Capítulo 7. A Rosa sob a Lua
- Ly Anne B.

- 11 de dez. de 2016
- 28 min de leitura
Atualizado: há 3 dias
Mas e se eu deitasse aqui
se eu só deitasse aqui
você deitara comigo
e se esqueceria do mundo?
Chasing Cars – Snow Patrol
— Bervely, eu não sei mais o que fazer! Você está fora de controle!
Soprando seu descaso, Bervely inclinou a cabeça para trás e fitou o teto do escritório de Andrômeda. Como o resto da sala, tinha um tom de bege desinteressante delineado por um reboco irregular que parecia um caso feio de verruguite. Como um céu com nuvens, se ela usasse um pouco de imaginação, conseguiria achar imagens entre os contornos irregulares; uma pipeta de medição, um fecho de araramboia secas, um gato adormecido…
— Bervely! Eu estou falando com você!
— Pare de fazer um escândalo. Não foi nada demais — disse ela, voltando a cabeça para a tia.
Andrômeda, que estava em pé atrás da sua mesa, tinha uma expressão severa e contrariada no rosto. Como raramente acontecia, o cabelo longo e cacheado dela caía em desordem por cima do jaleco verde impecável onde estava bordado “Dra. Andrômeda Tonks, Chefe da Ala de Danos por Magia, Hospital St. Mungus” em letras pequenas sobre o bolso.
— Você foi pega por um membro da segurança do hospital tentando arrombar a despensa de poções medicinais do meu andar! Como isso não é nada demais?
— Eu não consegui, consegui? — Arqueou suas sobrancelhas, contrariada. — Algum idiota usou um feitiço específico de selamento que não responde ao Alohomora.
— É mesmo? Eu me pergunto por que será que algum idiota fez isso — ironizou a medibruxa, sentando-se intempestiva em sua cadeira.
— Não sei por que tanta tempestade no caldeirão. Aposto que pacientes tentam roubar poções o tempo todo aqui. Vocês são muito mesquinhos com suas prescrições para dor, pelo que ouvi dizer. E eu não vou nem começar a falar das poções de sono.
— Isso não é sobre o que os demais pacientes fazem, Bervely. — Andrômeda forçou sua voz a retornar para um tom razoável, esperando que assim fosse mais efetiva em atingir o escorregadio bom senso da garota à sua frente. — Isso é sobre o que você, minha sobrinha, faz sob a minha assistência, no meu andar. Meus superiores já estão começando a questionar a duração da sua internação aqui…
— Eu pensei que você e Snape estavam de acordo sobre a minha internação ter razões médicas válidas — disse cortante. — Se eu bem me lembro, vocês estavam ansiosos para me manter sob a vigilância de vocês tanto quanto pudessem, para que eu “não fizesse nenhuma besteira” — completou com quotes irônicos no ar.
— Nós estávamos de acordo porque pensamos que isso lhe faria bem, mas você não está cooperando! — Se exasperou de novo — Faz mais de um mês que está aqui e você continua desinteressada em seguir as diretrizes do tratamento que eu delineei para você!
— Se você estiver falando da estúpida terapia em grupo — ela torceu a boca, enojada. — Nem sob o meu cadáver eu vou ficar falando da minha vida para aquela aspirante à Moranguinho que você chama de Curandeira Chefe e para aquele séquito de legumes internados na ala Janus Thickey.
— Scarlert é uma ótima curandeira e poderia lhe ajudar muito se você a deixasse. — argumentou, mas tudo o que teve em troca foi o olhar inflexível de Bervely. — Certo, esqueça a terapia em grupo, e quanto aos exercícios de mágica autorreflexiva que eu recomendei?
— Eles não vão funcionar e você sabe disso. Nada vai funcionar — replicou, cruzando os braços. Seus olhos foram parar no pé da mesa do escritório; nunca tinha reparado que tinham o formato de patas de cachorro. Seu estômago deu uma reviravolta, como acontecia quando ela via qualquer coisa, por mais vaga que fosse, que lhe lembrasse dele.
Quando a tia voltou a falar, sua voz estava mais amaciada:
— Não vai funcionar mesmo, não com essa atitude. Deixe-nos ajudar você, querida. É para isso que estamos aqui, é para isso que eu estou aqui.
— Eu não preciso de ajuda. Só de… tempo — falou para o chão, sentindo os olhos arderem, uma agitação de agonia em suas entranhas lhe avisando de que talvez nem todo tempo do mundo fosse suficiente, não dessa vez. Bervely pigarreou. — Você nem me perguntou o que eu queria pegar lá dentro.
— Acha mesmo que eu não sei? — A medibruxa ergueu também uma sobrancelha castanho-escura, numa imitação do gesto da sobrinha. — Acha que eu não estou ciente do que Severo tem trazido para você a cada vez que o visita? Não que eu esteja de acordo…
— Então, se você sabe, por que não me dá a maldita poção de uma vez? Ele não aparece há dois dias. Eu não tenho nada para essa noite — pediu, esquecendo-se de sua dignidade. Andrômeda meneou a cabeça, penalizada, mas ainda assim inflexível.
— Não vai acontecer, Bervely. Você é plenamente capaz de lidar com seus sonhos, está na hora de parar de fugir deles.
Ela encarou a tia duramente, seus maxilares travados. Andromeda não entendia.
— O problema não é os sonhos, é acordar deles!
— Eu sei. Acredite em mim, eu sei. Ainda assim, você vai precisar encarar isso dessa vez, não há nada que eu possa fazer.
Contrariada, mas reconhecendo uma batalha perdida, Bervely se levantou e lançou à tia seu último olhar de profundo descontentamento. Estava prestes a sair da sala quando se lembrou de algo que queria perguntá-la antes, ao que virou-se já à porta:
— Andrômeda, sobre o que aconteceu no Ministério há dois dias… fora a morte dos treze aurores, houve mais alguma coisa?
A bruxa demorou alguns segundos para lhe olhar novamente.
— O que quer dizer?
— Eu tive a impressão de que Snape não me contou a história completa.
Alguém bateu na porta ao lado de Bervely e enfiou a cabeça antes de obter permissão; era um dos curandeiros da equipe de Andrômeda, um rapaz que lembrava à Bervely um dos tronquilhos que ela estudara em Trato das Criaturas Mágicas em seu terceiro ano de escola.
—Dra. Tonks? Há uma pessoa aqui que gostaria de falar com você, Arthur Weasley. Parece que ele está acompanhando um membro da família que acabou de dar entrada na emergência. Ele diz que vocês são amigos de longa data.
— Sim! Arthur, sim, é claro — Andrômeda confirmou, alarmada. — Diga que vou atendê-lo agora; pode encaminhá-lo pra cá, Perriot.
O curandeiro assentiu e fechou a porta. Andrômeda tinha se levantado da mesa e caminhava na direção da sobrinha, de volta ao seu modo eficaz de medibruxa-chefe.
— Querida, você pode voltar ao seu quarto agora? Preciso cuidar disso, mas prometo que conversaremos pela manhã.
Bervely abriu a boca e a fechou em seguida, balançando a cabeça em desaprovação. Ela se virou e saiu, fechando a porta atrás de si antes que precisasse ouvir um pedido de desculpas esfarrapado sair da boca da tia por estar dispensando-a em prol de Weasleys, entre todas as coisas.
Não voltou para seu quarto, no entanto. Não estava disposta a repetir a experiência da noite passada, a qual também tivera que passar sem poção do Sono sem Sonhos, então ao invés disso seguiu para o quinto andar, onde ficava a sala de chá para visitantes. Visto que já passava do horário de visitas, estava relativamente vazia; havia apenas um casal adormecido em um sofá, apoiado um no outro e roncando em uníssono. Ela atravessou a coleção dispare de poltronas dispostas em grupos até o lado oposto da sala, onde ficava uma pequena fonte encantada da qual um líquido escuro de aroma característico vertia livremente. Tinha uma série de propriedades mágicas, mas Bervely só estava interessada em uma delas no momento: a capacidade de lhe manter acordada noite adentro.
Ela interrompeu o fluxo da bebida para dentro de uma das canecas que achara precariamente empilhadas ao lado da fonte. Não era uma fã do gosto do café até descobrir suas propriedades, no Instituto Flamel. Os Alquimistas eram grandes consumidores de café; os ajudava a ficar atentos nas longas vigílias de caldeirão sem que precisassem sofrer os desagradáveis e inevitáveis efeitos dos elixires para despertar.
Sentou numa mesinha de dois lugares no canto mais afastado da porta, pousando a caneca fumegante à sua frente e tentando fazer com que o aroma do café acalmasse sua taquicardia. Ataques de ansiedade precediam a abstinência da poção e não havia nada que o café pudesse fazer a respeito disso. Ela fechou as mãos em punho, impedindo-as de tremer. Pensando na longa noite que tinha pela frente, abaixou a cabeça entre os braços e, testa encostada no tampo da mesa, começou a respirar fundo.
Uma, duas, três vezes, profundamente. Talvez devesse usar uma das estúpidas técnicas de relaxamento de Scarlet…
Não, não ia funcionar. Melhor arranjar uma lareira e acordar Severo para vir lhe trazer a droga da poção. Ou então, talvez ela pudesse arranjar um laboratório equipado e fazer ela mesma? Não lhe dariam acesso ao do hospital, é claro. Onde é que seria o segundo mais próximo? Diabos, se precisasse atravessar o país inteiro e ir até o seu próprio laboratório no Instituto, estava começando a considerar seriamente a possibilidade…
— Bervely? Bervely Black?
Bervely ficou rígida, odiando ser pega desprevenida numa posição vulnerável. Decidida a não demonstrar que se sobressaltara, ela levantou a cabeça devagar, pronta para descobrir quem era a pessoa que se atrevia a incomodá-la naquele momento tão íntimo com sua xícara de café, no seu canto escuro, em seu lento processo de pirar.
Seus olhos navegaram por um jeans grosso e desgastado de lavagem escura, seguido de jaqueta de couro e um par de mãos cheias de anéis de prata. O dono da vestimenta, da voz e dos anéis era alto, de forma que ela teve um longo caminho a percorrer até seu rosto magro, cabelo ruivo longo, brinco de garra, spikes, olhos cor de caramelo, um nariz reto e em perfeita harmonia com o resto do rosto masculino muito bem talhado.
Ah, sim, Weasleys. Ela devia saber que eles vinham em bando. Ainda assim, muito pouco explicava por que aquele em especial, que ela não via há muitos anos, estava ali em sua frente fazendo o favor de reconhecê-la.
— É você, certo? Mas você está diferente, achei que estava ficando louco.
Ele puxou a cadeira em frente a ela e se sentou sem qualquer necessidade de permissão. Gui Weasley continuava sendo exatamente o que fora antes, um dos rapazes de aparência mais impressionante com que já cruzara, bem como um pedaço quase esquecido da sua adolescência. Ela não sabia bem o que fazer com tudo isso naquele momento.
Gui estreitou os olhos pra ela, interpretando errado seu silêncio.
— Você sabe quem eu sou, certo? Porque se você não se lembrar, o golpe em meu ego será profundo e eu talvez nunca me recupere.
— Nesse caso, eu não faço ideia de quem você é, Weasley.
— E aí está ela, senhoras e senhores. — Ele tentou um sorriso torto, fazendo um aceno em direção à Bervely como se a apresentasse para uma plateia imaginária. — Isso é café?
Bervely assentiu, apontando a fonte para ele. O Weasley se levantou para se servir na fonte encantada, momento no qual ela se pegou dolorosamente consciente da sua aparência desmazelada. Não tinha exatamente se arrumado para arrombar o estoque de poções no meio da noite; apenas uma calça grossa de moletom e uma camiseta preta que Anne lhe dera no Natal passado, com uma fada mordente desenhada, e nem tinha se dado ao luxo de colocar roupa de baixo. Seu cabelo, embolado no fundo da cabeça com um elástico, devia parecer um ninho de cobras.
Guilherme voltou, trazendo sua própria caneca de café e voltando a ocupar a cadeira em sua frente. Bervely ficou olhando a boca grande e bem desenhada encontrar a porcelana e sorver o café quente, os olhos dele se fechando por alguns segundos em apreciação silenciosa. Ele pousou a caneca e olhou para ela, intrigado.
— Está aqui visitando alguém?
— Sim — mentiu, bebendo da sua própria caneca para evitar o escrutínio dele. — Você?
— Minha irmã sofreu um acidente. — Gui soou verdadeiramente arrasado ao contar — Parece que um dragão a mordeu ou, sei lá… não deu pra entender direito ainda, eu só sei que é bem ruim. Minha família inteira está lá embaixo, eu apenas… precisava respirar um pouco.
— A Weasley caçula? Gina, não é isso?
Gui assentiu, surpreso.
— Não achei que você se lembraria.
— Ela e a minha irmã eram do mesmo ano em Hogwarts. Além do mais, no meu último ano, a sua irmã foi levada para a câmara secreta de Slytherin e salva por Harry Potter. Não é algo que se esquece facilmente.
— Não. — Os ombros dele caíram, seus olhos vagaram perdidos pela sala de visitantes, sem se deter em nada em especial. — Ela já passou por toda essa merda e agora isso. Não é justo.
Bervely deu um sorriso amargo.
— Raramente é.
Ficou observando como ele se movia ao tomar seu café em silêncio. Naquelas últimas semanas, desde A Notícia, ela estivera ocupada demais em sua própria descida espiral da autopiedade para reparar em outro ser humano; era uma surpresa como eles ainda estavam por aí, respirando e vivendo suas próprias dores e dramas. Neste em especial, ela podia ler facilmente o desespero mudo de seus movimentos e o peso em seu olhar, no padrão da respiração. Se perguntou, com vago interesse, o quão ruim seria a situação da caçula Weasley – provavelmente pior do que ele estava lhe contando. Se ela fora atacada por um dragão não deveria ter sobrado muito para contar história. Era uma surpresa que tivessem tempo de trazê-la ao hospital, para começo de conversa.
— Eu não sabia que você tinha uma irmã — ele disse de repente. Tentando preencher com conversa fiada os seus próprios pensamentos, ela notou, na vã tentativa de fugir da dor que eles lhe traziam. Um erro de principiante no qual ela não caía mais fazia tempo.
— Eu mesma não soube até pouco tempo. Foi uma aquisição tardia, se é que posso dizer assim. O conhecimento da existência dela, quero dizer.
Gui assentiu, vago. Dava para dizer que ele não estava em seu funcionamento máximo.
— É por isso que você está aqui, por causa dela?
— Não. Minha irmã está bem.
Ou assim esperava. Não tinha notícias de Anne desde que dissera à garota para não mais a visitar ou enviar cartas. Esperava que ela fosse mais teimosa, no entanto, onde estavam os genes Black numa hora daquelas?
— Faz o quê, três anos desde a última vez que nos vimos? — Ele calculou, franzindo as sobrancelhas. — Nossa, você era uma garotinha. Me lembro de ter ido ao seu aniversário no chalé dos seus tios e tudo mais.
Bervely deu um suspiro frustrado, se mexendo na cadeira para ajustar a postura.
— Olha, Guilherme, isso aqui — fez um gesto de vai e vem entre eles — não vai funcionar. Eu não estou a fim de papo e eu sinto muito pela sua irmã, mas não há nada que eu possa fazer para que você se sinta melhor, então vamos parar por aqui.
As sobrancelhas dele subiram para perto da raiz de seu cabelo. Por um momento pareceu que ia retrucar, mas em vez disso assentiu. Seus dedos longos alçaram a caneca já vazia e ele a arrastou pela mesa de um lado para o outro, pensando em enchê-la novamente, mas acabou decidindo por se levantar.
— Você sabe de algum lugar por aqui onde eu possa fumar sem precisar sair do prédio? — Tirou uma carteira de cigarros do bolso, o que a indignou um pouco. Era bem a cara do Weasley mais velho, ovelha negra da família, carregar cigarros trouxas por aí como se fosse a coisa mais descolada do mundo. O fato de que isso a lembrava de outra ovelha negra ruiva não melhorou em nada o seu humor.
— Você pode ir para o terraço. Há chances de cair lá de cima, mas eu não me preocuparia.
— Me acompanha? — perguntou com inocência, ao que ela bufou.
— O que eu acabei de dizer sobre não querer essa festa da socialização, você é surdo?
— Merlin, quanta grosseria. Não precisa falar se não quiser. Só quero a droga da companhia.
Ela fechou os olhos, meneando a cabeça e soprando a respiração. Diabos, seu café ainda estava pela metade e já frio. O que ela estava fazendo, levantando-se? Uma garota devia poder confiar em suas pernas!
O fantasma de um sorriso passou pelos lábios dele quando a viu atravessar a sala de visitas e fazer um aceno impaciente com a cabeça para que ele a acompanhasse.
Não havia nada especial sobre o terraço do St. Mungus. Tecnicamente nem era um lugar onde deveriam ir, afinal ninguém jamais se preocupara em colocar feitiços de contenção nas beiradas ou mesmo grades, então tudo que havia ali era o telhado plano do prédio – vasto e quadrado – e depois dele, queda livre por uns trinta metros até a calçada da Londres trouxa.
Bervely descobrira o lugar por acaso há algumas semanas, quando se sentira claustrofóbica em seu quarto sem janelas e precisara de algum ar. Só fora ali naquela vez; para ser sincera, a altura ainda a apavorava um pouco. Nada no mundo a faria se aproximar daquelas beiradas por vontade própria. O acesso se dava por meio de uma escada oculta dentro de uma pilastra no quinto andar, ao lado da loja de presentes. Era preciso subir dez degraus e atravessar uma portinhola, além da qual se descortinava o céu.
Naquela noite em especial o céu era dominado pela lua crescente, quase cheia. Era um círculo imperfeito no céu, muito brilhante.
Sem compartilhar da sua acrofobia, Weasley avançou alguns passos na direção da borda, absorvendo a paisagem. As luzes de Londres se confundiam com as luzes da noite, estrelas na terra e no céu borradas pela névoa que pairava sobre a cidade. Ignorando-o, ela sentou na elevação de cimento bem no centro do terraço, que parecia um túmulo (mas era na verdade a estrutura sobre um tanque de água, reminiscência da época em que o prédio era ocupado por trouxas). Encheu os pulmões do ar quente do verão e fechou os olhos, fingindo que estava em outro lugar. Se tentasse com bastante afinco, podia sentir o cheiro do mar do Norte, de grama fresca, cachorro molhado e scotch. Todas as coisas perdidas e arrancadas que ardiam.
— Quer um trago? — Ele tinha voltado e esticava para ela um cigarro aceso. A ponta brilhava cor de laranja, soltando uma fina espiral de fumaça que girava para cima.
— Prefiro a morte lenta. — Torceu o rosto numa careta de desprezo.
— Pode segurar para mim só um segundo então? — Ainda apontava a coisa na direção dela. Com relutância, Bervely pegou o cigarro dos dedos dele usando seu polegar e indicador e o assistiu tirar um elástico preto do pulso, com o qual prendeu o cabelo num coque atrás da cabeça. Depois disso, Gui sentou ao lado dela e pegou seu cigarro de volta, puxando um trago profundo e, após um segundo, soltando a espiral branca para cima através dos lábios rosados. Uma brisa trouxe a mistura de nicotina, algo como casca de árvore, couro e colônia até o seu nariz; parecia vir direto de dentro das roupas dele, de sua pele, do cabelo, da curva quente do seu pescoço. Ela se sentiu ligeiramente tonta.
— Quatro anos — disse ela, achando que o silêncio não era mais seguro. Guilherme se virou com uma expressão divertida.
— Estamos fazendo isso, então? — Fez o mesmo gesto que ela fizera na cafeteria, de um para o outro. — Festa da socialização?
A garota rolou os olhos. — Você já arruinou isso de qualquer jeito quando ofereceu o cigarro.
— Só estava sendo educado — disse, dando de ombros. — O que tem quatro anos?
— Quatro anos desde a última vez que nos vimos, não três. Você apareceu na casa dos meus tios depois que a festa tinha terminado, com Tara à tiracolo e com a desculpa esfarrapada de que tinha acabado de chegar do Egito.
— Oh, certo — ele riu, se lembrando. — E se eu não me engano, você jogou o meu presente fora sem abrir… muito rude, Srta. Black. Mas essa não foi a última vez. Nós nos vimos na véspera de Natal, se lembra? Você foi à minha casa e me deixou comer seu pudim. E depois saiu correndo feito uma louca pela neve sem o seu casaco. Minha nossa, você era uma coisinha difícil.
Ah, sim. Aquela fora a época em que ela descobrira a verdade sobre Hector, tudo sobre aquele inverno era um grande borrão em sua memória.
— Eu ainda sou difícil. — Achou por bem informá-lo, só por garantia. Isso o fez rir de novo, dessa vez, a risada quase atingiu os olhos. Era uma coisa bonita de se ver, o sorriso de Guilherme Weasley.
— Cogumelos venenosos não mudam a sua natureza. — Ele deu uma piscadela para ela, jogando o toco de seu cigarro no chão e pisou com a ponta da bota de combate. Num gesto muito automático, pegou a lata de cigarros em seu bolso, puxou outro e acendeu com a ponta da varinha, colocando-o entre os lábios, puxando e soprando a fumaça. Ela conseguia imaginar como aquilo podia acalmar; meio que se acalmava só em assistir a fumaça branca e densa deslizar suavemente para fora de sua boca e desenhar padrões no vazio. — Você tem notícias de Tess?
Demorou uns segundos para Bervely se lembrar de que aquele era o apelido pelo qual ele se referia à Tara Romansek, sua ex-namorada, ex-parceira mágica de Bervely e ex diversas coisas que ela não estava disposta a enumerar naquele momento.
— Não — negou, decidida a não demonstrar que a pergunta a afetava mais do que deveria. — Ela anda sumida desde Hogwarts.
— Não é? Ela ficou um tempo sem falar comigo desde que terminamos, mas depois… — Guilherme fez uma pausa, provavelmente considerando se deveria mesmo dizer aquilo em voz alta. — Ela me procurou no Egito há uns dois anos.
— Ela procurou? — Pega de surpresa, Bervely virou o pescoço na direção dele tão rápido que sentiu um estalo. — Quando, exatamente? Como ela estava? O que ela queria?
Gui deu de ombros, soprando fumaça. Havia um sentimento de culpa rondando sua confissão quando prosseguiu.
— Em junho ou julho, acho? Eu não sei o que ela queria, ela parecia… transtornada? Depois eu soube que o pai dela tinha morrido num incêndio na casa dele alguns meses antes disso, mas na ocasião eu não sabia. — Pelas mandíbulas apertadas, dava para ver que ele se arrependia da decisão.
— Então ela te procurou e você a mandou embora porque estava com medo do pai dela, é isso? Por que ele pagou você para ficar longe dela e você achou que ele poderia pegar o dinheiro de volta se você quebrasse a promessa?
Ele olhou para Bervely como se ela tivesse ganhado duas antenas de explosivim no topo da cabeça.
— Como você sabe disso? — sibilou, transtornado — Nem Tara sabia!
— Ela sabia, eu disse pra ela no fim daquele ano — contou, amarga. — E não importa como eu descobri. Eu nem mesmo acredito que ela procurou você depois de tudo, você não merecia o perdão dela depois de se vender para Romansek.
— Eu não me vendi, ok! — Ele protestou, realmente irritado agora. — Aquele filho da mãe ameaçou tirar a mesma quantia da minha família se eu não me afastasse dela, e ele podia arruinar meu emprego, diabos, minha vida, se eu não fizesse o que ele queria. Não foi uma decisão fácil, mas foi a certa, se quer mesmo saber. Tara e eu não teríamos ficado juntos de qualquer maneira, só terminou mais cedo do que deveria.
— Acho que ela não pensava assim, se foi atrás de você depois de tudo — retrucou com azedume. Estava com raiva, mas sabia que não tinha nada a ver com Weasley e sim com o fato de que Tara fora embora e lhe deixara no escuro, mas procurara justo ele e o idiota não tinha lhe acolhido quando ela mais precisava. As palavras escaparam dos seus lábios sem rédeas: — Covarde.
O silêncio pesou entre eles, denso como o ar daquela noite de verão. Guilherme jogou a segunda bituca de cigarro no chão quase raivosamente, indo acender a terceira. Ela esperou, sem olhar para ele e com a respiração acelerada, o peito subindo e descendo. Não era saudável cutucar aquelas feridas antigas — Tara, Gavril Romansek queimando, tudo o que aquilo envolvia, inclusive seu escape da casa em chamas com Sirius. Sirius…
— Black, qual é o problema?
A voz dele estava bem distante e abafada, como se a ouvisse através de vidro grosso. Bervely sentiu uma pressão em sua cabeça e a aguda pontada nos pulmões que indicava a falta de oxigênio. Com desespero ela sugou ar pela boca, fazendo um horrível barulho de sucção, mas não veio nada.
Abaixe a cabeça. Esvazie a mente. Respire.
Não conseguia. As pontadas ficavam mais agudas, o seu corpo entrando em modo de alerta por conta da asfixia. Manchas pretas dançaram na frente dos seus olhos onde antes havia Gui Weasley, as estrelas atrás dele viraram riscos, a superfície dura e plana sob seu corpo se dissolveu, ela estava caindo…
Uma mão firme empurrou suas costas para frente, inclinando seu corpo adiante e depois sua cabeça para baixo. A posição relaxou seu diafragma, mas ela precisou ainda de tempo até conseguir puxar o primeiro gole de ar para dentro. Bem vagamente, tinha a consciência de Gui lhe dizendo que ficaria tudo bem. As pontadas foram diminuindo até sumir, deixando apenas sua respiração desigual no lugar.
— Melhor? — Ele perguntou com gentileza ao seu lado. Ela percebeu que a mão dele, grande e quente, ainda espalmava suas costas. A sensação de constrangimento a inundou, trazendo o sangue todo para seu rosto.
— Eu estou bem — murmurou sob a respiração, sentando-se ereta e afastando a mão dele. O olhar preocupado dele estava pregado nela, nem um pouco convencido.
— Não, não está. Eu sei reconhecer um ataque de pânico quando vejo um.
Bervely olhou para o outro lado, mortificada. Não havia uma situação em sua vida em que ela pudesse ser normal e não se ridicularizar em frente das pessoas?
— Percy tinha ataques de pânico quando era pequeno. Houve uma época em que ele tinha medo de desaparecer enquanto dormia, tinha pesadelos com isso. Passei um verão inteiro dividindo o quarto com ele só para acalmá-lo quando acontecia. Muitas vezes ele também não conseguia respirar.
— Tanto faz — murmurou, uma súbita vontade de se jogar dali de cima dominando-o, já que estava tão perto de qualquer maneira.
— Aqui. — Ele lhe ofereceu pela segunda vez o cigarro que segurava. Ela lhe lançou um olhar de incredulidade. — Sério, vai fazer você se sentir melhor.
— Era assim que você acalmava seu irmão também? Bem terapêutico — debochou, pegando o cigarro da mão dele e encostando-o relutante em seus lábios.
— Não, minha mãe me mataria. Você só precisa sugar e depois respirar fundo. Tente fazer a fumaça chegar aos seus pulmões. Não puxe muito de uma vez…
Ela tentou seguir a recomendação, mas no minuto em que a fumaça alcançou o fundo de sua garganta, sentiu uma irresistível vontade de tossir, seus olhos se enchendo de lágrimas. Engasgou sem nenhuma elegância, provocando outro sorriso nele, este misto de piedade e diversão.
— Não está ajudando. Essa coisa é horrível e fede.
— Você se acostuma. — Gui deu de ombros como se não fosse grande coisa, recebendo o cigarro de volta. — Tem um feitiço legal para tirar o cheiro depois, posso te ensinar se quiser. Além do mais, você tem que concordar que é bastante sexy.
Para comprovar seu argumento, ele fez um biquinho e soprou fumaça em vários anéis para cima, num trejeito exagerado. Ela balançou a cabeça, sem acreditar que alguém como ele existia. Mas o momento de graça passou e Bervely, apesar de ter recuperado o ritmo correto de sua respiração (e agora estar com o gosto amargo da fumaça em sua boca), ainda estava inquieta.
— Para onde Tara foi depois que procurou você? Ela disse alguma coisa?
— Eu não faço ideia. — Suspirando, Gui esticou as pernas longas para frente e inclinou o corpo para trás, deixando o pescoço pender para trás, se espreguiçando. Bervely afastou o olho da musculatura de sua garganta e do pomo de Adão proeminente, sua coluna se arrepiando. — Quando eu descobri que o pai dela tinha morrido, eu tentei escrever, mas ela não me respondeu mais. Por que, vocês também perderam contato?
— Sim. Tivemos um desentendimento.
— Ali está uma garota que sabe guardar rancor — ele balançou a cabeça. — Acho que o que resta para nós dois é esperar o dia em que ela queira entrar em contato novamente. Se esse dia chegar, o que eu duvido muito.
Ele terminou seu terceiro cigarro e, após se livrar do filtro, deitou na plataforma em que estavam, apoiando a cabeça nas mãos e fitando o céu com uma expressão pensativa. Ela não se cansava de se impressionar com pessoas como ele, que se sentiam à vontade em qualquer circunstância, que não planejavam cada um de seus movimentos. Era tão curioso, como uma espécie diferente que ela nunca fora capaz de compreender por completo.
— Então — ele interrompeu suas elucubrações, um cintilar malicioso no fundo dos olhos. — Você ainda tem uma queda por mim?
Pega de surpresa, Bervely sentiu-se esquentar. Grifinórios endiabrados, sempre a mesma coisa, devia estar acostumada.
— O que te faz pensar que eu já tive uma, para começo de conversa? — devolveu com ceticismo. — Fora esse ego gigante e equivocado que você arrasta atrás de você como uma terceira perna, quero dizer.
— Ah, corta essa, eu tenho um faro especial para coisas assim. Além disso, era recíproco, você sabia?
A confissão direta fez uma coisa se apertar na parte baixa de sua barriga. Ela estreitou os lábios, decidida a não deixar Weasley jogar com ela.
— Se era recíproco, por que você nunca fez nada a respeito?
— Como assim eu não fiz? Eu peguei uma chave de portal do Egito até a Inglaterra pra te dar um presente de aniversário!
— Sim, acompanhado da sua namorada, se eu bem me lembro. E ela nem tinha sido convidada — completou, seus olhos apertados. Ele sorriu, se divertindo com a memória.
— Ah, é. Minha nossa, como ela ficou puta. Tess morria de ciúmes de você. Mas sabe, você era tão nova e eu estava com ela há um tempo considerável…
— Nós tínhamos a mesma idade!
— …e Tess sempre me pareceu mais madura, você estava lidando com seus próprios dramas, era meio inalcançável. Na metade do tempo eu tinha impressão de que você não me suportava.. apesar da óbvia queda por mim, digo.
Bervely balançou a cabeça, contrariada e sem palavras. Ouvir que Tara era mais madura do que ela era um grande golpe em seu ego, quase demais para suportar. De seu ponto mais baixo, Weasley ainda lhe fitava com expectativa e divertimento, o céu refletido nos olhos escuros.
— Você ainda é consideravelmente insuportável — ela o informou, muito seriamente, através da garganta seca.
— Estou ciente. Você, por outro lado, já não é mais uma garotinha.
Os resquícios de divertimento tinham fugido do rosto dele, dando lugar a uma expressão intensa e magnética que ela sentiu nos seus ossos, nos seus nervos, no chamado pulsando na base de sua coluna e no meio das suas pernas. Não soube bem quem se inclinou primeiro, eles se encontraram no meio do caminho; ela apoiada sobre os joelhos, ele com o corpo erguido sustentando por uma mão, a outra vindo parar atrás do seu pescoço, os dedos longos e magros encontrando espaço pelo meio do seu cabelo. No segundo seguinte, Guilherme Weasley estava devorando a sua boca como se o mundo estivesse acabando e aquela fosse a sua última chance.
Ela se derreteu e queimou dentro daquela boca. Nem conseguia calcular há quanto tempo não era tomada com aquela necessidade, nem há quanto tempo não respondia com a mesma urgência. O resquício do café em sua língua se misturou com o de cigarro na língua dele, uma combinação que funcionou, culpa da sua excitação ou do jeito que ele usava a língua e os dentes para raspar seus lábios, ou as mãos para puxá-la para perto. Ela passou uma perna em torno do corpo dele, montando em seu colo, as duas mãos se enfiando nos fios ruivos e afrouxando o coque para que pudesse ter aquela maciez em suas palmas.
E, Merlin, ele era duro nos lugares certos, especialmente na parte de sua anatomia que pressionava entre as pernas dela. O cheiro de colônia e couro dominava seus sentidos, deixando-a tonta e faminta. Quando ele passou um braço pela sua cintura e girou seus corpos, a deitando sobre a plataforma e pressionando-se contra ela, Bervely deixou escapar um misto de suspiro e gemido que tinha tudo a ver com o peso dele, sua dominação, seu agarro firme em seu quadril, a coxa musculosa entre as suas. Ela não conseguia respirar de novo, mas por uma razão totalmente diferente e muito mais válida.
Achou que estavam perto da hora em que ele arrancaria suas roupas e que Merlin a ajudasse; ela não ia protestar, mas, em vez disso, ele se afastou dela como se tivesse levado um choque elétrico. Apoiando-se nos braços, um em cada lado dos ombros dela, ele ofegava, perturbação em seu rosto.
— Eu não posso fazer isso.
Bervely, que mal conseguia articular seus neurônios em duas conexões lógicas, olhou para ele sem entender. Gui sacudiu a cabeça, o cabelo agora solto, caindo como uma cortina em torno deles.
— Sinto muito.
Ele se afastou de vez, sentando-se. O fantasma dos lugares onde ele a tocara ainda queimando, Bervely ergueu-se também, a respiração e o coração fora de compasso.
— Péssima hora para ter um surto de consciência, Weasley.
— Você não entende — Os lábios estavam inchados onde ela acabara de morder e sugar sem nenhuma piedade. — Eu tenho… eu tenho alguém.
É claro que ele tinha. Bervely rolou os olhos, transtornada, lembrando-se das palavras de Tonks na primeira vez que ela tinha conhecido (e se fascinado) por Guilherme.
— Sempre há uma garota, não é?
Gui a encarou com um misto de fome, desejo e arrependimento. Sua luta interna era visível. Ela o viu sacudir a cabeça vigorosamente, como quem tenta convencer a si mesmo de não cometer um erro muito tentador. Por fim, Guilherme esfregou o rosto em visível frustração.
— Não é que eu não queira, acredite, eu quero. É só que as coisas estão finalmente começando a dar certo com ela e eu não quero estragar tudo.
— Muito nobre — disse com uma pontada de ressentimento. Bem, isso e a frustração que queimava em sua calcinha.
— Eu provavelmente deveria ir checar minha irmã agora — ele anunciou, se erguendo meio sem jeito e arrumando o cabelo que ela desalinhara.
Bervely meneou a cabeça, soltando ar com exasperação.
— Covarde — disse pela segunda vez na noite.
— O que você disse? — Ele não a ouvira. Já estava de pé, seu corpo longo fazendo sombra sobre ela, sua silhueta ocultando a lua atrás dele.
— Eu disse que mudei de ideia, acho que vou aceitar aquele cigarro se a proposta ainda estiver de pé.
Em vez de ir checar a irmã como disse que iria, Guilherme ficou e fez seu melhor em ensiná-la a “técnica” de fumar um cigarro. Ela continuava odiando o cheiro e o gosto e decidiu que jamais buscaria aquela coisa por espontânea vontade, mas era verdade que agora ela se sentia mais calma. Era como se a nicotina jogasse um véu sobre os seus problemas, inquietações e agora frustração sexual. Ainda estava tudo lá, mas encoberto e quase inacessível pelo menos enquanto a droga continuasse circulando em seu sistema. Não era tão diferente do embotamento que a poção lhe proporcionava, nem iria impedi-la de sonhar com Sirius durante a noite, mas era quase tão bom quanto.
Enquanto lhe instruía, Weasley conseguiu – sentado a uma distância segura dela dessa vez – superar seu surto de consciência e engatar um assunto neutro. Ela podia dizer que a vontade de prosseguir do ponto onde tinham parado ainda estava ali, rondando o espaço entre eles como um gás que só precisava de uma faísca para explodir tudo. Às vezes seus olhares se cruzavam numa intensidade que não estava relacionada com o assunto e um dos dois precisava quebrar o contato e superar a urgência, mas à medida que as horas avançavam foi ficando mais fácil.
Eles conversaram sobre os rumos de suas vidas naqueles últimos anos. Ele lhe contou sobre suas atividades como quebrador de feitiços para Gringotes no Egito, que no fim das contas era mais interessante do que Bervely imaginara, envolvendo excursão a pirâmides e caça a tesouros há muito tempo perdidos e até duelos contra um exército de múmias ou um enxame de escaravelhos amaldiçoados.
Bervely lhe fez um resumo da sua vida pós-Hogwarts, falou sobre o Instituto Flamel e os primeiros dois anos de sua formação em Alquimia, pelo que ele ficou bastante impressionado. Ela lhe contou sobre Anne e as tentativas de curar a sua visão, que não tinham obtido sucesso por todo aquele tempo. Falar do Instituto lhe trazia um gosto agridoce à garganta, já que não sabia quando seria capaz de retornar ou mesmo se um dia retornaria.
— Hey, espera aí. Eu conheci sua irmã! — Ele exclamou, recordando-se — Ela estava na sed… digo, eu a vi com Remus um dia desses.
— Ela estava na Sede da Ordem da Fênix, você quer dizer? Eu sei sobre a Ordem. Quando foi isso?
— Logo após o ataque ao Ministério. — disse ele, aliviado por ela já saber. — Você ouviu sobre isso, certo? Foi há dois dias, vários nascidos trouxas morreram envenenados por algo que Você-Sabe-Quem plantou na cerimônia, ainda não sabem exatamente o quê ele usou. A sua irmã estava no Ministério, depois, ela voltou para a sede com Potter.
— Com Potter? Ela estava bem?
— Sim, ela estava. Eu acho que estava. —A hesitação dele que a inquietou.
— O quê? Desembucha, Weasley, o que aconteceu com minha irmã nessa festa que ninguém está me contando? Eu SABIA que Snape estava me escondendo alguma coisa!
— Quê? Não aconteceu nada com sua irmã! Não pira, Bervely. A garota está bem, eu juro.
Como ele pareceu muito certo disso e sustentou seu olhar, ela deixou escapar um suspiro frustrado e desistiu de pressioná-lo, em vez disso, esfregando o rosto com as mãos num gesto de frustração. Deixara Jinx para ficar de olho em Anne, mas o gato voluntarioso só lhe transmitia notícias quando queria e não era como se ela soubesse como alcançá-lo por si mesma. Quando se deu conta, uma mão de Guilherme estava em seu ombro, afagando sua pele em círculos. Não fazia ideia de por que ele achava que aquilo era seguro, afinal, a qualquer momento seu corpo poderia reagir de novo, queimando e pedindo loucamente pelo dele como fizera antes.
— Qual é o problema, Black? Você pode me contar. Eu sei que a festa da socialização não é a sua festa, mas é bom desabafar de vez em quando. Você pode me usar pra isso, eu deixo. Considere como um favor que eu lhe devo por não ter terminado o que começamos naquela hora.
Ela riu da lógica distorcida, mas foi uma risada sem emoção. A verdade é que estava cansada, sonolenta e anestesiada pela nicotina, mas ainda tinha medo de voltar para o quarto e dormir.
— Eu menti, hoje mais cedo — confessou, suas palavras se adiantando à sua vontade, depois de todos aqueles meses se recusando a se abrir com sua tia, seu padrinho ou sua irmã sobre o assunto. — Não estou aqui como acompanhante, e sim como paciente.
— É, essa parte eu meio que deduzi sozinho. — Ele deu uma risadinha, ao mesmo tempo que a mão descia por suas costas e pelo seu braço, alcançando sua mão, que ele envolveu com a dele. O toque ainda deixava seus nervos em alerta, mas também era inesperadamente reconfortante e encorajador. Duas sensações que ela jamais esperara que fossem provocadas justamente por Guilherme Weasley, entre todas as pessoas. — Por que você está aqui? O que está errado?
— Eu perdi parte da minha habilidade mágica — se ouviu admitir. A confissão em voz alta trazia ao mesmo tempo uma pontada de dor e outra de alívio. — Minha tia diz que é resultado de um trauma. Como da última vez, só que muito pior agora.
As últimas palavras saíram entrecortadas de seus lábios. Gui apertou mais forte sua mão em torno da dela, espremendo as verdades para fora.
— Eu não consigo dormir sem tomar poções que me impedem de sonhar.
— Você tem pesadelos? Me conte sobre eles — A voz dele era suave, o mesmo tom que usara durante seu ataque de pânico. Ela imaginou que ele treinara aquela voz com todos os seus irmãos menores através de diversas crises grandes e pequenas ao longo dos anos.
— Não são pesadelos. São sonhos bons. São incríveis, os melhores possíveis. Mas aí eu acordo e é quando descubro que eles não são reais. Não podem ser. Porque ele está morto. — Ela estremeceu, seu coração começando a pulsar de forma dolorosa de novo.
— Eu entendo — murmurou. — Deve ser terrível. Quem você perdeu?
— Meu pai — disse ela num fio de voz.
— Será que eu cheguei a conhecê-lo?
— Acho que sim. Provavelmente sim, ele estava na Ordem da Fênix, e se não de lá, você provavelmente o viu em todos os jornais e nas paredes de todos os estabelecimentos bruxos três anos atrás — comentou, com a voz rouca e vazia.
A reação de Gui foi estranha; ele a soltou e se afastou. Bervely levantou o rosto para olhá-lo e percebeu que ele parecia confuso.
— Sirius Black é seu pai? Eu pensava que seu pai era… outro Black. Não Black Black.
Ela deu de ombros, olhando para frente antes que ele a visse chorar.
— Mas Black está vivo, certo? Eu ouvi dizer que ele estava resistindo bem, apesar de tudo.
— O quê? Não — negou, achando que ele estava confundindo Sirius com outra pessoa. — Ele se foi na Batalha do Departamento de Mistérios, em junho. Caiu em um véu da morte estúpido ou algo assim.
— Isso — Gui assentiu, seus olhos apertados, tentando encaixar as peças. — Mas então ele voltou, certo? No mesmo dia em que os aurores morreram. A coisa toda é meio confusa, mas não foram a sua irmã e Potter que trouxeram ele de volta? Isso é tecnicamente segredo da Ordem e eu não estava certo se podia comentar antes, mas desde que ele é seu pai…
Bervely estava de pé. Havia uma batida surda em seus ouvidos, uma pulsação no ponto atrás dos seus olhos.
— Minha irmã e Potter o quê? O que é que você está dizendo?
Ele também se levantou, alarmado.
— Eu só… eu não sei a história toda, mas eu estava lá na Ordem quando Potter contou isso para Remus Lupin. Eles puxaram Black de volta do véu e ele estava muito mal, mas vivo e o trouxeram aqui para o St. Mungus…
Ela não estava mais ouvindo. Um segundo depois, ela não estava mais lá; tinha tomado o caminho de volta ao interior do hospital antes mesmo que ele tivesse a chance de segui-la.



Comentários