Capítulo 2. A Última Ajuda da Sra. Figg
- Ly Anne B.

- 1 de out. de 2016
- 37 min de leitura
Atualizado: há 3 dias
Quando, há cinco anos, Harry Potter descobriu que era um bruxo, ele acreditou que os seus verões se tornariam mais suportáveis. Afinal, antes de haver uma escola de magia onde passar o ano, tudo o que ele tinha como perspectiva após o fim das férias era um novo período letivo na escola primária, em que os seus colegas o achavam estranho e o seu primo infernizava sua vida como forma única de prazer.
Era diferente ter que passar uns meses de verão com os Dursley, sabendo que, logo após agosto, um ano inteiro de magia, feitiços, principalmente amigos e a sensação de lar estariam lhe esperando. No começo, Harry achou que era um negócio justo. Ninguém podia ter tudo na vida, aguentar os tios e o primo um pouquinho nas férias era um preço mais que justo a se pagar por poder ir a Hogwarts todo primeiro de setembro.
Isso foi antes. Antes daquele verão, antes de Harry descobrir o que ser ele significava. Agora ele entendia por que seus anos letivos quase sempre terminavam em desastre, com um bruxo das trevas tentando tirar a sua vida e a das pessoas importantes para ele – eventualmente conseguindo. Tinha que ser assim, porque ele estava marcado. Férias eram agora uma tortura lenta, com pouco contato com seus amigos, muito tempo para pensamentos sombrios e a certeza de que, não importava o quão ruim ele estava sem saber de nada, provavelmente se sentiria ainda pior quando fosse atualizado do que estava acontecendo no mundo mágico.
Guerra. Começara oficialmente com a Batalha do Departamento de Mistérios, no começo do mês anterior. O mesmo confronto que deixara seus amigos machucados, e ocasionara a morte do seu padrinho, também significou a volta oficial de Voldemort para o mundo bruxo. Agora que todo mundo tinha certeza que ele estava vivo, não podiam mais evitar uma tomada de providências. As pessoas deviam estar apavoradas e o ministro da magia extremamente ocupado, lidando com crises, ataques e pânico generalizado. As famílias de bruxos nascido-trouxas deviam estar se escondendo com medo de ataques dos comensais da morte, e Harry supunha que houvesse tensão entre os bruxos mestiços e os bruxos puro sangue… mas isso tudo era suposição da sua mente ociosa. Desde que pisara na Rua dos Alfeneiros número 4 para aquelas férias, não tivera qualquer notícia sobre o mundo mágico. Nenhumazinha. Dumbledore se certificara disso, Harry sabia. E sabia porque, da primeira vez que entrara em seu quarto na casa dos Dursley, há seis semanas, havia uma fênix lhe esperando em cima da cama.
Não a fênix de Dumbledore, Fawkes, um pássaro vermelho com dois metros de envergadura que teria chamado uma enorme atenção da vizinhança ao entrar voando pela sua janela. Ao invés disso, era um pálido reflexo de uma fênix prateada, que ele reconheceu como o patrono do diretor de Hogwarts. Rapidamente Harry fechara a porta e puxara suas cortinas, o coração palpitando nas orelhas, porque achara que algo terrível tinha acontecido, tão terrível e tão urgente que Dumbledore enviara seu patrono ao invés de uma carta via coruja, como de costume.
O feitiço-pássaro começou a falar com a voz de Dumbledore assim que obteve a atenção dele:
“Olá, Harry. Se está ouvindo esta mensagem, significa que chegou seguro em casa, pelo que fico muito contente. Sinto, no entanto, que existam assuntos muito importantes dos quais não posso me abster a falar com você a esta altura, mesmo sabendo que eles não estão no topo dos seus pensamentos para o momento. Espero que compreenda o meu papel em garantir a sua segurança, acima de tudo.”
Torcendo seus lábios em desagrado, Harry sentara na própria cama, largando o malão no meio do caminho. Obviamente aquela não era nenhuma mensagem urgente e sim uma forma que Dumbledore encontrara para evitar um encontro cara a cara. O garoto não o culpava – da última vez que se falaram, ele tinha explodido e quebrado metade do escritório do diretor. E depois disso, tiveram uma conversa tão mobilizadora que ele se sentia da mesma forma, preferindo não ter que encarar Dumbledore tão cedo, se pudesse escolher. Isso o faria ter que pensar em todas as implicações do que tinham discutido. O feitiço continuou a falar:
“Como sabe, Harry, e entende muito melhor agora, estar sob o teto dos seus tios ainda é uma proteção maior do que qualquer uma que eu poderia lhe oferecer. Você demonstra muita maturidade ao aceitar voltar, pois imagino que, após os recentes acontecimentos, esse é o último lugar em que você gostaria de estar, longe das pessoas que lhe são caras e poderiam lhe oferecer consolo. A boa notícia é que será pela última vez. Eu estou trabalhando numa alternativa, para que você não precise voltar à casa dos seus tios nas próximas férias, mesmo que a sua segurança ainda seja uma questão até lá. E no próximo mês, no exato dia e hora do seu aniversário, mandarei uma equipe para lhe buscar em segurança. Os Weasley me comunicaram a sua felicidade em lhe acolher para o resto das férias, se isso lhe agradar.”
Harry hesitou. Apesar de adorar A Toca e não conseguir imaginar onde mais gostaria de passar suas férias numa situação normal, naqueles últimos dias ele sentia que tudo que queria era um pouco de solidão. Quando ficava perto dos amigos, se via extremamente deslocado. Não entendia como as coisas podiam voltar ao normal tão rápido para os outros quando, para ele, nunca voltariam. Com Sirius morto, havia um buraco enorme em seu peito, alargando o já existente vazio da ausência de seus pais. Isso o fazia se sentir oco. Só esperava que até o seu aniversário essa sensação já estivesse menos sufocante.
"A má notícia,— a fênix continuou, empoleirada em seu colchão, a voz rouca do diretor fluindo pelo seu bico prateado – é que durante o tempo que estiver aí, para a sua segurança, reitero, será mais sensato que não tenha qualquer contato com o mundo da magia. Qualquer via de chegada até você é perigosa – correio-coruja, lareira e mesmo visitas são porta de entrada para ameaças que não podemos controlar totalmente. Peço que tenha paciência. Me certificarei de avisar a todos para não tentarem lhe contatar por nenhum meio, por isso não estranhe o silêncio. Recomendo que mantenha a sua varinha e a sua capa com você o tempo todo, absolutamente a todo momento, sem exceções. E se alguma emergência acontecer, me envie o seu patrono imediatamente. Ele é o meio mais rápido, e seguro, de me alcançar. Devo lembrá-lo, porém, que conjurar o seu patrono alertará o Departamento de Sigilo do Ministério da Magia, por isso, não o faça levianamente. A última coisa que precisamos agora é que você seja chamado para mais um julgamento.”
Harry bufara irritadamente para a fênix. Não era como se ele fosse idiota, para conjurar o seu patrono e enviar com uma mensagem para os amigos, só porque se sentia solitário. A insistência de Dumbledore em lhe dizer isso o fazia se sentir como uma criança irresponsável.
“Eu espero que essa primeira parte das suas férias seja tranquila. Novamente – me contate se houver uma emergência, diretamente a mim. No mais, nossos amigos estarão garantindo que o perímetro de sua casa esteja seguro, mas eles não entrarão em contato com você – por favor tenha em mente que isso é tanto para a sua segurança quanto para a deles. Até mais, Harry, e boas férias!"
Após suas últimas palavras, a fênix se dissolvera no ar em rodopios prateados, deixando sozinho um Harry bastante insatisfeito. Ele não gostava de como a mensagem de Dumbledore era muito prática, muito amigável e tudo, mas completamente indiferente ao que ele estava sentindo. Aquela vontade de gritar, quebrar coisas e correr, que ele vinha abafando no fundo de si mesmo desde o desfecho da batalha no Departamento de Mistérios, continuava a crescer. O garoto suspeitava que um mês e meio encerrado no número 4 da Rua dos Alfeneiros só pioraria seu estado.
Uma semana depois do começo das Piores Férias Desde Sempre, como Harry apelidou em sua cabeça, ele desceu para o café arrastando os pés e sentou na ponta oposta da mesa em que o resto da família estava. Até ali os dias na Rua dos Alfeneiros tinham sido de calmaria incomum, pois Duda estivera fora para um programa de férias, mas, para a infelicidade de Harry, o primo estava de volta.
Tia Petúnia fez algum comentário negativo sobre o seu cabelo (que Harry deixou passar com desinteresse) e largou um prato com ovos e bacon na sua frente. Desde que a família Dursley soubera que Harry tinha um padrinho criminoso procurado, ele tinha sido dispensado da maioria das tarefas domésticas, e como Harry não tinha se dado ao trabalho de avisar que já não havia padrinho nenhum, ao menos aquilo permanecia uma constante.
— Dudoca, você ainda não nos contou como foi a sua semana de acampamento de caça em Baltimore! — Sua tia guinchou carinhosamente para o filho, o servindo com o triplo de ovos e bacon que tinha dado a Harry. Tio Válter, que tinha a cara enfiada no jornal, baixou o caderno de finanças com um sorrisão no rosto gordo.
— É claro que foi um sucesso! — ele respondeu antes do filho — A habilidade de caça está nos genes!
Harry rolou os olhos. Enquanto a família Dursley de fato tinha alguma história de renome em caça esportiva bem estóica, sabia-se que o próprio Válter jamais segurara uma espingarda na vida. Aparentemente Duda, entediado com o começo de suas férias, decidira reavivar a tradição familiar e se inscrevera no acampamento de caça. A primeira coisa que Harry lhe perguntara era se ele não tinha sido confundido com um javali e levado um tiro sem querer. O primo lhe olhara feio, mas mantivera um arzinho superior, que normalmente significava que tinha uma carta na manga. Ele finalmente revelou a tal carta naquela hora, aproveitando a total atenção dos pais e o incentivo do prato de bacon.
— Foi ótimo, na verdade — disse cheio de si, com as bochechas inchadas de ovo mexido — Eu conheci uma garota.
Harry engasgou com seu suco de laranja e tossiu, quase se afogando. Tio Válter deu um misto de urro-risada de aprovação e tia Petúnia colocou a mão no peito. — No acampamento de caça? Uma garota?
— Ela não estava caçando, é óbvio. — Ele revirou os olhos, como se a ideia fosse absurda. — Só passando as férias com a família.
Tia Petúnia se permitiu um gritinho. — Meu Dudoca tem uma namorada!
Depois daquele momento tão improvável quanto nauseante, Harry perdeu a fome e deixou a mesa sem ser percebido. O fato de Duda, que continuava gordo como dois porcos e mantinha o cabelo loiro em formato de cuia há dezesseis anos, ter uma namorada enquanto ele mesmo era a pessoa mais azarada com garotas que conhecia – vide Cho e o festival de lágrimas –, era apenas a cereja do bolo na sua lista de autopiedade. Tentando afastar da mente a imagem de Duda e uma garota roliça, com espinhas e nariz de leitão se espremendo numa barraca de camping, Harry saiu pela porta da cozinha e deu a volta na sebe, olhando para a rua distraidamente.
— Potter!
Com o susto, ele deu um pulo para trás e enfiou a mão no bolso, onde sempre estava a varinha. Mas reconheceu que quem o chamava era a Sra. Figg, uma velhinha esperta que apenas parecia trouxa, quando na verdade era a coisa mais próxima de um bruxo que havia em Surrey, além dele próprio. Por essa razão ficou feliz em vê-la; na penúltima vez que se encontraram, há quase um ano, ela o tinha ajudado após um ataque de dementadores, e na última, se cruzaram no Ministério da Magia quando ela fora testemunha do julgamento de Harry por ter feito magia fora da escola sem permissão.
— Olá, Sra. Figg! — Harry sorriu, relaxando a mão da varinha — Como vai? Nunca tive a chance de lhe agradecer pela ajuda no Ministério ano passado!
Ela ergueu um pouco a sobrancelha, aparentando não saber muito bem do que ele falava. O garoto se perguntou se a Sra. Figg não estava ficando meio gagá.
— Ah, bem, criança, não foi nada demais. — Fez um aceno com a mão livre. A outra segurava várias sacolas de compras. — Se não for abusar muito, pode me ajudar com essas sacolas até em casa? E eu tenho biscoitos de lata, aqueles de amêndoas que você gosta.
Harry deu um sorriso amarelo, quase com pena dela. Se a Sra. Figg achava que ele gostava de seus biscoitos, ou que eles eram sequer comestíveis, estava mesmo esclerosada. Apesar disso, adoraria segui-la se isso significasse a chance de saber qualquer coisinha sobre o mundo mágico. Estava quase dando um passo à frente quando um apertão de culpa lhe lembrou que não deveria.
— Sinto muito, mas não posso sair de casa. Ordens de... — Ele pigarreou, olhando ao redor, e apesar da rua vazia, preferiu não arriscar. — Bem, a senhora sabe de quem.
— Sim, sim, é claro, querido. — Ela balançou a cabeça como quem não se importa, mas ele teve a impressão de que a chateara. — Numa próxima quem sabe. Apareça quando quiser, Potter, sempre tenho biscoitos...
Sim, e são os mesmos há anos, pensou divertido, a observando partir, muito mais ereta do que costumava estar, parecendo perfeitamente capaz de carregar as suas sacolas. Talvez ela só estivesse solitária, assim como ele. Não duvidava que Dumbledore a tivesse deixado de molho em Surrey, o vigiando como no ano passado e nos outros anos antes deste. De uma forma ou de outra ela sempre estivera ali de olho em Harry, ao que ele era, no fundo, agradecido.
OoooO
Nas semanas que se seguiram, ficou claro que o que Harry menos teria era paz na Rua dos Alfeneiros. Obcecado em dar a melhor impressão para a sua namorada, Duda fizera várias exigências peculiares à sua família. A primeira delas fora a renovação do seu guarda roupas. Ele dispensou as enormes camisetas esportivas e calças largas por camisas de botão com golas que se enterravam em seu pescoço e sapatos lustrosos que deixavam seus pés como patas de foca. Um dia, implicou que era ‘muito mico’ seu pai lhe levar até o cinema, onde tinha um encontro com a garota misteriosa, e no dia seguinte havia um Prius novinho para Duda na garagem.
Com toda a movimentação, Harry, passado o primeiro choque de Duda namorando, começou a ficar curioso para conhecer a pobre vítima; e ele não era o único, é claro.
— Podemos fazer um almoço especial, querido — adulou Tia Petúnia, rondando o filho numa manhã de quarta feira. — O que ela come?
— Citoplasma? — Harry sugeriu com inocência, dando continuidade à sua linha de piadas na qual a namorada do primo era um fantasma e por isso ele não a apresentava à família. Duda lhe olhou com as narinas infladas.
— O que a sua namorada come, Harry? Ah, é mesmo, você não tem uma.
Tio Válter deu uma risadinha pelo nariz, apesar da falta de talento para piada do filho. Tia Petúnia continuou pulando em torno de sua cria.
— Posso fazer aquele pudim de violeta maravilhoso que fiz para os Manson há três anos — E lembrando-se do fim que o doce levara, olhou feio para Harry — É claro que dessa vez você não se atreverá a explodir a sobremesa na cabeça da nossa convidada especial.
Harry forjou um sorrisinho diabólico, como se fosse exatamente o que estava pensando em fazer, mas tio Válter falou antes que ela se inflasse em ameaças para o sobrinho.
— Eu não estou gostando disso, Duda. Essa menina não quer nos conhecer? Se ela acha que não somos bons o suficiente para valer uma visita, então ela não serve para você!
Tio Válter engrossando o tom foi o empurrão que Duda precisava. Muito desgostoso, ele suspirou e assentiu.
— Tudo bem, vou falar com ela. Na verdade, Wendy está ansiosa para conhecer vocês.
O jantar épico foi marcado para o último dia de julho. Ninguém pareceu se importar que esse era o dia do aniversário de Harry, e ele menos ainda – com todos distraídos, teria tempo para arrumar suas coisas e esperar alguém da Ordem vir lhe buscar e escoltar para a Toca.
— Cadê a mamãe? Ela prometeu cortar meu cabelo hoje! — O grande bebezão choramingou numa tarde, dias antes do grande evento, parado entre tio Válter e a televisão onde ele assistia o jogo de rugby. — Se não fizer hoje, não estará bom para domingo!
— Saia da frente da televisão, Duda! — O tio resmungou, porque apesar de ser uma grande TV de plasma de 42 polegadas, Duda cobria cada parte dela com sua fartura abdominal — Vá olhar na cozinha!
— Jardim — Harry corrigiu, cruzando com ele no corredor. Recebeu um olhar feio, como se fosse culpa dele que a tia não estava dentro de casa. Mais do que acostumado com a ingratidão do primo, fez em retribuição um movimento ondulante com os braços imitando um fantasma, conseguindo irritá-lo.
— Harry POTTER! Venha aqui agora mesmo!
Ambos se encolheram com o grito de Tia Petúnia, mas Duda imediatamente abriu o típico sorriso sádico que usava quando Harry estava em apuros. Sem ideia do que seria acusado desta vez, seguiu a voz da tia com Duda em seu encalço. Por um momento de terror, imaginou que Edwiges tinha voltado e, sem conseguir entrar pela sua janela, tinha se empoleirado na caixa de correios. Após a mensagem de Dumbledore, a tinha mandado passar um tempo na Toca, pois não queria ter que deixá-la presa no quarto... Mas sua coruja era muito apegada e com certeza estaria sentindo sua falta.
Não era Edwiges, no fim das contas. Tia Petúnia apontava para o chão onde, após um minuto de confusão, ele percebeu uma espécie de marca escura e curva queimada na grama. A marca se estendia num arco perfeito até onde se podia ver, dos dois lados, aparentemente dando a volta na casa inteira. Era como se alguém tivesse queimado um círculo de fogo em torno da casa dos Dursley enquanto estavam dormindo.
— Isso é coisa sua, Harry! — ela acusou com os olhos faiscando.
Harry negou imediatamente.
— Eu não fiz isso. Você sabe que eu não posso usar magia fora da escola!
— Xiuu! Não use a palavra com "m", quantas vezes...! Mas isso é coisa da sua gente! Como diabos veio parar aqui? Quem fez então?
Ele olhou de novo para a marca estranha, tentando adivinhar o que poderia ter acontecido. Já tinha visto feitiços que queimavam círculos no chão, como a linha de idade que fora conjurada em torno do Cálice de Fogo no torneio Tribuxo, mas não lembrava de ter deixado uma marca como aquela. Além do mais, porque alguém conjuraria uma linha de idade em torno de sua casa? Petúnia, que esperava uma explicação, ficou extremamente irritada com o dar de ombros confuso de Harry.
— Para dentro, já, os dois! Vou precisar chamar um jardineiro que dê um jeito nisso antes de domingo! Como se já não bastasse tudo que tenho que fazer; as compras, o pudim e mandar retocar a pintura do corredor…!
Harry obedeceu, sem querer saber porque diabos a pintura do corredor tinha que ser retocada para um jantar. Ia acabar sobrando para ele, porque era o tipo de coisa que sempre sobrava - no mínimo, se ninguém lhe pedisse para fazer, ele ia acabar pegando o trabalho para si, ao invés de deixar tio Válter subir na precária escada de alumínio e acabar caindo e quebrando o piso, o que renderia ainda mais trabalho para Harry.
Quando o seu aniversário chegou, Harry não se deu o trabalho de sair do quarto durante o dia. Esperava que quando alguém viesse lhe buscar ele conseguisse dar uma espiada na namorada de Duda, mas decidiu que não ia ficar terrivelmente decepcionado se não acontecesse.
Através da porta, ouviu alguns pitis do primo ao longo da tarde: primeiro porque aparentemente ele tinha uma espinha nova na testa, e depois porque sua calça preferida não estava lavada. Indiferente, Harry empacotou suas coisas com mais cuidado do que nunca. Se estava mesmo deixando a casa pela última vez, como Dumbledore dera a entender, ele queria ter certeza de que estava levando tudo que era importante. Todos os seus livros da escola, todas as fotos dos pais, todas as cartas antigas dos amigos. O saco de petiscos preferidos de Edwiges, que só eram vendidos numa loja específica de Hogsmeade, e seu kit de manutenção de vassouras. Guardou a Firebolt - o primeiro presente que Sirius tinha lhe dado - com um aperto no peito, e enrolou um por uns os seus cinco suéteres Weasley, um para cada ano que aquela incrível família tinha lhe acolhido como parte dela.
Mergulhado em nostalgia ao revistar seus pertences, percebeu que cada uma de suas boas lembranças estavam relacionadas a acontecimentos fora daquela casa - dentro de si não havia nem um pingo de ressentimento em deixá-la outra vez. Distraído, Harry deu um pequeno pulo quando a porta de seu quarto foi aberta bruscamente. O livro padrão de feitiços da quinta série pulou da sua mão, que instintivamente voara para a varinha em seu bolso. Na porta estava Duda, já enfiado em calças sociais e blusa de gola e mangas compridas, parecendo pronto para o próprio casamento e não para um jantar no andar de baixo.
— O que você pensa que está fazendo? — Ele olhou Harry de cima a baixo, parando em suas calças de moletom e na camiseta larga dos Chudley Cannons que Rony lhe dera de presente ano passado. — Ela vai chegar em uma hora e você sequer tomou banho!
Harry piscou sem entender. — Por que eu preciso tomar banho para ficar no meu quarto enquanto vocês jantam?
— Você não vai me tirar do sério, Harry, não hoje — disse o primo muito sério, sua papada se sacudindo sob o pescoço — E faça o favor de colocar roupa de gente normal, não aqueles vestidões que seu povo usa. E dê um jeito nessa droga de cabelo, está parecendo um ninho de cobra aí em cima.
— Só um minuto. — O garoto ergueu as sobrancelhas — Você está dizendo que é pra eu estar nesse jantar? Por qual razão absurda você ia querer…
A não ser pelo fato de que hoje é meu aniversário, a voz da justiça cantou em sua cabeça. Mas era muito impossível que Duda tivesse levando isso em consideração, não depois de quinze anos propositadamente ignorando a ocasião.
— Wendy pediu. Ela pediu especificamente que todo mundo estivesse no jantar. — Aparentemente isso também não o deixava feliz, não mais do que a Harry.
— E como ela sabe que eu existo, pra começo de conversa? Espera — Ele arregalou os olhos, numa incredulidade desconfiada. — Você falou sobre mim pra sua namorada?
— Eu falo com Wendy sobre um monte de coisas — retrucou ele azedo, deliberadamente olhando para um ponto qualquer atrás de Harry. — Boas e ruins. Agora anda, se enfia numa roupa civilizada e nada de levar essa coisa pra mesa. Sério. — Apontou com uma careta para a varinha que Harry ainda segurava. Depois deu meia volta e sumiu pelo corredor, deixando o primo abismado para trás.
No final das contas, a curiosidade venceu e Harry decidiu que podia participar do jantar. Sem ser absurdo como Duda, apenas colocou jeans, uma camiseta limpa e achou que estava bem. Com o cabelo, no entanto, não foi capaz de grandes improvisos – continuava caótico e espetado como era de sua natureza. Uma rápida olhada no espelho do banheiro comprovou que estava apresentável, não que isso fosse importante, pois no minuto que pisou na sala, tia Petúnia avançou nele tentando achatar sua franja. Ela estava enfiada num vestido verde-eucalipto que fôra moda na década passada, mas, em compensação, não tinha um único vinco. Tio Válter usava uma estúpida gravata borboleta e a réplica do pudim de violetas de 1992 repousava indulgente sobre a geladeira. A campainha tocou. Harry cerrou os olhos, resignado.
Não acreditava que ia viver para presenciar essa cena.
OooOo
— Que linda casa, Sra. Dursley. O seu jardim é um encanto, o Duda já tinha me dito, é claro…
— Pode me chamar de Petúnia, querida. E esse é o Válter.
— Sr. Dursley… Válter — Wendy fez um gracejo quando tio Válter negou sorrindo, indicando que ela podia ser informal com ele também. — É um prazer tão grande conhecer vocês, eu estava ansiosa! Fiquei feliz quando Duda me convidou para o jantar… e você deve ser o Harry, o primo. — Ela parou em frente a Harry e estendeu a mão — Ouvi muito sobre você.
— Ouviu? — Mas tio Válter lhe deu um beliscão na parte de trás do braço e Harry pigarreou: — Digo, sim, esse sou eu. Olá.
Ela riu da atrapalhação de Harry, provavelmente o achando engraçadinho. Depois se voltou para os anfitriões e continuou elogiando a casa. Duda se postou ao seu lado, grudou em seu braço e a guiou para a cozinha.
Harry não os seguiu. Ele ficou plantado no mesmo lugar tentando entender o que diabos havia de errado com o mundo.
OooOO
— Harry, o jantar está na mesa! Não ligue para ele, querida, é meio lento às vezes. — Da cozinha, tia Petúnia tilintou sua risada artificial, colocando a travessa de purê de batatas na frente da futura provável nora. Sim, porque Harry tinha certeza que se dependesse dos seus tios aquele casamento já estava prenunciado.
Descolando os pés do carpete da sala, ele achou seu lugar na mesa e evitou olhar para o resto da família. Tinha medo de não conseguir controlar sua expressão de incredulidade se tivesse que olhar para eles.
— Então, Harry — disse a garota do lugar bem em frente ao seu, ao lado de Duda, o qual servia suas ervilhas com devoção — Porque você não foi para o acampamento com Duda? Foi tão divertido, não foi, querido?
— Harry ainda estava em aula — disse Duda rápido, deixando claro que não queria Harry respondendo. Ele não ligou; puxou a travessa de cozido para perto, concentrado em manter sua expressão muito neutra.
— Ah! Vocês não estudam na mesma escola?
— Harry vai para uma escola especial — tio Válter se intrometeu em auxílio do filho — Você me entende, especial, onde ele pode aprender as coisas com mais calma. — O garoto desejou que o tio se engasgasse com as ervilhas e caísse duro ali mesmo. — E você, querida, onde estuda? O Duda teria se lembrado de você se fosse à Smeltings…
— Oh, não. — Ela sorriu, mas ainda olhava de esguelha para Harry. — Eu já terminei a escola. Esse ano comecei a trabalhar com minha mãe em sua escola de costura.
— Uma escola de costura! Que adorável — se derreteu tia Petúnia, se juntando ao ardor de tirar o foco da conversa de Harry. — Eu adorava costurar quando era mais moça. Reparei que o seu vestido é muito caprichado, Wendy querida, foi você mesma que o fez?
O resto da conversa se tornando zumbido para Harry, ele arriscou levantar os olhos, encontrando os olhos da namorada de Dudley no mesmo minuto: eram azuis muito claros. Ele sentiu o rosto esquentar, ao mesmo tempo em que o primo lhe chutou por debaixo da mesa. Harry franziu as sobrancelhas para ele e Duda lhe fuzilou, irritado.
OoOooo
— Qual é o seu problema, seu bocó? — Duda o pegou a sós no corredor, depois que Harry tinha dado uma desculpa e saído, na hora do cafezinho. — Dá para parar com isso?
— Com isso o quê? — ele sibilou de volta, sem saber do que estava sendo acusado, mas já perdendo a paciência.
— Ficar olhando pra ela! Na minha cara!
— É ela quem fica olhando pra mim! — Harry rebateu, ofendido pela acusação injusta. — Como se eu tivesse alguma coisa na minha cara ou sei lá o que.
— Eu sei o que você não tem na sua cara: vergonha! Pare de paquerar a minha namorada, Harry, vá procurar uma para você! Uma garota como ela não daria bola para você, nunca em sua vida!
Ele saiu pisando duro, sacudindo um pouco o assoalho, deixando um Harry atordoado para trás. Pelo espaço estreito a que tinha visão da cozinha, ele via o fundo da cabeça de Wendy, que ela sacudia afirmativamente para alguma coisa que tio Válter estava falando. E bem, Duda tinha um ponto. Nada de cara espinhenta ou papadas, ou voz estridente, mãos enormes ou bigode - nenhuma das previsões de Harry foram confirmadas. Wendy não era nenhuma Fleur Delacour, mas, perto de Duda, ela era até bonita demais. E também era polida, educada e tinha senso de humor. Ela era até mais velha que Duda, embora ele não conseguisse determinar quanto. Uma garota assim não teria dado bola para ele, mas ter se interessado por Duda era praticamente uma ofensa pessoal. Quer dizer… Duda.
Decidindo que já tinha visto o suficiente, Harry resolveu retornar para o seu quarto. Ele não sabia porque a garota insistia em lhe encarar e perguntar sobre sua vida escolar. Ela só está sendo simpática, argumentou consigo mesmo, justificando que isso só era um choque porque ninguém mais era amigável com ele naquela casa, o que fazia a atitude da garota se destacar.
Uma vez de volta, ele checou se não tinha deixado nada para trás, depois alinhou cuidadosamente a varinha e a capa no criado mudo, deitando-se de costas na cama para esperar. A qualquer momento o pessoal da Ordem chegaria e ele estaria livre. Não tinha avisado aos tios que estava indo hoje e pretendia fazer isso de última hora; com sorte estariam ocupados com a Grande Visita, o que evitaria qualquer situação constrangedora de despedida. Um simples tchau, e era isso. Nunca mais Rua dos Alfeneiros. Com esse pensamento animador, Harry cochilou sem se dar conta.
Batidas frenéticas em sua porta o arrancaram do seu sono sem gentileza. Ele saltou e agarrou a varinha, pensando atordoado que tinham vindo lhe buscar.
— Harry! Harry, você precisa ajudar! Harry, por favor!
Toda a confusão do sono foi desfeita, a voz do outro lado da porta o deixando alerta. Aquela não era a voz de ninguém da Ordem que ele conhecia.
— Harry! Por favor, é o Duda!
Ele pulou na porta, a escancarando. A namorada-modelo de seu primo apareceu esbaforida do outro lado. Seu rosto estava tingido de rosa e ela ofegava como se tivesse subido as escadas correndo.
— Ah, graças a Deus! Você precisa vir, ele engasgou com um caramelo, está sufocando! — Quando Harry pareceu hesitar, ela o puxou ansiosamente pelo braço. — Anda!
Preocupado, Harry a seguiu correndo pelo corredor em direção as escadas. O vestido amarelo dela ondulava em seus tornozelos, no quase escuro do corredor. Escuro. Não havia qualquer luz vindo da escada, do andar de baixo. Por quanto tempo ele tinha dormido? Por que Wendy ainda estava ali, não tinha ido para casa? Harry estancou no começo da escada, sabendo que havia algo muito errado acontecendo.
— Duda não come caramelo.
— Harry, anda! — ela choramingou, subindo alguns degraus para alcançá-lo de novo — Ele está sufocando, eu não sei o que fazer…
Mas Harry não ouvia nada; tosses ou engasgos. Ele olhou para Wendy novamente, com mais atenção. Ela não tinha estranhado ele sair correndo do quarto com uma vareta na mão. A maioria dos trouxas estranharia. Duda não come caramelo, uma voz insistente no fundo de sua cabeça racionalizou, soando sensata como Hermione Granger; não desde o incidente do caramelo incha língua Weasley, há dois anos.
Harry ergueu a varinha:
— Estupef–
Bam. Das sombras, alguma coisa dura se chocou contra as suas costas. Perdendo o equilíbrio, Harry caiu escada abaixo, seu pulso se torcendo sob o corpo e a varinha ficando no degrau, enquanto ele caia desajeitada e dolorosamente até o térreo. Wendy se inclinara para o lado, evitando que ele se chocasse à ela quando foi empurrado. Ela sorriu em direção ao topo da escada.
— Obrigada, Deleve. Timming perfeito. — com um gracejo, se inclinou e pegou a varinha de Harry. Desceu calmamente as escadas até o garoto, que era um bolo de braços e pernas ainda tentando descobrir se conseguia se mover. Batera a cabeça com força e tudo estava piscando na frente dos seus olhos. Ela se ajoelhou ao lado da cabeça de Harry, que por um delirante instante pensou que ela estava checando se ele tinha se machucado. Até sentir algo frio e duro na sua nuca. Apesar de nunca ter sido ameaçado por uma dessas, Harry soube imediatamente o que era; o cano de uma arma trouxa.
— Vamos comigo, Harry. Precisamos bater um papinho.
O parceiro de crime da namorada de Duda, um rapaz curvado com uma cicatriz grande atravessando seu rosto, ajudou a erguer Harry e levá-lo até a sala. Ele não fez nada idiota como resistir, não com uma arma apontada para a sua nuca. Era estranho porque, apesar de ser um bruxo, a ameaça da arma era mais pungente do que seria estar na mira de uma varinha. Enquanto toda sorte de feitiços podiam sair de uma varinha, o cano da pistola só lhe dava uma opção, especialmente voltada para o interior de sua cabeça.
— Pronto, aqui está todo mundo — disse ela, contente, ligando a luz da sala. Com os olhos doendo, Harry identificou tio Válter e tia Petúnia amarrados em suas próprias cadeiras, os olhos muito arregalados. Duda estava igualmente amarrado, mas na poltrona, e sua expressão era de puro terror. — Titio e titia — Wendy indicou cada um deles alegremente — E meu Dudinha. Desculpe, querido, espero que sua mordaça não esteja muito apertada.
— Quem diabos é você? — Harry exigiu, apesar de sua confusão. Ele estava olhando cordas e mordaças, um revólver na mão dela e outro na mão de seu comparsa, que o segurava fortemente. Havia a sombra de outro homem parado perto da porta, e provavelmente estava armado também. Mas, como assim, eles eram trouxas? Quais eram as chances da casa de Harry Potter ser assaltada por trouxas comuns e completamente não relacionados à Voldemort? Isso quase deixava Harry aliviado, se, é claro, ele, seus tios e Duda não estivessem na mira de armas. — Não importa — concluiu, resolvendo que manteria a calma. — Pode levar o que quiser (Tia Petúnia arregalou os olhos, claramente discordando) — Dinheiro e os eletrônicos. Jóias, posso mostrar onde minha tia as guarda (aqui os olhos de tia Petúnia por pouco não deixaram as órbitas). Nós não vamos resistir. Não vamos sequer chamar a polícia. Não há necessidade de machucar ninguém.
Além do mais, ele pensou com um ardor de esperança, em poucos minutos a Ordem vai chegar, perceber que há algo errado e ajudar todo mundo. Vocês não tem a menor chance de escapar.
Wendy, se é que esse era mesmo seu nome, deu uma risada debochada, fazendo sacudir seus amplos cachos cor de areia.
— Ah, Harry! Você entendeu errado. Eu não quero as coisas de seus tios. Só uma coisa tem valor nesta casa. Só uma realmente me interessa.
Ele olhou de relance e um pouco chocado na direção de Duda, que apesar de seu tamanho, estava encolhido na poltrona como um bicho acuado, sacudindo a cabeça freneticamente. A sua suposta namorada torceu o rosto, acompanhando onde o olhar de Harry tinha ido parar. Ela rolou os olhos.
— Não é o Dudley, Harry. Não seja ridículo, por favor. — Suspirou — É você.
— Eu? O que eu… não há nada de especial em mim. Você deve ter se enganado sobre quem…
— Corta essa, garoto. Nós dois sabemos o quão especial você é. Você sabe quem daria tudo por sua cabeça numa bandeja. Você é muito querido, por assim dizer.
Bem, aquele jogo de palavras não tinha como ser acidental, por mais improvável. Ainda assim, alguma coisa ali não estava se encaixando. E ela ainda tinha sua varinha, ele percebeu, mas mesmo assim estava usando uma arma. E porque a Ordem que estava demorando tanto?
— Eu quero que você me siga, Potter. Sem alarde, sem resistência. Se você tentar dar uma de herói, o meu amigo Deleve vai explodir a cabeça da sua tia. Se você tentar de novo, é a cabeça do seu tio que vai pelos ares. Sim, você tem três chances, porque três é meu número preferido. Observe que deixei Duda pro final, por pura gratidão, sem ele eu não teria chegado tão longe. — Ela olhou afetuosamente para o namorado. — Na quarta eu vou ter que te matar, porque não gosto do número quatro. — Olhando para Harry de novo, dando uma piscadela — Temos um acordo?
Harry captou um olhar horrorizado de tia Petúnia em sua direção. Ele teve a impressão, por um momento, que ela estava negando com a cabeça, lhe dizendo não vá. Mas é claro que era só uma impressão, porque ela tremia tanto. Tio Válter tinha raiva e medo em partes iguais. Duda era como um leitão na frente da fila para o matadouro.
— Claro. — Ele suspirou, assentindo. — Nós temos um acordo.
Harry ainda estava tentando entender como ele acabaria sendo entregue nas mãos de Voldemort por três trouxas em pleno dia do seu aniversário, sob a mira de uma pistola. Ele sempre se imaginara sendo escoltado por no mínimo meia dúzia de comensais - Malfoy e Bellatrix entre eles, se gabando. Ou então pelo próprio Voldemort, quando menos esperasse, quando estivesse com a guarda mais baixa. Talvez tocando uma chave de portal implantada criminosamente entre seus pertences, que o levaria diretamente para o covil dos lorde das trevas. O confronto final, em que ele veria a luz verde mais uma vez, se tornando esta a primeira e última lembrança da sua vida.
Nada em sua fantasia incluía ser empurrado na traseira do Prius de Duda, a mão da “namorada” do primo guiando seu ombro, o incentivando a se inclinar enquanto delicadamente pressionava o cano da arma atrás de sua orelha. Ele se perguntou se a proteção de sua mãe, aquele feitiço que Dumbledore dizia ser tão poderoso, seria páreo para balas de revólver. Tinha sido muito esperto da parte de Voldemort encontrar o ponto fraco do feitiço, usar a estratégia mais inesperada, sendo ele a última pessoa a se supor usar trouxas para seus propósitos…
— Se afaste de Potter. — Alguém disse de um ponto atrás deles.
Wendy congelou atrás de Harry. O próprio procurou o som da voz e identificou a silhueta da Sra. Figg parada no meio da faixa dupla da rua. Ele imediatamente percebeu o quão ruim era aquilo.
— Sra. Figg! — chamou, tentando soar bem casual. — Está tudo ok. Essa aqui é a Wendy, a… a namorada do meu primo. Diga olá para a nossa vizinha, Wendy. — Harry sinceramente esperava que ela entrasse no jogo e deixasse a Sra. Figg ir embora em paz. Estava longe e escuro e se Wendy acreditasse que a velha não tinha visto seu rosto…
— Cale a boca, Potter. Entre no carro — a garota sibilou, pela primeira vez soando nervosa de verdade.
— Potter, não entre no carro — retrucou a Sra. Figg, só que sua voz não soava nem um pouco com a voz da vizinha quase centenária de Harry. Era clara, gelada e pesada de ameaça. — Menina, se afaste dele. Agora.
— Você, se afaste! — Wendy exclamou. — Nós estamos armados!
Foi a coisa errada a se dizer. Antes que Wendy ou seu parceiro pudesse mirar, feitiços explodiram na rua dos Alfeneiros, clareando a noite como fogos de artifício. Harry se encolheu para o banco traseiro e Wendy se abaixou muito rápido, por pouco não sendo atingida. Seu comparsa não teve tanta sorte - foi atingido pelo feitiço da Sra. Figg no peito, voou quase dois metros e caiu no chão inerte, braços abertos. A porta da casa se escancarou e dela saiu Deleve, tentando descobrir a origem do barulho. Ele mal deu outro passo e um clarão verde o atingiu, igualmente derrubando seu corpo como a peça de um boliche humano.
Nesse meio tempo, o motor roncou sob Harry e ele percebeu que Wendy chegara ao banco do motorista e tentava dar partida, as mãos tremendo.
— Potter, SAIA DO CARRO! — gritou a Sra. Figg. Mas Harry, ao invés disso, mergulhou no banco da frente, decidido a recuperar sua varinha, ainda em posse de Wendy. Eles lutaram por ela durante segundos confusos, Harry conseguindo alcançar a varinha, mas colocando seu braço machucado num ângulo estranho que o impossibilitava de se mover.
— Você está tão morto, garoto idiota! — Wendy guinchou, alcançando a arma e tentando mirar em Harry, que não parava de lutar para se libertar.
— Você! Sua bastarda imunda, como se atreve a atravessar meu caminho? Avada Kedrava! — a Sra. Figg gritou, apontando a varinha através da janela do carro. O feitiço bateu no vidro fechado e ricocheteou, para a enorme surpresa de Harry. Foi a exata fração de segundo que Wendy precisou para mudar sua mira.
E atirar.
— NÃO! — ele urrou, enquanto o disparo do tiro ecoava rua acima e abaixo, dez vezes mais alto que um escapamento de carro. A bala atravessou o vidro como o feitiço da morte não pudera fazer, atingindo a Sra. Figg na barriga. Ela cambaleou e caiu. Wendy deu partida no carro e arrancou de uma vez, com um barulho agonizante de pneus queimando no asfalto.
Harry se viu livre. Ele tinha a sua varinha, mas não tinha muito em mente: qualquer feitiço que lançasse poderia levá-la perder o controle do carro e matar ambos. Por outro lado, não pretendia ir com aquela garota louca para lugar nenhum.
Sem outra opção, Harry abriu a porta e se lançou para fora do carro em movimento.
Primeiro veio o impacto duro em seus ombros e quadris, enquanto, encolhido, tentava proteger a cabeça. Ele rolou dolorosamente pelo asfalto, ao som dos gritos de Wendy, até que ela estava longe demais para ser ouvida. Quanto a Harry, seu corpo foi amparado pelo canteiro da casa número nove. Sabia que sobrevivera, só porque a dor no ombro era insuportável.
Mas outra pessoa estava morrendo.
Com o máximo de força de vontade, se levantou cambaleando, um tanto desorientado. Alguns vizinhos assustados com o barulho começaram a enfiar a cara para fora das janelas, e as luzes vindas de suas casas queimaram nos olhos de Harry. Talvez sua cabeça não estivesse tão ilesa, afinal de contas. Aturdido, procurou a Sra. Figg na escuridão, andando em direção à casa dos tios. Enfim identificou uma sombra se movendo pela sebe, mancando.
— Sra. Figg! Espera!
Mas não podia correr, luzes piscavam nas suas vistas e o mundo estava embaçado. Perdera seu óculos durante a queda, é claro. Por outro lado, a varinha estava milagrosamente segura em sua mão. Olho-Tonto Moody teria ficado orgulhoso.
— Não venha atrás de mim, Potter! — gritou ela estridente, logo mais sumindo de vista.
Ele tentou raciocinar. Ela com certeza levara um tiro, fora atingida na altura do pulmão à queima roupa. Como estava conseguindo se mover, Harry não sabia. Ouvira sobre pessoas que tinham feito coisas incríveis sob o efeito da adrenalina, mas apostava que sua vizinha velha não podia ter tanta adrenalina assim, e ela não podia se curar com magia… porque era um aborto.
A não ser pelo fato de que acabara de usar uma maldição imperdoável em duas pessoas aquela noite. Não pestanejara para lançar feitiços certeiros no peito dos dois homens, que agora estavam estendidos no jardim da frente da casa dos Dursley. No mesmo jardim em que tia Petúnia enlouquecia quando achava um cocô do cachorro dos Tommy, seu vizinho da casa número cinco.
Os Dursley! Harry teve o impulso de voltar correndo para dentro de casa, mas o mundo continuava embaçado. Acreditando que, após três maldições da morte em sua rua, um feitiço convocatório não seria grande coisa, ele recuperou os óculos com magia e o mundo entrou em foco novamente. Um minuto depois, derrapou na sala de estar e se lançou contra a tia, constatando, com alívio, que Deleve não tinha atirado nela antes de deixar a casa. Estavam todos vivos, ainda amarrados e amordaçados, completamente terrificados. Harry os desamarrou, primeiro tia Petúnia, que agarrou seu braço num aperto de aço, o olhando de perto.
— O que aconteceu com você?
— Eu me joguei do carro — ele arfou, imaginando se o seu aspecto estava tão ruim quanto ela fazia parecer, pelo jeito que lhe olhava — A Sra. Figg apareceu, ela os distraiu, ela lançou feitiços… — Harry se desvencilhou dela e correu para desamarrar o tio.
— A Sra. Figg o quê? — Petúnia guinchou, os olhos enormes, parada no meio da sala a meio caminho de desamarrar o filho, que a essa altura já esperneava.
— Ela lançou feitiços, matou os dois homens! — ele exclamou, afobado. — Mas Wendy conseguiu fugir! Atirou nela, a Sra. Figg está ferida…
— Você está me dizendo que a nossa vizinha, a Sra. Figg da casa 18, é uma aberração como você?!
— Sim! Não! Não sei! — vociferou, confuso. — Eu pensava que ela era um aborto, uma bruxa sem magia, mas ela fez! Ela os matou para me proteger! E agora ela precisa de ajuda, porque foi atingida…
— ISSO É TUDO CULPA SUA, moleque! — Tio Válter urrou assim que se livrou da mordaça, avançando em Harry, que recuou por reflexo. — Aquela garota maluca estava atrás de você, não de nós! É sempre sobre você! Mais uma vez colocou a nossa família em perigo! QUERO VOCÊ FORA DA MINHA CASA AGORA!
— Ótimo, porque eu já estava mesmo saindo! — ele gritou de volta, seu sangue fervendo e pulsando nas orelhas — Se quer saber as minhas malas já estão prontas!
Harry teria saído naquele segundo. Afinal, o que poderia acontecer de pior do que já tinha acontecido? Só precisava achar a Ordem e comunicar o ocorrido, e também precisava ir atrás da Sra. Figg e socorrê-la, quando mais tempo demorava, menores eram as chances…
— Nós não temos tempo para isso, Válter! — disse Petúnia, no entanto, estarrecendo tanto o marido quanto o próprio sobrinho — Harry, você não pode sair dessa casa e sabe disso! Faça o que precisa para chamar e avisar quem quer que seja, mas NÃO SAIA DA CASA.
Ele não podia disfarçar a surpresa, por acaso sua tia Petúnia estava colocando a segurança dele como prioridade? Realmente? Ela sabia… como ela sabia? Mas aparentemente sim, pois estava checando o relógio.
— Mais uma hora e eles devem estar aqui. Vá mandar a mensagem, Harry, o que está esperando?
— Mas a Sra. Figg…
— Vou chamar uma ambulância para ela! VÁ!
Sem mais protestos ele correu escada acima, atravessando o corredor aos tropeços, entrando em seu quarto e escancarando o malão a procura do que precisava. Rapidamente achou a figurinha colecionável de Dumbledore, não uma qualquer, mas a edição limitada, autografada pelo próprio. A segunda parte, conjurar o seu patrono, foi mais difícil, porque parecia improvável que ele conseguisse uma lembrança feliz depois que tinha acabado de sofrer uma tentativa de sequestro e saltar de um carro em movimento.
Apertou os olhos com força, desesperado. Qualquer coisa feliz… qualquer coisa feliz… a imagem de Sirius no Natal, lhe explicando cheio de humor ácido a árvore genealógica da família Black, com um braço sobre seu ombro, pipocou em sua mente. Harry sabia que essa era perigosa, mas não podia se dar ao luxo de dispensá-la. Buscando se concentrar ao máximo no fato de que tinha sido um momento feliz (tentando não pensar que ele jamais se repetiria) exclamou o feitiço. Viu com alívio o cervo prateado sair de sua varinha e cavalgar agitado pelo quarto. Ele estendeu a mão trêmula com a figurinha de Dumbledore e recitou sua mensagem, meio gritando, meio ofegando. O cervo partiu atravessando a parede e virando um fiapo de fumaça carregado pelo vento.
Quando Harry voltou para o andar de baixo, achou muito barulho, sirenes de polícia, luzes vermelhas e azuis girando na rua, invadindo a casa pelas brechas da cortina. Tio Válter e tia Petúnia falavam com os policiais, tentavam explicar o inexplicável - como dois homens estavam mortos em seu jardim da frente, sem qualquer sinal de terem sido atingidos por uma arma de fogo. Também havia o sangue da Sra. Figg salpicado no asfalto, mas nenhuma vítima à vista.
Harry olhou para Duda, que tremia numa poltrona e se encolheu quando Harry chegou perto.
— Sua mãe chamou a ambulância? — inquiriu, agitado e não conseguindo entender como Duda estava tão congelado no lugar.
— S-sim — ele balbuciou em resposta, o beiço gordo tremendo.
Impotente, Harry se largou na poltrona mais próxima, a cabeça entre as mãos. Não conseguia entender como aquela garota, quem quer que fosse, o tinha achado através de Duda. Como ela estava relacionada com Voldemort, sendo uma trouxa. E como exatamente a Sra. Figg, que era supostamente um aborto, poderia ter lançado maldições imperdoáveis sem pestanejar, como se fizesse aquilo todo dia. E porque ela correra dele… E porque, infernos, a Ordem não estava ali ainda. Dumbledore tinha jurado que viriam lhe buscar, mas e se algo tinha acontecido a eles no caminho? Harry olhou no relógio: 30 minutos para fazer 16 anos.
— W-Wendy, ela est-tá… bem?
Harry ergueu sua cabeça vagarosamente, pensando estar tendo uma alucinação auditiva.
— Como é?
Duda pigarreou, firmando a voz.
— Wendy está bem? Ela sobreviveu? Ou a Sra. Figg…
— Ela estava tentando nos matar! E você está preocupado em saber se ela está bem?
Isso pareceu despertar um tanto de fúria em Duda, avermelhando seu rosto enorme.
— Não, Harry, ela queria te matar! Agora, se você não se importa, será que pode responder, por favor, se a minha namorada foi assassinada por uma aberração?
Ele ficou olhando para Duda, anestesiado. Balançou a cabeça. O mundo estava fora dos eixos.
— Ela está bem, Duda. Escapou com seu carro. Atirou na barriga da nossa vizinha. Foi embora me xingando porque pulei pela porta traseira.
Ele assentiu, parecendo satisfeito com a resposta.
— Ela atirou por legítima defesa. — murmurou baixinho, mas audível o suficiente para Harry lhe ouvir.
— Nós fomos até lá, batemos na porta, mas ninguém atendeu. Infelizmente não podemos entrar sem um mandado, seria invasão de domicílio…
Harry ouvia um dos paramédicos falar com a polícia a alguns metros de distância, enquanto ele próprio estava sentado na traseira de uma ambulância, recebendo uma avaliação médica completa. A enfermeira queria levá-lo para o hospital para descartar a possibilidade de concussão e ele estava se negando a ir pela segunda vez quando entendeu que falavam da Sra. Figg.
— Hey, a nossa vizinha, ela foi atingida — ele disse a enfermeira, que agora cortava sua calça jeans para limpar o joelho arranhado no asfalto. — Eles não a encontraram?
— Não estou autorizada a lhe dar essa informação, sinto muito…
— Mas ela pode estar lá dentro desacordada e perdendo sangue!
A mulher suspirou, tentando convencê-lo a parar de mexer a perna.
— Olhe, não se preocupe, a polícia vai cuidar de tudo.
Ele só precisava fechar os olhos para ouvir o ruído seco do tiro em sua cabeça. Fora tão perto que o seu ouvido esquerdo ainda zunia. O vidro estilhaçando, a bala entrando no corpo da velha senhora, que cambaleou para trás, pega de surpresa… tentando protegê-lo, dezesseis anos tentando protegê-lo…
— Você tem razão — disse tranquilamente, sorrindo para a enfermeira, esticando o lábio partido e cheio de sangue seco no processo. — Olhe, eu acho que preciso mesmo passar a noite no hospital, não me sinto tão bem. Se importa se eu for lá dentro pegar o meu celular? Se a minha namorada ligar e eu não atender, ela vai ficar bem preocupada…
Com um sorriso de complacência, a enfermeira liberou Harry, que saltou da ambulância com uma leve culpa pela mentira. Agora era ele quem tinha uma namorada fantasma, pensou amargo. Esgueirando-se pelas partes escuras do jardim, tentando evitar que a polícia o visse (eles ainda recolhiam depoimentos dos seus tios, que, passado o susto, estavam cada vez mais incomodados com a atenção que atraiam do bairro inteiro), entrou na casa, vestiu a capa da invisibilidade e, sorrateiramente, saiu pela porta da cozinha, desafiando as recomendações de Dumbledore.
A casa da Sra. Figg ficava mais ou menos a cinco minutos da casa de seus tios. Já não havia qualquer carro da polícia lá; claramente eles não tinham levado a sério a urgência de encontrá-la e salvar sua vida. A casa estava fechada, todas as luzes apagadas, e, surpreendentemente, nenhum gato no balanço da entrada. A Sra. Figg tinha tantos gatos que Harry se acostumara a ver sempre um na varanda, à guisa de recepcionista. Segurando sua varinha em frente, ele espiou pelo vidro da porta, mas não viu nada, principalmente porque estava coberto por uma espessa camada de poeira.
— Sra. Figg? — tentou. Mas não esperava que ela respondesse, devia estar muito fraca. Talvez inconsciente. Mas não podia ser tarde demais, ela o tinha salvo aquela noite… se não fosse pela mulher, ele estaria sabe Merlin onde, talvez nas mãos do próprio Voldemort, fazendo contagem regressiva para soprar as velinhas… só que nesse caso, seriam as velas do seu velório. — Alohomora — murmurou, fazendo eco aos pensamentos sombrios.
Um cheiro forte e podre nocauteou Harry assim que pisou no batente de entrada. Tossindo, os olhos se enchendo de água, ele puxou a camisa para o nariz e tateou a luz. Talvez algum gato tenha morrido, pensou. Mas a julgar pelo fedor, era bem capaz de estarem todos mortos. Isso explicaria porque não estavam a vista, sendo irritantes enquanto se embolavam pelos seus tornozelos, cantando uma sinfonia aguda de miados.
Avançou pela sala, ainda coberto pela capa, procurando no chão algum sinal da Sra. Figg. Ela não podia ter ido muito longe, se é que chegara em casa. Se tivera forças para trancar sua porta, não devia estar tão mal. O tiro poderia ter pego de raspão… Ele se agarrou nesse pensamento, avançando, enquanto o cheiro piorava. A única explicação para aquilo era que ela tinha perdido completamente o olfato e não se dera conta do bichano morto há dias. Harry chegou até a cozinha sem ter certeza que podia avançar mais sem passar mal. Sua garganta estava se fechando em acessos de ânsia e ele mal conseguia manter os olhos abertos.
— Argh, isso é nojento — reclamou consigo mesmo em voz baixa, olhando ao redor. Havia bastante poeira pela casa. Ela nunca fora uma neurótica da limpeza como tia Petúnia, mas uma panela sobre o fogão, preta com uma camada de mofo que tinha criado comunidade sobre alguma comida há muito apodrecida, realmente o preocupou. — Sra. Figg? É o Harry. Você pode me ouvir? Desculpe ter entrado sem ser convidado, mas fiquei preocupado…
Um ínfimo barulho, algo como um estalo, fez Harry ficar em alerta. Com certeza vinha de algum lugar abaixo dele. O porão, concluiu, dando a volta para achar a entrada deste, que ele sabia, se localizava debaixo da escada. Harry já tinha entrado lá mais de uma vez no passado, para ajudar a velha a procurar um ou outro gato desaparecido. Às vezes os gatos pulavam lá dentro e não achavam o alçapão para voltar. E, uma vez, uma das gatas se enfiara ali para ter filhotes… Mas o que a Sra. Figg estaria fazendo ali embaixo agora, ele não podia imaginar. Ou mesmo como ela podia ter descido a escada íngreme de pendurar com um buraco de bala em sua barriga. O barulho se repetiu, e Harry chegou no espaço debaixo da escada, encontrando a portinhola aberta.
— Sra. Figg? Eu vou descer. Sei que me disse para não te seguir, mas eu vim mesmo assim…
Harry cuidadosamente escalou a escada – seu ombro machucado pelo asfalto pulsando dolorosamente no processo— e largou o corpo no último degrau. O cheiro ali era insuportável; ele tentou prender a respiração para seguir em frente. Uma luz débil pendurada no teto coloria o porão e suas bagunças, canos, caixas, móveis antigos em um amarelo velho. No centro do cômodo, bem sob a luz vacilante, estava uma cadeira, e sobre ela, a silhueta de alguém sentado. Ele suspirou em alívio. Se ela estava conseguindo ficar sentada, não era tão mal assim. Harry escorreu a capa sobre os ombros e a deixou cair ao pé da escada, para que a vizinha pudesse saber que ele estava ali.
— Sra. Figg? Você está bem? A ambulância está na rua, eles podem lhe ajudar, os paramédicos trouxas… ou eu posso chamar o Noitibus e acompanhar a senhora até o Hospital St. Mungus.
Ela não se moveu. Respirando pela boca, Harry deu mais alguns passos na direção dela. Sua visão captou alguns tufos de cabelo faltando em sua cabeça, que pendia sobre o peito. Os braços dela estavam firmemente retos para baixo, como se tivessem sido amarrados… Alarmado, Harry deu a volta para olhá-la de frente. Grande, enorme erro. Mal foi capaz de segurar o vômito que ondulou no fundo se sua garganta.
— Ugh — ele engasgou, tapando a boca com a mão e recuando.
Aquela não era a Sra. Figg… era o seu corpo. Decompondo-se lentamente pela ação de vermes brancos, pedaços de músculos escurecidos e ossos visíveis através de rasgos em sua pele murcha e verde-amarelada. Haviam óbvias mordidas em seus tornozelos e joelhos, mas eram antigas… aparentemente os gatos, uma vez famintos, tinham provado sua carne quando ainda estava fresca. O conjunto era de tal forma nauseante que Harry se viu completamente paralisado, incapaz de mover os olhos para longe. Sua parte racional tentava entender como a mulher que acabara de salvar sua vida estava ali se decompondo, morta há vários dias, talvez semanas.
Harry foi lento. Talvez, se não tivesse passado por tanta coisa naquele dia. Se seu cérebro não estivesse amortecido e cansado. Mas quando notou a sombra, esta já tinha bloqueado a porta. E quando ergueu o rosto, uma Sra. Figg falsa o encarava em frente à escada, sorrindo amplamente, sem que o sorriso atingisse o par de olhos escuros e triunfantes. No lugar onde a bala lhe atingira havia uma crescente flor de sangue desabrochando sobre a roupa, mas isso não parecia perturbá-la.
Ela olhou no relógio em seu pulso, o relógio que a Sra. Figg usava desde a década de oitenta. Quando levantou o rosto de novo, a cascata de cabelo preto rebelde foi surgindo no lugar do cabelo ralo da vizinha dos Durlsey, à medida que o efeito da poção Polissuco passava. Sua estatura aumentou, seu corpo se aprumou, a pele se esticando sobre os ossos, os dedos longos segurando a varinha apontada para o coração de Harry. Muito satisfeita consigo mesma, Bellatrix Lestrange cantarolou em falsete.
— Olha só isso, meia-noite em ponto! Feliz aniversário, Harryzinho!



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