Capítulo 4. O Gato Tem Uma Pergunta
- Ly Anne B.

- 13 de nov. de 2016
- 43 min de leitura
Atualizado: há 3 dias
— BLACK! – Ela gritou, sem acreditar no que os seus olhos estavam vendo. – BLACK!
"Por favor, por favor, faça com que esteja vivo, faça com que…"
Caiu de joelhos na areia ao lado dele, com medo de acreditar. Da última vez que encontrara alguém estirado no chão fora Hector, com seus olhos abertos e apagados, exangue, o coração congelado. E ela sabia que se isso acontecesse uma segunda vez em sua vida, e com Sirius… ela não suportaria.”
Indigna Rosa Negra — Ly Anne Black
Na escuridão da sala, em algum ponto da madrugada, Harry se deu conta de que não estava mais sozinho.
Podia sentir, embora não soubesse bem como, que outra presença espreitava no escuro, sem fazer nenhum barulho. Será que estava ali há muito tempo? O que estava esperando para atacar? Não sabia, porque há alguns minutos ele estivera dormindo, até sentir aquele arrepio em sua nuca e se achar completamente desperto.
Muito sutilmente, Harry tateou debaixo do seu travesseiro, atrás da sua varinha. Talvez se ele se movesse muito devagar e depois atacasse muito rápido, renderia quem quer que estivesse ali parado no escuro antes que essa pessoa decidisse fazer as honras.
E se fosse Bellatrix novamente? Ela teria passado no andar de cima primeiro. Os outros moradores da casa estariam mortos à essa altura. Seu peito doeu ao pensar em Remus estirado em sua cama, gelado, sem saber o que o tinha atingido. Talvez Tonks também não tivesse sido poupada; Harry tinha a vaga impressão de que ela não tinha se despedido em nenhum momento após o retorno de Remus.
Ele teve um vislumbre da Marca Negra pairando sobre a casa, e como essa foto apareceria na primeira página do Profeta Diário, acompanhada de letras enormes: “O Eleito é encontrado morto numa cabana no meio da floresta”. “O Grande Triunfo Daquele-Que-Não-Deve-Ser-”
— Você está acordado?
Harry interrompeu o movimento de sua mão, reconhecendo a voz. Ele soltou todo o ar que tinha segurado em seus pulmões, com bastante exasperação:
— Bem, agora eu estou.
— Desculpe. Só vim pegar um copo d’água, não era a minha intenção acordar você.
Harry alcançou os óculos e os encaixou no rosto, sentando-se no sofá, o coração ainda meio desgovernado pelo alarme falso. Quando seus olhos se acostumaram, ele conseguiu divisar a silhueta da garota contra a janela, sentada no parapeito, como estivera mais cedo. O gato prateado ao seu lado, refletindo a iluminação fraca que vinha da lua crescente do lado de fora. Não parecia que estava indo atrás de água nenhuma.
— Eu aposto que você está curioso para saber de quem Remus estava falando hoje mais cedo. — ela comentou num tom de conversa fiada.
Harry não conseguia ver os traços de seu rosto porque ela estava contra a luz, mas ainda podia perceber um risco prateado dos seus olhos, que refletiam do mesmo jeito que os do gato. E a garota tinha razão, Harry estava curioso para saber sobre quem Remus falava, quem ele tinha achado. Só que logo após anunciar isso para as garotas, ele pareceu se lembrar que Harry estava ali e, pedindo desculpas, as chamou para continuarem a conversa na cozinha. “Eu me sinto horrível em fazer isso, Harry, realmente, mas na atual circunstância…”
Ele assentira, reprimindo uma careta. Era estranho quando as coisas não eram sobre ele - uma sensação muito inquietante de ser deixado de lado com a qual não estava acostumado.
A afilhada de Remus, no entanto, ainda esperava que Harry pescasse o seu gancho. Ele decidiu que não ia facilitar para o lado dela, por mais que estivesse curioso.
— Não, não estou. — mentiu — E se você não se importa, eu gostaria de voltar a dormir, o que fica mais difícil com você aí vigiando meu sono.
— Tem certeza? Porque eu posso contar à você.
Harry se deteve em seu movimento para voltar a deitar, franzindo suas sobrancelhas.
— Você não devia me contar. Não sabe se pode confiar em mim.
A garota-ninfa deu de ombros, movimento que ele pescou pelo contorno de sua silhueta contra o vidro.
— Eu vou arriscar minhas chances, se não se importa.
Harry cruzou os braços, desconfiado. O que ela ganhava compartilhando aquela informação com ele, quando até então tinha demonstrado que claramente não gostava da sua presença ali? Johanne continuava afagando o gato mecanicamente, e o par de olhos amarelos também estava cravado nele, esperando sua reação.
— Ok, vá em frente. Quem é que estava desaparecido e Remus foi procurar hoje à tarde?
Ela demorou quase meio minuto para responder. Se estava apreciando o suspense que causava ou escolhendo cuidadosamente suas palavras, Harry não saberia dizer, já que não tinha acesso às expressões em seu rosto.
— É a minha irmã. Ela estava sumida há várias semanas e estávamos preocupados que alguma coisa horrível tivesse acontecido. Mas então Remus conseguiu uma pista… você trouxe a pista, na verdade. Com a sua Wendy.
— Remus acha que foi a sua irmã quem tentou me sequestrar? Por quê, o que ela tem contra mim? Eu não acho que sequer a conheço!
Johanne negou, balançando a cabeça. Seu cabelo capturou o luar frágil e reluziu como prata por um segundo.
— Bem, ela te conhece e tenho a impressão de que está bem zangada com você nesse momento.
— Mas o que é que eu fiz pra sua irmã? — ele quis saber, tentando repassar todas as pessoas que ele pudesse ter indiretamente ofendido num tempo recente. Tendo os jornais o denominado como “Escolhido”, a lista podia ser longa. Mas alguém que estivesse irritado com ele à ponto de entregá-lo para Voldemort…?
— Ela acha que Sirius morreu por sua culpa.
Tudo dentro dele gelou, dos seus joelhos até seu raciocínio. Era esse o efeito que a menção desavisada do padrinho tinha agora. Tentando não demonstrar nem o vazio súbito em seu peito nem o gosto muito amargo no fundo de sua garganta (Sim, você é culpado, outras pessoas sabem disso), lutou para que sua voz saísse normal:
— De onde a sua irmã conhecia Sirius?
— Isso é uma longa história.
Ela não deu mostras de que pretendia contá-la. Sua mão passeava no mesmo ritmo lento para cima e para baixo do pêlo do gato, que por sua vez, olhava Harry com perfurante fixação. Os olhos amarelos dele, Harry podia ver perfeitamente no escuro.
— Você conhecia Sirius? — indagou, com um fio estranho de esperança. Julgando que ela era afilhada de Remus, isso era possível, mas então porque nunca cruzara com aquela garota na Ordem da Fênix, ou mesmo em Hogwarts? Não, não Hogwarts… ele se lembraria dela se estudasse na escola.
— Sim. — a ouviu hesitar. Agora tinha certeza de que ela estava escolhendo as palavras. — Um pouco.
— Como? Quando?
Anne suspirou.
— Não posso te dizer.
— Ótimo. — Harry retrucou com azedume. É claro que Remus teria a advertido que a mente dele era uma peneira furada para Voldemort. Harry pensou em argumentar que essas informações não tinham como ser perigosas, afinal não havia mais muito como Voldemort usá-las para prejudicá-lo, Sirius já estava…
— O gato tem uma pergunta. — Anne anunciou abruptamente, interrompendo seu raciocínio.
— O gato…?
— Sim, o gato.
Harry olhou do gato para a silhueta da falsa ninfa com resignação. Ela não era normal, isso era fato. Ele suspirou com condescendência:
— O que “o gato” quer saber?
— Quando Sirius caiu no véu, você estava lá, não estava?
— Sim. — anuiu quase em desafio, parte dele se perguntando por que ela entraria nesse assunto, dentre todos. — E daí?
— Você viu com que feitiço ele foi atingido? Era um… era… verde?
A cena do duelo e morte do padrinho era assombrosamente clara na mente de Harry. Curiosamente, ninguém lhe fizera essa pergunta até então. É claro, não importava com que feitiço Sirius tinha sido atingido; ele atravessara o véu da morte. Poderia ter sido um estúpido tarantallegra e não faria a menor diferença. Ainda assim, a expectativa da resposta estalava no ar entre eles.
— Não.
— Você tem certeza? — A voz dela vibrou numa nota esperançosa que para Harry não fazia o menor sentido.
— Tenho. Foi vermelho. Era um feitiço estuporante, ou algo assim. Mas por que é que o gato quer saber disso?
Não houve resposta. Harry piscou em confusão ao perceber que estava falando sozinho; não havia mais ninguém sentado no parapeito da janela. Será que ele tinha acabado de sonhar com aquela conversa estranha, ou tinha realmente acontecido?
— Molly me escreveu essa manhã, Harry. Ela quer saber se você se interessa em uma ida rápida ao Beco Diagonal para comprar o seu material escolar e as vestes de gala para o evento do Ministério. — Remus falava, enquanto servia para ele um típico café da manhã inglês completo que cheirava maravilhosamente. O garoto, que precisava se segurar para não rir do avental florido que o maroto usava com muito desprendimento, assentiu.
— Sim! Mas pensei que isso não fosse acontecer, com todas as questões de segurança.
— Uma equipe de aurores vai acompanhar vocês. — ele explicou, colocando bacon extra no prato de Harry — Não é como se nenhum de nós fosse deixar você sair à luz do dia desprotegido, ainda mais depois do que aconteceu no seu aniversário. Mas achamos que você ia apreciar um passeio, deve ter sido muito aborrecido esse tempo preso na casa dos seus tios.
“Muito aborrecido” nem começava a descrever, mas Harry não quis choramingar. Remus não precisava saber a frequência com que Harry queria bater sua cabeça na parede até perder a consciência, sempre que as horas se arrastavam na rua dos Alfeneiros.
— Você vem conosco?
— Não, não. Tenho outras coisas para fazer pela manhã.
— Coisas da Ordem? — Harry sondou. Remus detectou a isca e não mordeu.
— Mais ou menos.
Um estrondo se fez ouvir na sala, seguido de um miado revoltado. Eles ouviram um “Ops, desculpe, Jinx!” e em seguida Tonks apareceu na cozinha, corada, esfregando o antebraço.
—`Dia, meninos! Uau, que belo café, chef Lupin.
— Dora. — Remus relanceou para ela e se voltou uma segunda vez, seus olhos se arregalando. — Nimphadora! Harry está aqui!
— O quê? — ela checou a si mesma e virou para ele, girando os olhos. — Harry já viu pernas antes, tenho certeza que não é nenhuma novidade visto que é parte recorrente da anatomia humana.
Harry baixou o olhar para seu feijão doce, rindo. A auror usava a mesma blusa comprida do dia anterior (que agora dizia: Malfeito Feito Já Te Pegou de Jeito!), mas não havia sinal de suas calças. O que não fazia tanta diferença – a peça de roupa nela era comprida como um vestido.
— Quer fazer o favor de ir colocar uma roupa decente? — ele resmungou entre os dentes, tentando evitar que Harry o ouvisse.
— Mas eu estou decente. — retrucou Tonks, indignada. — Harry, minha roupa está constrangendo você de alguma maneira?
— Não — ele disse rápido, tentando ficar sério.
— Viu só? Você é o único puritano nessa cozinha, Lupin. Agora será que eu posso ganhar umas torradas, ou eu vou precisar pegar por mim mesma? A última vez que eu tentei, você reclamou comigo por horas.
— Você sujou o teto de geleia. O teto.
Quando ela terminou de comer e saiu, anunciando que ia chamar Anne para “irem”, Harry terminou de engolir seu chá, que já estava meio frio.
— Então vocês e Tonks estão…?
Era raro ver um homem adulto corar daquela maneira. O pote de manteiga que Remus estava tampando escapou das suas mãos e teria caído no chão, não fosse seu rápido feitiço flutuante.
— Ah, nós não… realmente, quero dizer, ela é bem nova, e eu…
— Eu acho legal. — Harry se adiantou, poupando-o do sofrimento, apesar de Remus nem estar merecendo. — Acho que Sirius iria gostar, sabe.
A expressão no rosto do seu ex-professor se transformou, como se ele tivesse recebido uma agulhada inesperada debaixo das costelas. Harry teve a impressão de que os olhos claros de Remus ficaram mais brilhantes por um momento, mas quando ele voltou a falar, a voz estava firme e calorosa.
— Harry, eu imagino que seja difícil falar sobre isso. Mas se você quiser conversar a respeito de Sirius, eu quero que saiba que eu estou aqui. Seu pai e Sirius eram como meus irmãos e você é como… — ele tomou um profundo suspiro — James e Sirius jamais iam me perdoar se eu deixasse qualquer coisa lhe acontecer e é para isso que eu estou aqui agora.
Harry engoliu em seco, sem saber o que dizer. Ele não se sentia pronto para aquela conversa; não parecia que algum dia estaria.
— De fato… — Remus enfiou a mão no bolso e tirou uma caixinha mínima, que fez retornar ao tamanho original com o auxílio da varinha. — Esse é o seu presente de aniversário. Eu pretendia lhe entregar na festa que estávamos planejando para você na Toca, mas com toda a comoção acabei me esquecendo. Era de James, algo especial para ele, achei que você gostaria de guardar consigo.
Harry recebeu e abriu o presente com curiosidade. Se surpreendeu ao reconhecer o que havia dentro: um pomo de ouro muito arranhado que batia as asas de forma bem preguiçosa. Todo pomo de ouro era diferente de alguma maneira, e Harry sabia ter visto aquele na memória de Snape.
— Foi o pomo que nos rendeu a primeira vitória na Copa de Quadribol, no quinto ano. James não largava isso, gostava de ficar lembrando à todo mundo que fomos campeões naquele ano.
— Hum… obrigado. — A bolinha de ouro pesou em sua mão, fria, e Harry sentiu os olhos embaçarem atrás dos óculos. Ele pigarreou. — Eu pensei que meu pai fosse artilheiro.
— Oh, ele era, mas só porque essa era a posição que o rendia mais destaque nas partidas. A verdade é que ele era bom em quase todas as posições, menos goleiro. Definitivamente não goleiro. — Remus deu uma risada breve, fruto de alguma memória divertida que Harry teria dado um braço para saber também — Então, ele jogou como apanhador na última partida daquele ano, porque nosso apanhador, Dorian Kirk, sofreu uma contusão e estava na ala-hospitalar.
Harry ficou olhando por um longo tempo o pomo preguiçoso em sua mão, até Remus lhe dar uns tapinhas nas costas.
— Eu preciso ir, Harry. Arthur vem lhe buscar através da lareira em mais ou menos uma hora, esteja pronto. Se você precisar de qualquer coisa, entre em contato comigo através do seu patrono, ainda é o jeito mais seguro.
Harry assentiu, querendo ser capaz de dizer mais do que obrigado para aquele presente que significava tanto. Se sentia culpado por ter gritado com o maroto no dia anterior, mas a esse ponto a culpa nada mais do que uma presença recorrente no seu rol de sentimentos.
Hospital St. Mungus, uma hora mais tarde.
Andrômeda Tonks revolvia suas mãos frias sem parar, esperando em frente à lareira principal da recepção do Hospital St. Mungus Para Doenças e Acidentes Mágicos. Pacientes com as mais diversas afecções - bicos de pato no lugar da boca ou braços brotando de lugares improváveis - passavam por ela, e ela costumava ser sensível a esse tipo de situação num dia normal, tentado ajudá-los a encontrar a ala certa para serem atendidos, mas não hoje. Hoje, tudo que ela podia pensar era se não estava cometendo um erro ao chamá-los ali, ao trair a confiança de Bervely.
As chamas da lareira ficaram esmeraldas; um segundo depois, saiam por ela sua filha, em seu uniforme de auror bem amassado, acompanhada de Remus Lupin e a pequena Johanne Loren. Não, Johanne Black. Todo aquele tempo e Andrômeda ainda não aplicava o sobrenome correto. Não ter visto a garota por dois anos inteiros não ajudava.
— Mãe — Dora veio lhe cumprimentar com um abraço rápido, seguida por Remus Lupin, que apertou sua mão educadamente.
— Andrômeda. — O antigo amigo do seu primo parecia ainda mais cansado e grisalho do que a última vez que tinha lhe visto, ainda mês passado, numa reunião da Ordem da Fênix. A guerra certamente cobrava seu preço para todos eles.
— Olá, Remus. Ah, olá, Anne, é bom ver você, meu bem. O que andou tomando naquele Instituto, poção para esticar?
A menina riu e seguiu o som da sua voz, a alcançando para um abraço que Andrômeda retribuiu com intensidade. Sentira saudade dela. Dela e de Bervely, constantemente, enquanto tinham permanecido no Instituto Flamel. Gostaria que o reencontro tivesse um gosto menos agridoce, mas era impossível não olhar para aquela jovem garota e não se lembrar de Sirius imediatamente.
— É bom te encontrar de novo, tia Andie. — Ela ecoou os pensamentos de Andrômeda, ajeitando os óculos ao se afastar. Ainda eram os mesmos que a bruxa desencravar do seu sótão uma vez, querendo substituir os lenços que Anne insistia em usar para cobrir os olhos, nos meses após o seu acidente. — Eu senti a sua falta.
— Mãe — Nimphadora a chamou, apreensiva demais para esperar o desenrolar natural do reencontro. — Onde ela está? O quão ruim é?
— Aqui não. — advertiu, olhando ao redor. Em tempos como aquele, era sempre melhor evitar ter aquele tipo de conversa em lugares cheios de gente, nunca podia saber que ouvidos errados estavam escutando. — Vamos para a minha sala.
Ela os encaminhou até a sua sala no quinto andar, a ala de Danos por Magia, de onde se tornara chefe interina no último ano. Com um aceno da varinha, triplicou magicamente a cadeira de visitantes, dando lugar para os três.
— Obrigado por nos receber, Andrômeda. — Remus disse, ajudando Anne a encontrar a cadeira, depois se sentando ao lado dela. Havia um tipo de preocupação muito característica em seu rosto; aquela que emergia quando você se tornava responsável pela vida de outro ser humano. Não esperava nada diferente de Remus Lupin, seu senso de obrigação sempre fora maior do que o dos outros marotos juntos. — Nós procuramos Bervely em toda parte nessas últimas semanas, é um alívio finalmente saber onde ela está. Eu estou supondo que não aconteceu nada grave…?
— Mãe, quando podemos vê-la? Por que você está fazendo tanto suspense? — Tonks interrompeu, inquieta como era desde que estava em seu útero.
— Há coisas que vocês precisam saber antes. Remus, eu entendo que foi Snape o responsável por informar que Bervely estava aqui no hospital?
— Sim. — Remus confirmou, sua expressão se tornando aborrecida. — Eu fui até ele ontem insistir sobre o assunto pela quinta ou sexta vez. Nunca duvidei que se houvesse alguém que ela ia procurar, essa pessoa seria Snape. Eles compartilham dessa familiaridade estranha, desde que Bervely esteve em Hogwarts.
— Ele é o padrinho dela. — Andrômeda lhe lembrou, contundente.
— A questão é que ele continuou se recusando a me dizer o que sabia, até eu mencionar que Bervely poderia muito em breve se tornar suspeita da tentativa de sequestro de Harry Potter, o que o fez mudar de ideia, como você pode imaginar.
— Mas isso é impossível, Remus. — A medibruxa meneou a cabeça.
— Eu sei que soa um tanto extremo, mas você não a viu quando ela saiu do Instituto, após saber sobre Sirius. Ela estava fora de si. Por um tempo, achamos que ela queria achar Bellarix para se vingar, o que era o que mais me preocupava, é claro. Mas os jornais começaram a explorar a participação que o Harry teve naquela noite no Ministério, e mais de uma vez foi mencionado que a única razão para estarmos todos lá é porque ele tinha caído em uma armadilha de Voldemort e precisou ser resgatado. É fácil pular para a conclusão de que Harry teria alguma culpa no que aconteceu com Sirius, o que é claro, não faz sentido, a não ser para alguém em busca desesperada por um culpado que possa ser alcançado. Além disso, Harry me descreveu a aparência que a seqüestradora usou na ocasião, e me soou bastante como a que Bervely usou para tirar Sirius de Azkaban, pelo que ele me disse certa vez. E o nome, Wendy… você está familiarizada com o conto de fadas que fez parte do surto de Bervely da primeira vez, certo?
— Ela surtou de novo, tia Andie? — Anne quis saber, agoniada.
— Quando eu digo que é impossível que tenha sido Bervely – Andrômeda recomeçou, resistindo ao impulso de dar um suspiro resignado — É porque ela já estava aqui na data do ocorrido. Bervely estava internada no dia do aniversário de Potter e por várias semanas antes disso.
— Internada? Por que, o que é que ela tem, afinal? — Tonks insistiu, tendo sido consumida sua curta paciência.
— Bervely me procurou no começo de julho e pediu para ser admitida na ala de Danos em caráter temporário. Ela me apresentou bons motivos e, dado seu histórico médico, eu concordei em deixá-la sob observação, bem como em manter sua permanência em segredo por questões de segurança.
— Mas porque ratazanas Bervely ia querer se internar? Ela ficou maluca, por acaso? Digo, não maluca para se internar, mas maluca por querer… você me entendeu — Tonks fez um gesto amplo com a mão, cujas unhas estavam da cor da traseira de um vaga-lume, e por pouco não derrubou o tinteiro em cima da mesa de Andrômeda.
— Os motivos de Bervely são dela apenas, filha. Eu estaria quebrando a confidencialidade entre médico e paciente se os dividisse com você. A única razão pela qual aceitei esclarecer tudo foi porque Snape deu com sua língua nos dentes e eu senti que Remus aqui estava à um passo de denunciar minha sobrinha às autoridades como suspeita na tentativa de sequestro de Potter.
— Andrômeda, eu jamais…
Mas a medibruxa chefe da Ala de Danos por Magia lhe lançou um olhar cortante e ele se calou, recostando-se de volta no espaldar da cadeira.
— Podemos vê-la então? Por favor? — Anne pediu, sentindo que a energia dentro da sala estava se condensando para o estado de uma discussão desnecessária entre os adultos.
— Bervely havia me pedido explicitamente para não receber visitas. Hoje de manhã eu voltei a conversar com ela e informar que vocês estavam vindo, ao que ela aceitou ver apenas você, Anne. Então, sim, se quiser me acompanhar, vou te levar até onde ela está. Vocês dois podem aguardar aqui se desejarem.
A menina levantou, assentindo. Andie passou um braço pelo seu ombro a fim de guiá-la para fora da sala. Tonks também se ergueu, o cabelo da cor de laranja madura, espetado para todos os lados.
— Mãe, isso é um absurdo! Nós também estamos preocupados com ela! Nos deixe entrar. Quando ela nos ver vai querer falar com a gente, e mesmo se ela não quiser ela vai ter que falar, ela tem que entender que quase nos matou de preocupação, não pode sumir desse jeito!
— O fato de você querer vê-la mesmo contra a sua vontade é justamente a razão pela qual não vai, Nimphadora. Honestamente, eu não lhe ensinei nada sobre respeitar o espaço dos outros?
Andrômeda saiu, fechando a porta atrás de si e deixando um sentimento constrangido de culpa para Tonks digerir. Ela odiava quando a mãe chamava atenção dela na frente de outras pessoas daquele jeito, como se ela ainda tivesse dez anos de idade. Na frente de Remus, ainda por cima. Ela evitou olhar na direção dele antes que conseguisse controlar o rubor em seu rosto.
— Ao menos nós sabemos que ela está bem. — Remus disse baixo, no tom veludoso que costumava fazer mingau dos seus joelhos.
— Mas, será que sabemos mesmo? Se ela estivesse bem, não teria vindo aqui, para começo de conversa. Bervely odeia esse lugar! Ela odiou quando ficou internada e depois mais ainda, quando Anne teve o acidente! Por que ela voltaria?
— As pessoas lidam com a perda dos jeitos mais estranhos, Dora.
Tonks andou de um lado para o outro da sala pequena, inquieta demais para ficar parada. Percebeu que algo que sua mãe tinha dito há pouco lhe incomodava.
— É verdade então? Você teria denunciado Bervely para as autoridades se nós não a encontrássemos?
— É claro que não. — Ele garantiu, sua testa se franzindo para a insinuação da jovem.
— Mas você achou que ela tinha feito, não achou? Você não confia nela.
Remus levantou também, pinçando a ponte do nariz, os olhos cerrados. Era bem mais alto que ela, só que a circunstância o diminuía aos seus olhos — não o via se preparando para negar, como queria que acontecesse.
— Dora, tente entender, o luto e a guerra mexem com as pessoas de jeitos imprevisíveis. E Bervely tem um histórico de tomar decisões precipitadas e moralmente questionáveis…
— Oh, não. Não se atreva. — Nimphadora tinha consciência de que seu cabelo, seu rosto, seus olhos, tudo estava ficando vermelho, mas não se incomodou em controlar a metamorfomagia naquele momento.
— Eu quero dizer, — ele insistiu, — As coisas que ela fez para chegar até Sirius! As intenções foram as melhores possíveis, mas os meios…
— Só falta você dizer que não se surpreenderia se ela passasse para o outro lado, sendo filha de quem é! — exclamou, sua voz se esganiçando. Remus se aprumou.
— Bem, eu não posso negar que tive receio do que poderia acontecer se ela viesse a encontrar Bellatrix…
— Eu não acredito em você! Você está fazendo tudo de novo, o que aconteceu com Sirius não te ensinou nada?
— O que Sirius tem a ver com qualquer coisa? — Ele se espantou, ofendido.
— Você desconfiou dele quando os Potter foram traídos, mesmo ele sendo o seu melhor amigo. Eu sei da história, Remus. E agora você está fazendo de novo com Bervely. Sinceramente, eu pensei que você era melhor do que isso.
Remus deixou o queixo cair. Nimphadora deu a volta em torno dele e saiu, batendo a porta com o estrondo, deixando-o sozinho. Ela tinha esse poder, ele percebeu, de fazê-lo se sentir a pior pessoa do mundo quando ele merecia. Um poder que ninguém demonstrava há muito, muito tempo.
— Sis?
— Hey, passarinho.
Anne deu um passo para dentro do quarto com a sua mão apoiada no portal. Esse era o tipo de momento em que a perda da sua visão a irritava mais; ela precisava de informações sobre o que tinha à sua frente e os outros sentidos não lhe eram suficientes.
— Pode entrar, não tem nada no caminho. — Bervely instruiu. Enquanto avançava cuidadosa, a porta se fechou atrás dela e Anne tentou adivinhar qualquer coisa na voz da irmã mais velha que indicasse a sua situação, mas não percebeu nada óbvio. Nenhuma calorosidade e nenhuma fragilidade; Bervely era uma das melhores pessoas que Anne conhecia em termos de controle cuidadoso de seu tom de voz, o que podia ser irritante.
Ao se aproximar mais de onde a irmã estava, sentiu um cheiro distinto de sonsona-dourada, um dos ingredientes que ela aprendera a identificar em sua estadia no Instituto naqueles últimos anos, e que sabia fazer parte da poção do sono sem sonhos. Uma corrente de ar lhe informou que a janela à esquerda estava aberta, mas encantada, pois não deixava entrar o ruído da rua.
— Bevy, você está–
— Muito brava com você por ter deixado o Instituto sem a minha autorização.
A severidade na voz da mais velha não a intimidou; uma vez perto o bastante, Anne jogou os braços em torno dela e a abraçou, transmitindo todo o alívio que sentia. Houvera um momento naquelas últimas semanas que ela chegou a pensar que algo terrível tinha acontecido e nunca mais estaria com a irmã novamente.
— Eu estou bem, garota. — disse Bervely, esperando três segundos antes de afastá-la e abaixar os seus braços.
— Como você acha que eu ia ficar no Instituto enquanto você estava desaparecida?
— Não seja dramática, você já pode se virar sozinha.
— Você nos assustou! — reclamou, sabendo que soava exatamente como Bervely não aprovava; sentimental e queixosa. — Sem dar nenhuma notícia por semanas, e então Remus pensou–
— …que eu tentei entregar Potter para Voldemort, eu ouvi dizer. Não me leve a mal, eu queria. Aquele pirralho intrometido merece ter a parcela de sofrimento dele pelo que fez.
Anne mordeu o lábio, recuando. Nem se lembrava da ultima vez que tinha ouvido aquela quantidade de rancor na voz da irmã, nem conseguia adivinhar se ela estava falando sério ou sendo cruel de brincadeira, como fazia de vez em quando, só para perturbá-la.
— Você não acha mesmo isso, acha? Não foi culpa dele, ele não ia querer que S—
— Não. — Bervely prensou um dedo contra a sua boca. — Nós não vamos falar sobre isso.
— Certo. — ela arfou. Podia sentir seu coração batendo com mais rapidez no peito, a ansiedade aumentando. — Por que… por que você está aqui? Por que você não respondeu nenhuma das cartas que eu te enviei por Angry Bevy?
— É complicado, Anne.
Ela esperou pela explicação do que exatamente era complicado, mas só houve silêncio. Anne percebeu que Bervely estava fazendo aquilo de novo; se fechando para o mundo quando as coisas ficavam ruins. Nunca as tinha ajudado antes, mas ela continuava se afastando, e daquela vez a reação a afetou mais do que as outras, a ponto de evocar um suspiro de exasperação através de seus lábios apertados.
— Você não é a única que está sofrendo, sabe? — Anne não foi capaz de reprimir o tom de acusação — Nós também amávamos Sirius, mas você age como se fosse a única afetada! Você não acha que isso é um tanto egoísta?
Bervely soltou uma risada irônica.
— E essas palavras são suas, ou são de Lupin?
— Remus concorda…
— Ele concorda, não é! Eu devo lembrá-la que o lobisomem estava lá e não fez nada, Anne?
— Por que não tinha nada que eles poderiam ter feito! — Ela guinchou, revoltada. Será que a irmã não entendia?
— Eu teria feito alguma coisa! Matado ou morrido, o que fosse preciso.
— Bevy! — ela protestou, se afastando um passo para trás. — Pare com isso, você está me assustando!
O silêncio pesou sobre elas, Anne ofegando, tentando conter umas lágrimas estúpidas que tentavam transbordar de seus olhos. A próxima coisa que Bervely falou a machucou ainda mais.
— Vá embora, Anne. Você nem devia ter vindo aqui.
Ela se recusou a acreditar que a irmã estivesse falando sério.
— Bevy, volte para casa. Por favor, vamos comigo. Eu, você, Jinx… ele sente sua falta.
— Voltar para onde? Nós nem temos uma casa, temos?
— Temos sim, no Instituto Flamel!
— O Instituto era temporário, você sabe disso. E desde que eles não fizeram nada pela sua visão nos últimos anos, porque diabos eu voltaria pra lá?
— Então… vamos para a cabana. Tem sido bom lá, com tio Remus e Tonks. Ela está sempre por perto, eu acho que eles estão até…
— A cabana não é nossa casa, nunca foi. É a casa do lobisomem.
— Você não pode ficar contra Remus, se ele pudesse ter feito qualquer coisa, você sabe que ele teria!
Bervely negou com a cabeça, apesar de a irmã não poder ver esse gesto. Anne também não viu os olhos de Bervely correrem pesados para longe dela, evitando olhar para a expressão magoada da caçula.
— Anne, escute…
— Não! Eu não vou te escutar se você vai me dizer que é pra eu ir embora e te deixar sozinha aqui! Você é minha irmã e eu quero você comigo!
A mais velha deu um suspiro irritadadiço.
— Eu não posso ir com você, ok?!
— Então me dê um bom motivo! – Cruzou os braços, fincando um pé no chão. Ela também podia ser teimosa, se era isso que Bervely queria.
— Não, eu não preciso me justificar pra você–
— Precisa sim! Porque sem motivos eu não vou pra lugar nenhum–
— Eu estou quebrada, Anne.
Anne engoliu o resto de seus protestos. Percebeu que toda a dor que Bervely viera tentando ocultar no desenrolar daquela conversa, ela deixara transparecer naquela seca afirmação.
— O que você quer dizer? — perguntou baixo, com medo da resposta.
— O que você ouviu. Eu estou quebrada, há algo errado com a minha magia. Eu não posso sair do hospital, eu preciso… ficar aqui por um tempo.
— Mas eu sinto sua falta. — choramingou, sabendo que soava como uma criancinha. Não se importou. Estava com medo do que havia nas entrelinhas daquela confissão, do que Bervely não estava lhe contando para lhe poupar.
— Anne, por favor, saia daqui. Eu não vou pedir de novo. — A voz de Bervely tremeu ligeiramente, apesar dos seus esforços para mantê-la estável.
A caçula abriu sua boca e tomou um gole grande de ar, fazendo sua última tentativa.
— Mas eu ainda tenho algo pra te contar. Aconteceu uma coisa estranha, muito estranha quando eu conheci Harry Potter.
— Eu juro por Merlin, eu quero que Potter e qualquer coisa vagamente relacionada àquele pirralho inconsequente se dane no fogo incandescente do inferno.
Era o Tom Irredutível; Anne o conhecia muito bem, sabendo que nada do que falasse poderia convencer Bervely do contrário. Ela recuou em direção à porta.
— Posso te visitar de novo amanhã?
— Não.
Remus estava aguardando do lado de fora quando a porta se abriu e sua afilhada saiu por ela. Foi uma coisa boa que ele estivesse com os braços prontos para ampará-la, porque ao que parecia, a conversa correra tão mal quanto ele previra.
Harry se juntou aos Weasley mais tarde naquele dia para sua ida ao Beco Diagonal, percebendo que havia um certo alívio envolvido em deixar a cabana. Eram apenas quatro – A Sra. Weasley, o Sr. Weasley, Rony e Harry, mas ainda assim contavam com a escolta de quatro aurores do Ministério, fardados e sérios que agiam como sombras. Nenhum deles era conhecido e Harry notou que eles não eram percebidos pelas pessoas que andavam na rua.
— Feitiços de distração nas fardas — o Sr. Weasley explicou, enquanto olhava para todos os lados suspeitosamente, parecendo esperar que os comensais surgissem do meio do trânsito trouxa londrino para atacá-los — Eles não serão notados por quem não sabe que estão lá, é bem efetivo, você vai ver.
Ainda assim era estranho andar pelas ruas com os aurores em seus calcanhares. Foram instruídos a não se dispersarem, evitarem paradas desnecessárias e até conversas com conhecidos. Como se não bastasse, o clima do Beco Diagonal estava tenso; Harry culpava os cartazes com as fotos dos comensais da morte ainda soltos e os folhetos de instruções de segurança do Ministério sendo enfiado em suas mãos em cada esquina que dobravam. Ele sentiu saudade do seu terceiro ano, quando teve a chance de andar despreocupado, admirando as vitrines e tomando sorvete Florean Fostercue por uma considerável parte das férias.
Só quando eles chegaram à Floreios e Borrões e foram orientados a procurar seus respectivos livros, cada um com sua lista para o sexto ano, Harry achou tempo para conversar a sós com Rony.
— Remus falou que vocês tiveram um problema na quinta feira à noite?
— Oh, sim — Rony fez uma careta — Mas não foi nada grave, só aquele vampiro estúpido que morava no sótão. Ele fugiu e me atacou durante o jantar — Rony puxou a gola de sua camisa para baixo, mostrando uma mancha inflamada em seu pescoço —Papai o espantou com vassouradas, então ele ficou tão ofendido que fugiu de casa. Não o achamos mais.
— Credo, ele tentou morder você?
— Sim, o que teria sido um desastre se ele ainda tivesse dentes. Mas mesmo ele sendo um vampiro velho e inútil, Moody instruiu papai a esperar uns dias para ver se ele não voltava, antes de deixar você vir.
— E onde é que está todo mundo, porque é que você está ficando sozinho em casa? — indagou, lembrando-se da carta do amigo.
— Ah, então você recebeu! — Rony vibrou, puxando dois exemplares de Feitiços – Sexta Edição da prateleira e entregando um para Harry — Acontece que Fred e Jorge estão morando sobre a sua nova loja de logros aqui no Beco, para o terror completo de mamãe. Percy, bem, ele continua com sua cabeça enfiada na bunda e não fala com nenhum de nós desde o Natal. Gui está ocupado viajando pelo Banco, fizeram dele Agente de Transações Domiciliares, e a Gina está com Carlinhos.
Harry achou o Manual de Transfiguração Avançada para Bruxos Supostamente Capazes e entregou um para Rony, colocando outro em sua cesta.
— Com Carlinhos, você diz? Pensei que ele ainda estava com os dragões na Romênia.
— E ele está. Mamãe achou uma boa ideia mandar Gina passar um tempo com ele, disse que ela estava muito cheia de ideias depois do que aconteceu em junho no Ministério. O grande erro dela foi deixar mamãe ouvi-la quando pediu a Remus para entrar na Ordem, logo no início das férias. — Rony meneou a cabeça, desapontado. — Foi quando ela ganhou uma vaga para o acampamento juvenil de dragões lá na reserva.
— Isso é ao menos seguro? — Harry franziu o cenho. Sua experiência com dragões no passado não combinava com “acampamento juvenil” mesmo com esforço de sua imaginação. Rony deu de ombros.
— Mais seguro que a guerra, eu acho. Gina não ficou feliz no começo, mas acabou indo em paz. Mamãe pode ser bem persuasiva quando está tomada pelo instinto de preservação da prole Weasley. A única razão pela qual eu também não fui para o bendito acampamento foi você. Eu disse, o que seria de você, sozinho as férias inteiras, se ela mandasse o seu único amigo para os dragões? Isso amoleceu seu coração.
— Boa jogada — Harry elogiou. Depois disso a Sra. Weasley chamou sua atenção porque eles ainda não tinham todos os seus livros e a conversa precisou acabar.
Após idas apressadas ao Boticário, à Madame Malkin (onde Harry achou umas vestes de gala relativamente dignas e Rony foi autorizado a comprar um conjunto que não parecia ter saído do guarda roupa de sua tia Muriel), eles foram conhecer a loja de logros dos Weasley. Harry gostaria de ter ficado mais nesta última, era realmente impressionante, mas eles tinham estourado seu tempo com os aurores e precisaram ser escoltados de volta para casa.
— Você pode voltar e almoçar conosco, querido. — Ofereceu Molly, enquanto Harry a ajudava a carregar todas as compras no carro oferecido pelo Ministério para transportá-los — Eu fiz torta de caramelo para a sobremesa.
Harry nem pensou duas vezes antes de aceitar a oferta. Ele passou uma agradável tarde com Rony, a não ser pela parte que precisou contar os eventos desastrosos do seu aniversário. Relatou ao amigo o quão estranho tinha sido Voldemort mandar Bellatrix deixá-lo quando ela já o tinha nas mãos, mas para a sua surpresa, o amigo se apegou mais à outra parte da narrativa:
— Seu primo tinha uma namorada e ela era bonita? Cara, isso é muito suspeito. Você devia ter desconfiado desde de o início.
Harry descreveu para Rony as suspeitas de Remus, de que fora a irmã da garota-ninfa a responsável pelo ataque. Rony não pareceu tão impressionado com o fato de que Sirius pudesse conhecer pessoas sobre as quais Harry não sabia nada a respeito.
— Talvez a irmã dessa garota fosse alguma namorada de Sirius? E se ela ouviu algum boato de que a coisa toda do Ministério foi por sua causa? Os jornais têm dito todo o tipo de idiotice.
Harry fez uma careta para a teoria. Sirius teria mencionado se tivesse alguém, não teria? Além do mais, como o padrinho teria arranjado tempo para relacionamentos, se estava fugindo ou se escondendo por todo o tempo desde que fugira de Azkaban?
A Sra. Weasley entrou no quarto com as vestes de galas novas de Harry e Rony bem passadas em um braço, seus sapatos lustrados na outra mão, lhes lembrando de se arrumar para a Cerimônia no Ministério dali a algumas horas. A sensação de mal pressentimento voltou a se enrolar na boca do estômago de Harry, varrendo para longe qualquer preocupação que ele pudesse ter com os mistérios da vida amorosa de Sirius Black.
— Eu sinto muito pelo jeito que as coisas foram com Bervely hoje, Anne. Tenho certeza que com um pouco de insistência a gente consegue convencê-la a voltar para casa, você vai ver.
Anne não moveu a cabeça na direção de Nymphadora ou fez qualquer menção de ter ouvido o que ela dissera; no lugar disso, continuou alimentando Grumpy Lupin com seu petisco preferido – ovas de sapo – que ele bicava direto da palma de sua mão, gorgolejando satisfeito. A cacatua era uma das poucas criaturas naquela casa que não parecia constantemente com pena dela, razão pela qual Anne gostava de passar tempo com ele, ainda que seu humor fosse meio instável.
"Nós nem temos uma casa, temos?"
— Sabe, tudo bem se você não quiser ir nesse evento do Ministério hoje. — A metamorfomaga continuou, ainda tentando estabelecer um diálogo. Sua normalmente falante prima estava silenciosa naqueles últimos tempos e isso a preocupava. — Se você conversar com seu padrinho, deve conseguir convencê-lo a te deixar ficar em casa. Eu ficaria com você, mas sabe como é, o dever chama.
Anne captou um tom ligeiramente azedo em “seu padrinho”; ela sabia que Remus e Tonks tinham discutido no hospital, embora não estivesse certa do motivo. Moony também andara mal humorado pelo resto do dia, e tinha a impressão de que as duas coisas estavam relacionadas.
Balançou a cabeça numa negação para a proposta de Tonks.
— Eu preciso ir, na verdade.
— Por que precisa? — A auror estranhou. — Vai ser chato. Coisa de adultos. Eu mesma nem iria, mas sabe como é, aquele lugar fica uma bagunça quando eu não apareço para colocar ordem nas coisas.
— O Ministério da Magia fica uma bagunça sem você? — repetiu, segurando o riso.
— Sim. Ficam todos desorientados, coitados.
A garota soltou um riso pelo nariz. Só Tonks para fazê-la rir quando ela tinha aquela coisa estranha e gelada pressionando seu peito.
A prima mais velha se aproximou, sentando no banco de madeira ao seu lado. Estavam na varanda da cabana, onde o dia vagarosamente terminava em tons opacos de róseo e violeta, filtrados através das árvores. O clima estava terrível aquele verão, não só ali, mas pela maior parte da Europa. O sol nunca parecia esquentar o bastante, e as noites eram abafadas sem ser quentes.
— Você está bem, Anne? Há algo sobre o queira conversar? Sei que você contava com Bervely para essas coisas, mas eu posso ser tão ranzinza e sarcástica quanto ela, se você estiver precisando.
Angry Lupin capturou a última ova de sapo da sua mão e lhe deu uma bicadinha gratuita, batendo as asas para seu passeio noturno. E ela pensou que havia milhares de coisas sobre as quais queria conversar, coisas que não a deixavam dormir a noite e coisas que a assombravam mesmo quando estava acordada. Coisas que não entendia, e que a assustavam. Mas ela também sabia que não era a hora de falar sobre nenhuma delas, e que por mais prestativa de Nimphadora fosse, não era a pessoa destinada a ouví-las.
— Eu estou bem, Dora. Só um pouco cansada; acho que não tenho dormido muito bem.
— Oh, eu também não, definitivamente. — Ela hesitou um momento. — Eu sei que você e Sirius não conviveram tanto assim, logo depois que se reencontraram você foi para o Instituto com a Bervely, não é, mas vocês não se correspondiam um bocado?
— Sim. Ele escrevia quando tinha a chance. — suspirou.
— Você às vezes… sonha com ele? Como se ele ainda estivesse aqui?
Anne fechou os olhos por trás dos seus óculos escuros quando eles arderam. Todas as noites. Não o via, mas ouvia a voz de Sirius chamando sem parar. No sonho, ela sempre estava longe demais para ajudá-lo.
Olho Tonto Moody apareceu na Toca por volta das sete e meia da noite com a chave de portal que os transportaria até o Salão de Eventos do Ministério às oito em ponto. Alguns minutos antes da hora marcada, o grupo se acumulou em torno do pequeno objeto que lhes serviria de transporte: uma xícara lascada de oito asas, uma para cada um deles: Fred e Jorge, que apareceram com fraques verde-pavão idênticos e chapéus de aba, o Sr. e a Sra. Weasley muito elegantes em trajes formais combinando, o próprio Harry e Rony em suas vestes novas e ainda Gui, o primogênito Weasley, que surgira de última hora todo estiloso com coturnos e brinco de dente de dragão, acompanhado da namorada Fleur, ela resplandecendo em um longo verde água de tirar o fôlego.
— Você falou com a Hermione? Eu imaginei que ela fosse querer ir conosco. — Harry questionou, mas quanto à isso Rony lhe deu um olhar aborrecido.
— Ela deve ter visto no jornal, ela tem a assinatura, mas não é como se ela respondesse as minhas cartas, então eu não saberia, saberia?
— E por que isso? — Harry estranhou.
— Ela pode ter ficado um pouco irritada comigo quando nos despedimos em junho. — O ruivo olhou sobre o ombro do amigo para dizer isso, mas foi o corar de suas orelhas deixou Harry desconfiado.
— Vocês brigaram ou algo assim?
— Algo assim. — assentiu, sendo vago de propósito.
— Ela também não me mandou nenhuma carta de aniversário… me lembre de lhe escrever quando voltarmos.
No mesmo momento o relógio da parede anunciou as oito horas. Cada um deles sentiu um puxão no estômago e rapidamente eles giraram e giraram em suas vestes de gala, sem saber muito bem o que lhes esperava no Ministério aquela noite.
Rufus Scrimgeour gostava de pensar em si mesmo como o maestro de uma grande sinfonia. Quando ele olhou para o Salão de Cerimônias Philgrim naquela noite de sábado, seu sorriso felino se alastrou no rosto largo, enquanto ele comprovava que a orquestra estava tocando a contento. E não estava sequer pensando na banda contratada para a noite — o Quarteto das Fadas Afinadas, que por sinal fazia seu trabalho com perfeição, embalando um salão com uma suave melodia sílfide — ele se referia a como tudo ia de acordo com o que planejara.
Harry Potter comparecera, um de seus assessores tinha lhe informado há poucos minutos. A presença de Potter era a cereja no bolo do sucesso daquela noite. O Ministro de Relações Trouxas e todas as suas sete filhas estavam numa das mesas da ala VIP em perfeita integridade, e o seu ''novo" Chefe do Departamento de Execução das Leis da Magia tinha tudo sob controle no que se tratava da segurança do evento; nem uma única atividade suspeita fora relatada até então. Nenhum dos seus convidados fora morto, sequestrado, torturado ou interceptado em seu caminho. E havia cidadãos comuns — não tanto quanto ele esperara, dado a extensão de seus convites no Profeta Diário ao longo da semana – mas não ia reclamar. Não devia abusar da sorte. Ele sempre podia contar com a impressa.
No dia seguinte, todo o mundo bruxo saberia que Você-Sabe-Quem não se atrevera. Exatamente como Rufus previra, o homem que se denominava Lord das Trevas se intimidara diante do impecável esquema de segurança montado para a Vigésima Terceira Cerimônia de Nomeação de Aurores. Uma vez que a população compreendesse que por mais ameaças que fizessem, o séquito de Voldemort não ousava contra o novo Ministro da Magia, a sensação de segurança seria restabelecida. E com a segurança viria a confiança em seu governo. Essa era a sua prioridade no momento, tendo acabado de assumir o Ministério no mais caótico dos momentos.
“Homens assustados são homens vencidos”, o pai de Rufus costumava dizer. Apesar de o pai de Rufus ter sido um comerciante de vassouras que nunca precisa ser especialmente corajoso em seus negócios, só bom de papo, o Ministro confiava bastante na velha lição.
— O nosso último convidado VIP chegou, senhor. — o subsecretário de assessoria ministerial, um jovem ruivo e sardento cujo nome Rufus ainda não podia se lembrar, veio lhe informar.
— E esse seria?
— O prof. Alvo Dumbledore, senhor. — disse o rapaz. O Ministro teve a distinta sensação de que a última peça do quebra cabeça se encaixara em seu lugar.
— Ótimo. Dê minha ordem para selar as entradas. Ninguém entra ou sai sem o meu conhecimento a partir de agora. Eu devo começar o meu discurso quando todos estiverem acomodados em seus lugares. Avise à minha guarda.
— Sim, senhor. Com sua licença, senhor.
Harry não parava de olhar ao redor, um tanto preocupado. O salão continuava a se encher de bruxos e bruxas que conversavam e se cumprimentavam e para todos os efeitos, pareciam confiantes sobre aquela noite. Apesar do numeroso contingente de aurores presentes — uma guarda austera disposta em torno do salão, imóveis como estátuas de guarda, o próprio Harry mantinha sua mão no bolso, pronto para puxar a varinha se precisasse. Ele saltava toda vez que alguém vinha lhe cumprimentar.
— Harry Potter — um bruxo alto, elegante e familiar veio apertar sua mão. Harry teve um choque desconfortável de reconhecimento, era Amos Diggory — Eu tenho lido sobre você nos jornais ultimamente, meu jovem. Que jornada, uh? Seus pais estariam muito orgulhosos.
Ele tinha topado com outros conhecidos — Ludo Bagman entre eles. Harry reparou que ele tinha perdido muito peso e parecia um balão murcho, as bochechas antes cheias caindo como bolsas vazias de cada lado do rosto, puxando o canto de seus olhos para baixo. Ludo acenou para ele para o senhor Weasley, mas não quis ficar para conversar.
Foi quando Harry se virou e viu Dumbledore, suas vestes prateadas com luas e estrelas e uma estola bordada. O diretor lhe fez uma saudação educada com a cabeça. Com ele estavam uma bruxa que Harry precisou olhar uma segunda vez para perceber que conhecia; a professora McGonagall tinha seu cabelo solto e modelado numa onda cinza-escura elegante, um chapéu classudo em sua cabeça.
— Potter — ela chamou, dando batidinhas no seu ombro. — Você está elegante. E inteiro, o que é mais importante.
— Eu tento o meu melhor, professora. — Harry deu seu melhor sorriso inocente. — A senhora também está…
Mas o que McGonagall estava Harry não chegou a dizer, porque acabara de ver uma terceira pessoa, coberta em preto, se aproximar por detrás dela. Ele sentiu um choque de repulsa ao reconhecer Snape e não tentou disfarçar com quanto de ódio olhava para ele. O professor o ignorou completamente, como se Harry não passasse de uma mosca, indo cumprimentar a Sra. e o Sr. Weasley.
Uma movimentação e um burburinho chamou sua a atenção mais a frente; todos se viraram para um palanque montado no centro de um salão, onde anteriormente estivera tocando uma orquestra de fadas, mas agora era ocupada por seis aurores com fardas reluzentes e muito eretos. Um funcionário do ministério apareceu entre eles, e apontou para sua garganta dizendo “Sonorus”.
— Minha nossa, aquele não é o Percy? — Rony xingou ao seu lado. Ele tinha razão, era Percy, tão estufado de orgulho que parecia prestes a quicar.
— Senhoras e senhores aqui presentes nessa adorável noite — a voz pomposa do irmão de Rony preencheu o salão agora silencioso. — o Excelentíssimo Senhor Ministro da Magia gostaria de falar-lhes neste momento.
Rufus Scrimgeour veio trotando por detrás das cortinas, ladeado por mais dois aurores, ele próprio vestindo um uniforme roxo que, embora muito mais ornamentado e elegante que a farda da guarda oficial de aurores, era uma evidente inspiração. Harry lembrou o que lera e ouvira sobre ele; tinha sido auror durante a segunda guerra e então fora promovido como Chefe do Esquadrão de Aurores em 1982. Sua recente nomeação como Ministro da Magia através de votação interna dera lugar para Moody assumir o cargo, retornado de sua aposentadoria, por convite do próprio Rufus; era conhecido por ser intrépido e um perseguidor incansável em sua época de Academia. A Harry, pareceu que estava olhando para um leão velhaco e esperto, seu cabelo cobre escuro como uma juba em torno do rosto anguloso. Rufus olhou para seus convidados atentamente e embora houvesse um ar de satisfação em seu rosto, ele não estava sorrindo.
— Aos bruxos e bruxas que foram suficientemente destemidos para deixar seu lar e vir prestigiar os nossos novos aurores, meus mais sinceros agradecimentos. — Scrimgeour rouqueou. Não tinha enfeitiçado sua voz, mas era audível através do salão. e tinha a sua atenção absoluta. Dumbledore, que sentara na mesa onde já estavam Harry, os Weasleys, Fleur, Remus e sua afilhada, se inclinou em direção ao Ministro com uma expressão educadamente intrigada. Harry se perguntou qual era o grau de simpatia do diretor em relação ao bruxo; que não obstante, continuou o seu discurso.
"São tempos de incerteza, é preciso admitir, mas não devem se tornar tempos de fraqueza. O inimigo se regozija quando abaixamos a cabeça. Representando cada bruxo e bruxa da nossa comunidade, eu os chamei aqui hoje para reforçar o que venho dizendo nas minhas últimas declarações públicas: Nós Não Estamos Indefesos." Rufus pausou e enfatizou palavra por palavra da última frase. Seus olhos, que eram rasgados e amarelados, reluziam um brilho perigoso "O inimigo deve saber que nós não vamos nos curvar e nos amedrontar como aconteceu no passado. A comunidade bruxa tem meios para enfrentar esta ameaça, já a venceu no passado, e vencerá novamente."
Murmúrios baixos começaram a rastrear pelo o salão, soando aprovadores, mas na mesa de Harry todos estavam em silêncio. Dumbledore continuava observando Rufus com seu sereno olhar de “vejo-perfeitamente-dentro-da-sua-cabeça”. McGonnagal tinha uma ruga entre suas sobrancelhas arqueadas. Snape estava de costas, Harry não podia ver sua expressão.
"Eu acredito fervorosamente que cada bruxo e bruxa que compareceu aqui hoje o fez com a mesma clareza de espírito, pois o mal que nos espreita não os amedrontou a ficar em suas casas esta noite. Este mesmo mal não nos fará deixar nossos empregos, renegar nossas raízes ou discriminar nossos irmãos de magia, seja qual forem suas origens. Como representante desta comunidade, eu lhes garanto que todas as precauções estão sendo tomadas. Azkaban está guardada e mais impenetrável do que jamais foi. Da mesma forma, eu clamo sua colaboração. Dar boas vindas aos nossos novos aurores é um primeiro passo, mas o Departamento de Execução das Leis da Magia deseja a plena participação da comunidade bruxa para que as medidas de segurança disseminadas pelos meios oficiais sejam seguidas à risca. Lembrem-se: juntos, Nós Não Estamos Indefesos. Obrigado pela sua atenção e sua presença aqui hoje."
Uma onda de palmas seguiu as palavras do Ministro, que continuou olhando ferozmente para a sua multidão. Harry viu quando os olhos felinos acharam exatamente o ponto onde ele estava sentado e se estreitaram, e soube que o Ministro queria saber se O Eleito estava batendo palmas também; ele firmemente manteve suas mãos nos bolsos e o encarou de volta.
— Atrevido — McGonagall sibilou ao lado de Harry, para ninguém especial. Seus lábios estavam crispados, ela parecia estar prestes a dar uma detenção em alguém.
— Sem dúvida. — Dumbledore concordou, aparentando mais relaxado agora que o discurso chegara ao fim. Harry conhecia o diretor o suficiente para detectar um brilho de inquietação em seus olhinhos azuis.
— Babaca. — Rony resmungou ao seu lado. Harry achou que ele estava falando do Ministro, mas esse já tinha deixado o palco e Percy retornara, anunciando o desfile de apresentação dos novos aurores. Todos foram convidados a se levantar, e um pouco de confusão e barulho de arrastar de cadeiras se seguiu. Os convidados foram se movendo para a frente, próximos ao palco e Rony esbarrou em alguém.
— Ops, desculpe, você está bem?
— Sim, eu estou… sim. — Johanne Loren fez um aceno vago e se afastou para o outro lado. Harry olhou para trás a tempo de vê-la sumir de vista em meio às pessoas.
— Isso só acontece de três em três anos, essa cerimonia de nomeação — Gui se aproximou deles, Fleur agarrada ao seu braço. — Bem, essa foi adiantada, é claro… há dois anos atrás eu quis vir para a de Tonks, mas não era aberta ao público e você tem que ser um figuração para ganhar um convite. Cada auror só pode chamar dois membros de sua família, o resto é escolhido a dedo pelo Ministério.
— É ben estranho eles terrem aberto este parra o publique, non é — disse Fleur ao seu lado, jogando a cabeleira sedosa de um ombro para o outro sem nenhum motivo aparente.
— É compreensível. Eles querem, bem, o Ministro quer mostrar para todo mundo que tem tudo sob controle. É uma estratégia para amedrontar "o inimigo".
— Parrece que ele está indo ben — a meio-veela comentou — Nade errado até agora.
— Não vamos ficar confiantes sobre isso — Gui rebateu e Harry notou, ele também estava com a mão casualmente dentro do bolso da varinha.
Uma sinfonia começou a tocar e vários jovens fardados entraram dos dois lados do palco, alinhados e marchando para o centro. Eles vestiam versões mais claras dos uniformes roxos dos aurores e usavam chapéus hexagonais engraçados. Estavam muito sérios solenes, mas Harry os achou jovens demais. Muitos deles poderiam ser seus colegas de sala em Hogwarts. Ele pensou reconhecer uma ou duas caras da escola, de anos anteriores.
Moody apareceu no palco e puxou um pergaminho comprido. Sem qualquer introdução além de um 'boa noite" áspero, ele começou a chamar o nome dos aurores em ordem alfabética. Era um processo lento — cada um deles deveria ir até a frente, proferir o seu juramento de auror, receber o seu brasão e tirar a foto oficial do Registro de Aurores. A partir do sexto nome chamado a atenção de Harry começou a flutuar e ele passou a olhar ao redor, para os convidados.
Não havia nada suspeito acontecendo, e se houvesse, certamente a guarda de aurores que rodeava o salão perceberia antes dele. Um dos aurores no canto oposto, ele viu, estava curvado e falando com alguém. Harry reconheceu o vestido branco e as ondas de cabelo preto; era a afilhada de Remus, ela tinha se afastado do grupo após esbarrar com Rony e parecia que ninguém dera conta de sua ausência. O auror concordou com a cabeça, lhe dando passagem através da porta que guardava. Isso deixou Harry intrigado, para onde aquela garota estava indo sorrateiramente quando todo mundo estava distraído?
Harry murmurou a Rony que precisava ir no banheiro e rapidamente se afastou da multidão, achando um canto fora de vista para se cobrir com a capa da invisibilidade, logo em seguida tomando a direção que a tinha visto sumir. Passar pelo auror com o qual ela falara foi fácil, Harry só precisou se esquivar entre ele e uma pilastra decorativa, e abriu a porta apenas o suficiente para escapar do salão de eventos sem ser visto. Entrou para uma saleta contígua que se parecia com um deposito. Havia uma única parede que não estava repleta de materiais e caixas lacradas, e numa súbita inspiração foi andando em direção a ela; a atravessou como se fosse feita de manteiga e surgiu em um corredor longo, vazio a não ser pela sombra branca de Johanne dezenas de metros à frente, parada de costas.
Ele a alcançou o mais silencioso que pôde, a varinha firmemente em punho. Era estranho, ele pensou enquanto mantinha uma distância segura, como de repente Remus tinha uma afilhada da qual nunca ouvira falar. Havia algo suspeito, familiar nela, que ele não conseguia entender, mas agora que ele pensava nisso… fosse quem fosse, havia alguma coisa que o seu ex-professor não estava lhe contando, e Harry achava que estava perto de conseguir uma pista.
Johanne apertou o botão do elevador no fim do corredor e ficou esperando. Ele parou perto o suficiente para ter tempo de entrar quando a porta se abrisse, mas longe o bastante para que sua respiração não fosse audível. Ela não levava a varinha em punho e parecia saber muito bem onde estava indo.
O elevador chegou, rangendo alto. Johanne entrou e girou o corpo, ficando de frente para ele. Harry quase tropeçou na capa quando viu os olhos dela: havia um sólido brilho prateado tomando sua retina, que o fez pensar imediatamente na maldição Imperius. Mas não parecia com Imperius - seus olhos não estavam desfocados e, longe de uma expressão vazia, ela aparentava certo nervosismo. Se voltou para o painel com o número dos andares apertando os olhos, algo que Harry costumava fazer quando estava sem os seus óculos, e por fim escolheu o número nove. As entranhas de Harry deram uma reviravolta intransigente. O elevador se sacudiu, rangeu e começou a descer. Se não fosse tão barulhento, Harry tinha certeza que ela escutaria sua respiração; só havia uns dez centímetros de distância entre os dois.
O elevador parou. Harry se apressou em sair rápido antes que Johanne se chocasse contra ele, mas ela esperou e saiu calmamente, respirou fundo, olhando ao redor. Harry fez o mesmo — era o salão circular onde estivera meses atrás, acompanhado de seus amigos, a ante-sala que levava aos locais onde ele lutara contra os comensais, quebrara a profecia, perdera Sirius…
Harry lamentou sua impulsividade. A Ordem da Fênix toda estava lá em cima e ele mais uma vez saíra sem avisar à ninguém. Se Johanne estivesse sob um feitiço e fosse uma armadilha, ele caíra tao facilmente! As palavras de Bellatrix soaram claras e agourentas no plano de fundo “você é tão idiota, Potter. Você merece morrer…”
Johanne estava parada no meio da sala circular olhando todas aquelas portas iguais, parecendo perdida… Assustada? Aqueles estranhos olhos dela eram como poços sem fundo de prata.
— Eu não sei qual delas — ela murmurou consigo mesma. — Eu ouço… mas eu não sei qual.
Se calou, como se esperasse uma resposta, Harry prendeu a respiração, pensando, planejando… talvez ela estivesse recebendo instruções dentro de sua cabeça? Ela não parecia saber que ele estava ali, mas soava como alguém que estava sendo obrigada a fazer alguma coisa. Suas mãos pequenas e brancas tremiam, e passou pela cabeça dele que ela devia estar com frio naquele vestido de alças, o Departamento de Mistérios era frio… enquanto divagava, a garota deu uma volta completa e olhou diretamente para ele, soltando um suspiro longo e impaciente.
— Você pode tirar a capa. — disse. Harry não se moveu um centímetro. Aquilo era… como era possível? — Sim, Potter, eu sei que me seguiu. Por favor, tire a capa.
Amortecido, Harry deslizou a capa de sobre o corpo. Ele manteve a varinha apontada para ela, no entanto, enquanto todos os seus sentidos estavam acesos para qualquer movimento ao redor deles, até mesmo preparado para se a sua cicatriz começasse a queimar de repente.
— Eu sabia que você não era cega coisa nenhuma! Você tem mentido para todo mundo sobre isso!
— Olha, isso não é importante no momento. — Ela olhava para um lado e outro, como se algo estivesse para acontecer, ou alguém estivesse para chegar, e eles tivessem pouco tempo.
— Quem é você e o que você está fazendo aqui? — Harry perguntou ferozmente. Ela abriu a boca para responder, mas apertou os olhos como se estivesse sentindo dor e suas mãos se fecharam em punhos. Harry deu um passo para a frente. — O que há de errado com seus olhos?
— Eu não posso responder tudo agora. — disse com urgência. — Preciso da sua ajuda.
— Por que você veio até aqui? — ele insistiu, irritado. — O que é você está ouvindo? Instruções? Voldemort?
— Não! Não, Potter. Eu preciso… ohh, droga, droga — novamente ela franziu o rosto em dor, olhando ao redor para todas as portas iguais. Voltou-se para Harry, agoniada. Seu olhar de prata era desconcertante. — Você já esteve aqui antes. Você sabe.
— QUEM é você? — Harry exigiu. — Responda ou eu vou ter que te azarar!
Johanne balançou sua cabeça, como se ela tivesse feito uma pergunta e ele tivesse dado a resposta errada.
— Não importa, Potter, não quem eu sou, só se… você consegue ouvir? Consegue ouvir ele chamando?
Mas tudo estava no mais amortecido silencio com excessão da respiração acelerada dos dois. Harry deu mais um passo à frente. Sua varinha estava quase tocando o peito dela.
— QUEM está chamando você?
Seus olhos se encontraram por um momento e Harry sentiu uma formigação engraçada, como uma corrente de ar passando por dentro de sua cabeça. Ele viu memórias claras que ele não tinha escolhido lembrar: a sua voz perguntando “O que você acha que era aquele arco?” e a voz de Hermione respondendo “Não sei, mas o que quer que fosse era perigoso!”, e esticando a varinha, marcando um x na porta…
Johanne cortou o contato visual e se virou para uma porta que era igual à todas as outras. Harry sentiu uma leve náusea, que sumiu tao rápido quanto veio, e apesar de saber o que ela tinha acabado de fazer, como ela poderia adivinhar que a porta era aquela? Era igual as outras, e aquela sala girava, era impossível adivinhar…
— É essa. — ela apontou com convicção. — Como é que você não consegue ouví-lo? — deliberadamente andou até a porta escolhida, sem qualquer receio da ameaça de Harry ou de sua varinha estendida. Harry a seguiu, seu coração estava palpitando pesado e rápido. Ele sabia o que havia atrás da porta, não precisava ouvir, ele não queria voltar ali, não queria lembrar, não podia… mesmo assim a garota abriu a porta e entrou, o vestido branco ondulando em torno dos seus joelhos. Harry se achou indo atrás, apesar do seu horror.
A sala era a mesma que se lembrava: grande, retangular, afundada, uma arena feita de degraus de pedra, ampla no topo e se estreitando até o fundo. O véu permanecia ondulando sobre a plataforma lá embaixo, vivo sem nenhuma brisa, tão velho quanto o tempo. Ela foi descendo pelos degraus como se deslizasse, atraída pelo véu, da mesma forma que ele tinha feito da primeira vez em que estivera ali.
Harry assistiu-a descer tomado por uma estranha sensação de irrealidade. Talvez estivesse tendo um pesadelo? Ele tinha tido um milhão de pesadelos iguais durante o primeiro mês de férias, onde assistia Sirius cair através do véu, mas eram só eles dois na sala e Harry não podia se mexer para alcançá-lo, ele estava congelado e era lento, então ele via Sirius morrer de novo e de novo.
Por sua culpa. O peso esmagador que roubava o ar voltara com toda a sua força. De repente importava muito pouco se aquilo era uma armadilha, se a garota-ninfa era louca, se ele ia ou não se encontrar com Voldemort no fim daquela noite. Sirius estava morto, tinha morrido bem ali, seu padrinho nunca ia voltar e era tudo culpa dele, não importava o que dissessem. O véu se movia, chamando seu nome, os sussurros eram seu nome, ele sabia agora.
Era ele quem devia ter atravessado no lugar de Sirius. O pensamento o pegou de surpresa e ao mesmo tempo fez todo o sentido do mundo.
— Potter! — A garota gritou de lá de baixo. Piscando de um profundo aturdimento, Harry se deu conta de que ela estava sobre a plataforma, a centímetros do véu, e sua expresso era apavorada. Mas o que diabos…? Johanne tinha enfiado seu braço através do véu e alguma coisa a puxava para dentro dele.
Harry saltou os bancos de pedra de dois em dois, esquecendo-se de que talvez ela fosse uma armadilha. Ele não veria, não enquanto respirasse, alguém mais atravessar aquele maldito véu, não quando podia se mover, e esse não era um pensamento lógico, era uma ideia obstinada. Em segundos estava ao lado dela, cravando as mãos em seus ombros para puxá-la. Foi quando ele ouviu a voz, não um sussurro, mas um chamado rouco vindo lá de dentro:
"Harry."
Seu coração pulou uma batida com o reconhecimento imediato. Anne gritou “Me ajude a puxá-lo” e Harry largou os ombros dela, ao invés disso enfiando o braço através do véu. Ele tinha certeza que estava sonhando, porque era loucura, era absoluta loucura, mas ainda assim… ainda assim… sua mão se fechou sobre algo quente. Escorregadio e magro, mas definitivamente era vivo. Ao seu lado, Johanne parecia assustada mas ela também o tinha seguro. Harry largou sua varinha de lado, não podia ver nada, mas conseguira ouví-lo e não estava louco…
Harry juntou suas forças e firmou seus pés no chão, cravando suas unhas no que ele segurava para que não lhe escapasse. A impressão era de tentar alçar um corpo solto no vazio, mas não soltou, ele jamais se perdoaria… não uma segunda vez.
E então surgiu. Primeiro uma massa emaranhada de cabelos pretos e depois corpo. No final ele foi como que expulso do véu, o impacto lançando os três no chão. Johanne foi a primeira a conseguir levantar, se arrastando para onde ele tinha caído em um amontoado de farrapos. Harry olhou para os dois, para ela e para a outra pessoa que lhe olhava de volta, olhos fundos, escuros, assombrados, mas vivos, vivos, vivos.
Acabara de puxar Sirius Black para fora do véu e não estava sonhando.



Comentários