Capítulo 6. O Coração do Cão
- Ly Anne B.

- 28 de nov. de 2016
- 27 min de leitura
Atualizado: há 4 dias
Eu te amo tanto
Não é o suficiente
E a vida é como um cachimbo
E e sou como uma pequena moeda
subindo pelas paredes
Back to Black – Amy Winehouse
A reunião da Ordem da Fênix naquela noite foi ainda mais deprimente do que Harry imaginara.
Arthur, Gui e Fred arrumaram o segundo andar para que se tornasse uma sala de reunião, transfigurando a velha cama partida em uma mesa comprida de treze lugares com cadeiras desparelhadas. As janelas foram enfeitiçadas com cuidado para não deixarem passar luz e denunciarem aos moradores da vila que a casa estava sendo usada; depois, o enorme candelabro do teto foi aceso, cada um dos seus cristais emitindo uma luz amarela fantasmagórica que transformou a sala em algo parecido com uma fornalha fria. Jorge desaparatou e sumiu por um tempo; quando voltou, trazia garrafas de bebida quente e sanduíches que distribuiu entre eles, ainda mais quieto do que Harry jamais o vira.
Aos poucos, os outros membros da Ordem foram chegando. Hestia Jones, parecendo agitada; a prof. McGonagall ainda usando as vestes da festa, mas sem o seu bonito chapéu; Estúrgio Podmore, muito mais abatido do que Harry se lembrava; Kingsley, esse com um grande corte negligenciado em seu pescoço; Fleur, que trocara o vestido longo por um jeans e camiseta, mas não conseguia parecer nada menos que deslumbrante neles, e Remus, para o qual Harry imediatamente tomou a direção, tentando ler a expressão em seu rosto e tirar uma pista de que notícias de Sirius ele teria. Mas no mesmo momento Dumbledore aparatou na sala e as conversas paralelas entre eles cessaram de imediato.
— Professor — Tonks se aproximou de Dumbledore, audível para Harry que estava parado perto da porta. — Harry gostaria de participar da reunião e eu sei que normalmente não consideramos a presença de menores, mas creio que nas circunstâncias, quero dizer, se o senhor achar que é uma boa ideia…
Dumbledore olhou diretamente para Harry, que o encarou de frente, preparado para teimar se preciso.
— Você está bem, Harry?
— Sim, professor. — Ele disse sem titubear. Dumbledore o olhou longamente, como se considerasse a extensão da verdade da sua resposta.
— Muito bem, pegue uma cadeira, meu garoto. Mas saiba que pode mudar de ideia ao longo da reunião e ninguém irá julgá-lo.
Ele assentiu e puxou uma cadeira. Sentia os olhares de alguns membros da Ordem em sua direção, mas evitou fazer contato visual com eles. Remus sentou ao seu lado, pousando uma mão no seu ombro.
— Obrigada por ficar com Anne enquanto fui lá — ele sussurrou, fazendo Harry se sentir culpado, porque isso nem passara pela sua cabeça. Na verdade, desde que subira para a sala de reunião improvisada, ele nem se lembrava de ter visto a garota de novo. — Eu o vi, ele está…
— Minhas desculpas pelo atraso, Prof. Dumbledore. — Snape irrompeu sala adentro, como sempre esvoaçando as vestes atrás de si como um grande morcegão, distraindo Remus.
— Acho que todos os que deveriam estar aqui estão agora — Dumbledore pigarreou — Podemos dar início ao que deve ser uma reunião breve. Sei que estamos todos cansados de uma noite longa e terrível e só queremos alcançar nossas camas. Héstia – o diretor se voltou para a bruxa de faces coradas à sua esquerda. — Você tem um resumo do que aconteceu no evento do Ministério há três horas, para garantir que todos estão na mesma página?
— Sim, Alvo — ela pegou um bloco de anotações, mas não o usou ao narrar os fatos. — Hoje durante a cerimônia de nomeação dos aurores no Ministério da Magia, onze dos trinta e um aurores recém-nomeados faleceram ao fim da cerimônia, após um deles, a Sra. Meghan Trusthworth, transmitir o que pareceu ser uma mensagem atribuída pelo próprio Vocês-Sabem-Quem. Foi comprovado que a Srta. Trusthworth estava sob a maldição Imperius e ela é uma das suspeitas pela morte dos colegas. Infelizmente ela também foi morta, seu pescoço foi… voluntariamente torcido — disse a auror, sua voz ficando fraca. Ela pigarreou. — Eu tenho aqui a lista das outras vítimas…
Hestia começou a ler a lista; foi a pior parte. Harry reconheceu nomes familiares; Sarah Abbot, que ele estava certo de ser a irmã mais velha de Anna Abbot, uma garota do seu ano de Hogwarts, e Gabriel Truman, ex-monitor da Lufa-Lufa quando Harry era um primeiranista, e cuja menção deixou os rosto dos gêmeos num tom estranho de amarelo. Para cada um, ela mencionava suas origens trouxas e os membros da Ordem discutiam brevemente se eles tinham ou não um histórico na última guerra.
— A causa da morte desses jovens ainda não foi comprovada, mas suspeita-se de um envenenamento coletivo — Héstia disse por fim, fechando a sua lista. Suas mãos tremiam ligeiramente. Harry achou que ela devia conhecer a maioria daquelas pessoas, já que ouvira dizer que a bruxa era professora na Academia de Aurores.
— Um envenenamento seletivo e minuciosamente calculado — a voz potente de Snape soou do outro lado da mesa — Alguma substância desconhecida que só tem ação sob bruxos de sangue mestiço. Se a existência de tal componente for comprovado e essa for uma nova arma usadas pelos comensais, pode significar execução em massa, eu receio.
— Estou certa de que a Subdivisão de Alquimia do DELM conduzirá suas próprias investigações, mas eu me sentiria mais seguro se conduzíssemos também as nossas. Severo? — Dumbledore o sinalizou — Você pode estar à frente disso? Entre em contato com Moody para ver se ele pode disponibilizar acesso ao relatório inicial e trabalhe a partir daí.
— Certamente. — o mestre de poções assentiu. Harry girou sua cabeça para ele, estreitando os olhos. Não duvidava nada de que Snape soubesse mais do que estava revelando sobre o que quer que fosse a coisa que matara os aurores, afinal eram os amiguinhos dele que estavam usando aquilo contra os nascidos-trouxa.
— E quanto à possibilidade dessa ação no Ministério ter sido na verdade uma distração, Dumbledore? — Kim sugeriu, astúcia em seus olhos rasgados — Afinal eles conseguiram a atenção de praticamente toda a força do Esquadrão com o ataque em massa, mas me parece que é muito esforço para apenas provar um ponto, não é bem o modo como Voldemort costuma trabalhar.
— Provar um ponto, você diz? — o Sr. Weasley se alterou — Eles mataram treze crianças!
— Exato. — Kim confirmou sem se abalar. — Algo profundamente mobilizador para nós, mas de pouca significância para ele. Que interesse particular tem Voldemort em treze jovens mestiços? Nenhuma daquelas crianças era sua inimiga direta e, até onde eu sei, não eram filhos de nenhum dos seus desafetos particulares. É possível que haja uma intenção por trás do ato, uma tentativa de desviar a nossa atenção.
O olhar de Kim correu para Harry, outros o alcançaram também.
— Não era a mim que ele queria — o garoto disse rápido. — Ele nem tentou dessa vez.
— Ele pode ter calculado mal, achando que você ia ficar vulnerável ou que nem estivesse no evento, para começo de conversa. Eu mesmo não o vi no momento em que os ataques começaram, Potter. — Hestia Jones olhou pensativa para ele — Onde é que você estava?
— Eu também não vi você — o garoto disse, desafiador. — Onde é que você estava?
— Héstia estava disfarçada, Harry — apaziguou Dumbledore, com uma expressão séria — e há uma explicação perfeitamente plausível para onde Harry estava, Héstia, tenho certeza. Agora, eu acho que Kim tem um ponto a ser considerado. A ação de Voldemort esta noite pode servir para desviar a atenção, precisamos ficar atentos a todos os possíveis pontos de interesse. Srta. Delancour e Sr. Weasley — ele olhou para Gui e Fleur, que se aprumaram — revejam a segurança dos seus postos amanhã sem falta e peçam reforço se algo parecer estranho. Kim, você também, e o mesmo para Severo. E Estúrgio… acha que pode fazer uma visita à Azkaban amanhã?
O rosto quadrado do auror ficou opaco, mas ele assentiu.
— Com certeza, diretor.
— Ótimo, isso cobre a maioria. Os demais, se não há nada mais para ser discutido, estão dispensados para um merecido descanso. Como de costume, me enviem seus patronos se ocorrer uma emergência. Harry e Severo, vocês podem ficar.
Os membros da Ordem se despediram e saíram um por um, indo desaparatar no andar de baixo. Remus apertou o ombro de Harry levemente.
— Eu também gostaria de ficar, diretor, se não se importa.
Dumbledore assentiu. Harry se sentiu grato por Remus ficar, ao menos não estava sozinho “contra” Snape, seja lá para onde aquela conversa se direcionasse.
Quando a sala estava vazia, a não ser pelos quatro, Dumbledore fez um aceno amplo com a sua varinha, forrando as paredes com mais uma camada de feitiço de imperturbabilidade. Ele olhou para Harry com bondade.
— Antes de começarmos, meu garoto, você se importa de garantirmos que essa conversa não está sendo… transmitida à mais alguém?
Harry não entendeu por um segundo… e então ele compreendeu, ligeiramente constrangido.
— Não… eu… claro.
Dumbledore o encarou serenamente, os olhos azuis brilhantes cravando seu caminho para dentro, ao que Harry sentiu a mesma sensação de sopro em sua cabeça que experimentara mais cedo quando Johanne buscara em sua mente a porta certa. Mas foi muito mais sutil dessa vez, como se o diretor estivesse só circulando e não procurando qualquer coisa. Ainda era desconfortável, mas ao menos ele sabia que o bruxo não ia cavar nada lá dentro sem a sua permissão.
— Bom. — Ele interrompeu a legimência, parecendo satisfeito. — Desculpe por isso, mas é bom garantir, você entende.
— Harry deveria retomar suas lições de Oclumência o mais rápido possível. — Remus comentou, para o horror de Harry. — Talvez com um professor mais constante dessa vez. — A nota de acusação dirigida a Snape não passou despercebida.
— Eu já tenho um plano a esse respeito assim que as aulas começarem. — Dumbledore garantiu olhando de relance para Severo, que tinha a cara fechada de sempre, nada mais, nada menos. Harry nem sabia por que ele estava ali para começo de conversa. — Agora, Harry, eu entendo que você presenciou o retorno de Sirius através do véu essa noite?
— Sim. — confirmou, seu fôlego fugindo por um momento. — Eu e… Johanne Loren, a afilhada de Remus. Foi ela quem o ouviu, eu só a segui. Honestamente, professor, eu não sei o que aconteceu lá. Foi tudo muito repentino, uma hora estávamos encarando o véu e na outra, segurando a mão dele e o puxando para fora.
— É bem óbvio o que aconteceu. — Snape bufou — Black é um sujeitinho tão desagradável que nem o além conseguiu suportá-lo.
O que se sucedeu foi tão rápido que Harry não pode registrar. Em um minuto, Remus estava sentado, no outro, estava em cima de Snape, os dedos enganchados em seu colarinho negro. O garoto nunca tinha visto o professor assim; seus dentes estavam arreganhados e os olhos brilhando amarelos e perigosos.
— Você diz uma palavra desagradável sobre Sirius de novo, seu desgraçado, e eu quebro esse seu nariz odioso em tantas partes que no final ninguém vai saber a que espécie de animal você pertence.
Snape deu um sorriso desgrenhado, sem se abalar grande coisa.
— Lua cheia se aproximando, aluado? Sua verdadeira natureza está colocando as garrinhas de fora?
— Sr. Lupin, se essa foi a razão pela qual pediu pra ficar, vou pedir que saia. — Dumbledore avisou. Remus voltou a se sentar na cadeira, respirando através dos dentes travados. — E, Severo, nós não fazemos comentários desagradáveis sobre a condição lunar dos colegas de trabalho, lembra-se?
— Perdão — Snape disse, ironia cintilando nos olhos de besouro — Vou tentar me conter.
— Muito bem. — Dumbledore suspirou, olhando para Harry de novo. — Você e a Srta. Loren foram até o Departamento de Mistérios essa noite porque ela o ouviu chamar e vocês puxaram Sirius do véu. — Harry assentiu, inquieto. Ele sabia que soava absurdo, ainda mais dito em voz alta, mas como sempre Dumbledore não estava grandemente impressionado, só intrigado. — E então, o que aconteceu depois?
— Ele parecia… mal… doente — Harry engoliu em seco. Sentiu a mão de Remus apertar seu ombro, lhe dando suporte. — Ele vestia o mesmo que usava quando caiu, mas parecia muito mais magro, como se não tivesse comido por todo esse tempo, ou…
— Um mês sem comer? — Snape perguntou criticamente — Ele certamente não teria sobrevivido.
— Mas sobreviveu, Snape. Engula isso. — Harry rosnou. Dessa vez nem Dumbledore o impediu, ao que ele prosseguiu, encorajado. — Ele também estava sangrando, mas acho que foi porque se machucou na queda. Quando nós o puxamos, chegou um momento em que o véu meio que… o empurrou com bastante força, então fomos lançados contra as pedras. Ah, e a mão dele estava queimada…
— Queimada, você diz? — Dumbledore se interessou, inclinando a cabeça — Que tipo de queimadura? Era recente ou…
— Eu não sei, recentemente, acho. Ou então uma que nunca teve a chance de curar. Ele estava segurando algo, ele me entregou…
Harry relutou. Uma das coisas que Sirius tinha dito com toda a dificuldade ao entregar-lhe o punhal foi para que o escondesse, o que ele tinha feito até ali. E não se importava em contar para Remus ou Dumbledore, nos quais confiava, mas Snape era outra história.
— Você pode falar, Harry. — Lhe lembrou o diretor, como se lesse sua mente. — Pode confiar na discrição do professor Snape, você tem minha palavra. O que Sirius entregou a você?
Com uma careta de relutância, Harry enfiou a mão no bolso e tirou o punhal, estendendo-o para Dumbledore ver. Ainda parecia uma arma comum de metal, sem nenhum atributo especial a não ser o metal esbranquiçado que compunha a lâmina.
— Hum. Interessante. E você acha que foi isso que queimou a mão de Sirius?
— Sim, eu tenho certeza, era o mesmo formato do cabo.
— Mas não queimou você quando o recebeu? — o diretor averiguou, olhando curioso para a peça.
— Não.
Dumbledore acenou sua varinha para o punhal, lançando encantamentos silenciosos que primeiro fizeram a peça vibrar nas mãos do garoto, depois emitir uma forte luz branco-azulada, gelando a palma da sua mão.
— Hum — foi tudo o que o diretor disse, franzindo as sobrancelhas.
— Professor, por que o senhor acha que Sirius me daria isso?
— Eu não sei, Harry. Vamos torcer para que o próprio Sirius tenha uma resposta e que nos possa esclarecer o quanto antes. — O otimismo do diretor contagiou Harry, que sentiu uma bolha de esperança crescer em seu peito — Por enquanto, acho sábio que o guarde com você, afinal, me parece que está protegido contra o toque de outras pessoas e não queremos que ninguém saia machucado.
Harry assentiu e voltou a guardar o punhal no bolso interno, sentindo o seu peso assentar na altura das costelas. Ainda achava que Dumbledore sabia mais do que estava falando, mas talvez fossem coisas que ele não queria dizer na frente dos outros adultos. Harry fez uma anotação mental para perguntar ao diretor da próxima vez que se encontrassem sozinhos.
— Agora, suponho que ambos, Severo e Remus, estiveram no Hospital St. Mungus hoje à noite? O que podem me dizer sobre o estado de Sirius?
Tanto Harry como Remus olharam com espanto para Snape, se perguntando por que raios ele teria ido até o hospital ver Sirius, mas o bruxo negou com a cabeça.
— Fui impedido de acessar informações sobre Black pela chefe do departamento de Danos em Magia, professor. Ela, na verdade, me informou desconhecer qualquer entrada de um vira-latas de cabeça quebrada em seu departamento.
Remus pareceu satisfeito com a resposta, apesar da tentativa de ofensa de Snape.
— A chefe de departamento é Andrômeda Tonks, ela não diria a você qualquer coisa sobre Sirius. — Só que ao dizer “você”, Remus usou a entonação “alguém insignificante como você”, o que deixou Harry bem feliz. — Mas eu conversei com ela, Andrômeda me disse que estão fazendo o possível para estabilizá-lo. Sirius deu entrada com severo estado de desnutrição e desidratação e a lesão na cabeça não ajuda. Como ele não estava responsivo aos estímulos, o colocaram em coma induzido…
— Colocaram ele em coma? — Harry interrompeu, alarmando-se.
— Só para que o estresse em seu corpo seja o mínimo possível e as chances de recuperação sejam maiores, Harry.
— Então Black ainda pode morrer? — o mestre de poções soou esperançoso.
— Eu juro por Morgana, Snape, mais uma palavra… — Remus rosnou perigosamente, seus olhos cerrados. Daquela vez, até os pelos da nuca de Harry se arrepiaram; ele apostava que os cabelos oleosos de Snape também tinham sentido o perigo.
— Me mantenha informado, Remus. — Dumbledore pediu, sobrepujando a rinha dos dois inimigos de escola como se ainda estivesse lidando com os dois em seu escritório em Hogwarts. — Harry… acho que você pode manter esse artefato só entre nós, por enquanto. Conversaremos melhor em Hogwarts. E Severo… apenas dê um descanso.
Harry ouviu o ofegar injustiçado de Snape. Antes que novas farpas pudessem ser trocadas, Remus se levantou e encaminhou Harry para fora da sala firmemente. Eles pararam ao pé da escada, na entrada para a sala que agora estava vazia. Harry percebeu que os olhos do professor estavam embaçados e ele parecia muito, muito cansado.
— Harry, eu preciso dizer, de todo o meu coração… obrigado. Obrigado por trazê-lo de volta. Eu não sei como você fez isso, mas eu nunca serei grato o suficiente.
O maroto o abraçou, o que foi bom, porque deu a chance para Harry esconder o fato de seus olhos estarem ficando marejados de novo. A ficha estava caindo devagar, tinha trazido Sirius de volta da morte. De algum jeito, ele e Anne tinham.
— Eu não fiz sozinho. Se não fosse pela sua afilhada, nós nunca teríamos voltado lá — ele disse rouco.
— Vou me certificar de agradecer a ela também. — Remus o soltou sorrindo, os olhos de âmbar brilhando.
— Mas Remus, e se ele…? Quero dizer, e se ele não resistir? Se as coisas estão tão ruins…
— Não vamos deixar isso acontecer. Não podemos pensar desse jeito.
Harry achou que Remus estava sendo otimista demais, mas então, ele não tinha visto como Sirius saíra do véu e provavelmente queria se agarrar à todo resquício de esperança; Harry não ousaria tirar isso dele. Sentindo que não ia aguentar mais um momento daquele assunto sem chorar feito Winky depois de umas doses de cerveja amanteigada, Harry pigarreou, mudando de assunto.
— Eu ouvi certo lá em cima, o que Dumbledore disse? Você e Snape são colegas de trabalho de novo. Isso significa que você vai voltar para Hogwarts?
— Ah, veja bem — ele deu um pesado suspiro — Dumbledore me convidou e tem sido bastante insistente a respeito, mas eu não acho… eu estou pensando. — acrescentou ao ver um protesto crescendo na expressão de Harry — Há outras coisas nas quais eu posso ser útil para a Ordem sem causar todo esse tumulto. Você pode imaginar o que os pais vão dizer, será uma enorme dor de cabeça…
— Eu acho que se Dumbledore acha que dá certo, é porque dá. — Harry interpelou, esperançoso. — Mal posso esperar para contar ao Rony e à Hermione, eles vão parar nas nuvens. Você é o melhor professor que a gente já teve. Você sabe disso, certo?
Harry viu um sorriso crescer no rosto do Maroto, ainda que entrecortado pela angústia da noite, bem como viu seus olhos se tornarem excessivamente brilhantes.
— Ouvir isso significa muito para mim, Harry, acredite. — Ele olhou ao redor. Harry teve a impressão de que o bruxo procurava um assunto no qual pudesse se engajar antes que a conversa ficasse ainda mais emotiva. — Eu vou para casa agora… Não estou vendo Anne por aqui, imagino que ela tenha ido com Tonks. Você quer que eu te deixe na Toca? Sei que se sente mais confortável lá com o Rony.
— Não! Eu… se você não se importar, eu posso dormir mais uma noite com vocês, na cabana?
— Tem certeza? — ele pareceu surpreso, e lá no fundo, agradado. — Tudo bem então. Aqui, segure meu braço.
Harry obedeceu, reprimindo um suspiro de desânimo. A segunda aparatação acompanhada da sua vida e ele não achava que ia ser muito melhor que a primeira.
Harry acordou muito cedo no dia seguinte. Sentiu que tinha dormido só um segundo, mas não se sentia cansado. Pelo contrário; estava enérgico e agitado como não ficava há muito tempo. O andar térreo da cabana estava silencioso quando se levantou; através da janela, tudo o que ele viu foi uma névoa espessa contornando as árvores. Aproveitando o silêncio, o garoto fez sua higiene matinal, achou um velho suéter no seu malão e foi para a cozinha beliscar alguma coisa da cesta de frutas que ficava em cima da mesa.
Ele estava distraído mordiscando um pêssego quando um movimento quase lhe provocou um ataque cardíaco: o gato prateado acabara de pular no tampo da mesa e virar seus olhos amarelo-mármoreos para ele.
— Criatura sorrateira — Harry sibilou, estendendo a mão para coçar a cabeça peluda, mas o bichano se desviou. Não era dengoso como Bichento, era mais como um daqueles dos filmes de terror trouxa, que no final pertenciam ao assassino.
Pensar em Bichento lhe lembrou que ele precisava escrever à Hermione sobre Sirius. Ele deu um sorriso involuntário ao imaginar a resposta da amiga; talvez ela ficasse tão feliz que viesse passar o resto das férias com ele; Hermione, entre todas as pessoas, sabia como Sirius era importante para ele e o que significava tê-lo de volta. Harry percebeu que fora de alguma forma contagiado pelo otimismo de Remus durante a noite. Tudo ia ficar bem, Sirius ia se recuperar. Não havia outra explicação, porque seria apenas muito cruel e sem sentido que ele voltasse do véu só para morrer em seus braços.
Harry voltou para a sala, atrás de papel e pergaminho para escrever à amiga, mas um vislumbre de cor lá fora o fez parar e olhar com mais atenção. A janela da sala dava para o quintal; parte dele coberto pela continuação do telhado na cabana, a outra parte descoberta, uma pequena horta onde cresciam nabos do tamanho de pedregulhos. Essas duas partes eram divididas por um murinho baixo e largo onde uma pessoa podia sentar com certo conforto; de fato, havia alguém sentado lá, de costas.
O cabelo dela caia indomável pelas costas até a linha da cintura, parecendo uma coisa viva, um mar de seda negro. Usava um blusão largo e grosso de lã, todo colorido, algo que devia ter saído do guarda-roupas, ou pelo menos do gosto de Nimphadora Tonks. As listras largas do blusão tinham todas as cores do arco íris e mais algumas. Como se a cena já não fosse bem prosaica — uma garota de blusão colorido e cabelo de ninfa sentada contra uma paisagem de nabos gigantes — ela ainda conversava com um pássaro enorme e espalhafatoso. Ele estava empoleirado em seu braço, sobre uma pulseira larga de couro que devia servir para as garras afiadas do animal não machucá-la. O alimentava com pequenas sementes vermelhas e afagava o topete arrepiado. A ave era completamente negra, a não ser por diversas pintinhas brancas em sua pelagem que pareciam estrelas num céu noturno. O bico era redondo e afiado, algo que Harry não ia querer perto dos seus dedos. Ele lembrou de uma ave parecida que lhe entregara uma carta de Sirius uma vez, na Rua dos Alfeneiros, há dois anos. Não podia ser uma coincidência.
Harry saiu pela porta da frente e deu a volta na casa, chegando aos fundos onde a garota estava. Ele foi surpreendido pelo frio incomum que fazia aquela manhã e pela quantidade de névoa; talvez fosse ainda mais cedo do que pensara a princípio. Anne virou o rosto para ele assim que chegou, a expressão tranquila.
— Bom dia, Harry. Angry, seja boazinha, dê bom dia ao Harry.
A ave crocitou na direção dele. Se alguém lhe perguntasse, ele diria que o animal estava irritado por ter seu momento com a garota interrompido.
— Pode se aproximar, ela só ladra, mas não bica. Mentira, ela bica, mas só se você criticar o topete dela.
Por precaução, Harry ficou no outro oposto da amurada, recostando-se à pilastra, os braços cruzados para aliviar o frio.
— Essa é Angry Bevy, acho que vocês ainda não tinham sido apresentados.
— Há uma outra, não é? Uma colorida? — Ele arriscou, puxando da memória.
— Aquele é Grumpy Lupin. Ele é dorminhoco, deve estar enfiado em algum lugar quentinho uma hora dessas.
Ela não parecia sentir frio, provavelmente porque seu casaco era bem mais grosso que o que Harry usava. Mesmo assim, a ponta do nariz de Johanne e as bochechas estavam coradas. Ela dispensara os óculos; seus olhos eram a parte mais impressionante do seu rosto. Harry não entendia como olhos podiam ser tão escuros, e ele ainda achava que havia um reflexo prateado neles, mas toda vez que tentava encontrar isso, desaparecia. Ele piscou, percebendo o quanto se distraíra.
— Você foi quem os treinou? Para entregar cartas, digo.
— Não é bem um treinamento — ela passou a ave de um braço para o outro, sorrindo quando ela tentou dar uma bicadinha em seu nariz. — É mais como uma troca de favores. Eles são meus amigos, não animais de estimação.
— Eu tenho uma coruja — Harry disse de supetão. Então acrescentou, na tentativa de dar senso ao seu comentário — Eu gosto de pensar que ela também é minha amiga.
Johanne sorriu amplamente.
— Eu adoraria conhecê-la.
O silêncio que se seguiu deixou Harry inquieto; ele já não era o melhor com conversas com garotas, quiçá aquelas com quem não tinha nenhuma intimidade, mas ainda assim dividira com ela um dos momentos mais estranhos da sua vida. Não tinha ideia do tipo de comentário que poderia fazer, ou que ela estaria pensando a respeito dele, ou se ele estava sendo inconveniente ao chegar de repente e interromper um momento entre ela e seu pássaro…
— Como foi a reunião ontem? — Anne perguntou, poupando-o da agonia de não saber onde enfiar suas mãos.
— Estranha. Um pouco triste. E depois estranha de novo.
— Você contou a eles o que aconteceu na sala do véu? — Ela perguntou com suavidade, mas Harry percebeu que a resposta lhe importava.
— Só para o professor Dumbledore, Remus e Snape. Você conhece o professor Dumbledore, certo, e Snape…
— Oh, sim, eu conheço o professor Snape. — Ela girou os olhos. — Ele disse alguma coisa sobre Sirius?
— Ele não ficou nada feliz.
— Babaca — Anne disse gratuitamente. Harry sorriu sem sentir.
— De onde você o conhece?
Anne se virou para olhá-lo melhor, inclinando a cabeça, um sorriso meio travesso em seu rosto.
— Eu estudei em Hogwarts por dois anos — explicou, achando graça da incredulidade no rosto dele ao dizer isso. — Eu era da Corvinal. Snape foi meu professor, Remus também.
Harry balançou a cabeça vigorosamente.
— Eu me lembraria de você.
— Não lembraria não, eu não chamava atenção. Nós até nos falamos uma vez… você me apontou o caminho para as masmorras.
— Eu apontei? — Harry franziu. — Eu não me lembro. Desculpe.
— Tudo bem. — Anne achou graça. — Mas você deve se lembrar da minha irmã, ela chamava muito mais atenção, era monitora da Sonserina e depois se tornou monitora-chefe.
— Sério, a sua irmã que me odeia? — Harry tentou lembrar, mas nada lhe vinha à mente, ele não prestava muita (nenhuma) atenção a quem eram os monitores da Sonserina sem uma boa razão. — Qual o nome dela?
— Berv…
— Vocês dois! — Remus abrira a janela de supetão, enfiando sua cara por ela, o cabelo todo amassado. — Como assim acordaram mais cedo e nem se dignaram a preparar o café da manhã?
Anne olhou para o outro lado, escondendo o rosto desprotegido do padrinho. Harry deu um sorriso amarelo para o maroto.
— Falha minha, Remus. Eu posso…
— Eu estou brincando, garoto. Eu vou providenciar o café e vocês vão se arrumar, quanto mais cedo chegarmos ao hospital,menos atenção levantamos. Isso, assumindo que vocês querem fazer uma visita ao Sirius, é claro.
Anne olhou para a sala de cuidados intensivos e seus joelhos ficaram fracos. Tudo o que ela viu foi um vislumbre do cabelo negro e embaraçado, antes de um time de cinco curandeiros tamparem a sua visão. Ela resistiu ao impulso de virar o rosto; teoricamente não estava vendo nada contra as suas lentes escuras.
— Aparentemente ele piorou durante a noite — Remus murmurou numa voz do além-túmulo — Quatro paradas cardíacas… estão fazendo o que podem, mas se houver uma quinta… bem, há um limite para o que um coração pode aguentar.
— Ele vai ficar bem, Remus. — Harry murmurou ao lado, se agarrando no fio de esperança que o maroto estava deixando escapar — Sirius é forte.
— Tudo o que eu quero dizer é que precisamos nos preparar para o pior.
Anne fechou os olhos atrás dos óculos, desejando que o padrinho não tivesse falado aquilo em voz alta. As palavras queimaram como ácido em seus ouvidos.
— Moony, precisamos falar com a Bevy…
— Remus!
Os três se viraram para o fim do corredor, de onde uma Tonks vinha correndo em sua direção. Ela se encaixou tão rápido e naturalmente nos braços do maroto que era como se eles tivessem feito aquilo a vida toda. Depois se afastaram, ligeiramente constrangidos, Tonks ofegando pela corrida, Remus dando um passo para trás e enfiando as mãos nos bolsos.
— Eu só… eu não vi você ontem depois da reunião, não tive a chance… — Ela sacudiu a cabeça, no que pareceu se dar conta da presença de Anne e Harry. — Oi, vocês! Todo mundo bem? Todo mundo inteiro?
— Não ele. — Remus indicou com a cabeça através do vidro para o quarto que Sirius ocupava. — Quatro paradas cardíacas durante a noite.
— Mamãe me contou — ela disse, pálida. — Ela passou a noite aqui com ele, eu a vi hoje no café da manhã. Ela colocou a melhor equipe com ele. Vai ficar tudo bem. Você sabe o que dizem sobre os vira-latas — Ela arriscou uma piscadela — São osso duro de roer.
Remus lhe respondeu com um sorriso desbotado. A equipe dos curandeiros estava saindo do quarto agora e pelas suas expressões, não parecia que algo terrível tinha acontecido… por pouco.
— Vocês são a família do Sr. Boardman? — Uma delas perguntou, com uma prancheta na mão. Ela tinha o cabelo cor-de-rosa longo amarrado com um laço e um ar eficiente.
— Sim — Tonks se adiantou, mal reparando em sua “colega” de moda capilar. — Podemos entrar?
— Dois de cada vez, por favor, para não sobrecarregar o paciente. E vocês devem saber que ele ainda está inconsciente. — Seu olhar se tornou especulativo — Você é a senhora Boardman?
— Não — Tonks franziu, curiosa. — Por quê?
A curandeira mordeu o lábio, parecendo ligeiramente constrangida.
— Nada não. Podem ter certeza de que o Sr. Boardman será muito bem cuidado… er… eu sou a maior fã dele, sabe? Eu que o reconheci quando ele deu entrada! Nunca na vida que Toquinho vai passar dessa pra melhor, não no meu turno!
— Toquinho? – Harry perguntou quando a curandeira estava longe. Tonks ainda tinha uma sombra de riso em seu rosto.
— Ontem à noite, quando ele deu entrada, mamãe pretendia registrá-lo como desconhecido, mas então essa enfermeira “o reconheceu” — ela fez aspas no ar, rolando os olhos — ela jurou que ele é o Toquinho Boardman, sabe, o vocalista dos Duendeiros. Então mamãe achou que esse era um disfarce melhor do que “desconhecido”, que pode causar perguntas indesejadas.
— E o que acontece se o verdadeiro Toquinho aparecer reclamando sua identidade de volta? — Remus cochichou, achando a coisa toda meio absurda. Tonks deu de ombros.
— Acho que ele vai ter um mau tempo para provar que não é um impostor, né? Não seria a primeira vez. — Ela deu um risinho. Harry se lembrava que no ano anterior O Pasquim havia publicado uma matéria acusando Sirius de ser Toquinho disfarçado.
— Então, como vamos fazer isso? Eu e Anne entramos primeiro, ou…
— Na verdade, se vocês não se importarem, eu gostaria de entrar com Harry — Anne declarou, para a surpresa dos outros três. Harry viu Remus e Tonks trocarem um olhar intrigado.
— Ah… tudo bem. Esperamos aqui, então? — Ela encolheu os ombros. Remus assentiu, tentando pescar o que estava acontecendo ali.
— Harry, você se importa? — Anne ergueu a mão no ar. Harry se adiantou, meio sem jeito, e ofereceu o antebraço para que ela segurasse, para que pudesse “guiá-la” para dentro da sala, da mesma forma como Remus a guiara da entrada do hospital até ali.
Os dois entraram no quarto, parando à porta para receber os feitiços de esterilização de um curandeiro. Remus ainda acompanhava curioso o par através da porta de vidro andando em direção à cama que Sirius ocupava.
— Eles estão se dando bem, não estão? — Tonks comentou, acompanhando o foco do olhar do bruxo. — Harry por acaso já sabe…?
— Eu não acho que saiba. Anne não pode contar, nenhum de nós, na verdade, Sirius ainda é o fiel do segredo. Bem, há sempre a possibilidade de ele ter adivinhado.
— Harry? Eu acho que não. Quero dizer, eu adoro ele e tudo mais, mas o garoto não é o rei das deduções mais óbvias, né?
Remus deixou surgir um sorriso afetuoso.
— Exatamente como o pai. James era o epítome da distração, o número de vezes que precisamos lhe apontar a pena atrás de sua própria orelha… figurativa e literalmente. — a reflexão se seguiu de um suspiro pesaroso. Remus enfiou as mãos nos bolsos e deu um giro sobre os calcanhares, virando de costas para o vidro do quarto. Tonks podia ver a tensão em seus ombros; ela apostava que essa nova situação com Sirius estava lhe trazendo um monte de reflexões do passado sobre a perda de seus melhores amigos. Como se não bastasse, ela tinha esfregado a culpa do seu passado na cara na última vez que tinham se visto e isso a remoera a noite inteira.
— Desculpe por ontem. Eu odeio quando eu falo atrocidades e depois fico achando que você vai morrer e que serão as últimas coisas que eu te disse, e não alguma piada tosca sobre seu gosto musical de tataravó.
— Você nunca fez nenhuma piada sobre o meu gosto musical — ele franziu, entre divertido e consternado.
— Ah, eu não fiz? Sabia que estava esquecendo de alguma coisa.
A expressão no rosto de Remus evoluiu para a tão conhecida condescendência professoral que ela amava ou odiava, a depender do assunto.
— Você nunca precisa pedir desculpas para mim, Nimphadora. — O tom de voz morno que ele usou quase o levou a perdoar o uso do seu primeiro nome. — Você é jovem, a impulsividade é a mãe da juventude.
— Não seja condescendente comigo, Remus Lupin.
— E você achou que eu ia morrer? — Ele se permitiu um sorriso. Ela fechou a cara.
— Um monte de gente estava morrendo.
— Aurores nascidos trouxa, Dora. Não lobisomens velhos.
— Irrelevante. — Ela rolou os olhos. Remus deu um sorriso breve, sacudindo a cabeça.
Então ela soube que eles estavam bem e se sentiu muito mais leve.
Harry queria e ao mesmo tempo não queria ver Sirius deitado naquela cama asséptica, vestido com um camisolão verde e cheio de tubos enfiados pelos braços. No que se referia ao básico dos hospitais, os bruxos e os trouxas não se diferiam muito; as luzes brancas, o cheiro ácido de éter (embora ele soubesse que não era éter, era só algum ingrediente que se parecia muito), o silêncio recortado pelos bipes que indicavam vida ou morte. Nesse caso, os bipes vinham dos feitiços e os tubos nas veias de Sirius colocavam poções em sua corrente sanguínea, mas o seu padrinho ainda parecia frágil e quebradiço ali deitado.
Alguém o tinha limpado da maioria da sujeira e sangue, a não ser a que grudava no cabelo emaranhado. As pálpebras dele estavam roxas, as bochechas fundas, a boca relaxada, os lábios partidos e ressecados. O sinal da desnutrição que Remus mencionara era claro também nos ossos saltados da sua clavícula, onde as tatuagens se destacavam contra a pele branca. Alguém tinha enfaixado a mão dele, o que fez Harry pensar que aquela não era uma queimadura comum – bruxos curavam queimaduras comuns num instante.
— Ele não parece muito bem, não é? — Harry quebrou o silêncio, olhando para Anne.
Anne não disse nada por um momento. Ela se aproximou da cama de um jeito que Harry ficasse bem em sua frente para quem olhava do lado de fora, e quando estava fora do campo de visão de Remus e Tonks (embora eles estivessem conversando, e não prestando atenção neles lá dentro), ela tirou os óculos. Piscou para afastar as lágrimas.
— Obrigada por entrar comigo, Harry — ela disse baixo, a voz falhando. — Essa é a primeira vez que vejo o rosto dele. Tecnicamente, a segunda, mas não é como se eu tivesse tempo para reparar em qualquer coisa na Sala do Véu. — Ela sorriu com tristeza. — Minha irmã estava certa; ele é bonito.
Harry olhou do padrinho deitado para a garota que traçava o contorno do maxilar dele com a ponta dos dedos; ele tentava encaixar as peças.
— Eu não entendo — ele suspirou com frustração. — Sirius nunca mencionou… bem, nada disso.
— Não fique zangado com Sirius pelas coisas que ele não contou a você. Ele teria contado, e ele vai explicar tudo quando acordar.
— Porque só ele pode explicar, não é? — Harry disse astutamente. Essa parte ele já tinha entendido. Ela assentiu, sem tirar os olhos de Sirius nem por um minuto.
Harry o observou em silêncio também. Ele percebeu que um dos sons emitidos pelos feitiços sonoros era a batida do coração do padrinho; um som débil e lento que lhe causava aflição. Ele pensou em todas as coisas que queria contar ao padrinho; sobre o que dizia a profecia, sobre a sua sobrevivência estar ligada à morte de Voldemort e vice-versa. Sirius riria e diria que aquilo era ridículo, tinha certeza. E mesmo que Harry não acreditasse, se sentiria mais leve por um momento e faria toda a diferença…
Ele ergueu o rosto; Anne agora o encarava por trás dos óculos. Ele virou o rosto, sem graça por causa dos olhos ligeiramente úmidos.
— É melhor sairmos para deixar Remus e Dora entrarem. — disse Anne suavemente — Eles devem estar ansiosos.
Harry assentiu, esperando que Anne colocasse os óculos de novo, servindo de escudo entre ela e a janela de vidro. Depois ele ofereceu o braço para “guiá-la” para fora da sala. Uma vez tendo trocado os lugares, os dois sentaram nas cadeiras do corredor para esperar por Remus e Tonks.
— Obrigada por não contar a ninguém sobre a minha visão — ela disse, ajeitando o cabelo atrás da orelha. Harry deu de ombros.
— Obrigado por não falar com ninguém sobre o que Sirius me entregou na sala do véu.
— Parece ser um assunto entre você e ele.
Harry assentiu. Coisas estranhas acontecendo em sua vida não eram nenhuma novidade e ele tinha certeza de que uma vez que pudesse contar tudo à Hermione e Rony, eles lhe ajudariam a descobrir o que tudo significava: Voldemort mudando de ideia sobre capturá-lo, Sirius voltando do véu e lhe entregando um punhal, até mesmo a profecia de Sibila. Seus amigos sempre lhe ajudavam a dar sentido às coisas, daquela vez não seria diferente.
— Eu preciso enviar uma carta — ele decidiu, se levantando. — Será que eles tem um corujal aqui? Não quero esperar até a noite.
— Eu acho que eles tem um no sétimo andar, para os pacientes. — Anne disse pensativa. — Mas você pode passar na recepção e perguntar se visitantes podem pedir uma também.
— Ok. Você se importa de avisar ao Remus onde eu fui? Eu encontro vocês na recepção em alguns minutos.
— Tudo bem.
Ele tomou o corredor na direção dos elevadores, se sentindo ligeiramente culpado por não querer esperar para enviar a carta por Edwiges; sabia que a coruja ia ficar ofendida se descobrisse. Mas sempre que ele ia escrever à Hermione, algo o interrompia. No fundo, precisava admitir que o silêncio da amiga também estava inquietando-o.
Quando as portas do elevador se abriram, Harry teve que sair do caminho para deixar uns cinco curandeiros apressados passarem flutuando a maca de uma garota na direção da qual ele viera. O medi-bruxo que os acompanhava dava ordens e lançava feitiços complicados; tudo o que Harry viu da garota foi o cabelo ruivo espalhado pelo travesseiro, sua mão pálida pendendo para fora da maca e muito, muito sangue empapando suas roupas. Ele sentiu uma sensação ruim porque ela lhe lembrou Gina, mas sacudiu a cabeça, entrando no corredor. Gina estava bem longe dali, na Romênia com Carlinhos, perfeitamente a salvo.
Quando Harry pisou na recepção, ele se deparou com um acúmulo de cabeças ruivas em torno da lareira e mais deles chegando; Fred tropeçou para fora, em seguida, Jorge, depois a Sra. Weasley, sacudindo a roupa. Com um pop, Gui aparatou do lado dela, ambos muito pálidos. Rony, que estava mais perto de Harry, o avistou e veio correndo até ele com afobação.
— Harry! Como você soube?
— Eu estava lá! Como você soube? — Ele perguntou, muito confuso. — Ah, o seu pai não é, ele me ouviu falar na casa dos gritos!
— Do que é que você está falando, Harry? Você não está fazendo sentido. Papai não sabia da Gina até alguns minutos, acabamos de avisá-lo! Ele está vindo do Ministério!
— Gina? — Harry se espantou — Eu pensei que vocês estavam aqui por causa do Sirius!
— Sirius? Sirius está aqui?
— Está! Mas o que é que aconteceu com Gina? — Harry perguntou, segurando o amigo pelos ombros, achando que ele parecia meio instável. O último Weasley aparatou no saguão, Carlinhos. A quantidade de sangue nas roupas dele fez Harry se lembrar da garota ruiva na maca pela qual ele acabara de passar no quarto andar. Gina. — Rony, o que foi que aconteceu?
— Ela foi atacada por um dragão. — disse o ruivo num fiapo de voz. — Foi feio, foi bem… Você pode imaginar. Um dragão…
Ele se calou, definitivamente esverdeado. Artur Weasley chegou pela lareira; no momento em que Molly viu o marido, ela deu um grito e desabou nos braços dele, murmurando “Ah, Artur! Nossa garotinha!”



Comentários