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Capítulo 3. Um Refúgio e Todas as Cartas

Atualizado: há 3 dias




Somente um par continuava a lutar, aparentemente sem notar o recém-chegado. Harry viu Sirius se desviar de um raio vermelho de Bellatrix: ria dela.

— Vamos, você sabe fazer melhor do que isso! — berrou ele, sua voz ecoando pela sala cavernosa.

O segundo jato de luz o atingiu bem no peito.

O riso ainda não desaparecera do seu rosto, mas seus olhos se arregalaram em choque.”

 

Harry Potter e a Ordem da Fênix – J.K. Rowling

 

 

Parada diante dele, Bellatrix Lestrange voltara à sua aparência original, ainda dentro das roupas antiquadas da Sra. Figg. Pouco mais de um mês os separavam do seu último encontro, mas Harry não deixou de reparar como o aspecto da mulher melhorara.  Embora ainda estivesse magra e ele pudesse ver os ossos proeminentes do seu rosto, ela não era mais a fugitiva descarnada que enfrentara no Ministério. O cabelo desgrenhado ganhara brilho e desembaraço, se despejando em torno do rosto vitorioso que o encarava.  O par de olhos desvairados tinha perdido as olheiras profundas e roxas que os emolduravam antes. O fato de que a assassina de Sirius estava tendo regalias em algum covil de comensais, enquanto seu padrinho jamais tivera essa chance de se recuperar de Azkaban propriamente, só fez a raiva de Harry borbulhar até a superfície com mais rapidez.

— Você é tão imbecil, bebê Potter — Bella zombou, triunfante, um sorriso deformando os lábios finos. — O que eu disse a você? Não me siga. Mas você não se aguenta, não é, precisa bancar o herói! Ah, Potter, você merece morrer, sinceramente.

Harry estreitou os olhos. Bellatrix não fizera qualquer movimento para desarmá-lo; ela parecia tranquila. A flor de sangue em sua roupa, na altura das costelas, continuava a crescer, mas a mulher parecia indiferente ao ferimento de bala infligido por Wendy. Talvez fosse incapaz de sentir dor, cogitou Harry. Isso explicaria muita coisa.

— É por isso que você me atraiu até aqui? Para me matar? — Ele tinha a varinha apontada para ela, mas Bellatrix também o tinha na mira. Era o sorriso indolente dela que mais o irritava.

Bella estalou os lábios com desinteresse.

— Milord quer fazer isso pessoalmente, Potterzinho. Você sabe disso. Especialmente depois do que aprontou no Ministério… você o aborreceu de verdade dessa vez, sabe? Quebrando a profecia… atraindo aquele velho insuportável para a briga…

Harry engoliu, olhando de relance para o corpo da Sra. Figg. Era impossível ignorar o fedor de decomposição que tomava o aposento, tanto quanto o era ignorar o horror de ver a vizinha que sempre fora gentil com ele se desfazendo numa cadeira do seu próprio porão há sabe Deus quanto tempo.

— Você não precisava ter matado ela — disse, contrariado. — Se queria tomar seu lugar e me vigiar, poderia ter deixado ela viva em algum lugar longe daqui.

Bella olhou para o cadáver com desinteresse.

— Eu a queria viva, Potter. Precisava dela para a poção Polissuco, sabe como é difícil fazer com que a transformação funcione usando material de gente morta? Mas a velha sabia disso também. Ela fez greve de fome, esgotou com a minha paciência.

Harry se sentia dormente. Pela primeira vez, ao longo de todos aqueles anos em que se defrontara com o perigo mortal, seu primeiro impulso não era escapar. Aquela parte dele — selvagem, irritadiça e destrutiva, que vinha crescendo e crescendo ao longo do verão no silêncio solitário, rugia inconsequente pelo ato final. A percepção lhe deu um estranho frio no estômago, um receio oco de si mesmo que ele não quis levar adiante.

— Ótimo, então. O que você está esperando? — perguntou com rebeldia, querendo fugir daquela sensação. Bellatrix sorriu maliciosa, interpretando seu desafio como um blefe.

— Apressado, bebê Potter? Da última vez que nos encontramos, você parecia ter algumas contas para acertar comigo também… aquelas tentativas patéticas de usar uma maldição imperdoável, que só fizeram cócegas, se lembra? — gargalhou, deslizando na linha tênue da própria loucura — A sua raivinha passou?

A mão da varinha de Harry tremeu, sua visão se tornando vermelha. No Ministério, após Bellatrix lançar Sirius através do véu da morte, ele experimentara um ódio mais amargo e pulsante do que qualquer um que já tivera antes. Ele queria estraçalhar e despedaçar a comensal pelo que ela lhe tirara. Aquele sentimento ainda estava lá — Harry não achava que algum dia iria embora. Ele gostaria de poder transformá-lo num Cruciatus poderoso, ele certamente queria infligir dor…

— Talvez você não o amasse tanto assim — ela cantarolou, entremeando a provocação com um risinho maníaco e irritante. — É compreensível, um cão pulguento e desprezível como Black…

— NÃO SE ATREVA A FALAR MAIS UMA PALAVRA SOBRE SIRIUS! — Harry explodiu, sentindo finalmente que o ódio se espalhava em seus nervos, vindo à tona como um banho de lava incandescente. — NÃO SE ATREVA… CRUCCIO!

Bellatrix não se defendeu do feitiço, que a atingiu no peito. Ela arfou e se desequilibrou, mas não chegou a cair. Se aprumou numa gargalhada aguda, zombando. Os olhos da comensal estavam injetados.

— Aí está, bebê Potter! Esse é o espírito que queremos evocar! Quem sabe assim você não mata o Lord de tédio quando ele estiver acabando com a sua raça infeliz! Vamos lá, mais uma vez! Lembre-se: você precisa querer causar sofrimento…

Harry hesitou. Havia algo muito errado.  

— O que é que você está querendo? — Ele a interrompeu, sua respiração pesada. Havia algo mais perturbador sobre Bellatrix do que o normal, se é que fosse possível, como se ela tivesse descido mais um nível no poço da loucura desde que a encontrara pela última vez… Mal tinha se dado conta disso quando a sua cicatriz ardeu e toda a reflexão foi varrida de seu cérebro para dar lugar à dor excruciante. Harry gritou, pressionando a testa.

O rosto da comensal se abriu em genuína alegria.

— Ah, finalmente! — Com um aceno inesperado de sua varinha, Bella o desarmou. Uma vez tendo-o indefeso, ela apertou a ponta da própria varinha contra a Marca Negra em seu braço e cantarolou alegremente — Eu o tenho, Milord! Eu tenho o garoto! Ninguém veio buscá-lo, o plano teve sucesso!

Harry ouviu a voz de Voldemort sussurrar qualquer coisa dentro da sua cabeça, distante como um eco. Ele não entendeu o que dizia, porque estava ocupando com a própria e insuportável dor quase partindo a sua cabeça em duas.

— Mas eu o desarmei, Milord! — Bellatrix protestou, ligeiramente impaciente.

“Me obedeça, Bella!”

Harry viu entre os olhos lacrimejantes a comensal avançar na sua direção. Não teve chance de se esquivar; ela o enfeitiçou de forma que foi incapaz de mover um músculo de seus braços ou pernas.

— Milord pensa que você está trazendo outra carta na manga — sussurrou, astuta, passando a varinha ao longo do corpo de Harry e produzindo ondas de energia que atravessavam suas roupas. — Será que Potterzinho está sendo um menino travesso? Tsc, tsc, tsc…

O feitiço de detecção não encontrou nada, mas agora Bellatrix estava apenas a centímetros dele e a ponta de sua varinha, voltada para o tórax de Harry. Ela cheirava a sangue fresco, ambarina e alguma coisa amarga que caiu do pé antes do tempo. Seus olhos eram loucos e o sorriso afiado quando sussurrou no ouvido dele:

— Você não tem nada, não é, bebezinho? Só essa impetuosidade suicida que seu tipo chama de coragem. Hoje você vai morrer… preparado para encontrar seu padrinho?

— Eu te disse para PARAR de falar de Sirius!

Bella sorriu amplamente e soprou com suavidade em seu ouvido.  

— Cruccio.

Harry se dobrou e gritou, a maldição imperdoável contorcendo seus nervos, espalhando a conhecida dor através de suas entranhas. Ele ainda estava no chão, tremendo, quando a cicatriz voltou a arder, lhe cegando e, curiosamente, tomando o lugar da maldição imperdoável. Quando ergueu o rosto, notou que a comensal tinha suspendido o feitiço e aparentava contrariedade.

— Mas eu o tenho nas minhas mãos, Milord! — Ouviu-a protestar, soando como uma criança a quem era arrancado o brinquedo favorito. — Eu fiz tudo como mandou! Ele não…

“Deixe-o, Bella.”

Ela abriu a boca e fechou, mas ninguém estava mais surpreso do que Harry. Era impressão sua, ou Voldemort acabara de…

“Deixe o garoto imediatamente. Não toque nele. NÃO o mate. Retorne agora. Se me contestar novamente, vai lidar com as consequências.”

Era a primeira vez que Harry via Bellatrix sem ação. Ela olhou com raiva para Harry, como se fosse culpa dele aquele giro improvável dos eventos.

— Potter…

— Você ouviu seu mestre. — Harry rebateu, sem acreditar na sua sorte, mas tampouco querendo perder a chance preciosa de zombar da mulher. — Obedeça seu dono, Lestrange. Volte para a casinha.

Os olhos dela cresceram em ultraje. Harry se perguntou se havia um limite que, uma vez ultrapassado, a faria desafiar uma ordem direta de Voldemort e lançar nele o quarto Avada Kedavra da noite. Ao que parecia, estava perto de descobrir, porque Bella ergueu a varinha de novo em sua direção, um cintilar cruel nos olhos fundos, repleto das promessas mais nefastas de sofrimento.

O barulho de alguma coisa desabando no andar de cima os interrompeu. Imaginando que não eram reforços para ela — não depois da ordem que Bellatrix acabara de receber — Harry encheu os pulmões o máximo que pode no ar viciado e podre do porão.

— AQUI EMBAIXO! AQUI EMBAIXO, EU ESTOU AQUI, BELLATRIX ESTÁ AQUI!

Um raio fluiu da varinha de Bellatrix na direção dele; Harry rolou para o lado a tempo e o feitiço atingiu o corpo inerte da Sra. Figg, com um resultado nauseante de encontro ao chão. Harry usou o cano largo do aquecimento central como barreira, se arrastando para trás dele.

— NO PORÃO! — gritou de novo, com toda potência de sua garganta. Em seguida, foi acometido por um acesso de tosse; um segundo feitiço de Bellatrix fizera um buraco no cano, agora o gás escapava e rapidamente preenchia o aposento.

— Harry! — a resposta abafada lá de cima chegou até eles através do chiado do cano partido. Ele reconheceu a voz feminina e teve um calafrio. Era Tonks, e a última coisa que Harry queria era ver mais um confronto entre a comensal e outro membro da família Black.

Talvez se ele pudesse recuperar sua varinha…

Harry tentou se mover para longe de onde tinha visto a comensal pela última vez; o gás irritava seus olhos. Precisava garantir que Tonks soubesse que ele não estava sozinho ali embaixo… meio zonzo, Harry deu um passo à frente, tentando ter uma boa visão da escada.

Houve um estalo de aparatação, depois tudo escureceu.


Algo estava lhe sendo forçado garganta abaixo. O gosto era desprezível.

— Está tudo bem, Harry. — Uma voz tranquilizadora soou em algum ponto à sua esquerda. — É poção desintoxicante para limpar seus pulmões, você respirou muito gás trouxa. Ah, e… feliz aniversário.

O garoto piscou para uma luz clara e amarelada e reconheceu o rosto de Nimphadora pairando em seu campo de visão, o cabelo azul meia-noite emoldurando o rosto em formato de coração. Mais adiante, Remus Lupin lhe olhava num misto de preocupação e expectativa. Ele deu um sorriso ligeiramente culpado quando percebeu que Harry o encontrara.

— Harry, eu sinto muito. Esperávamos comemorar a data de um jeito diferente, havia um bolo esperando você na Toca e tudo.  

Harry se sentou de uma vez no que estivera deitado; um sofá amaciado por muito uso, com uma série de remendos. Ele sentiu a tontura repentina que adveio da falta de oxigenação ao cérebro, mas se forçou a ignorá-la.

— A Sra. Figg! A namorada de Duda… Bellatrix!

— A namorada do seu primo se chama Bellatrix? — Tonks franziu o cenho. Remus se aproximou com uma ruga entre as sobrancelhas.

— Bellatrix estava na casa da Sra. Figg? Foi ela quem tentou levar você da casa dos seus tios hoje à noite?

— Sim! Não… — ele esfregou a testa que ainda formigava, um fantasma latejante da dor que sentira há pouco. — Havia uma garota, disfarçada como namorada do meu primo…

— Harry, você não está fazendo o menor sentido, respire. — Tonks recomendou, dando batidinhas nas costas dele. — Anda, termine a sua poção.

Harry obedeceu, lutando contra o gosto de beterraba estragada. Aproveitou a pausa para olhar ao redor; estava numa cabana de caça que também poderia ser o refúgio de uma tia solteirona. A quantidade de livros encaixados em todos os espaços das paredes, no entanto, e um aquário de vidro perto da porta onde flutuava um Grindylow, lhe deram a dica de a quem o lugar pertencia.

— Muito bem. — Remus puxou uma cadeira para perto do sofá, um senso de urgência em suas palavras. — Nos conte o que aconteceu, Harry. Tudo que sabemos é que quando chegamos para lhe buscar na casa dos seus tios, um pouco depois da hora combinada, havia polícia trouxa e a sua tia estava contando uma história de tentativa frustrada de sequestro, mas ninguém sabia dizer onde você estava.

— É. Por que vocês demoraram tanto, aliás? — ele perguntou, sem conseguir reprimir uma nota de aborrecimento. Se alguém da Ordem tivesse aparecido na hora combinada, eles teriam “Wendy” nas mãos agora, seja lá quem ela realmente fosse. — Eu mandei um recado para Dumbledore pelo meu patrono, como ele pediu!

— Dumbledore teve um contratempo e me pediu pessoalmente para substituí-lo na tarefa de buscar você em segurança — ele explicou com pressa. — Eu recebi seu patrono, mas também me atrasei. Agora, você disse que Bellatrix Lestrange…

— Que contratempo? — Harry o interrompeu. Remus estreitou mais as suas sobrancelhas, como se Harry estivesse sendo teimoso de propósito.

— Algo com os Weasley. — E ao ver o olhar de Harry se agravando, acrescentou: — Não se preocupe, estão todos bem. Só não vão poder lhe receber mais essa noite como estava combinado, por questões de segurança. Agora, se você puder por favor explicar como Bellatrix Lestrange conseguiu contornar o feitiço de proteção em torno da casa dos seus tios e chegar até você, Harry, isso é de suma importância.

— Ela não conseguiu. — Ele suspirou, se sentindo cansado só de ter que repensar toda a história. Parecia que fazia um século desde que acordara naquela manhã, com Duda reclamando da sua estúpida espinha. — Mas eu acho que ela tentou, ou alguém tentou. Havia um círculo queimado na grama em torno da casa essa manhã, eu não me liguei à princípio…

Harry explicou tudo sobre a marca estranha no chão, depois sobre a namorada de Duda. Depois, como Bellatrix interrompera sua tentativa de sequestro e o atraíra para uma armadilha na casa da Sra. Figg, bem longe da proteção da rua dos Alfeneiros 4. Se sentiu um pouco idiota ao admitir que deixara a casa apesar das recomendações de Dumbledore, mas o que mais ele poderia ter feito? Felizmente, nem Remus nem Nimphadora apontaram o fato; continuaram ouvindo atentamente, com expressões cada vez mais graves, quando Harry chegou à parte de Bellatrix.

— Ela estava disfarçada como a sua vizinha trouxa? — Tonks pontuou, incrédula, sua voz se esganiçando.

— Não trouxa, a Sra. Figg é… era um aborto. Ela me vigiava a pedido de Dumbledore, há muitos anos, eu penso. Foi ela quem me ajudou quando os dementadores atacaram a mim e ao Duda no ano passado.

— Minha nossa, Bellatrix Lestrange na pele de um aborto. Ela deve ter amado isso — Tonks zombou, reprimindo um sorriso. Remus lhe lançou um olhar severo pelo canto dos olhos. A metamorfomaga então se voltou para Harry, pensativa. — Me pergunto há quanto tempo ela esteve disfarçada…

— Acho que desde o começo das férias. — Ele engoliu em seco, o enjoo retornando ao se lembrar do corpo da Sra. Figg em decomposição. — Ela mencionou que a Sra. Figg fez greve de fome e já tinha pelo menos algumas semanas que estava morta…

— É óbvio que Bellatrix estava esperando uma oportunidade para chegar até você e teve isso quando a garota trouxa lhe tirou da casa — Remus observou, pensativo. — Como você disse que a garota se chamava mesmo, Harry?

— Wendy. Mas não acho que era o nome dela de verdade. Quero dizer, se todo o resto era falso…

Remus trocou um olhar estranho com Tonks.

— Como você disse que ela se parecia?

Harry repetiu a descrição de Wendy. Uma típica jovem inglesa, sem nenhum atributo especial a não ser os olhos muito azuis. Remus o pressionou para se lembrar de qualquer outra coisa, mas Harry não sabia exatamente o que o seu ex-professor queria saber, e para Harry haviam perguntas mais urgentes do que como a garota se parecia:

— Por que uma trouxa ia querer me entregar para Voldemort? Como uma trouxa sequer saberia quem Voldemort é e que está atrás de mim?

— Eu não acho que era uma trouxa, Harry. — Remus balançou a cabeça, parcimonioso. — Você disse que ela não estranhou a sua varinha, muito pelo contrário, lhe desarmou na primeira chance.

— Mas ela tinha uma arma trouxa! — argumentou. A hipótese de uma bruxa atacá-lo com um revólver parecia absurda, beirando o ridículo.

— Remus está certo. — Tonks interpelou — Quem quer que ela seja, foi mais esperta do que Bellatrix para chegar até você, porque descobriu uma brecha na proteção mágica que Dumbledore colocou em torno da casa. Agora sabemos que não funciona para armas trouxas… imagino que uma vez que ela entrou sem nenhum objeto mágico na casa dos seus tios, o feitiço não a reconheceu como uma ameaça.

Harry esfregou seu rosto com uma espécie de agonia impaciente. Agora que o sangue estava esfriando, os machucados obtidos quando se jogara do carro começaram a latejar, especialmente os de seu joelho e ombro. Ele se sentia cansado e irritado; aquela constante tendência do mundo mágico em lhe perseguir sem trégua até mesmo no dia do seu aniversário estava cobrando o seu preço.

— Eu acho que Bellatrix a conhecia. — disse de repente, lembrando-se de como a comensal reagira ao confrontar a namorada de Duda. — Ela xingou Wendy antes de tentar lhe lançar um Avada Kedavra. Talvez seja outra comensal da morte, agindo à revelia de Voldemort?

Houve outro olhar alarmado entre Remus e Tonks. Harry começava a achar que eles não estavam lhe dizendo alguma coisa, o que não ajudou a melhorar seu humor.

— O que ela disse exatamente, Harry? Isso é importante. Você lembra das palavras exatas?

Harry olhou com impaciência para Remus.

— Não, eu não me lembro as exatas palavras. É impressão minha, ou vocês tem um palpite de quem poderia ser e não estão m—

— Deixe ele descansar, Remus. — Tonks disse bruscamente, dando uma batidinha apaziguadora no ombro de Harry. — O garoto teve que se jogar de um carro em movimento, pelo amor de Merlin. Harry, acho que tenho um pouco de ditamno na minha bolsa, vai ser bom para esse corte em seu joelho e na sua testa, eu sempre carrego, sabe como é, nunca perco uma boa chance de levar um tombo.  

Tonks levantou e, sem se contradizer, deu uma topada na mesa de centro rústica, emitindo um lamento de dor. Remus apertou os olhos como se tivesse sentido a pancada em sua própria canela.

— Dora?

— Estou bem, ai, estou bem!

Remus fechou os olhos por um momento, sacudindo a cabeça, depois os abriu de novo para Harry. Como se a visão do garoto o lembrasse de algo, ele tateou o bolso e lhe estendeu a sua varinha.

— Aqui, estava caída ao seu lado quando chegamos.

— Obrigado. — Harry guardou a varinha no bolso, surpreso que Bellatrix tivesse feito a gentileza de deixá-la ao desaparatar. À sua frente, Remus parecia numa luta interna para se conter, para o que Harry rolou os olhos. — Pergunte de uma vez, Remus.

— Muito bem. Depois que Bellatrix encontrou você no porão, o que aconteceu? Quando chegamos o encontramos desmaiado, sozinho.

— Ela ia me levar para Voldemort, acho que estava aguardando alguma ordem dele. — Harry omitiu o restante da conversa, não queria admitir que Sirius fora mencionado. Também não queria falar sobre a troca de maldições imperdoáveis entre ele e a comensal — Só que quando Voldemort falou com ela, disse que devia me deixar lá e partir em retirada.

— Como é? Voldemort mandou Bellatrix deixar você para trás?

Harry deu de ombros. A boca do seu ex-professor se tornou uma linha dura. Que ele se importasse com isso então, porque no momento Harry não dava a mínima. E daí que Voldemort tinha desistido dele daquela vez? Haveria outra chance. Não é como se Harry tivesse escapatória, afinal, havia uma profecia…

Um não podia viver enquanto o outro sobrevivesse.

Era só uma questão de tempo.

Quando os olhos de Harry se abriram, ele descobriu que já era dia claro. Demorou para compreender porque estava olhando para um teto de vigas, até que a dor emaciada em seu ombro lhe trouxesse sem qualquer sutileza aos acontecimentos da noite passada.

Feliz aniversário atrasado, Harry Potter, pensou com sarcasmo. Uma parte dele alimentara a fantasia de chegar na Toca e, para variar, conseguir cantar parabéns e assoprar velas junto com as pessoas de que gostava.

Distraído com toda sorte de pensamento autodepreciativo que se seguia a mais um aniversário passado em branco (não que ele ainda se importasse tanto, a essa altura), demorou a perceber que havia um peso sobre o seu estômago. Inclinando a cabeça só um pouco (seu ombro pinicou em retaliação), identificou uma bola de pêlos prateados que repousava em cima de sua barriga, e cujo par de orelhas pontudas estavam espetadas para cima. Um par de olhos cor de opala lhe observavam atentamente. Harry não se lembrava de Remus ter um gato.

— Hey. — Estendeu a mão para afagar o felino que esmagava sua bexiga cheia. — De quem você é?

Antes que pudesse tocá-lo, o gato saltou para o encosto do sofá e de lá para o chão, sumindo de vista sem fazer nenhum barulho. Rolando os olhos, mas não particularmente ofendido, Harry ensaiou se levantar. Foi a vez do seu joelho machucado lhe lembrar a que veio. Tonks não tinha mencionado algo sobre ditamno na noite passada? Ele sequer se lembrava do momento em que tinha ido se deitar. Após sua conversa com Remus, as memórias eram nubladas; provavelmente tinha desabado no sofá sem perceber, de tão exausto. Uma tentativa de sequestro e alguns cruciatus tinham um efeito engraçado nas pessoas.

Ouvindo vozes vindo de uma porta à esquerda, Harry terminou de levantar, ignorando os repuxões do corpo dolorido. Já tinha sofrido injúrias piores, é claro, mas uma coisa era se machucar dentro da jurisdição de Madame Pomfrey e outra bem diferente era se acabar no período de férias.

Nota mental, evitar se jogar de carros em movimento quando não estiver em Hogwarts.

Arrastando o joelho ruim, Harry teve a oportunidade de olhar melhor a cabana. Não era grande — cabia dentro do primeiro andar da casa dos seus tios com folga; mas era bem mais aconchegante que a casa dos Dursley. As cortinas sobre as janelas tinham estampas de madressilvas bem desbotadas, havia uma lareira espaçosa no canto oposto, que devia esquentar o lugar inteiro no inverno sem dificuldades, e todos os livros nas prateleiras deviam ter sido lidos pelo menos uma vez. Harry reconheceu títulos familiares de defesa contra as artes das trevas, mas o seu estômago vazio não deixou que ele se demorasse muito em contemplação acadêmica. Do mesmo lugar que as vozes vinham, também provinha o cheiro de pão com manteiga e café recém coado.

A conversa morreu quando Harry apareceu no portal do novo cômodo, que se confirmou como uma aconchegante cozinha, como previra.  Remus estava colocando para torrar magicamente uma pilha de pães de forma. Tonks, usando um uniforme oficial do ministério em tons de roxo, bebia chá sentada à mesa.

— Dia, Harry. — Remus acenou para que ele se aproximasse, indicando uma cadeira — Dumbledore passou na lareira mais cedo para checar você, mas achou melhor não te acordar. Ele deixou a sua correspondência. — Apontou para uma pilha de cartas sobre a mesinha de três pernas. — Eu vou ter que sair para resolver algo, mas volto o mais rápido que eu puder, espero que não se importe.

— O que Dumbledore queria? Você conversou com ele sobre a garota trouxa? Ele tem um palpite? Ele sabe porque Voldemort me deixou ir ontem à noite?

Remus adotou um silêncio reticente, os cantos da boca ligeiramente franzidos. Harry percebeu o que estava acontecendo ali.

— Vocês não vão me dizer nada, não é? Porque Voldemort ainda pode estar acessando a minha mente.

— Harry… — Tonks tentou remediar, as pontas do seu cabelo se tingindo de cor de rosa. — Há coisas que nós não podemos arriscar…  

— Não, tudo bem. — Ele bufou, se levantando da cadeira. — Vocês estão certos, é melhor não me dizer nada. Aliás, acho que foi um erro me trazer até aqui. E se Voldemort descobre onde a sua casa fica e decide vir atrás de mim, Remus? Isso é muito arriscado, é melhor me mandarem de volta para a Rua dos Alfeneiros. Acho que nem Hogwarts está segura, melhor se eu ficar para sempre na Rua dos Alfeneiros!

— Ok, já chega. — O ex-maroto sentenciou, muito sério, algo cintilando por trás do âmbar de seus olhos. — Isso não é justo, Harry. Estamos fazendo o melhor que podemos para a sua segurança. Olha, coma as suas torradas, vão ficar frias.

— Eu perdi a fome. — disse bruscamente, se levantando e dando a volta na mesa e para fora da cozinha. Tonks pulou atrás dele.

— Harry!

Ela fez menção de ir atrás do garoto, mas Remus tocou seu ombro.

— Deixa ele ir.

A garota ia protestar, mas viu que Remus esfregava a ponte do nariz. Isso nunca era um bom sinal, porque Remus era a pessoa mais paciente que ela conhecia. Gestos como aquele, no entanto, eram cada vez mais frequentes, desde… bem, desde Sirius.

— Ele não está no seu normal, não é? — ela suspirou, voltando a se sentar.

— Nenhum de nós está. Escuta, Dora, é melhor você terminar seu chá ou vai se atrasar para o trabalho.

— Eu posso ficar e dar uma olhada nele enquanto você sai. — se ofereceu. — Não sei se é uma boa ideia deixar Harry aqui sozinho nesse estado de espírito.

Remus negou prontamente.

— Não, nada de faltar o trabalho, não agora que você conseguiu uma posição tão estratégica no DELM. Eu tenho tudo sob controle aqui, vá e não se meta em encrencas.

Ela fez uma careta, colocando a ponta da língua pra fora.

— Mas se meter em encrencas é o meu trabalho.

Em outros tempos, ele teria dado a ela o benefício de um sorriso condescendente, mas hoje isso não aconteceu. Tonks sentiu a familiar apreensão na boca do estômago, a sensação de que estava permitindo que ele escapasse entre os seus dedos de novo. Como se ela pudesse deixar escapar algo que nunca tivera, para começo de conversa.

— Ah, por favor diga à Anne que deixei um abraço — suspirou, desanimada. — Eu volto de noite para checar vocês.

— Você não precisa…

— Eu quero. — ela resmungou. Depois sua expressão ficou mais séria. — E Remus, me avise se tiver alguma notícia… digo, se acha mesmo que foi ela na Rua dos Alfeneiros…

Ambos esperavam estar enganados.

— Eu te aviso.

Ela lhe deu um aceno desanimado e saiu pela porta da cozinha. Quando desaparatou, o cabelo regredira a um tom tedioso de castanho.


Por tudo que Harry pode perceber, a cabana de Remus era entranhada no meio de uma floresta de abetos; para qualquer lado que ele olhasse só havia árvores e nenhum sinal de civilização. O lugar perfeito para esconder um lobisomem, pensou. Seria ali que Remus passava as luas cheias, desde que deixara Hogwarts e perdera o acesso à casa dos Gritos? Será que ele tinha voltado para esse lugar porque já não tinha a Poção Mata-Cão, agora que não estava mais ensinando em Hogwarts?

Harry queria parar de ficar irritado, mas era difícil. Passara o ano anterior inteiro sendo privado de informações importantes, porque fora incapaz de aprender Oclumência (embora culpasse mais Snape do que a si mesmo nesse ponto). Por outro lado, nenhuma vez durante as férias até o momento ele tivera pesadelos, visões ou dores inesperadas em sua cicatriz; com exceção da noite anterior, no momento em que Voldemort se comunicara com Bellatrix através da Marca Negra. Era como se Voldemort estivesse evitando a conexão entre eles de propósito. Mas como ia usar esse argumento com Remus ou qualquer outra pessoa? “Voldemort não está usando a nossa conexão agora, mas ele pode aparecer quando quiser e não há nada que eu possa fazer sobre isso.” Estavam certos em não lhe dizer nada. Mas era tão injusto!

Harry se afastou uma distância considerável da cabana, seguindo algo que lembrava de forma vaga uma trilha entre as árvores; foi quando ouviu galopes se aproximando. Seu primeiro palpite foi centauros, o que lhe causou um frio no estômago. Se haviam centauros naquela floresta e ele acabara de invadir seu território, podia estar com problemas. Duvidava que os centauros ali fossem lhe poupar só porque ele era um “filhote”, como os da Floresta Proibida de Hogwarts tinham feito uma vez.

Ergueu a varinha, tentando localizar a fonte dos galopes que chegavam mais perto. Pareciam vir de sua direita, mas antes que conseguisse ver qualquer coisa, ele ouviu um grito agudo e um tombo.

Harry correu na direção do barulho, reparando tardiamente que acabara de agir com a impetuosidade suicida a qual Bellatrix lhe acusara de possuir. Podia ser uma armadilha, e ele estaria caindo como um bom pato… mas para a sua surpresa, se tratava de um hipogrifo. Reconheceu a pelagem branca-acizentada e os grandes e espaçados olhos amarelos. Não qualquer hipogrifo, mas um que ele até montara um par de vezes no passado.

— Bicuço! — exclamou, surpreso. O animal se virou em sua direção, a grande cabeça quase esbarrando em Harry, que deu vários passos para trás se lembrando da etiqueta com hipogrifos.

Ele rapidamente fez uma reverência. Percebeu que havia alguma coisa se movendo entre as patas do animal, será que estivera caçando?

Bicudo correspondeu o seu cumprimento, agitado. Suas patas traseiras golpeavam o chão com impaciência e ele remexia a presa no chão com o bico.  

— Eu estou bem, Bicuço, sai fora, sai fora.

Então a coisa falava. Harry se aproximou, reticente, a varinha preparada para um feitiço estuporante. Como a coisa sabia o nome de Bicuço?

A coisa era uma garota. Pelo menos essa foi a primeira impressão de Harry. Então ele ficou em dúvida, porque ela lembrava muito a foto de uma ninfa da floresta que ele vira uma vez, num livro de criaturas mágicas. Fosse o que fosse, se levantou meio bamba; esfregava os olhos com força nas palmas das mãos.

— Você deve saber que eu estou armado. — Ele avisou. Ela — garota ou ninfa, Harry ainda não tinha um veredito — Deu outro grito de surpresa e tropeçou numa raiz. Parecia inofensiva, o que fez Harry se achar bem estúpido em sua escolha de palavras. — Isso é, se você pretende me atacar.

Ela não respondeu. Ele deu a volta em Bicuço — que ainda rodeava a “presa” com impaciência, farfalhando as asas — e obteve uma visão melhor dela. Longo e lustroso cabelo preto, o rosto estreito, um nariz bem reto e olhos que no momento estavam muito arregalados. A boca dela se entreabriu, a respiração interrompida por um misto de susto e assombro. Harry detectou uma nuance de prateado nos olhos negros, que aumentou sua suspeita de que não era humana. Aparentava ter mais ou menos a sua idade e vestia jeans. Que tipo de ninfa da floresta vestia jeans?

Uma coisa estava certa, não havia nada de ameaçador sobre ela.

— Você quer ajuda para se levantar? — estendendo a mão, sendo completamente ignorado. Ela tinha voltado a pressionar os olhos como se estivessem pegando fogo. — Você se machucou?

— Merda. Eu acho… meus óculos…

Harry franziu o cenho. Assistiu-a tatetar nervosamente entre as raízes, achar e encaixar no rosto um antiquado óculos de sol de aros redondos. Depois ela ficou de pé, tateou até achar a lateral da asa de Bicuço e montou com incipiente facilidade. Deu um tapinha nele, e com um impulso, o par sumiu entre as árvores. Harry ficou parado no mesmo lugar, se perguntando o que diabos tinha acabado de acontecer ali.


— Harry, eu quero me desculpar pela minha reação hoje mais cedo. Eu entendo que esteja chateado, com… bem, com tudo que aconteceu. E é claro que você quer saber o que está acontecendo no mundo mágico agora que Voldemort anunciou seu retorno. Acredite, tudo que eu queria era lhe tirar do escuro, mas Dumbledore quer ter certeza que é seguro antes… não dá pra saber o que Voldemort pode usar contra nós nesse momento. Eu sinto muito. Olhe, vamos fazer o seguinte. Uma das minhas tarefas para a Ordem tem sido catalogar todas as notícias que têm saído na mídia e que podem estar relacionadas ao retorno de Voldemort. Elas são de domínio público, então não deve ter problema em lhe deixar ver, eu tenho uma pasta grande na sala, fica dentro de um baú… Harry, você está me ouvindo?

Ele piscou. Estivera olhando através da janela da cozinha, para a orla da floresta do outro lado da cabana. Só ouvia as desculpas de Remus com meia atenção; como parte do seu humor volúvel nos últimos tempos, ele não estava mais zangado com o seu ex-professor, mas outra coisa ocupava a sua mente no momento.

— Remus, você está ciente de que Bicuço está vagando solto por essa floresta?

A expressão do ex-professor se abrandou para um meio sorriso.

— Então você topou com ele? Eu o trouxe para cá depois que tivemos que desocupar o Largo Grimmauld. Eu não cheguei a mencionar, não é? Não podemos mais usar a casa agora que…

— E você sabe que tem uma ninfa cavalgando Bicuço por aí? — Ele interrompeu, antes que Remus chegasse em algum assunto perigoso de se discutir.

— Quê… o quê?

— Uma ninfa da floresta. Usando jeans. Olhos prateados, muito boca suja.

A expressão de confusão de Remus se transformou divertido sorriso de compreensão.  

— Uma ninfa boca suja, você diz? — repetiu com um ar de riso. Harry começou a ficar impaciente de novo, detectando uma nota de zombaria. Uma coisa era precisar aguentar segredos e mistérios porque sua mente não era segura, outra completamente diferente era ser alvo de chacota do antigo Maroto.

— Qual a graça? — retorquiu, fechando a cara.

— Nada demais. Porque você não vai se arrumar para o almoço? Eu peguei o seu malão na casa dos seus tios ontem depois que você dormiu, deixei no pé do sofá. O meu único quarto de hóspedes já está ocupado, desculpe por isso… Ah, e eu pedi macarrão e frango por entrega-coruja, deve estar chegando a qualquer momento. Não é nenhuma comida nível Molly Weasley, mas acho que vamos ficar bem.

Harry obedeceu a sugestão sem lutar. Depois de toda a movimentação no dia anterior, ele ainda tinha sangue seco e sujeira de asfalto em suas roupas. Aproveitou para passar nos machucados o ditamno que achou em uma frasquinho no banheiro; eles começaram a cicatrizar quase instantaneamente. Em sua longa jornada de traumas de quadribol e confrontos com Voldemort, Harry tinha uma vasta experiência com pomada cicatrizante, o bastante para saber que aquela era uma das boas. Mas não conseguiu saber quem era o fabricante, não havia rótulo. Talvez fosse uma receita do próprio Remus?

Quando voltou para a sala, esfregando seu cabelo molhado na toalha que Remus lhe fornecera e desprendendo um cheiro de alfazema dos sabonetes afrescalhados que encontrara no banheiro, ouviu de novo um burburinho vindo da cozinha. Então Tonks estava sempre ali, até para as refeições? Ou seria ela ocupando o quarto de visitas de Remus? Quando pisou na cozinha e a conversa morreu mais uma vez.

Só que não era Tonks quem estava sentada à mesa, beliscando de uma travessa de batata assada em cubinhos. Era a garota-ninfa da floresta. Harry congelou de chofre sob o portal, pego de surpresa.

— Harry, ai está você. Essa é minha afilhada, Anne. Acho que vocês se conheceram mais cedo? — E lá estava o sorriso divertido pregado na boca de Lupin, que obviamente estava saboreando o momento.

A única pessoa mais sem graça que Harry, parecia ser a garota, cuja cabeça estava abaixada na direção do prato, o cabelo comprido cobrindo a maior parte do rosto. Ela ainda usava os óculos esquisitos; a mesma calça jeans de mais cedo estava suja de terra.

— Olá — disse Harry, olhando feio para Remus, que mal continha o divertimento. — Sou Harry. Potter.

— Não me diga — ela retrucou com má vontade.

— Anne. — Remus ralhou, se virando em seguida para Harry, um sorriso de desculpas. — A comida já chegou, só estávamos esperando você.

Harry ocupou a cadeira ao lado de Remus, pensando em como o frango cheirava bem. Ele se concentrou no tamanho da própria fome, afinal, não comia nada desde o jantar com os Dursley e “Wendy” na noite anterior. Só percebeu que havia algo errado quando a garota escorregou da cadeira e ficou de pé.

— Acho que perdi a fome. — anunciou ela, olhando para qualquer lugar menos para Harry. — Com licença.

Ela saiu da sala com as mãos estendidas na frente do corpo, tão rápido como se estivesse evitando compartilhar a mesa com o próprio Voldemort. Harry procurou o olhar de Lupin, intrigado.

— Foi alguma coisa que eu disse?

Ele suspirou, balançando a cabeça.

— Não se preocupe com isso, Harry. Parece que perder a fome está se tornando uma moda por aqui ultimamente.


"E eu nem me importo


Com a melancolia das mudanças


E a gente nem sabe


Onde os nossos ossos


Virarão pó, eu suponho


Esquecidos e absorvidos


Pela terra aos nossos pés¹"


Smashing Pumpkins explodia em seus ouvidos num volume muito maior do que o recomendado pelo fabricante dos seus fones trouxas. Era de propósito, porque a música alta abafava a confusão de seus pensamentos.

“E a gente nem sabe”, Billy Corgan continuou cantando o refrão, esquentando suas orelhas, “Onde os nossos ossos…”

Anne sentiu que havia mais alguém no quarto. Era como uma mudança no ar. Um zumbido que não era captado pelos seus ouvidos, mas por algum ponto atrás da sua nuca. Mesmo sem querer, ela conseguiu captar a voz do padrinho tentando sobrepor o som dos fones, e deixou escapar um suspiro resignado.

— Anne!

De má vontade, arrancou os fones e se virou para a direção onde ele sabia que ele estava parado, perto da porta de entrada do quarto. Não precisava de sua visão para ter uma imagem mental dele com aquela expressão desagradada, embora contida, porque Remus era paciente demais para ficar zangado de verdade.

— O quê?

— Você pode me explicar o que aconteceu lá embaixo?

Ela torceu seu lábio por um momento. Já conseguira fazer o coração parar de bater descompassado, já tinha controlado os outros sinais de nervosismo. Com algum esforço, Remus não perceberia que havia algo fora do comum acontecendo, especialmente porque estava longe da próxima lua cheia e ele não estava com sua audição apurada de lobo funcionando ao máximo.

— Eu belisquei muita batata enquanto esperávamos por Potter e acabei perdendo a fome.

— Johanne, não há necessidade de mentir pra mim, sabe. Você tem um problema com Harry ficar aqui por um tempo?

— Por que eu teria um problema com Harry Potter? — ela respondeu quase rápido demais, e precisava admitir, de forma pouquíssimo convincente, se queria soar despreocupada.

— Não me diga que você compartilha da mesma opinião que a sua irmã sobre o que aconteceu no Ministério. — Remus pediu, com uma nota de cansaço acometendo sua voz. Ele estaria pinçando a ponte do nariz, ela sabia. Ela sentiu só um pouco de remorso pela sua recepção fria à Harry e além do mais, a menção da irmã trouxe aquele gelo conhecido ao topo do seu estômago.

— Anne, Harry é praticamente família. — reassegurou seu padrinho, num tom professoral e ao mesmo tempo afetuoso. — O que aconteceu no Ministério foi uma armadilha de Voldemort, Harry não tinha como saber. E quanto ao Sirius… ele teria ido de qualquer maneira. Por ele, e por qualquer uma de vocês, se precisasse.

O gelo em sua barriga se transformou numa dor vazia e devoradora. Não, não queria falar sobre isso, então continuou calada, mastigando o lábio inferior. Com sorte, Remus entenderia que ela não queria conversar sobre Sirius e partiria em retirada; já tinha acontecido outras vezes. Anne não esperava pelas palavras seguintes.  

— Eu acho que tenho um indício de onde Bervely pode estar.

As palavras tiveram efeito imediato. A garota levantou o rosto tão rápido que seu pescoço estalou.

— Onde? Com quem? Como?

— É só uma pista. Harry foi atacado ontem na rua dos Alfeneiros, e pela descrição eu achei que poderia… que poderia ser um dos disfarces dela.

Anne jogou os fones de ouvido para o lado, agitada.

— Atacado? Não! Porque ela iria atrás dele? Ela queria, ela estava procurando…

— Bellatrix. — ele completou, num tom baixo e resignado. — Que por acaso também estava lá, perto da casa dos tios de Harry, quando tudo aconteceu. Soa muito estranho para ser coincidência, eu vou tentar descobrir mais hoje à tarde, mas se realmente foi ela…

— Então ela achou Bellatrix? — Anne pulou da cama, seu corpo todo tremendo de expectativa e medo. — Moony, o que aconteceu? Ela está bem? O que ela fez?

O padrinho colocou uma mão em seu ombro, tentando acalmá-la. Mas através do toque dele ela conseguia sentir a vibração de apreensão de Remus também, e isso não era em nada apaziguador.

— Como eu disse, foi só uma pista, posso estar enganado. Prometo lhe contar assim que souber de qualquer coisa. — ele abrandou a voz, percebendo o quanto a deixara agitada. Era fácil esquecer que ela só tinha quatorze anos, e ao mesmo tempo em que já passara por muito nos últimos tempos, esse devia ser o momento mais difícil da sua vida. Não só acabara de perder o pai que recuperara há tão pouco tempo, como a irmã mais velha, a pessoa em que ela mais confiava no mundo, estava desaparecida há mais de um mês. — Fique tranquila, ok? Vamos achá-la. Vou achar aquela pequena cobra escorregadia nem que seja a última coisa que eu faça.

Anne acompanhou o som dos passos do padrinho deixando o quarto, se jogando de costas na cama. Remus dizia aquilo há semanas e ela estava começando a descobrir que ele era mais um dos muitos adultos com péssimas habilidades em cumprir as suas promessas.

Tentou se acalmar de novo; tinha problemas ainda mais urgentes do que o sumiço da irmã, ou pelo menos julgara que tinha, mas do mesmo jeito que vieram… Anne tirou os óculos do rosto e após um momento de coragem, abriu os olhos em direção ao teto.

Escuro. O seu bom e velho amigo escuro.

Tateando acima da cabeça, alcançou os fones de ouvido e os colocou ao redor da cabeça de novo. Os dedos treinados encontraram o botão de voltar a música; num segundo, Billy Corgan estava rouqueando para ela novamente:

 

Você e eu esbarramos por aí


As aleluias saltam como bolinhas de gude


Com os faróis apontados pra alvorada


Tínhamos certeza que tudo aquilo nunca acabaria…

 

Era o que Harry teria esperado — mas pior. Agora haviam nomes, haviam rostos; crianças órfãs e famílias desfeitas. Crueldade e conspiração em cada linha dos muitos recortes de jornais espalhados pela mesa, aqueles selecionados por Remus durante todo o mês de julho. Harry os encontrara, como descrito, numa pasta dentro de um baú, numa das prateleiras de livro da sala. Estavam organizados por ordem de tempo e dentro desta categoria, por ordem de relevância. Alguns traziam notas na caligrafia do seu ex-professor, tomando as bordas e espaços disponíveis entre as linhas.

Num dos mais antigos, do começo do mês, era anunciada a deposição de Fudge como Ministro da Magia e sua substituição por um bruxo chamado Rufus Scrimgeour. O novo Ministro da Magia tinha a cara emaciada e felina, e uma juba de cabelos cor de ferrugem emoldurando o rosto comprido. Discursando no seu evento de posse, ele parecia um bocado enérgico, ao deixar claro que acreditava no retorno de Voldemort e que não pouparia esforços para proteger a comunidade bruxa dos Comensais da Morte. Num outro recorte, esse um tantinho mais recente, anunciava problemas na contenção dos dementadores, que estavam largando os seus postos em Azkaban e obedecendo a “forças diversas, fora do controle do Ministério”. Havia notas de desaparecimento e mortes declaradas; em 12 de julho, Amélia Bones, Chefe do Departamento de Execução das Leis da Magia, fora encontrada morta em sua casa, vítima de uma maldição da morte, a Marca Negra pairando sobre a sua casa.

Havia também uma série de cartilhas com instruções para a comunidade bruxa se proteger dos comensais da morte. Elas ensinavam coisas como reconhecer sinais de que alguém estava amaldiçoado pela maldição Imperius, ou como garantir que seu parceiro não era um comensal da morte disfarçado com Poção Polissuco. Harry só precisou passar algumas páginas daquilo para saber que nenhuma das instruções conseguiriam deter um comensal da morte experiente, se estivesse realmente tentando chegar em um alvo. Eram pura besteira.

Na semana anterior, dizia outra reportagem, uma ponte fora explodida em Brookdale. Dezesseis trouxas e dois bruxos mestiços mortos, mais três gravemente feridos, internados no hospital St. Mungus.

E haviam as outras coisas. Boatos de que Voldemort estava usando inferis, recrutando gigantes e controlando ou chantageando funcionários dentro do Ministério da Magia para a sua causa. Dois ataques ao Beco Diagonal na última semana, um deles contra a sorveteria bruxa preferida de Harry, a Florean Fortescue.

Quando terminou de passar seus olhos por todas as notícias, Harry se sentia nauseado e sua cabeça latejava. Ele levantou para pegar um copo d’água e percebeu, olhando através da janela da cozinha, que já anoitecia. Havia ficado horas sentado sem perceber, e nada na casa se movera enquanto isso; Remus não retornara do que quer que tivesse ido fazer na rua, a afilhada dele não saíra do seu quarto do andar de cima. Harry tinha a sensação de que o segundo fato se devia a sua presença, mas ele estava tentando não se incomodar. Ela não seria nem a primeira, nem a última pessoa a ter um problema com “o Eleito”; era como os jornais lhe chamavam agora, não era? A única pessoa que podia deter Voldemort, segundo seus palpites sobre o que acontecera na Sala da Profecia naquela noite. Harry imaginou que tipo de coisa Rita Skeeter estaria escrevendo sobre ele, se realmente tivesse posto as mãos na profecia e soubesse de sua mensagem por inteiro.

Harry virou a cabeça para a porta; o gato prateado da manhã o encarava, sentado no portal para a sala. Vendo seus olhos brilharem na penumbra antes de divisar o resto de seu corpo, Harry deu um pequeno salto de susto, se sentindo bobo logo em seguida. Estreitou os olhos para o bichano, que não se moveu nenhum milímetro.

— Gato esquisito. — falou em voz alta. Devia ser sua imaginação, mas achou que o gato lhe olhou indignado em resposta.

Entediado, Harry puxou a pilha de cartas que, segundo Remus, Dumbledore deixara para ele mais cedo. A primeira era de Hagrid, lhe desejando feliz aniversário e dizendo que Group lhe mandava lembranças e que os três deviam se encontrar para um chá assim que as aulas começassem (Harry não conseguiu reprimir um sorriso com a ideia do irmão gigante de Hagrid segurando uma xicrinha de chá com o dedo mindinho erguido). A outra era de Luna, acompanhada de um desenho feito por ela mesma e uma edição especial do Pasquim (“Segredos e Fascínios dos Bufadores de Chifre-Enrugado), e então havia uma de Rony, sua caligrafia desleixada inconfundível, reclamando sobre o tédio das suas férias porque agora ele era o único em casa; os irmãos estavam ocupados com seus respectivos trabalhos ou missões para a Ordem da Fênix, e aparentemente sua mãe estava ficando obsessiva com a segurança, descontando nele tudo que não podia descontar nos outros. O penúltimo envelope era, para sua surpresa, de Gina. Trazia um selo que Harry nunca tinha visto antes: um engrave de um dragão de asas abertas em torno de duas letras do alfabeto cirílico.

 

 Olá Harry,

Mamãe falou que ninguém deve te escrever para o endereço dos trouxas, então estou mandando essa carta para casa e ela prometeu que vai repassar para você quando der. Imagino que isso seja antes de nos vermos de novo, de qualquer maneira. Se você receber até o seu aniversário, feliz aniversário! Se não, feliz aniversário atrasado mesmo assim.

Não pudemos nos falar muito após toda a coisa do Departamento de Mistérios mês passado, e eu quis te dizer, mas não houve chance antes, que eu sinto muito por Sirius. Ele era um cara e tanto. Ele não ia querer que você ficasse para baixo, eu tenho certeza. Então não fique, certo? Você pode conversar conosco quando precisar. Rony e Hermione vão sempre estar por perto, eu sei, mas se ainda assim você quiser falar com alguém que não seja um cabeça dura completo ou uma sabe tudo em tempo integral, você sabe que pode me procurar.

A outra coisa que eu quero que você saiba é: eu estou dentro. Mamãe acha que me mandando para longe pode me deixar fora da ação, mas eu não preciso estar perto para ser útil. Não diga a ela que eu disse isso ou ela vai pirar: o Rony falou que ela já está pirando porque agora o relógio só mostra nossos  ponteiros em “perigo mortal”, mas aquele relógio sempre foi meio dramático.

 

Abraço e boas férias,

Gina

 

Harry não fazia ideia do que Gina queria dizer com “estar longe”, onde ela estaria passando as férias, senão na Toca? Ele releu a carta tentando ter uma pista, e embora não tivesse chegado a uma conclusão, se sentiu melhor quando terminou, um pouco menos nauseado com todas as coisas ruins que lera no jornal. O peso em seu estômago abrandado, Harry puxou a última carta.

Com aparência oficial, fora escrita num pergaminho acetinado de qualidade superior. O selo trazia o emblema do Ministério da Magia; dois Ms entrelaçados com uma balança e uma varinha. Ele se surpreendeu ao perceber que fora escrita de próprio punho e quando olhou a assinatura, ela dizia “Excelentíssimo Sr. Ministro da Magia, Rufus Scrimgeour”.

— Alô! — Alguém chamou da sala, distraindo Harry da tentativa de descobrir por que o novo Ministro da Magia estava lhe mandando correspondência. — Alguém habita essa cabana fantasma? Ah, oi, Harry!

Era Tonks, acabara de enfiar a cabeça pela entrada da cozinha. Ela fez um aceno para acender as luzes; ele nem se dera conta de como estava escuro ali. A auror ainda usava o uniforme de trabalho com o qual saíra de manhã ao entrar na cozinha, dando tapinhas nas costas dele.

— E aí, você está sozinho? Por onde anda o Remus?

— Ainda não voltou — ele deu de ombros. — Saiu pouco depois do almoço.

— Hum. — Ela depositou uma caixa enorme e achatada em cima da mesa, sobre todos os recortes de jornal que Harry tinha espalhado. — Você está com fome? Eu trouxe pizza.

A barriga de Harry respondeu por ele, fazendo Tonks dar risada.

— Pode se servir, vou chamar Anne… você a conheceu, certo? Ou ela ficou enfiada naquele quarto o dia inteiro?

— Nos cruzamos por aí. — resumiu, sem vontade de explicar toda a coisa da queda do hipogrifo e da retirada da garota na hora do almoço.

— Ah, vejo que você esteve se atualizando sobre as notícias. — Ela pontuou, dando uma olhada nos recortes espalhados sobre a mesa. — Não deixe gordura cair em cima disso, Remus vai comer seu fígado. Ele pode parecer um amor e inofensivo, mas isso é até você derrubar comida no trabalho dele. Acredite, experiência própria.

Ela lhe deu uma piscadela e deixou a cozinha. Harry já tinha recolhido os papéis e enfiado dentro da pasta de novo quando Tonks voltou, já vestindo outra roupa; uma camiseta larga e desbotada com os dizeres “Malfeito Feito Vai Pegar Você de Jeito”, numa caligrafia meio torta; o cabelo dela estava todo espetado num cinza grafite brilhante, combinando com olhos cinza-grafite. Atrás dela entrou Anne. Harry não deixou de notar que a garota tinha os movimentos calculados, como se andasse por uma mina.

— Será que devíamos mandar uma mensagem pra ele? Só pra saber se está tudo bem? — Tonks sugeriu, puxando uma cadeira para Anne sentar e depois ajudando-a a encostá-la na mesa.

— Angry Bevy está fora, fazendo entrega. Acho que poderíamos convencer Grumpy Lupin, mas ele estava de mau humor hoje, desde que Jinx tentou brincar de achatar o topete dele.

— Grumpy Lupin de mau humor, que novidade. — Tonks rolou os olhos, abrindo a caixa da pizza. O cheiro de queijo derretido e calabresa se espalhou pela cozinha, aquecendo o coração de Harry. — Deixa que eu sirvo pra você, o que você quer, calabresa ou mussarela?

— Calabresa. — a garota respondeu. Tonks a serviu, depositando o prato em sua frente. Só então suas mãos se afastaram do colo e ela tateou até encontrar o jeito certo de pegar a fatia e levar à boca para a primeira mordida. — Ouch, está quente!

Só então Harry percebeu o óbvio, ou o que devia ter sido óbvio. O motivo dos óculos escuros dentro de casa, dos movimentos deliberados e cuidadosos, da estranheza em torno dela; a falsa-ninfa era cega.

A não ser pelo fato de que ele tinha certeza de que seus olhos tinham se encontrado por um segundo, na clareira da floresta.

— Harry, o que você está esperando? — Tonks lhe chamou a atenção, empurrando a caixa de pizza na direção dele. — Come logo antes que esse monstro rugindo dentro do seu estômago devore a gente!

Ele riu sem graça, puxando uma fatia de mussarela para o próprio prato.


Harry se ofereceu para lavar os pratos depois que eles terminaram, e é claro que o fez ao modo trouxa, algo com que estava mais do que acostumado. Podia ouvir as vozes de Tonks e Anne vindo da sala, embora não pudesse entender o que diziam; aparentemente, a menina era muito mais eloquente quando ele não estava no cômodo. Dizendo a si mesmo que não fazia diferença, Harry enxugou as mãos e pegou a última carta, que não pudera ler com a chegada de Tonks.

Suas sobrancelhas se franziram mais e mais ao longo da mensagem.  

 

Ilustre Sr. Harry Potter, 

Por meio desta, o convido a comparecer à Vigésima Terceira Cerimônia de Nomeação de Aurores, a ser realizada neste sábado, 3 de agosto, no Hall de Cerimonias Philgrim, Sede do Ministério da Magia, Whitehall, subsolo, nível 8.

Sua presença é de extrema importância para nós. Compreendendo que questões de segurança podem emergir, estará à sua disposição uma comitiva de aurores pronta para acompanhá-lo em seu percurso para o local e de volta à sua residência através do meio de transporte mágico da sua preferência.

 

Atenciosamente,

Excelentíssimo Sr. Ministro da Magia

Rufus Scrimgeour.

 

Harry queria perguntar a Remus sobre o que se tratava aquele convite, mas o seu ex-professor ainda não chegara, apesar de já passarem das nove da noite. Quando Harry cansou de fingir que estava ocupado na cozinha, ele foi até a sala e se deparou com uma cena que o fez se sentir estranhamente intruso.

Tonks estava deitada no sofá, muito à vontade, lendo Magia e Contra-Magia na Era Moderna, uma edição de capa vermelha caindo aos pedaços. No oposto da sala, a afilhada de Remus se sentara sobre o parapeito da janela, as pernas esticadas, o gato prateado sobre os joelhos. Ela conversava baixinho com ele, mas virou o rosto na direção de Harry no momento em que ele entrou. Como se tivesse sido pega em flagra, Anne virou a cabeça rápido para o lado de fora. Harry suspirou, resignado.

— Ah, Harry, foi mal, estou ocupando sua cama, não é? Você já quer dormir? Podemos ir lá pra cima — Tonks se atrapalhou e deixou cair o livro, que se abriu em dois com o impacto no chão. — Ops.

— Não, você pode ficar — ele aceitou o espaço que ela lhe abriu ao seu lado ao sentar-se. — Escuta, Tonks, você sabe algo sobre isso?

Harry estendeu a carta do Ministro para a auror, que bateu o olho e reconheceu imediatamente do que se tratava.

— Então você também recebeu uma, estávamos achando que viria. É exatamente o que parece: o Ministro está convidando todo mundo para um super evento de gala no Ministério da Magia no próximo sábado, e por todo mundo eu digo todas as figuras influentes do mundo bruxo. Muita gente da Ordem recebeu o mesmo convite, e quase todas as famílias de bruxo que eu conheço, especialmente as de puro-sangue. A sua foi assinada pelo ministro em pessoa, não foi? Dumbledore previu isso. Scrimgeour realmente quer você lá. Dumbledore acha que o Ministro vai contar com a sua presença como uma das peças-chave do evento.

— Mas isso é insano! — O garoto protestou — Colocar toda a comunidade mágica em um lugar só, anunciar isso a torto e a direito, dentro do Ministério, em tempos como esses? A única coisa pior seria enviar um convite para o próprio Voldemort!

— É, você percebe o problema — ela deu um sorriso desanimado. — É uma manobra política ousada. Scrimgeour quer passar a mensagem de que não vai se curvar à intimidação de Voldemort, na nossa opinião.

— Ele está entregando todo mundo de bandeja… Voldemort invadiu o Ministério há pouco mais de um mês, o que o faz pensar que ele não invadirá de novo?

— Acredite, eu concordo com você. Estamos discutindo isso na Ordem há semanas. Você não precisa ir se não quiser, é claro; designaríamos uma equipe para ficar com você enquanto o evento acontecesse, só por garantia–

— Então a Ordem vai?

— Sim. Eu teria de ir de qualquer jeito, trabalho para o Ministério não é, seria como declarar que estou em desacordo com as medidas do novo Ministro se eu não fosse, e eu acabei de ser promovida para uma posição no DELM, não seria uma boa. É um novo governo, antagonizar com ele tão cedo e tão abertamente é dar um tiro em nosso pé. O restante de nós concorda que, indo, podemos garantir uma maior segurança aos outros caso algo aconteça…

— Nesse caso, acho que eu preciso ir também, não é? — Ele concluiu, nada satisfeito.

—Eu acho que sim. Precisamos conversar com Dumbledore sobre como reforçar a sua segurança, mas de toda maneira, não vejo outro jeito…

A porta se abriu naquele momento, interrompendo Nimphadora. Remus entrou, portando sua capa de viagem rota e uma expressão enigmática no rosto. Harry sabia que ele estivera fora fazendo algo importante, algo que estava causando muita ansiedade em Tonks e Johanne por toda a tarde, mas é claro que ele não tinha a menor pista do que era, o que não o impediu de olhar para o ex-professor com curiosidade.

Anne pulou da janela, deixando o gato cair com um miado insatisfeito. Tonks ficou de pé, esquecendo que estava conversando com Harry há um segundo.

— E então? — as duas perguntaram quase em uníssono. Remus respirou fundo, depois soltou o ar longamente e assentiu, muito sério.

— Eu a encontrei.



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