem quando ela acreditou que ele seria beijado por um dementador.

— Eu estou aqui, Bervely — assegurou, sem saber o que mais podia dizer para acalmá-la.

Foi quando uma tontura forte fez surgir pontos escuros em suas vistas e uma dor aguda brotou em seu peito, bem debaixo das costelas. Uma série de dispositivos mágicos do lado esquerdo começaram a apitar como loucos; no segundo seguinte, três pessoas em jalecos verdes estavam entrando na baia. Uma delas tentou arrancá-la de perto dele às pressas. Assustada, Bervely não ofereceu resistência.

Os bipes se tornaram mais alarmantes; ela assistiu horrorizada os olhos dele girarem nas órbitas e seu corpo cair para trás com um tranco.

— O que está acontecendo? — perguntou horrorizada para o medibruxo que tentava tirá-la da baia. — Eu não fiz nada, eu não…  

O bipe agora era longo e contínuo como o grito de um agoureiro. Enquanto os dois curandeiros estavam em cima de Sirius aplicando-lhe feitiços de ressuscitação, ela se deixou levar para fora da sala, cobrindo os ouvidos com as mãos com toda a força, mas incapaz de abafar o som que anunciava algo de terrivelmente errado com ele. 

 

 

— Você sabe o que dizem, a quinta vez é pra dar sorte.

Bervely segurou o impulso vívido de socá-lo. Era o fim da tarde daquele dia interminável e ela enfim conseguira permissão para voltar à baia de Sirius, que se encontrava estável após sua quinta parada cardíaca. Ele tinha recomendações expressas para ficar em repouso absoluto, mas aparentemente isso não incluía deixar de lado as piadinhas infames.

Bervely estava de volta à sua cadeira. Ela não pretendia sair dali enquanto ele estivesse naquela cama, então era melhor mesmo que a chamasse de sua.

— Você quase me matou de susto, garota. O seu próprio pai, indefeso numa cama de hospital. Eu nunca pensei… que decepção — ele fungou, dramático. Bervely sentiu um bolo se formar em sua garganta. Ela sentia o sangue fugindo do rosto toda vez que se lembrava dos olhos dele ficando brancos e do corpo perdendo o tônus.

— Não tem graça nenhuma.

Com dificuldade Sirius moveu o braço livre, cuja mão estava enrolada em ataduras, e cobriu a dela, que ainda tremia levemente.  

— Acho que essa é a hora que peço desculpas.

— Não se desculpe pelas piadas de mau gosto que você não pretende parar de fazer —  retrucou com azedume.

Ele deu um sorriso triste.

— Eu me refiro à ter morrido. Não foi legal da minha parte.  

Bervely rolou os olhos, desviando o rosto para um ponto além dele, pegando um relance de movimento da cortina.

— Não seja ridículo, aquilo foi… eu só estava… — Assustada. Com medo. Completamente sem chão.

Não precisava explicar nada disso, é claro. Sirius sabia.

— Essa foi mais uma promessa que eu fiz e quebrei — disse ele, um olhar de tristeza em seu rosto que ela não suportava ver. Bervely balançou a cabeça, forçando um sorriso para fora.

— É só nunca mais fazer isso de novo e estamos bem.

— Nunca mais morrer? Combinado. Acho que é o tipo de coisa que a gente só faz uma vez na vida, de qualquer maneira.

Ela riu, surpresa de que ainda fosse capaz. Parecia que o peso inteiro do mundo tinha sido arrancado de seu peito; respirar era possível de novo, algo que Bervely não conseguia fazer desde que recebera a notícia por Remus em junho.

Era como se alguém tivesse aumentado o volume do mundo e ajustado o seu contraste. Sirius nunca conseguiria entender o tamanho da importância dele e sua vida e o buraco que deixara ao ir embora, um buraco maior do que ela poderia cobrir por si mesma. Só percebeu que estava olhando para ele muito intensamente sem dizer nada há uns bons dois minutos quando Sirius ergueu suas sobrancelhas, um sorriso surgindo em sua boca partida.

— Vai em frente, diga o que está pensando.

Ela suspirou, exasperação e a boa e velha resistência completando a mistura de seu estado emocional.

— Você sabe. E se você não sabe, você é um idiota.

— Ainda assim…

As cortinas em torno da cama se abriram, deixando passar Andrômeda Tonks. Bervely virou o rosto imediatamente; continuava furiosa com a tia e não achava que esse sentimento ia mudar num futuro próximo.  Sirius por sua vez abriu outro de seus sorrisos, que ele vinha distribuindo à torto e à direito, provavelmente efeito dos medicamentos para dor, que deixavam qualquer um meio bobo.

— Prima Andie! Estão dizendo por aí que eu… — Sua frase foi interrompida por um acesso de tosse. Andrômeda fechou a cortina de novo e lançou um feitiço de privacidade em torno deles.

— Não se esforce, Sirius, seus pulmões ainda não estão em capacidade plena. Parece que o seu tempo do outro lado do véu acabou os atrofiando. Mas não se preocupe, estamos trabalhando nisso. — Seus olhos treinados correram pelos feitiços e aparelhos atrás dele, fazendo uma leitura rápida de sua situação médica. — Como se sente?

— Como se eu tivesse morrido por um mês e meio.

— Ah, engraçado — ela rolou os olhos, reprimindo um sorriso. — Nós também queremos evitar a sexta parada cardíaca, então se quer mesmo que o mantenhamos consciente, por favor sem emoções fortes nos próximos dias — Aqui lançou um olhar significativo para Bervely, que a ignorou. — Não sabemos ainda o que há de errado com o seu coração e é isso o que mais me preocupa no momento. Já conseguimos reverter em grande parte a desnutrição e por completo a desidratação. Ah, e não sabemos o que causou a queimadura em sua mão. Você se lembra de alguma coisa? Qualquer lembrança sobre o que aconteceu do outro lado do véu pode ajudar no tratamento.

Sirius negou, parecendo desanimado.

— Eu nem mesmo sabia que tinha… caído no véu ou sei lá como se diz. Não faço ideia do que aconteceu nesse meio tempo. Mas dizem que o inferno é bem quente, talvez eu tenha colocado a mão onde não devia.

— Inferno? Não estou tão certa. Para piorar, o ministério tem sido ridiculamente resistente em me passar informações sobre aquele véu. Eu quis ir pessoalmente investigar o lugar e ver se eu descobria a que condições você poderia ter sido exposto lá dentro, mas eles se recusam a até mesmo a falar no assunto!

— Soa bastante como algo que o Ministério faria. Andie, não esquenta com isso. Essa coisa toda de véu pode ficar para trás agora, além do mais se você mostrar muito interesse no véu eles podem desconfiar e começarem a fuçar também.

Andrômeda concordou, embora Bervely pudesse dizer que a tia não estava totalmente convencida.

— Tem razão, o melhor a fazer é focar na sua recuperação agora. Eu preciso ir, mas quero que saiba que estou muito feliz em vê-lo acordado.

— Eu estou feliz em estar acordado, agora só falta me deixarem ficar na vertical para a alegria ficar completa.

— Não senhor, repouso absoluto até consertarmos seu coração — a medibruxa chefe repetiu a recomendação com seriedade. — Passo para lhe ver mais tarde. Bervely, a ala de cuidado intensivo não permite acompanhantes fora do horário de visitas…

— Eu quero ver você tentar me tirar daqui. — ela desafiou, olhando feio para a tia.

— … mas eu vou abrir uma exceção já que Sirius é o único paciente. — completou Andrômeda num tom diligente, logo em seguida se voltando para o primo — Eu sinalizei Remus Lupin, ele deve estar chegando muito em breve com Anne para ver você, Sirius. Mas não force a barra ou vamos ter que colocá-lo em sedativos novamente, você não está cem por cento ainda. Nem mesmo cinquenta.

Bervely esperou a tia deixar a ala para soltar um bufo de irritação.  

— Ela nem queria deixar você acordar!

— Bervely…

— Ela não me contou que você tinha voltado! Ninguém me contou, nem o seu amigo lobisomem, nem Snape, ninguém — Sua voz tremeu. Odiava o seu atual estado de nervos, mas estava lá e pouco podia fazer a respeito. Devia ser um efeito colateral de perder, recuperar e quase perder de novo seu pai em um espaço de menos de dois meses.

— Isso é terrível, mas acho que eles não queriam te fazer sofrer tudo de novo se eu não sobrevivesse.

Bervely balançou a cabeça, seus olhar cortado pela dor que ainda estava lá e não ia embora facilmente.

— Qual o sentido disso? Eu já estava sofrendo tudo de novo toda maldita vez que eu abria os olhos e descobria que você não estava aqui.

 

 

— Seu pulguento de uma figa, essa foi de longe a pior peça que você nos pregou na vida!

Sirius sorriu, observando o último melhor amigo entrar no quarto e se aproximar da sua cama. Algumas coisas nunca mudavam e uma delas era Remus Lupin. As mesmas roupas que já tinham visto dias melhores, com remendos e partes tão gastas que tinham perdido a cor, o cabelo castanho alourado entremeado com mais fios grisalhos do que ele se lembrava, aspecto cansado, e ainda assim, Sirius podia detectar aquela energia pré-lua cheia que ele emanava, como um estalo elétrico ao seu redor.

— Foi muita boa, não foi? — se vangloriou, estufando o peito coberto pela veste de hospital ridícula em que tinham lhe enfiado —  Voltar dos mortos e ainda mais bonito do que nunca, acho que aquele título de Maroto Rei é meu esse ano.

— Então você está vivo? — Remus comentou, como quem constata uma informação proveniente de fontes pouco creditáveis.

— Muito vivo. — assentiu Sirius, pesando os olhos com presunção.

— Sem chance de mudar de ideia?

— Vivo até o fim dos meus dias, não é assim que dizem?

Remus Lupin abriu um sorriso que poucas vezes aparecia em seu rosto com tamanha plenitude. Seus olhos cor de âmbar estavam rasos quando ele se aproximou e abraçou o amigo do melhor jeito que dava, considerando sua posição, meio sentado, meio recostado na cama.

— Bem vindo de volta, Almofadinhas.

— Obrigado, Aluado. E obrigado por cuidar dos filhotes enquanto estive ausente.

Remus sacudiu a cabeça, emocionado, o coração parecendo a ponto de explodir agora que via com os próprios olhos. Nem em seus sonhos mais loucos ele acreditara que poderia ter Sirius de volta. Mesmo ao ouvir que ele retornara do véu ainda imperava o pessimismo, sabendo que talvez demorasse muito e era possível que nunca ouvisse a voz do amigo novamente. A bolha de alegria que inflava seu peito naquele momento não tinha tamanho.

— Eu falei com Andrômeda, ela disse que você teve outra parada hoje de manhã — Ele se lembrou, seu modo de funcionamento natural como sempre fazendo esforço para lembrá-lo como o estado de alegria era frágil.

— Ah, não foi nada demais. A reação da Bervely ao me ver acordado foi um pouco intensa e parece que agora eu tenho o coração de uma velha sedentária de cento e dois anos.   

Uma sombra passou pelos olhos do maroto, que franziu as sobrancelhas à menção da garota.

— Bervely não vem encarando bem a coisa toda. Bom, é claro que ninguém encarou, mas ela em especial estava reagindo de um jeito bem preocupante.

— Ela vai ficar bem agora, ela recuperou o que precisava — Sirius deu uma piscadela, mas a confiança em sua voz não dissolveu a inquietação de Remus sobre assunto. Sirius tentou virar a cabeça para ver mais atrás de Remus, mas a cortina estava puxada.

— Onde está Johanne? Eu tive a impressão de que ela estava passando as férias com você na cabana.

— Ela veio comigo, está lá fora. Ansiosa para entrar, mas a curandeira só está deixando um de cada vez.

Sirius apertou os lábios, preocupado. Aquela coisa de morrer era tão abrupta que ele não tivera tempo de pensar em todas as implicações envolvidas.

— Como ela passou por tudo isso?

— Surpreendentemente bem. Muito madura. Pouco comunicativa, no entanto. É difícil saber o que se passa naquela cabecinha agora que ela aprendeu com Bervely a guardar as coisas para si mesma, nesse tempo que as duas moraram juntas.

Sirius deu um suspiro pesaroso. Remus capturou seu olhar, sabendo exatamente o que passava pela cabeça do amigo. Sirius era fácil de ler, sempre fora, nem os anos nem a distância tinham mudado isso sobre ele, ao menos não para Remus.

— Você não as decepcionou, Sirius — ele disse com severidade. — Ninguém tem culpa de morrer, você não fez de propósito.

— É diferente quando você tem filhos. Quando eles se machucam, não importa se existiu ou não a intenção, a culpa estará sempre lá — Sirius parou e riu de si mesmo. — Olhe para mim, filosofando sobre paternidade, acho que esse véu me arrancou uns parafusos. Aluado, é um êxtase e uma honra olhar para a sua cara amassada depois de voltar da morte, mas será que eu posso ver meu passarinho agora?

— Claro — uma expressão idiota de alegria não conseguia largar o rosto de Remus, por mais que ele tentasse se conter — Harry também está aqui para lhe ver.

Os olhos de Sirius se arregalaram.

— Oh, merda. Harry. Eu achei que ele estaria com os tios ainda! Droga, se eu bem o conheço, ele deve ter arranjado algum jeito de se sentir culpado pelo meu passeio do outro lado do véu.

— Mais do que isso, eu acho que ele está bastante confuso com essas novas… hum, presenças das quais ele nunca ouviu falar antes.

— Como assim, então ele não sabe… Vocês não contaram…?

— Não, você é o fiel do segredo, esqueceu? E você está vivo, o que significa que o encanto ainda está ativo e só você pode contar.

— Oh, dupla merda — Sirius escorregou a cabeça para um lado, derrotado. — Ele vai me odiar. Eu não o culpo, eu também me odiaria por esconder algo assim por todo esse tempo.

— Boa sorte! — Remus lhe dedicou um sorriso de empatia e deu um apertãozinho em seu ombro. — Bom ter você de volta, Almofadas.

— Você já disse, Aluado. Mais uma vez e vou achar que está apaixonado por mim.

Remus tentou estreitar os olhos, fazer cara feia ou dar qualquer outra demonstração de desaprovação, mas não foi capaz; estava feliz demais para fingir que sentia qualquer coisa diferente.

 

 

— Você viu a mamãe?

Essa foi a segunda pergunta de Anne; a primeira tinha sido se ele estava sentindo dor, para a qual Sirius mentiu, assegurando-lhe que as poções que os curandeiros estavam lhe administrando eram fortes o bastante.

Ela não era de papo furado, sua pequena caçula. Era um traço que ele particularmente gostava; naqueles últimos dois anos, nas chances de contato que tinham por carta e lareira, Anne sempre ia direto ao assunto e nunca falhava em diverti-lo ou impressioná-lo, a depender de qual era o assunto da vez.

Então tinha voltado da morte, a pergunta não devia tê-lo surpreendido tanto assim, mas Sirius não respondeu imediatamente. Ele tomou um tempo para observá-la com atenção; não via Anne pessoalmente desde que ela tinha doze anos. Não era mais uma garotinha, os traços da infância iam deixando seu rosto enquanto que os da adolescência tomavam o lugar. Sirius sentiu o peito se apertar com aquele sentimento familiar e desagradável de que, mais uma vez, estava perdendo tempo precioso com uma de suas filhas.

— Pai?

— Sim? — Sirius respondeu, sabendo que ela não tinha como saber se ele estava prestando atenção de outra forma. Nenhum dos tratamentos oferecidos pelo Instituto Flamel para curar a sua visão tinham surtido efeito, afinal.

— Então, você a viu?

Sirius suspirou pesadamente, obrigando-se a responder através do aperto em sua garganta.

— Sim. Eu a vi.

A boca de Anne se abriu de surpresa, ela puxou ar lentamente pela boca.

— Ela está… bem?

Como Anne estava bem perto da cama, ele conseguiu alcançar o rosto dela, onde colocou uma mexa do cabelo dela para trás da sua orelha, passando o polegar pela bochecha macia até a ponta do queixo que ela herdara de Olívia, suavemente pontudo completando o formato oval do seu rosto estreito.

— Ela está bem.

Anne mordeu o lábio; alguma coisa a inquietava, Sirius era capaz de perceber.

— Ela estava esperando por você?

— Eu não sei… ela estava lá por mim, mas eu acho que ela seguiu em frente, seja lá o que isso signifique.

— Oh. Certo — A menina assentiu inclinando a cabeça, o que fez seu pesado cabelo negro escorrer para os lados de seu rosto e encobrí-lo. Sirius, que esperava que aquele primeiro encontro pós-morte ocorresse ligeiramente menos depressivo, arriscou lhe dar uma cutucada e perguntar com a voz mais animada:

— Finalmente você e Harry se conheceram, hein? Que tal?

Suas bochechas se tingiram de um rosado pálido, que normalmente significava que Anne estava dizendo menos do que sabia.

— Ele é ok.

— Uma boa companhia quando você precisa puxar seu pai para fora do véu, eu penso? — brincou, já tendo sido informado por Remus como exatamente acontecera seu “retorno”.

— É, eu suponho que sim.

Ok, aquela quantidade de respostas curtas estava lhe deixando agoniado. Ela não devia estar só mais um pouquinho prolixa tendo acabado de recuperar o próprio pai das garras da morte?

— Anne, o que está havendo, você quer me contar?

— Está tudo bem — disse ela rápido, como se a pergunta lhe pegasse no susto. — Eu só… é muita coisa para processar. Desculpe. Estou feliz que você está de volta.  

— É o que todo mundo continua dizendo — ele resmungou, ligeiramente frustrado. — Vamos retomar essa conversa, está bem? Você não tem que dizer agora, mas quero saber o que está havendo.

Ela assentiu sem negar que havia algo, o que o inquietou mais ainda.

— Harry está ansioso para falar com você — disse Anne de repente, apontando para trás na direção do corredor. — Acho que vocês tem uns assuntos meio urgentes para discutir, né?

O tom ligeiramente acusador estava ali, apesar de ela o mascarar com um sorriso de lábios fechados. Sirius assentiu, suspirando.

— Tem razão. Vejo você mais tarde?  

— Claro. Até mais tarde.

A garotinha que ele conhecia teria lhe abraçado, mas ela não o fez; ao invés disso, apertou ligeiramente seu antebraço e deu meia volta, deixando o quarto. Sirius acompanhou os passos seguros de Anne para fora, tão certeiros como se ela tivesse decorado o caminho da saída no escuro.

Morrer era fácil e para frente, ele pensou abatido, mas viver às vezes era ter que aceitar o recuar de vários passos.

Quando Harry entrou no quarto, Sirius conseguiu pescar a hesitação em seus olhos imediatamente. Quantas vezes ele já vira aquele mesmo olhar em James, quando o maroto acreditava que alguém não estava sendo completamente honesto com ele?

Não houve grandes cenas de abraços ou lágrimas; Harry entrou com as mãos enfiadas nos bolsos, tentando esconder os sentimentos contraditórios que amargavam o retorno milagroso de seu padrinho à vida. Sirius resolveu facilitar e dar o primeiro passo.

— Hey, garoto. Então eu passo por todo o trabalho de fazer uma saída triunfal e você estraga me puxando de volta? Estou profundamente chateado.

Harry deu um sorriso fraco; seus olhos correram da mão enfaixada de Sirius até os artefatos de medibruxaria apitando de forma irritante atrás dele.

— Como você se sente?

— Como uma fênix que brotou da cinzas.

— Sirius… — repreendeu o garoto, travando um pouco seus dentes.

— Eu sei, sou um péssimo padrinho e você está puto comigo. Eu não tinha nada que morrer, etc. Vou tentar melhor da próxima vez, mas em minha defesa eu só estava tentando salvar a sua bunda magrela.

— Eu não estou puto com você! — Harry exclamou, se aproximando um passo. — Estou feliz que voltou. Muito! Mas eu não entendo como…

A entrada de mais alguém na baia os interrompeu. Bervely, que tinha ido tomar um banho e comer alguma coisa depois de muita insistência de Sirius, ressurgiu em roupas limpas e cabelo lavado, praticamente uma nova pessoa, não que Harry pudesse ter qualquer noção disso. Tudo que ele viu foi o eco de uma lembrança desagradável que lhe atingiu como um soco no estômago.

Ele a reconheceu no mesmo instante. Uma mulher com cabelos espessos e brilhantes e olhos grandes e semicerrados, sentada à cadeira como se esta fosse um trono…

— Oh, é Potter. Ninguém me falou que a nobreza estava no recinto, eu teria me anunciado.

Harry recuou, buscando sua varinha na calça, tendo todos os seus alarmes disparado.

Mas não era possível, não ali, e ela se parecia, ela estava… exatamente igual à como a tinha visto na penseira em seu julgamento, ele se deu conta. Bellatrix – uma Bellatrix vinte anos mais nova, mas ainda assim, ele não se importava como ela se parecia – o fato é que estava ali, bem ali entre ele e Sirius!

Harry apontou a varinha para a garota, cuja única reação foi o franzir suas sobrancelhas arqueadas.

— O que você está fazendo aqui? Voltou para terminar o que começou no Ministério? Ou seu mestre mudou de ideia e decidiu que ainda quer me matar depois de tudo?

— O garoto está delirando. — ela avisou de forma indulgente para Sirius, que assistia a cena se desenrolar com interesse.

— Não fale com ele! Sirius, como você não pode reconhecer quem ela é? — Harry se virou de novo para ela, furioso. –– É melhor você se afastar dele, mesmo que você nos mate, tem no mínimo oito membros da Ordem da Fênix lá fora, você nunca vai conseguir escapar daqui viva.

— Oh, sim. — ela abriu um sorriso amplo e mau. — Creio que você esteja me confundindo, Potter, vejamos se entendi corretamente…

Diante dos olhos de Harry ela transfigurou os poucos detalhes de suas feições que a separavam da verdadeira Bellatrix e envelheceu alguns anos, ao mesmo tempo em que tornava seu cabelo mais longo e selvagem. Os olhos de Harry se alargaram, suas narinas se inflaram, ele segurou a varinha mais firme e parecia prestes a pronunciar um feitiço qualquer.

Sirius por sua vez fechou os olhos, a visão da prima — a visão do que ela poderia ter sido sem Azkaban e toda a loucura, para ser mais exato — queimando em suas córneas, completamente deslocada naquele quarto do hospital em uma calça estampada e camiseta vermelho escura de mangas compridas.

— Bervely, isso foi completamente desnecessário. — repreendeu ele, franzindo os lábios em desaprovação.

— Ah, por favor, ele pediu por isso. É melhor se afastar dele, você nunca vai escapar daqui com vida!. — ela imitou uma voz fina de garotinha, olhando feio para Harry.

— Do que você a chamou? — Harry perguntou, aturdido, ainda bem pronto a azará-la se ela se movesse um centímetro da direção dele ou de Sirius.

— Bervely. — Sirius repetiu pacientemente. — Minha… hum, minha filha mais velha. Acredito que vocês não foram apresentados oficialmente? Já chega com a metamorfomagia, Bervely, ninguém é obrigado a ficar olhando para a cara feia dessa vadia.

Ela retrocedeu para a aparência anterior, encolhendo, esticando e diminuindo nos lugares onde precisava. Harry, que sentia o queixo cair sem que pudesse fazer grande coisa, olhou para Sirius como se ele tivesse… bem, como se ele tivesse acabado de dizer que aquela garota era sua filha mais velha.

— Sempre um prazer ser confundida com minha querida mãe — ela deu uma piscadela para Harry, inclinando ligeiramente a cabeça, soando ao mesmo tempo contrariada e arrogante.

— Sua mãe? Bellatrix é sua mãe? — Harry ecoou, choque desafinando sua voz.

Sirius bufou, agora olhando feio para a garota.

— Você não vai facilitar isso nem um pouco, não é?

Ela deu de ombros.

— Dói menos se você arranca de uma vez. Agora se os cavalheiros me dão licença, meu estrago aqui já está feito, eu vou esperar lá fora com os hipócritas que me esconderam que você estava vivo. Cabeças podem rolar, eu não prometo nada.

Quando ela saiu, Harry ainda não tinha sentido o sangue voltar a correr em suas extremidades, especialmente na cabeça.  

— Você teve uma filha com Bellatrix? — ele repetiu rouco. Um segundo depois seus olhos cresceram como pires. — Espere ai! Johanne também, ela também é sua… então ela também é…

— Não! Não, não, não, calma aí. Eu tive uma filha com Bellatrix, não duas. Johanne também é minha, você deduziu isso certo, mas ela tem uma mãe diferente. Tinha. Olivia morreu quando eu estava em Azkaban.

— Mas… — Harry sugou ar, tentando juntar peças de arestas desiguais. — Ela é sua prima.

— Ah, ainda estamos nisso. — Sirius lamentou.

— E ela é… Sirius, ela matou você! Tentou, quer dizer. Vocês se odeiam! Certo? Você disse que vocês nem tinham mais contato, naquele dia em que me mostrou a tapeçaria! E ela é comensal, ela… ela matou você!

— Ok, acho que estamos em looping aqui. Tudo que você acabou de dizer é verdade: nós nos odiamos, nós não temos mais contato há anos, a não ser por aquele ótimo duelo no Ministério que não acabou bem como eu queria, e sim, ela é uma comensal, mas ela não foi sempre comensal, Harry. Houve um tempo… — ele se deteve. Como diabos se explicava o que ele o tipo de relação que ele e Bellatrix tiveram um dia? — Houve um tempo em que éramos bastante próximos, antes de cada um seguir seu caminho.

Harry olhou para fora, na direção pela qual Bervely tinha saído. As sobrancelhas dele ainda estavam tão franzidas que formavam quase uma só.

— Mas ela é… adulta, quer dizer, quantos anos ela tem?

— Vinte. Vejo que você está fazendo os cálculos.

— Dezesseis! — Harry exclamou. — Você tinha que ter dezesseis ou dezessete anos quando ela nasceu, você ainda estava na escola! Como isso é possível?

— Garotos de dezesseis anos também fazem filhos, você sabe. — Disse ele com a sombra de um sorriso. Com certeza sua geração era bem diferente do que a de Harry no que se referia àquele ponto em específico.

— Meu pai sabia?

— Não, eu não contei a ele, nenhum deles. — Sirius achou graça de que aquela fosse a coisa que Harry ia querer saber, entre todas. — Eu estava envergonhado demais em admitir que eu tinha algo com Bellatrix. Além do que, ela escondeu de mim o fato de ter levado a gravidez adiante. Eu só soube que tinha uma filha cinco anos depois. E logo em seguida eu estava indo para Azkaban, então só retomamos contato na época em que fugi.

Harry meneou a cabeça, parecendo perdido. Sirius tinha a impressão de que ele ainda estava lá atrás, tentando encaixar duas peças de natureza diferentes, ele e Bellatrix. Desejava sorte ao afilhado – para a maioria das pessoas, esse era um quebra-cabeça sem solução possível.

— Eu queria ter contado a você sobre Bervely e Anne quando nos conhecemos, Harry, mas as coisas ainda estavam confusas. Eu tinha acabado de conhecer Bervely e não via Anne desde que ela era um bebê, eu não sabia como elas se sentiam em relação a mim.

— Tá. Certo. — disse o garoto, cruzando os braços protetoramente em frente ao corpo —  Isso foi no começo, mas e quanto aos anos seguintes? Faz três anos que você fugiu, Sirius, não passou pela sua cabeça me contar que você tinha uma família? Onde elas estavam, de qualquer jeito? Johanne diz que frequentou Hogwarts, mas eu não me lembro dela, e essa… Bervely… bem, fora o fato de que ela talvez tenha me sequestrado no verão, eu tenho bastante certeza de que não cruzei com ela nos últimos anos, eu me lembraria!

— Eu sei, eu sinto muito, mas foi pela segurança delas que eu não contei nada a você. Com toda a coisa de Voldemort rondando a sua cabeça no ano passado eu não achei seguro…  

— Oh, sim! Isso — disse o garoto com rispidez — Vamos esconder tudo de Harry porque ele é uma peneira furada para Voldemort! Que interesse ele teria em suas filhas, para começo de conversa? Ele só usou você porque era importante pra mim, mas eu nem as conhecia!

— Você ficaria surpreso, mas esse não é o propósito dessa conversa. — disse Sirius com gravidade. A discussão tinha alterado seu ritmo cardíaco, o que ele podia ouvir pelo bipe irritante do aparelho bem acima de sua orelha, pelo que tentou se acalmar antes que os curandeiros aparecessem e lhes interrompesse. — Harry, eu sinto muito por não ter dito antes, mas estou contando agora. Saiba que você sempre foi parte dessa família, mesmo sem conhecê-las. No dia que eu chamei você para morar comigo, eu contei a respeito para Bervely. Johanne considera você como um irmão há muito tempo, mesmo quando ela estava longe, ela sempre perguntou a seu respeito. O plano era que quando eu provasse a minha inocência nós teríamos uma casa com quartos o suficiente para passarmos os verões juntos… se você ainda quiser isso, é claro. Eu sei que é muito para processar. Um pacote e tanto.

Harry o fitou, os olhos verde-esmeralda brilhando, uma expressão indefinida em seu rosto.

— Honestamente, eu não sei se ainda posso fazer isso.

O bruxo mais velho tentou não deixar transparecer a decepção em seu rosto, mas não achou que foi inteiramente bem sucedido.

— Quero dizer, é mesmo bastante para processar — Harry disse nervoso. — Além do mais, eu tenho a sensação de que sua mais velha não gosta muito de mim. Se não antes, certamente não agora que apontei uma varinha pra ela. Mas, huh, não é por isso que não sei se vou poder morar com você quando provar a sua inocência. Sabe aquela profecia que Voldemort estava querendo pegar no Ministério? Ela se quebrou, mas eu tive a chance de ouví-la mais tarde — ele correu seus olhos aqui e ali, tenso. Sirius escutava, um vinco entre suas sobrancelhas escuras.

— O que dizia?

— Espere — Harry fechou a cortina que a filha de Bellatrix tinha deixado aberta, depois se aproximou mais da cama de Sirius para poder falar mais baixo. — É sobre mim e Voldemort.

Harry recitou a profecia que sabia de cor, sentindo o mesmo gosto amargo que experimentara ao ouví-la pela primeira vez:

Aquele com o poder de vencer o Lorde das Trevas se aproxima.

Nascido dos que o desafiaram três vezes, nascido ao terminar o sétimo mês.

E o Lorde das Trevas o marcará como seu igual, mas ele terá um poder que o Lorde das Trevas desconhece. 

E um dos dois deverá morrer na mão do outro pois nenhum poderá viver enquanto o outro sobreviver.

Quando terminou Sirius parecia intrigado, mas não muito preocupado.

— O que Dumbledore acha disso tudo?

— Ele acha que é verdadeira e que se refere à mim. Poderia não se referir, mas Voldemort me marcou — ele apontou sua cicatriz — E agora parece que em algum ponto do caminho nós vamos nos enfrentar e a única saída vai ser um matar o outro.

— Bem, nesse caso, vamos garantir que o “um” seja você e o “outro” seja ele — disse Sirius em tom de solução óbvia.

— Sirius, isso é sério. Eu vou ter que ser o assassino ou morrer tentando. — disse, se sentindo miserável. Não tinha falado isso em voz alta até então e não soava nem um pouco melhor do que quando ecoava em sua cabeça.

—Você tem que saber, Harry, que profecias são coisas extremamente subjetivas. Às vezes a interpretação é o exato oposto do que imaginamos num primeiro momento. Sem falar que na maioria das vezes elas nem mesmo se completam, sabia disso? O Ministério está atolado de profecias que nunca aconteceram.

— Essa me parece bem clara. “Um não pode viver enquanto o outro sobreviver”, não vejo muita brecha para interpretação livre. — ele insistiu, resistindo ao que achava ser uma tentativa do padrinho de tranquilizá-lo.

— É, não nessa parte. Mas se for mesmo você, parece que eu já te dei a arma do crime, não é? — Sirius lhe deu uma piscadela.

— Então você se lembra! — Harry exclamou — A Dra. Tonks falou que você não se lembrava de nada do que aconteceu desde que caiu do véu!

— Eu menti, é claro que eu lembro. — levantou a mão queimada, ainda envolvida com ataduras. — Me deu um trabalho dos infernos trazer aquilo de volta. Você está guardando direito?

Harry assentiu, dando uma batidinha na altura do seu casaco em que ficava o bolso interno, onde pusera o punhal antes de sair de casa. O padrinho fez um aceno de aprovação.

— Como você o conseguiu, onde ele estava? Por que você tinha que entregar ele pra mim? Pra que ele serve?

— Ow, calma ai garoto, eu estou avariado, uma coisa de cada vez. Até onde eu sei, é só um punhal. E eu não sei de onde ele veio, não exatamente. Foi devolvido para mim em algum momento dentro do véu, mas quanto mais tento me lembrar do que aconteceu lá dentro, mas as memórias me fogem. O que eu sei é que precisava chegar até você; isso eu sei desde os meus dezesseis anos.

— Como você poderia saber desde os dezesseis? — perguntou Harry sem compreender.

— Esse punhal é uma herança de família, está transitando entre os nossos antepassados faz séculos. É uma dessas bobagens tradicionais das famílias puro-sangue. Essa em especial diz que o punhal deve ser passado de padrinho para afilhado, sempre que o afilhado completa dezesseis anos. Eu recebi do meu padrinho – Alphard Black, o melhor da família, é claro que foi queimado da tapeçaria e expulso também – e ele me fez prometer que eu passaria ao meu afilhado quando o momento chegasse. Não dei importância na época, mas achava o punhal bem legal. Eu conseguia abrir qualquer porta com ele, mas acho que essa é sua única propriedade mágica. Quando eu fugi de casa esqueci de levá-lo comigo. Eventualmente voltei para buscá-lo e descobri que tinha sido roubado.

— Quem o roubou?

— Eu não sei, mas desconfio da minha querida prima, ela sempre teve uma mão leve para as minhas coisas. Deve ter ficado com ele depois que fui embora, como um souvenir. — Sirius disse aquilo num tom irônico, com um sorriso atravessado e uma nota amarga. — De qualquer forma eu não o vi mais, não faço ideia de como foi parar dentro do véu. Imagino que se é um objeto mágico e estava destinado à chegar até você, deu um jeito de encontrar o caminho. Não sei porque ele precisava me queimar do processo, no entanto — resmungou, olhando para a mão enfaixada.  

— Não é só você, Dumbledore não quis pegá-lo também. Acho que queima qualquer um com exceção de mim.

— Interessante. Deve ter desenvolvido essa propriedade depois de ficar perdido por um tempo, rolando de mão em mão sem chegar ao destino. Objetos mágicos podem ser temperamentais, eu teria cuidado. Além do mais vindo da família Black, provavelmente é amaldiçoado.

Harry fez uma careta. Depois ele se lembrou de outra coisa:

— Hey, você me deu de presente uma vez um canivete que abria qualquer porta!

— É, eu dei. Devia estar com isso na cabeça. O que aconteceu com aquele?

— Eu o derreti no Departamento de Mistérios.

— Pena. Mas agora você tem outro — ele sorriu — Esse não vai derreter tão fácil.

— Não — Harry murmurou pensativo, sua cabeça baixa. — Sirius?

— Sim?

— Eu sinto muito pelo que aconteceu no Departamento de Mistérios, foi culpa minha. Eu acreditei na armadilha de Voldemort e não só caí como arrastei um monte de gente comigo. Se não fosse por isso, você não teria caído no véu.

— Não se atreva a tirar essa culpa da vaca da minha prima, Harry. Eu ainda quero a revanche desse duelo e preciso de toda a raiva que eu possa reunir até lá.

Apesar de preocupado com as possíveis consequências desse plano, Harry sorriu ao ouvir o tom febril do padrinho. Se era raiva de Bellatrix que Sirius queria reunir, era melhor ele lhe contar o que a comensal da morte tinha feito no seu aniversário…

 

 

Os dias daquela semana se passaram devagar, com uma lenta recuperação de Sirius e nenhuma boa notícia a respeito de Gina Weasley, que continuava por um fio três andares abaixo. Com a chegada da lua cheia, Harry foi recomendando a retornar para a Toca, enquanto que Johanne e Bervely, segundo soube, foram para a casa de Andrômeda Tonks. Harry dividiu seu tempo em distrair Rony com jogos de Quadribol e de xadrez bruxo e visitar Sirius, aproveitando as várias vezes que os Weasley iam e voltavam do hospital, se revezando para não deixar Gina sozinha. O Sr. Weasley, os gêmeos e Gui precisaram voltar ao trabalho, enquanto que Charles tirou uma licença da reserva para ficar em família o resto do verão. Embora ninguém o culpasse pelo acontecido, era visível que ele se sentia responsável; não era incomum achá-lo repuxando os cabelos entre os dedos e murmurando coisas como “isso nunca devia ter acontecido”, quando achava que estava sozinho.

Lá pela quarta feira, a coruja que ele enviara para Hermione voltou, mas não trazia uma resposta dela e sim a sua própria carta, intocada. Preocupado, Harry a reenviou através de Edwiges; ele não sabia sobre as corujas do hospital, mas a sua jamais deixara de entregar uma carta, mesmo quando não sabia o endereço.

Mas na quinta feira à noite Edwiges estava de volta, exausta e trazendo a carta de Harry novamente fechada. Ela piou em tom de desculpas e foi se enfiar em sua gaiola, envergonhada por não ter sido capaz de fazer a entrega. Apesar de ser tarde, Harry foi até a cama onde Rony dormia enrolado em seu edredom dos Chudley Cannons como um rocambole de cenoura e o cutucou até que ele estivesse acordado o suficiente para dividir a sua inquietação com ele.

— Isso é bem estranho. Eu entendo ela não estar falando comigo, mas você… Você não fez nada para aborrecê-la, não é? – o ruivo sondou no meio de um bocejo longo, após ouvir Harry contar sobre o retorno das cartas.  

— Não, eu não fiz nada, mas o que foi que você fez para aborrecê-la afinal de contas?

Ele assistiu Rony evoluir para um tom de vermelho que rivalizava com a gole estampada em seu edredom.

— Eu, uh, a beijei na estação quando nos despedimos, depois de você ir embora.

— Você a beijou…? — Harry repetiu, a sombra de um divertimento emergindo em seu rosto.

— É. Na boca, com… língua. Ela não ficou muito feliz, acho que a peguei meio de surpresa.

— Hum. — Harry estava se segurando para não gargalhar, principalmente do nível de constrangimento do amigo. — O que ela fez depois? Bateu em você? Enfeitiçou sua cabeça num nabo?

— Não, muito pior. Ela ficou completamente muda, foi embora sem dizer uma palavra. Silêncio, cara. A pior das maldições. Acho que ela vai me matar quando nos encontrarmos na estação, teve o verão todo para planejar o crime perfeito.

Harry rolou os olhos.

— Eu não acho que seja isso, Rony. A gente devia fazer uma visita à ela amanhã. O que você diz, pegar as vassouras e voar até lá? Não vai ser mais do que três horas de viagem.

Rony assentiu, incerto.

— É, suponho que sim. Assim ela me mata logo e acaba com essa agonia.

No entanto seus planos foram frustrados na manhã seguinte, quando a Sra. Weasley os pegou empacotando mantimentos para a viagem. Ela ameaçou deixá-los de castigo por tamanha insanidade, lembrando a Harry o que acontecera da última vez que ele tinha saído de casa desacompanhado e exclamando que Dumbledore arrancaria seu fígado se ela o deixasse fazer um voo para o outro lado do país sozinho (aparentemente Rony não contava como companhia, mas a Sra. Weasley ignorou o protesto do filho a respeito). Ela os fez confessar sua inquietação e jurou que pediria a Arthur para visitar o endereço de Hermione, só para garantir.

No dia seguinte, o próprio senhor Weasley informou a Harry que os Granger não moravam mais naquele endereço; segundo os vizinhos eles tinham se mudado no começo do mês, embora ninguém fazia a menor ideia de para onde. Harry não tinha a certeza se a informação o tranquilizava, afinal Edwiges era uma coruja excepcional, teria encontrado Hermione onde quer que fosse sua nova casa.

Por fim não havia muito que ele pudesse fazer a não ser torcer para que a amiga aparecesse sã e salva na estação, em primeiro de Setembro. O fim do mês se aproximou sem grandes mudanças na rotina; manhãs no hospital com Sirius, que melhorava lentamente, mas com o humor sempre amuado por precisar ficar na cama. Às vezes ele também estava acompanhado de Anne ou Remus quando Harry aparecia. O garoto reparou que Bervely nunca estava por perto quando ele visitava, embora parecesse que ela não largava a cabeceira de Sirius no restante do tempo. Isso não o incomodava: não achava que conseguiria agir naturalmente perto dela, a semelhança da garota com a comensal da morte que matara Sirius e tentara o mesmo contra ele no dia do seu aniversário ainda o perturbava.

Em seu tempo livre, que era muito à essa altura, Harry acompanhava as novidades em todos os jornais bruxos que chegavam até a Toca. Na última semana de agosto, o Profeta Matinal anunciou o ataque de três dementadores à uma família de bruxos nascidos trouxas em Brighton, deixando suas cascas vazias para trás e uma marca negra feita de fumaça pairando acima do telhado. Era a primeira vez que o ataque de um dementador era diretamente associado aos comensais da morte, algo que temiam que aconteceria em algum ponto.

Além dos lobisomens engrossando as fileiras de Voldemort, ao que parecia ele também estava tentando atrair outras criaturas. Notícias de vampiros de família se sublevando dos seus donos e desaparecendo na noite sem deixar vestígios eram cada vez mais frequentes nas notas pequenas do jornal. Os boatos sobre Inferi continuavam a se espalhar aqui e ali, com depoimento de bruxos jurando que tinham visto um morto se arrastando perto da sua casa ou em um cemitério, embora seus objetivos nunca fossem muito claros.

Harry sentia com frequência que era impossível manter-se à par de tudo que estava acontecendo; todas as vertentes terríveis daquela guerra que estava se armando bem diante de seus olhos, sem que pudessem fazer grande coisa para impedir. Apesar de uma relativa tranquilidade na Toca nos últimos dias, Harry começou a se ver ansioso por voltar à Hogwarts, onde ele teria algo com que se ocupar que não fosse buscas obsessivas pelos jornais dos bruxos procurando por indícios de acontecimentos ainda piores a vir ou nomes de pessoas conhecidas no obituário. Haveria quadribol e aulas, e com Dumbledore lá, pelo menos uma garantia de proteção aos seus amigos. Além do mais, Harry acreditava que o diretor tinha um plano. Harry pretendia ter essa conversa assim que ele retornasse à escola, estava muito disposto a arrancar do bruxo cada migalha de informação que ele tivesse na direção de derrotar Voldemort.

No último dia de agosto, Harry pegou o Flú até o hospital para se despedir de Sirius. Ele estava no corredor do terceiro andar quando encontrou com Charles, que ultimamente passava mais tempo no St. Mungus do que em casa.

— Ah, você está ai, Harry. Bom, que bom. Estava indo ver a Gina?

— Hum…

— Ótimo. Ela está acordada, vai gostar de ver você.

— Ah, ela está? — Harry repetiu bobamente, sem saber o que mais dizer.

— Sim, está, você se importa de ficar com ela enquanto eu vou comer alguma coisa?

— Hum, tudo bem.

A verdade é que Harry estava evitando visitar Gina de novo. Ele tinha estado lá uma vez na semana anterior e a vira dormindo; ela lhe parecera tão frágil, pequena e quebrada naquela cama que ele sentira um terrível frio se enrolar em suas entranhas. A Gina que se acostumara a ver, especialmente no ano passado na AD, era forte e enérgica, pronta para enfrentar qualquer coisa  que se atrevesse a entrar em seu caminho com seu feitiço Ridikulus letal. Vê-la tão quieta era perturbador, muito mais do que ele conseguia entender.

Meio relutante, Harry entrou no quarto da ala de Danos por Criaturas. Foi recebido e magicamente desinfectado pela curandeira de plantão. Ele deu alguns passos até a última de uma série de camas, notando que aquela ala era muito maior do que a do quarto andar, onde Sirius estava. Encontrou a baia em que se lembrava de tê-la visto da última vez, a última da direita.

Gina estava sentada na cama, recostada numa pilha de travesseiros, usando um vestido amarelo. Uma bandagem enorme podia ser vista saindo do seu decote e envolvendo o ombro e o braço direito, mas fora isso ela parecia bem. Mais magra, as sardas do seu rosto destacadas pela palidez, mas bem. Abriu um amplo sorriso quando o viu.

— Harry! Você foi o único que nunca me visitou, achei que tinha esquecido da minha existência.

Ele deu um sorriso sem graça, se aproximando com as mãos enfiadas nos bolsos. Alguém trançara o cabelo dela ao lado do ombro, ele caia como uma salamandra de fogo até a barra do vestido. A luz que entrava pela janela bem ao lado da sua cama fazia seus cílios parecerem quase transparentes.

— Você tem muitos irmãos que te amam e não querem largar do seu pé, é difícil achar uma vaga.

— Não seja ridículo, você é praticamente família, poderia ter chutado a bunda deles a qualquer tempo.

Harry disse a si mesmo para relaxar, não tinha razão para ficar tenso, era fácil falar com Gina.

— Eu soube sobre Sirius! — ela vibrou — Fiquei tão feliz! Se tem um cara que merece uma segunda chance, é ele, não é?

— Tem razão. Foi inacreditável, mas ele está bem agora. E você também! Quer dizer… como se sente? Você está melhor, certo?

Gina assentiu, tentou um sorriso que convencesse, mas havia uma sombra por trás do seu olhar que o desmentia.

— Eu vou melhorar.

— Você está sentindo dor? — ele perguntou com preocupação, achando que era isso que ela estava tentando ocultar com todo o otimismo.

— Não nesse exato momento.

Ele soprou ar pela boca, impaciente.

— O que aconteceu lá, Gin? Como você foi chegar tão perto assim de um dragão a ponto de ser atacada?

Os olhos dela se acenderam, como se ele tivesse acertado a pergunta. Se ajeitou na cama, fazendo uma careta de dor no processo.

— Eu posso te dizer, mas tem que prometer que não vai contar para ninguém, nem mamãe ou papai e definitivamente nenhum dos meus irmãos.

Harry assentiu, preocupado com o que estava prestes a ouvir. Gina fez um gesto para que ele chegasse mais perto, indicando um espaço na cama para que ele se sentasse. Harry obedeceu meio sem jeito.

— Eu conheci um dragão. — ela revelou, enfatizando a palavra como se tivesse algum significado especial. Harry franziu as sobrancelhas, achando que estava perdendo alguma coisa importante.

— Você conheceu…?

— Nós ficamos amigos.— ela mordeu o lábio, pensando como poderia explicar o que aquilo significava — Eu o ajudei na floresta, então nos perdemos e ele me ajudou. Cinco dias na floresta com ele, ah Harry, se você soubesse… — Ela se deteve, mas Harry podia perceber o brilho de empolgação misturada com pesar em seus olhos.

— Esse foi o dragão que machucou você?

Gina negou vigorosamente.

— Foi um acidente, ele nunca teve a intenção!

Harry não quis contrariá-la, mas alguma coisa naquela história não se encaixava. Ele conhecia dragões o suficiente para saber que não eram do tipo amigável ou que, quando quase destroçavam uma garota, o faziam “acidentalmente”. Querendo mudar de assunto para águas menos perigosas, lembrou-se da carta que recebera dela há algumas semanas.

— Eu recebi seu cartão de aniversário.

— Ah. — ela corou um bocadinho nas bochechas. — Eu ia escrever de novo, mas acabei me envolvendo com as coisas na reserva.

— Tudo bem. Pelo menos essa não tinha nenhuma poesia sobre a cor dos meus olhos — ele provocou, fazendo-a corar ainda mais. Gina girou os olhos, decidida a não deixar Harry perturbá-la com aquelas lembranças constrangedoras de quatro anos atrás.

— Eu larguei a carreira de poeta depois daquele desastre completo.

— Não foi um desastre completo, como era mesmo? Olhos verdes como sapos cozidos…

— Cala a boca, Harry.

— Você comparou meus olhos com sapos cozidos.

Ela riu, que era o que ele percebeu que estava tentando fazer desde o início. Quando ouviu o som de sua risada Harry se pegou encarando-a. Depois de um tempo a expressão dela se modificou para uma mais séria e intensa.  

— Eu só estava tentando ajudar — disse Gina baixo, seus olhos agora aferroados aos dele enquanto se justificava. — Eu fui para a floresta porque descobri que havia algo lá que poderia ajudar você a vencer Você- S…. Voldemort — fechou os olhos por um momento ao dizer o nome do bruxo, como se isso também doesse. — Queria ser útil de alguma maneira.

— O que havia na floresta? — Harry perguntou sem entender.

— Algo para te dar sorte. Se você é mesmo o Escolhido, como eles estão dizendo, vai precisar de muita, não é?

Harry sentiu um aperto no peito que estava se tornando muito seu conhecido; era o que ele experimentava toda vez que alguém que ele amava se colocava em risco por causa dele e acabava se machucando. Queria desesperadamente que as pessoas parassem de fazer isso, porque não suportava que ninguém mais saísse ferido por sua causa.

— Nunca mais se coloque em perigo por causa de mim. — ele disse para ela muito sério, até mesmo aborrecido. Gina fez uma expressão teimosa.

— Não cabe a você decidir. E no que depender de mim eu vou continuar fazendo o que for preciso, não ligo para riscos.

— Gina, olha só pra você! Um dragão quase te rasgou em duas! Como pode dizer uma coisa dessas? — retrucou Harry com exasperação.

Apesar da dor que ela sentia crescer à medida que a dose forte de poção que tomara perdia o efeito, Gina se obrigou a sorrir perante a ingenuidade dele.

— Quando você vai entender que não está sozinho nessa? Você não está sozinho, Harry! Você tem a nós, você tem a mim. Eu sei que não parece muita coisa agora, mas espera só eu descobrir como curar esse arranhãozinho de nada — Apontou para o próprio curativo, que cobria na verdade um corte profundo de trinta centímetros que nenhuma poção ou feitiço conseguia fechar. — Se tem algo que eu aprendi com você ao longo desses anos é que é preciso continuar lutando, lutar até que as coisas estejam certas de novo. E se você vai fazer isso eu também vou, fim da conversa.

Ele meneou a cabeça, irritado com a teimosia dela mas ao mesmo tempo emocionado com a determinação em sua voz. Era estranho o alívio que experimentava ao ouvir aquelas palavras, por mais perigosas que elas fossem. Deveria desencorajá-la, afinal Gina já passara por tanto desde os seus onze anos, com o diário de Tom Riddle e agora um dragão! Racionalmente sabia que devia poupá-la, mas havia a parte dele que queria dividir o fardo que carregava em suas costas desde que ouvira a profecia no Departamento de Mistérios.

— Eu sei que você é muita coisa — Harry admitiu, sincero. — Você nunca pareceu pouca coisa pra mim, Gina.

Ela sorriu, suas bochechas ganhando nova camada de rosa. Harry soube o que precisava fazer, era a coisa lógica, certa e fácil esperando para acontecer, talvez há anos, desde que um certo cotovelo atingira a manteigueira.

Sem pensar muito, Harry se inclinou e uniu seus lábios aos dela. Gina se sobressaltou, mas depois ele sentiu que ela sorria, fechava os olhos e se entregava ao momento.

Harry se entregou também. Parece que ela tinha conseguido o que fora procurar na floresta porque, pelo menos naquele dia, a sorte estava do seu lado.



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