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Capítulo 5. A Rasteira da Serpente

Atualizado: há 3 dias




Nós dissemos adeus apenas com palavras

Eu morri uma centena de vocês

Você volta para ela

e eu volto para

o escuro


Back to Black – Amy Winehouse

 

Tonks mal acreditava que aquela noite estava terminando. Estivera tão tensa em seu lugar na guarda do evento que cada músculo do pescoço e das costas repuxava. Os dedos se encontravam travados por ter empunhado a varinha a noite toda, mas finalmente o último novo auror recebia o distintivo e o buquê de rosas brancas, para em seguida ter a sua foto tirada na borda do palco. Não poderia demorar muito para irem para casa sãos e salvos agora. 

Talvez Scrimgeour estivesse certo. Talvez não fosse loucura acreditar que Você-Sabe-Quem se intimidara em frente ao esquema de segurança armado pelo DELM para aquele evento. Era bom demais para ser verdade, mas se fosse…

— Hum hum –– alguém pigarreou no palco e Tonks parou de divagar. Ela viu que uma das aurores recém nomeadas se adiantara para a frente dos colegas com um pergaminho em sua mão e um sorriso amplo em seu rosto. Ela enfeitiçou a própria garganta com um feitiço Sonorus e olhou para a multidão de bruxos, seus olhos embaçados de orgulho por conta do distintivo que acabara de ganhar. Tonks teve um vislumbre da sua própria sensação ao ser condecorada, no ano anterior; era meio como pisar em nuvens, só que as nuvens eram feitas de pura felicidade e doce de leite.

— Eu tenho uma mensagem para vocês — disse a auror, a voz fluindo clara até o fundo do salão onde Tonks estava — Em nome não só da minha turma, mas de todos os aurores que vieram antes e dos que ainda virão depois de nós. Eu tinha um discurso pronto, mas então… houve essa mudança de planos. — a jovem dispensou seu pergaminho, amassando-o com o movimento de suas mãos firmes. Tonks notou que na verdade seu sorriso amplo era meio fixo. — Ele quer que todos saibam, então Ele achou que deveria mandar uma mensagem.

Houve um murmúrio de confusão na plateia. Tonks franziu para alguns de seus colegas, que tinham olhares igualmente perdidos. “Ele…”?

— O Lord Negro agradece a presença de todos e se desculpa por não poder estar presente. Ele teria vindo, mas não foi apropriadamente convidado. Sem ressentimentos. — A auror pigarreou para o silêncio sepulcral do salão. Tonks olhou de relance para os seus colegas de guarda; ninguém se atrevia a fazer o primeiro movimento. — O Lord gostaria de nos lembrar, no entanto, do que não pode se perder em meio à discursos motivadores, porém vazios em significado. — A voz dela se aprumou, como se em seu discurso ensaiado aquele fosse o momento de conquistar a audiência — Não há incerteza. Não há razão para medo, para abaixar a cabeça ou para se defender. Há urgência de identificar, no entanto, a verdadeira ameaça e resistir a sua dominação. Vocês sabem — a jovem auror sorriu, seus olhos ainda embaçados, estranhamente embaçados, agora que Tonks parava para reparar. — de quem eu estou falando. Os ladrões da nossa magia.

— Mas o que diabos…? — Howle praguejou ao lado de Tonks, dando um passo à frente.

No palco, um dos novos aurores gritou quando seu colega despencou ao lado dele com um baque surdo. Na ponta oposta da fileira, mais alguém caiu. De onde estava, Tonks não conseguia ver o que os estava derrubando, mas ela e os outros aurores da guarda rapidamente entraram em formação e começaram a se aproximar da multidão de espectadores. Alguns bruxos mais próximos do palco também começaram a gritar. Ainda era possível ouvir a voz da jovem oradora da turma, enfeitiçada para soar mais alta que o levante de alarme da plateia.

— O Lorde quer lembrá-los de que há uma escolha a se fazer e aqueles que escolherem o lado certo não precisam temer coisa alguma! Mas a desonra de ter sangue-ruins representando essa tradicional instituição que é o Esquadrão de Aurores NÃO SERÁ TOLERADA!

A confusão aumentava entre os convidados; os aurores não conseguiam se aproximar do palco. Enquanto isso, a guarda do Ministro corria para acudir os formandos que gritavam. Ninguém os estava atacando e ainda assim eles continuavam caindo, um após o outro, suas caras viradas para o chão como se fossem bonecos cujo feitiços de mobilidade houvesse se esgotado.

— ELE QUER LEMBRÁ-LOS DE QUE HOUVE UM TEMPO EM QUE OS AURORES ERAM ESCOLHIDOS ENTRE OS BRUXOS HONRADOS E PUROS E QUE À ESTE TEMPO DEVEMOS RETORNAR! — continuou ela, alterando sua voz para um grito histérico que sobrepujasse a multidão. “Alguém tire ela dali!”, Tonks reconheceu a voz do Ministro, embora não pudesse vê-lo de onde estava. — NOVAMENTE O LORD AGRADECE A PRESENÇA DE TODOS E SUGERE QUE REPENSEM QUEM DE FATO É O INIMIGO!

Olho-Tonto acabara de chegar até a oradora e tinha sua varinha apontada para ela, mas antes que ele lançasse qualquer feitiço, o pescoço da auror se torceu com um estalo aterrador e ela também desabou no chão com os olhos abertos.

Tonks finalmente conseguiu atravessar a multidão de bruxos, acotovelando e lançando feitiços para abrir caminho; o palco, ela percebeu com horror, era um festival de corpos. Muitos dos aurores que tinham recém recebido seus distintivos estavam caídos com congeladas expressões de surpresa em seus rostos. Os que ainda estavam de pé se alternavam entre tentar acudir os colegas ou fugir… Não que precisassem se preocupar, ela percebeu, pois havia um padrão, um padrão claramente distinguível…

— Eles estão mortos! — gritou Tracie Pihill, ajoelhada em torno dos colegas caídos, paralisada pelo horror — Todos os nascidos-trouxa, mortos!

Se a multidão precisava de algum incentivo para o desespero, este serviu. Em um segundo havia confusão, caos e gritos, todos tentando alcançar o hall principal onde ficavam as lareiras e os pontos de aparatação. Tonks sabia que deveria acalmá-los e que o procedimento de evacuação precisava ser ordenado de alguma maneira, mas ela ignorou as instruções que recebia pelo seu Acionador por um momento, olhando ao redor do salão. Não conseguia ver nenhum membro da Ordem por perto, não conseguia ver Remus, e em nome de Merlin, onde infernos estava Harry Potter?

— BD –

Harry se arrastou até onde Sirius e Anne estavam, sentindo que reabrira o corte em seu joelho ao cair.

Alguma coisa parecia errada com Sirius. Ele usava as mesmas roupas com que caíra, mas estava tão magro quanto estivera ao escapar da prisão de Azkaban há três anos. E apesar de os seus olhos estarem abertos, respirar parecia lhe exigir um grande esforço.

— Ele está tentando dizer alguma coisa — Johanne ofegou, inclinando o ouvido para o homem. Sirius parecia puxar fôlego para falar, incapaz de encontrar a própria voz. Harry chegou até o padrinho e segurou sua mão ossuda.

— Está tudo bem, Sirius, está bem, nós vamos te levar para o hospital… — disse afobado, mas era mais fácil prometer do que fazer. A mente de Harry começou a trabalhar desesperadamente numa forma de tirar Sirius do Ministério sem ser percebido por praticamente todo o contingente de aurores nove andares acima. 

— Harrr — Sirius murmurou numa voz horrivelmente arranhada — Pegue… seu…

— Não se esforce, não se preocupe. — ele olhou ao redor. Ainda tinha sua capa e a essa altura não estava mais tão certo de que Johanne era uma ameaça. Ela certamente lhe devia muita explicação, mas não parecia perigosa. Pelo jeito que ela olhava para Sirius, devia sentir uma preocupação muito próxima à que ele mesmo sentia. — Como você sabia?

Anne levantou o rosto, um olhar confuso. Seus olhos não estavam mais prateados, eram escuros e transbordavam lágrimas que cortavam suas bochechas.

— Como você sabia que o encontraria aqui? — Harry repetiu, sem ter certeza se ela lhe entendera da primeira vez.

Ela negou veemente, seu cabelo se sacudindo fluido em torno dos ombros.

— Eu não sabia, eu o ouvi. Ouça, ele precisa de ajuda, está machucado…

Anne ergueu a mão coberta de sangue vermelho escuro. Vinha de uma poça que se formava debaixo da cabeça de Sirius e se espalhava pelo chão de pedra em velocidade alarmante. Harry supôs que ele batera a cabeça com o impacto.

— Se nós pudéssemos aparatar — ele cogitou, ficando um pouco mais desesperado com o crescimento da poça de sangue, a sensação exultante de ter o padrinho de volta substituída pelo terror de perdê-lo pela segunda vez. — E colocar a capa sobre ele, eu tenho certeza que no hospital…

— Harry — Sirius chamou de novo, ansiedade em sua voz destruída, reunindo todo o fôlego que lhe restava. — Você deve… pe… pegar. Seu. Esconda.

Harry não entendeu o que ele queria dizer até alguma coisa gelada tocar seu pulso. Só então percebeu que Sirius segurava na outra mão alguma coisa, ele trouxera alguma coisa lá de dentro. Harry o pegou, era uma espécie de punhal simples com o cabo de pedra. Talvez fosse algo que Sirius estivesse carregando consigo quando caíra, mas então… a mão do seu padrinho estava em carne viva onde o cabo lhe tocara a pele.

— Você deve… esconder… ninguém… — Sirius começou a tossir e sua boca se encheu de sangue escuro. Johanne choramingou, inclinando o rosto dele para o lado cuidadosamente para que não se engasgasse. Ela olhou desesperada para Harry.

— Precisamos conseguir ajuda, ele está morrendo.

— Certo. Certo. — Harry ficou de pé e escondeu o punhal no bolso interno de suas vestes. Ele não ia deixar seu padrinho morrer novamente, nem se sua própria vida dependesse disso.

— BD —

Tonks tentava chegar até onde Moody estava gritando ordens de evacuação a fim de lhe alertar que Harry Potter estava desaparecido, mas teve o seu movimento impedido por um puxão em suas vestes. Virou-se, pronta para azarar, mas era Johanne. Seu vestido branco estava ensopado de sangue e ela parecia alheia ao caos ao seu redor.

— Você foi atacada? — Tonks gritou para ser ouvida, ao mesmo tempo que tentava puxá-la para fora do caminho de três aurores da guarda especial que tentavam chegar à mesa do sub-secretário de execução das leis mágicas. — Você está machucada?

— Não! Eu.. O que está acontecendo? Os comensais invadiram?

— Não, eu penso que não ainda… Anne, onde é que você estava? De quem é todo esse sangue?

Mais atrás dela, Harry surgiu de onde antes não havia nada. Ele também tinha sangue manchando as mãos, mas a expressão em seu rosto não aparentava dor, só a resignação sombria que Tonks já vira outras vezes. Ela vira aquela expressão no rosto do garoto ali mesmo no Ministério há alguns meses.

— Tonks, nós precisamos de ajuda!

— Mas é óbvio que precis…

— Direto para o hospital — Harry a cortou com brusquidão. — Ele está ferido!

— Quem está fer… — Harry ergueu um pouco a capa e ela viu o relance de um enorme e magro cão negro tremendo no chão, seu pêlo empapado. — Oh, puta que pariu, esse não é… Mas como diabos…?

— Sim! — Harry e Anne ofegaram ao mesmo tempo.

— Ele está morrendo, Dora! — a menina completou num fio de voz.

Tonks se adiantou até onde o cão estava, tomando a ponta da capa da mão de Harry.

— Vou levá-lo, mas vocês precisam sair daqui também! Agora, Harry, entendeu? Você já sabe aparatar?

— Não, para onde vai levar ele? Eu vou com você!

— Eu posso aparatar. — Anne ofegou atrás dela. — Mas não tenho permissão.

— Resolvemos isso depois, aparate com Harry, você sabe para onde, o lugar de emergência.

— Não! — Harry protestou de novo, irritado por estar sendo ignorado — Eu vou com você! 

— Não seja estúpido, Harry, não é seguro! Vá com Anne, o resto de nós encontrará com vocês assim que eu puder! Anne, tem certeza que pode fazer isso?

— Sim. — ela assentiu, ansiosa mas confiante, os olhos escuros afiados.  

Tonks entrou debaixo da capa da invisibilidade e sumiu. Um segundo depois, eles ouviram o estalo indicando que ela não estava mais lá. Harry se voltou para Johanne, que tinha retirado a sua varinha com uma mão e fechado os dedos da outra em torno do pulso dele.

— Pronto, Potter? — havia um risco de sangue na bochecha dela que parecia uma garra. O mundo explodia ao redor deles, mas para Harry toda a confusão acontecia numa realidade paralela que não podia alcançá-los.

— Sim. — ele assentiu, pensando no que Hermione diria quando soubesse que sua primeira aparatação conjunta seria feita por uma ninfa ensanguentada de quinze anos. Então o mundo estalou, rodou e Harry sentiu que sua existência inteira era espremida através do gargalo estreito de uma garrafa.

 

 

Eles surgiram com um estalo seco numa sala vazia que Harry achou familiar, mas não reconheceu num primeiro momento. Aparatar era horrível, como os bruxos faziam aquilo o tempo inteiro? Havia um zumbido em sua cabeça indicando que algum dano irreparável fora feito, além de precisar lutar vários segundos contra a vontade de colocar para fora tudo que tinha comido durante o dia.

— A primeira vez é sempre difícil. — Johanne lhe informou, ela própria com a voz embargada — Depois vai ficando mais suportável. Veja se nenhuma parte sua ficou para trás.

— O quê? — ele checou a si mesmo, alarmando-se. — Como assim uma parte?

— Eu ainda sou meio nova nisso. — ela justificou. — Mas você parece inteiro.

Ele não se sentia inteiro. Ele sentia como se uma parte grande dele estivesse pendurada em cima de sua cabeça por ganchos sob um ninho de crocodilos, mas tinha consciência que isso nada tinha a ver com a aparatação, mas com todo o sangue que ele vira saindo da cabeça de Sirius.

Não pense no sangue. Ele vai sobreviver. 

Harry olhou ao redor, tentando se distrair dos piores pensamentos. Não demorou a entender porque a sala era familiar; o piano, o sofá mostarda com estofado vazando de grandes rasgos, as marcas de garras profundamente incutidas no papel de parede… alguém dera uma espanada no lugar, mas ainda parecia que tinha abrigado uma manada de lobos selvagens num passado distante. Ou um único lobo e uma manada de adolescentes que também ocorriam de ser animagos.

 — Essa é a casa dos gritos! — constatou. — Por que você aparatou aqui?

— Tem sido a sede provisória da Ordem da Fênix nos últimos meses. — Johanne explicou sob a respiração, andando até a janela fechada com tábuas e se inclinando para ver pelas frestas — A qualquer momento eles devem estar chegando.

— Eles…?

— A Ordem, Potter. Eles fazem reuniões para discutir o tipo de coisa que aconteceu hoje no Ministério.

Harry tentou lembrar o que ele tinha visto ao entrar no salão de eventos Philgrim arrastando Almofadinhas debaixo da capa, mas não fora muito. Gente em pânico, aurores tentando manter o controle, e… comensais? Não, ele teria notado se houvessem comensais, definitivamente.

— O que você acha que aconteceu? — perguntou, ansioso. — Um ataque?

— Com certeza um ataque. — ela murmurou, se voltando para ele com o cenho franzido. — Espero que todo mundo da Ordem esteja bem, que nenhum daqueles corpos seja de um deles.

— Corpos? — Harry ofegou. — Que corpos?

— Você não viu? Em cima do palco…

Harry deu um salto e começou a andar na direção da saída.

— Para onde você vai?

— Eu preciso voltar lá! Todo mundo está lá, eu não devia ter saído!

Anne correu atrás dele, tentando se interpor em seu caminho.

— Não! Tonks falou pra a gente esperar aqui!

— Você pode ficar esperando aqui! Eu não vou ficar aqui parado enquanto todo mundo está lá em perigo! —

Ele a afastou com um braço quando ela tentou impedi-lo, embora não fizesse ideia de como ia voltar ao Ministério. Já tinha entrado lá uma vez, certo? Podia dar um jeito de entrar a segunda, usaria uma lareira, ou a entrada de visitantes…

— Sirius não ia querer que você fizesse algo estúpido e se colocasse em perigo, ia?

Ele parou de chofre, se voltando para ela. No meio de toda agitação, sua paciência estava se esgotando para os mistérios em torno daquela garota. Harry estreitou os olhos para ela.

— O que você sabe sobre Sirius, afinal? Como você o conhece e por quêvocê se importa?

Anne virou o rosto, e ele viu que seus olhos estavam embaçados com lágrimas. Ela respirou fundo.

— Eu não posso dizer… é segredo.

— OH, FAÇA-ME O FAVOR. — Harry exclamou, sua voz preenchendo a sala vazia e reboando na madeira velha das paredes. — Então você quer que eu apenas engula tudo de estranho que aconteceu hoje naquela maldita sala, o fato de você saber exatamente onde ele estava, de poder enxergar apesar de todo mundo acreditar que é cega, de TER LIDO MINHA MENTE! E eu sei que você leu, não tente negar isso! Eu senti!

— Eu sei! Eu sinto muito, Harry, eu sinto. Há coisas que eu posso explicar…

— Comece — ele disse friamente. — Agora é uma boa hora como qualquer outra.

Ela engoliu em seco, parecendo miserável e acuada, o vestido mais vermelho do que branco, os olhos assustados. O peito subia e descia em uma respiração instável, mas Harry não teve nenhum resquício de pena por colocá-la contra a parede. Ele queria respostas e ela as tinha, que se danasse o resto; se ele não podia lutar, pelo menos podia arrancar dela uma explicação para o que tinha acabado de acontecer no Departamento de Mistérios.

— Eu… eu era cega. Eu sou cega há dois anos, desde que eu tive um… acidente. — ela engoliu em seco, seus olhos se desviando para um ponto atrás dele ao vislumbrar alguma lembrança desagradável de seu passado. — Nós tentamos de tudo, mas nada conseguiu curar meus olhos. Nem os medi-bruxos do St. Mungus, nem os melhores alquimistas da Europa. Então aconteceu… — Anne pigarreou, olhando para ele corajosamente. — Você.  

— Como é? — Harry franziu uma sobrancelha, desconfiado.

— Você chegou — Anne disse, aprumando a voz, ligeiramente constrangida. — E de repente eu voltei a ver. Eu não sei por que — acrescentou rápido, como se sentisse a necessidade de se defender — Só sei que do nada a minha visão voltou.

— Por causa de mim? — ele repetiu com incredulidade pesada na voz.

— Não sei! Não sei se foi só uma coincidência, só sei que desde aquele dia em que eu caí do Bicuço na floresta, eu consigo ver. Mas só se você está por perto. Eu sei, é estúpido.

Harry não achava estúpido. Ele achava muitas coisas – perturbador e incômodo, estranho e suspeito, mas definitivamente não estúpido.

— E por que você não contou pra ninguém? — ele quis saber, desconfiado. Ela encolheu os ombros, visivelmente sem graça.

— Porque eu não sei o que significa e eu tenho medo que seja temporário. Além do mais… Você vai para Hogwarts em um mês e eu…

Ela deixou a voz morrer; não estava mais olhando para ele e sim para o tapete puído e cheio de buracos. Uma coisa se espremeu no peito de Harry. De repente ele não tinha mais a necessidade de gritar com ela. Não estava mais irritado. Quando falou de novo, sua voz saiu bem mais calma:

— Como você conseguiu ler minha mente para saber qual das portas levava à Sala do Véu?

— Eu não sei — admitiu Anne, rouca. — Às vezes eu consigo saber o que as pessoas estão pensando ou sentindo, é muito mais como uma intuição, uma onda que chega até mim… eu nunca tinha feito de propósito antes. Acho que eu estava desesperada.

Harry percebeu que ainda estava segurando sua varinha. Calmamente a colocou no bolso, aproveitando aquele tempo para tentar controlar o coração que se debatia no peito. Ele olhou de novo para ela, com mais atenção, e achou que o olhar angustiado naqueles olhos negros enormes seria bem parecido com o que encontraria nos seus próprios, se ele tivesse acesso a um espelho.

— Como você sabia que Sirius estava… — chamando? Pedindo ajuda? Ele nem mesmo sabia, mas ela o compreendeu mesmo assim.

— Eu o ouvi chamar. — respondeu baixo. Ele a viu passar os braços em torno de si mesma, como se um frio repentino a acometesse. 

— Você o ouviu chamar a uma distância de nove andares, através do barulho de uma multidão de centenas de pessoas — ele repetiu, levemente descrente. Não que, àquela altura, devesse duvidar do que a magia era capaz de fazer.

Anne assentiu. Isso os levava à última pergunta, é claro.

— De onde você conhece o meu padrinho?

Ela negou, uma expressão de desculpas no rosto manchado de sangue e lágrimas.

— Isso é o que eu não posso contar.

Harry bufou, frustrado.

— Eu sei que você deve ter ouvido que a minha mente não é segura e que há coisa que você não deve me dizer…

— Não, não é isso. — Anne negou rápido. — Não é nada com a sua mente. É só que é mesmo um segredo. Um segredo mágico. Eu não posso contar. Não consigo.

— Oh. Oh. — Harry compreendeu. Um segredo mágico. — E quem seria o… fiel desse segredo?

Ela deu um sorriso triste.

— Sirius.

Ele piscou, surpreso. Como seu padrinho poderia ser o fiel de um segredo que envolvia Johanne? O que eles poderiam ter em comum, que Sirius se importasse o bastante em esconder pessoalmente com um feitiço Fidelius? Do outro lado da sala, a garota o olhava com tanta expectativa que parecia querer que ele lesse sua mente e arrancasse de lá a resposta. Ela mordia o lábio com força, os olhos negros perfuravam os verde dele com intensidade. Os olhos negros, e ele lembrou de como ela lhe parecera familiar quando a vira melhor na cozinha da cabana de Remus…

Uma série de estalos secos os sobressaltaram; um por um, uma coleção de cabeças ruivas foram surgindo pela sala: Arthur Weasley, Gui Weasley, Fred e Jorge, todos bastante desalinhados e agitados, mas parecendo inteiros.

— Harry, graças à Merlin! Não achávamos você de jeito nenhum! — Arthur exclamou, aliviado. — Quem trouxe vocês até aqui?

— Tonks — Harry disse, após trocar um olhar rápido com Johanne. — Ela nos aparatou e voltou para o Ministério, acho. Sr. Weasley, o que foi que aconteceu lá?

— Oh, não sabemos, Harry, não sabemos! Ao que tudo indica foi um envenenamento, os aurores verificaram duas vezes e nenhum comensal estava na cena, achamos que o veneno foi plantado antes da cerimônia…

— Um veneno? Mas quem…?

Com outro estalo, Remus Lupin surgiu perto da lareira. Ele verificou que Harry estava ali e pareceu aliviado, até enxergar o sangue no vestido da afilhada e seus olhos se alargarem.

— ANNE, MAS O QUE FOI QUE…

— Eu estou bem! — ela o tranquilizou — O sangue não é meu!

— Mas quem foi envenenado? — Harry repetiu para os Weasley, que pareciam surpresos por Harry não saber. — Alguém morreu?

— Sim, Harry, onde é que você estava? Eles caíram bem na nossa frente depois daquele discurso macabro da garota! — Jorge exclamou, um raro olhar de assombro em seu rosto magro. 

— Só os nascidos-trouxa. — Jorge esclareceu, espelhando o mesmo olhar do seu gêmeo — O veneno só atingiu os nascidos de pais trouxas. Não sei como ele fez isso.

Harry olhou para Remus em busca de confirmação, mas o bruxo ainda tentava se certificar de que a afilhada estava inteira.

— Eu já disse que estou bem, não é meu! — ela insistia, impaciente.

— Então de quem é? Com quem vocês… Tonks! Foi ela, ela se feriu? — ele exigiu saber, a expressão em seu rosto se agravando. — Por que ela não esperou aqui com vocês? Ela devia ter esperado!

— Ela teve que acompanhar alguém ao hospital. — Harry disse rápido.

— Quem? Quem, Harry?

Os quatro pares de olhos estavam presos nele, e Harry sentia que não podia segurar aquela notícia por mais um segundo que fosse:

— Sirius. Ela estava levando Sirius para o hospital.

— BD –

 — BLACK O QUÊ?

— Voltou. — disse Tonks com uma satisfação feliz, especialmente dada a cara que Snape fazia naquele momento. — Dos mortos. Do véu.

— Mas isso é impossível! — O mestre de poções protestou, como se a notícia o ofendesse pessoalmente.

Tonks quis usar os próprios punhos para dividir o grande nariz de Snape em dois, mas se comportou porque estava no escritório de Dumbledore. O diretor os observava com seriedade.

— Lestrange matou Black. Black caiu no véu. Todo mundo estava lá, todo mundo viu. — Snape prosseguiu, como quem repete as regras de funcionamento do mundo para uma criança imaginativa de três anos.

— Ainda assim, eu mesma o levei para o St. Mungus há pouco. E eu mesma chequei seu pulso, então eu sei do que eu estou falando.

— Isso é ridículo. — O mestre de poções cruzou seus braços, inconformado. Dumbledore, que não parecia nem tão surpreso com o misterioso retorno de Sirius nem tão perturbado com a discussão entre a auror e o professor de poções, realinhou os óculos com a ponta do dedo, com um ar pensativo.

— Seria interessante manter o retorno de Sirius em segredo até termos a declaração final do Ministério sobre a sua inocência, que deve estar saindo em qualquer tempo do próximo mês, isso se a lamentável tragédia que ocorreu no Ministério hoje não atrasar todo o sistema burocrático. Eu assumo que a sua mãe está à frente da internação dele no St. Mungus, minha cara Tonks?

— Sim, eu o levei diretamente até ela.  — Tonks garantiu, ainda olhando feio para Snape. — Agora se me der licença, professor, quero checar como Harry e Johanne estão. Eu os direcionei até a nova sede no meio da confusão, mas eles pareciam bem agitados.

— A filha de Black — Snape repetiu com ceticismo — e Potter. Eles são amigos agora? Era só o que faltava.

— Já está bom, Severo, entendemos o seu ponto de vista. — Dumbledore o interrompeu friamente, ao que Tonks ficou agradecida. — Agora, se você pudesse convocar uma reunião para a próxima hora, minha cara,  e passar essa mensagem para os membros, eu ficaria grato. Precisamos entender como aconteceu o que vimos no Ministério esta noite.

— Sim, senhor. Com sua licença. — Tonks assentiu e se virou para deixar o escritório, esquecendo-se propositadamente de se despedir de Snape. Assim que ela se foi, o mestre de Poções também se ergueu da cadeira onde estivera sentado, sacudindo a capa.

— Posso perguntar aonde vai, Severo? Sua presença será importante na reunião hoje mais tarde. 

— Eu estarei presente, mas antes vou ao St. Mungus. Preciso ver essa insanidade com os meus próprios olhos para acreditar.

 

 

Em algum ponto da noite, o Sr. Weasley perguntou a Harry se ele não queria retornar à Toca e fazer companhia à Rony e a Sra. Weasley, que tinham retornado para casa em segurança assim que confusão começara no Ministério. Mesmo à menção de chocolate quente e bolo de cenoura que o esperava, Harry negou. Ficava aliviado que o amigo e Molly estivessem bem, mas não se via saindo da casa dos gritos, para onde ele sabia que as respostas viriam primeiro.

Harry implorou para Remus lhe levar com ele, quando o ex-professor terminou de ouvir sua breve narrativa sobre o retorno de Sirius e anunciou que estava indo ao St. Mungus, mas o bruxo se recusou a levá-lo. O hospital estaria repleto com os parentes das vítimas daquela noite, e não seria seguro para Harry, ele dissera. E lhe prometeu que traria notícias de Sirius assim que as tivesse. Lhes prometera; Anne estava alguns passos atrás, enrolada em uma poltrona puída da sala, ouvindo em silêncio. Remus abraçou Harry, deu um beijo no topo da cabeça da afilhada e desaparatou.

Por um momento tudo ficou silencioso na sala da casa dos gritos. Até mesmo os gêmeos, que tentavam fazer a lareira funcionar, pareciam sem qualquer vontade de fazer piadas. Gui ajudava o pai a renovar uma série de feitiços de proteção em torno da casa. Harry ficou ouvindo os murmúrios deles por um momento, sua cabeça à toda, mas sem fazer nenhum sentido.

Algum tempo depois, com um novo estalo, Nimphadora aparatou atrás do sofá. Tanto Harry quanto Anne deram um pulo quando a viram - quase tão ensanguentada quanto eles, embora o sangue seco sobressaísse menos em seu uniforme de auror.

— Como ele está? — Harry pediu, agoniado.

— Não sei, parece ruim — ela disse baixo, só para eles dois ouvirem. — Mas minha mãe está com ele. Ela vai fazer tudo que for possível, tenha certeza disso.

— Ele não pode morrer, Dora — Anne murmurou, ecoando os pensamentos de Harry. O lábio inferior dela tremia. Harry reparou que ela voltara a usar os óculos escuros para disfarçar o fato de que podia enxergar.

— Você está viva. — Gui os interrompeu, bagunçando os cabelos já bem desalinhados de Tonks, no momento roxo escuros. — Achei que tinha feito algo estúpido e corajoso.

— Não, eu deixo isso para os grifinórios bobalhões. — Ela fez uma careta sorridente.

Os dois se abraçaram como velhos amigos; Harry ficou surpreso, era um abraço bem apertado.

Se afastaram, Tonks retomando sua postura de auror séria:

— Dumbledore está solicitando uma reunião da Ordem para discutir o que aconteceu no Ministério, ele me pediu para avisar e preparar a sede. — os olhos dela pousaram em Harry e Anne — Eu acho que vocês deveriam ir para outro lugar enquanto isso, Harry para a Toca e Anne, você pode…

— Eu não posso voltar para a cabana, não tem ninguém lá para ficar comigo — a menina disse rápido.

— Anne pode ir para a Toca também, sem problemas — Gui ofereceu. — Tenho certeza que mamãe não vai se importar e Harry pode apresentar todo mundo à ela.

— Não, eu vou ficar aqui. — Harry avisou, decidido. — Quero participar da reunião.

— Harry... — Tonks piscou, condescendente, apertando os lábios. — Você ainda é menor, não pode participar das reuniões, lhe explicamos isso verão passado. Eu sinceramente não me importaria, mas são as condições para todo mundo.

— Eu não sou todo mundo — ele teimou — Além do mais, eu que estava lá quando Sirius voltou, eu e… Johanne. — olhou brevemente para a garota, sabendo que ela queria tanto quanto ele permanecer na casa dos gritos no momento. — Nós somos as pessoas qualificadas a contar o que aconteceu lá, mais ninguém, e aposto que Dumbledore vai querer detalhes.

Tonks trocou um olhar com Gui, que parecia estar segurando um sorriso, e suspirou frustrada.

— Ok, você venceu, garoto. Honestamente, alguém tem que fazer alguma coisa sobre esse par de olhos verdes, é errado usar isso para o mal.

— Obrigada por argumentar pela nossa permanência aqui, mas eu realmente prefiro não ter que falar com Dumbledore sobre o que aconteceu no Ministério, se você não se importar. — Anne murmurou, depois que Tonks e Gui se afastaram na direção do Sr. Weasley.

— Disponha. — Ele virou na direção dela, que voltara a se encarrapitar na poltrona velha, as pernas encolhidas debaixo do corpo, os braços cruzados, sangue seco de Sirius por todo o vestido. Sentiu uma inexplicável simpatia pela garota que o ajudara a trazer seu padrinho de volta e arriscou um sorriso. — Você pode me chamar de Harry, sabe. 

Ela deu um sorriso cansado, sem querer dizer pra ele que já se referia a ele pelo primeiro nome há anos, desde que soubera que ele era parte da família.

 

 

— Bervely.

— Severo.

— Vejo que você mais uma vez está ignorando o seu jantar.

Ela deu um suspiro desinteressado.

— Esse frango tem gosto de pergaminho velho. Você trouxe?

— Sim. — Snape tirou do bolso de suas vestes a garrafinha contrabandeada e a expandiu ao seu tamanho original, entregando-a para a afilhada. Bervely recebeu a poção com diligência, arrancando a rolha com um pop e virando um gole mecanicamente pelos lábios ressecados.

— Você deveria se alimentar antes de tomar drogas. Vai acabar lesionando o fígado desse jeito.

— Estou no hospital, eles podem consertar meu fígado. Não era esse o ponto? — ela disse com zombaria. — Aqui eles podem consertar tudo. 

Snape sentiu e segurou o impulso de argumentar; com ela, era nada mais do que desperdício de saliva. Não era sábio confrontar a sua afilhada, ainda mais naquele estado de humor que já durava mais do que o recomendável.

Aquele era o quarto doze da ala de Danos por Magia do hospital St. Mungus. Fora uma das exigências de Bervely para dar entrada no hospital, ter aquele quarto especificamente. Ela também exigira a retirada da janela e do espelho. A quarta exigência, acesso ilimitado à poção dos Sono Sem Sonhos, não pudera ser cumprida pelo hospital e coubera à Snape lhe trazer doses escondidas sob sua capa quase diariamente. Ele tinha consciência de que estava alimentando um vício perigoso, mas dada as circunstâncias em que ela chegara até ele há seis semanas, sabia que aquele era a solução menos danosa.

E como a mesma dissera, estava num hospital. Seria assistida caso algo lhe acontecesse - caso ela, por exemplo, tivesse outra parada cardíaca como na época de escola, ou se começasse a ver pessoas que já tinham morrido e achasse uma boa ideia se jogar de um lugar alto para acompanhá-las. Curandeiros estavam assistindo-a vinte quatro horas por dia, embora Bervely não soubesse disso. Enquanto estivesse segura ali e não solta pelo mundo, procurando problemas ou vingança, o resto era administrável.

Todo esse raciocínio estava justificado até aquele dia, até o momento em que recebera as notícias trazidas por Nimphadora Tonks. Snape não decidira ainda o que fazer a respeito daquilo. 

— Eu odeio quando você fica aí parado com esse olhar do fundo do poço, como se eu fosse a coisa mais deprimente que você já viu. Eu não sou, na dúvida, consulte um maldito espelho.

— Se você ainda fosse minha aluna, pagaria essa insolência com uma detenção tão ruim que não lhe sobrariam dedos no final, você sabe.

Um sorriso torto cresceu no rosto dela, ressaltando-lhe as maçãs do rosto pronunciadas.

— Você quase me fez sentir saudades da época de escola.

Snape arrastou uma cadeira e sentou, cruzando os braços. Não sabia como ela aguentava ficar tanto tempo isolada naquele quarto; as paredes eram nuas, a cama e aquela cadeira sendo os únicos móveis, a única distração disponível numa série de livros de Alquimia em um nicho na parede.

— Então — Bervely, sentada na cama com um livro aberto nos joelhos e as notas que estivera fazendo ainda flutuando ao seu lado, inclinou a cabeça para ele. — Como foi o evento no Ministério? Alguém colocou uma dose de veneno na bebida daquele Ministro exibido, ou… O quê? — ela percebeu um olhar peculiar perpassar o rosto do professor e ergueu as sobrancelhas, interessada. — Eles colocaram? Envenenaram o Ministro da Magia?

— Não, não o Ministro. — Snape usava seu olhar grave, que prenunciava acontecimentos ruins. Bervely sabia reconhecê-lo porque ao longo daquele mês ele o fizera outras vezes, sempre que os desdobramentos da guerra do lado de fora, no mundo real, eram indigestas. Era sempre ele a lhe trazer informações, já que ela não fazia questão de receber jornal no St. Mungus. —  Treze dos aurores recém nomeados foram mortos durante a cerimônia, no entanto. Apenas os nascidos-trouxa...

— Merda. — Bervely afastou o livro das pernas, fechando os olhos por um momento. Ao falar de novo, quase soou indiferente. — Alguém conhecido?

— Ensinei a maioria deles em Hogwarts. Da sua época, vejamos… Elisa Turton? O meio-irmão dela era do seu ano, Kevin Turton. E aquele rapaz da Corvinal que gostava de fazer eventos ilícitos na escola… Greyson, Brunn Greyson, lembra-se?

— Vagamente. — Bervely voltou a se recostar na cama. Não importava, ela disse a si mesma. Aquelas coisas não tinham nada a ver com ela e não deveriam afetá-la. — Mas, então eles foram envenenados? Isso é coisa dos Comensais?

— Certamente. O Lord das Trevas transmitiu uma mensagem através de um deles, sobre reconhecer as verdadeiras ameaças e não aceitar que pessoas de sangue impuro assumam posições de prestígio como o Esquadrão de Aurores. Naturalmente ele fez com que a mensageira torcesse o próprio pescoço ao final, para dar um toque especial ao discurso. Ela também era nascida-trouxa.

— Hum. Você saberia dizer se Nimphadora Tonks estava em serviço?

— Ela está intacta. — Snape torceu a boca ao se lembrar do encontro com a auror há alguns minutos, no escritório de Dumbledore. — Não foi atingida pelo que quer que tenha provocado a reação fatal.

Bervely relaxou sua postura, puxando seu livro de volta e passando uma folha a esmo.

— Já sabem que veneno eles usaram?

— Não ainda. Desde que você esteve se especializando em venenos em seus estudos no Instituto, achei que pudesse ter um palpite?

Ela ergueu o rosto, um tanto surpresa que Severo Snape estivesse pedindo a sua opinião sobre uma questão de poções não para testar seus conhecimentos, mas para comparar… como uma igual. Infelizmente seu ego não pode desfrutar plenamente do momento, já que não tinha nada de útil para lhe devolver.

— Teria de ser uma substância que aja em relação ao coeficiente de pureza do sangue, certo? Se foi capaz de agir seletivamente. Nunca ouvi falar de nada assim, mas posso pesquisar.

— Me deixe saber se descobrir qualquer coisa. — Ele se levantou, ciente de que seu tempo ali era limitado, pois ainda precisava comparecer à reunião da Ordem da Fênix. Antes de ir, fez a pergunta para a qual já imaginava a resposta — Alguma novidade quanto à sua metamorfomagia?

— Nada. — ela disse impassível, sem tirar os olhos do livro.

Snape se achou impaciente com o nível de descaso dela.

— Você ao menos está tentando?  

Bervely lhe fitou com as sobrancelhas erguidas.

— Não é como se eu tivesse perdido de propósito, sabe. Isso seria bem estúpido da minha parte.

— Seria. — ele estreitou os olhos, mas resolveu deixar para lá. — Se precisar entrar em contato, sabe onde me encontrar. Boa noite, Bervely.

Ela já tinha retornado ao livro, que ele sabia ser um compêndio descritivo de solubilidade mineral bem enfadonho até mesmo para quem se interessava no assunto; o autor não era muito didático, provavelmente por ser um fantasma. Não foi até que ele estivesse atravessando o portal quando ouviu a voz dela novamente:

— Aconteceu mais alguma coisa?

Ele se voltou com uma expressão cuidadosamente neutra.

— Fora o assassinato de treze crianças debaixo do nariz do Ministro da Magia, de uma parcela representativa da comunidade mágica e do Esquadrão de Aurores? Não, tudo tranquilo.

Bervely rolou os olhos, condenando o humor negro que vinha a ele tão facilmente como respirar.

— É só que você parece estranho. — ela deu de ombros. — Mais do que o absolutamente necessário para manter a reputação, quero dizer.

Snape considerou um segundo, alcançando a mesma conclusão a que chegara antes de adentrar o quarto.

— Não. Isso foi tudo.

— Certo. — Ela baixou os olhos para o livro. O cabelo preto e embaraçado ocultou o rosto ossudo, os dedos magros passaram mais uma página. — Nesse caso boa noite, Severo. 



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