Capítulo 57. Veritas Serum
- Ly Anne B.

- 3 de fev. de 2024
- 39 min de leitura
Atualizado: 26 de dez. de 2025
Sumário da história até aqui
O início
Nossa história começa lá em 1995, com a suposta morte (canon) de Sirius na Batalha do Ministério. Johanne e Bervely, que estavam morando no Instituto Flamel enquanto Bervely completava sua formação em Alquimia, retornam prematuramente para a Grã-Bretanha após a visita de Remus. Exceto que Bervely dá um chá de sumiço em todos (mais tarde descobrimos que ela se auto-internou no St. Mungus, porque após saber sobre a morte de Sirius, a sua magia estava falhando).
Harry, por sua vez, é resgatado dos Dursley após uma tentativa de sequestro, interrompida por ninguém menos que Bellatrix, que por sua vez tenta capturar Harry e é frustrada por membros da Ordem. Harry passa o restante das férias na cabana de Remus na floresta, que é onde ele conhece Johanne — a filha de Sirius cuja existência ele, até então, desconhecia. Harry fica intrigado com a garota e Anne mais ainda, porque, ao se esbarrar com Harry pela primeira vez, ela recupera o sentido da visão, que tinha perdido há algum tempo em um acidente mágico misterioso nas florestas de St. Sensille.
Não fosse o bastante, Voldemort causa o seu primeiro ataque do ano em um evento do Ministério no qual a Ordem e Harry estão presentes. Aurores recém-formados de origem trouxa são vítimas fatais, e Voldemort usa o nosso querido Percy como porta-voz, para informar à comunidade bruxa que está de volta e decidido a limpar essa sujeira sangue-impuro em que a comunidade bruxa se tornou.
Harry se distrai no meio do ataque, seguindo Johanne até o Departamento de Mistérios. Harry suspeita que a garota está agindo sob ordens de Voldemort, mas no fim das contas ela está atendendo a um chamado de Sirius, e eles acabam por trazer o nosso mais querido maroto do outro lado do véu. Sirius volta trazendo um punhal que parece destinado a Harry, porque só o garoto (e Johanne) pode tocá-lo sem sofrer terríveis queimaduras.
A Canção
Enquanto Sirius se recupera no St. Mungus, Harry e Johanne embarcam para, respectivamente, seu sexto e quinto ano em Hogwarts. Hogwarts traz algumas novidades – uma nova professora de Adivinhação Avançada (Sophia Neveu), a ausência de alguns alunos, incluindo Dino Thomas e Gina Weasley (atacada por um dragão no verão), a reseleção de Johanne para a Grifinória (em seus primeiros anos em Hogwarts, ela esteve na Corvinal), e a visita da Senhora do Lago de Avalon, Hildegard Dumbledore.
Enquanto isso, Bervely ouve de Sirius que a “sequestradora” de Harry no verão usou o nome de Wendy, e desconfiando da sua antiga arqui-inimiga Charlotte Summers, vai investigar a questão usando antigos contatos.
Harry descobre que a Senhora do Lago de Avalon, e sua nova professora de Adivinhação Avançada, foi a responsável por fazer Voldemort desistir de sequestrá-lo. Ela lhe diz que o punhal que Harry recebeu é algo para ajudá-lo contra Voldemort, e isso deixou o Lord das Trevas com medo.
Anne tenta ‘ler’ o passado do punhal e descobre que ele foi enviado por Morgana LeFay, muitos séculos antes. Enquanto isso, Bervely tenta emboscar Charlotte e acaba sendo enviada para Azkaban, acusada de cúmplice na fuga de Sirius e da tentativa de sequestro de Harry.
A Ordem da Fênix começa a usar a Casa dos Gritos como novo quartel-general. Sirius, uma vez recuperado mas ainda se escondendo das autoridades, investiga o ataque à Katie Bell e descobre que Rosmerta foi amaldiçoada com imperius, e que o alvo do colar amaldiçoado era Dumbledore. Harry se recusa a testemunhar contra Bervely em seu julgamento.
Anne e Harry se aproximam nas aulas de Adivinhação Avançada, e descobrem que tem uma conexão mental especial. Rony e Hermione se beijam após a primeira partida de quadribol da temporada.
Em Azkaban, Thor Carmichael tenta retaliar Bervely por sua participação na prisão dele, e ela é salva (ou pensa ser) por Bellatrix, ao tomar posse de seu corpo através da conexão com a rosa.
Azkaban é rendida por Voldemort e os comensais da morte — os prisioneiros que aceitam segui-lo são liberados, e os que se recusam viram comida de dementador. Bervely, no entanto, é libertada por Bellatrix e a comensal lhe permite voltar para casa (com uma missão). Bervely assiste à morte de Theodor Shadowtamer, devorado pelos cães de Azkaban, antes de partir.
De volta à liberdade, Bervely se aloca na Casa dos Gritos para se recuperar dos meses na prisão e descobre que o filho de Hector e Charlotte, que todos pensavam ter sido abortado 6 anos antes, pode estar vivo.
Na festa de Halloween temático “trouxa” em Hogwarts, Bervely conhece e passa a noite com um bruxo misterioso. Cho Chang, desaparecida desde a festa, é encontrada morta no lago. Bervely aceita a proposta de Snape de se mudar para Hogwarts e ajudá-lo com as turmas de poções.
O bruxo misterioso da noite anterior se revela ser o presumido-morto-porém-vampirizado Regulus Black, que tem vivido entre vampiros desde que foi assassinado por Bellatrix durante a primeira guerra.
Bervely começa a dar aulas de reforço em poções para Harry. Regulus a visita e a pressiona sobre o verdadeiro culpado da morte de Cho Chang (ele desconfia de Draco Malfoy, cujo comportamento na festa foi suspeito, e o qual Bervely parece estar protegendo).
Na segunda partida de quadribol da Grifinória, Astória substitui Draco e captura o pomo. Bervely confronta Draco sobre a morte de Chang, ele nega envolvimento e recusa a ajuda dela para dar conta da missão que Voldemort o incumbiu.
St. Sensille é atacada por dementadores, e a Ordem vai defendê-la. A maior parte da cidade é, no entanto, beijada, provando que os dementadores estão sob completo controle de Voldemort. Regulus e Bervely decidem começar do zero, deixando para trás a noite que passaram juntos, para o benefício de Sirius. Ela concorda com a condição de que ele a ajude a reformar Grimmauld Place para o Natal.
Os Grifinórios homenageiam as vítimas de St. Sensille, incluindo a avó de Neville. Harry e Anne se refugiam na Sala Precisa, que toma o formato do armário de vassoura de Harry, e adormecem de mãos dadas.
No exame de final de semestre de Adivinhação Avançada, Johanne faz par com Sophia e descobre que Luna Lovegood é filha de sua madrinha. Neville, em par com Harry, descobre que ele poderia ter sido o Escolhido. Sophia adverte Anne dos perigos de sua conexão mental “especial” com Harry e a convida para Avalon — Anne recusa.
Harry e Dumbledore, que tem se encontrado desde o início do ano para revisar o passado de Voldemort, decidem que irão atrás do livro que Regulus Black roubou de Voldemort após o feriado de Natal — o livro pode conter segredos importantes sobre horcruxes, e Dumbledore pensa que pode achá-lo em Godric's Hollow.
Regulus e Bervely tem um momento de reaproximação na renovada Grimmauld Place - Regulus lhe presenteia com a sua inserção oficial na árvore da família. Bervely planeja um Natal na Casa dos Black com a família, no qual Nymphadora revela que está grávida de Remus. Bervely recebe a cabeça decapitada de Carmichael de presente de Bellatrix.
Mais tarde, Narcissa Malfoy interrompe as festividades carregando Draco Malfoy, sangrando de um Sectumsempra lançado pelo pai. Severus é chamado e consegue salvar Draco, com a ajuda de Bervely e Harry, mas Narcissa Malfoy sucumbe, após ter exaurido o seu cerne mágico ao aparatar ela e Draco da Mansão Malfoy sem uma varinha. Regulus e Bervely passam a noite juntos.
Após o enterro de Narcissa, Regulus anuncia que está de partida. Bervely e Sirius tem uma de suas piores discussões até então, quando ele a confronta sobre o seu relacionamento com o tio vampiro. Remus percebe que Anne e Harry estão desaparecidos.
Harry e Anne partem para Godric 's Hollow na moto voadora de Sirius, e localizam a antiga casa dos Potter. Anne tem uma visão ao tocar o berço de Harry, e ouve Lily cantar uma canção de ninar peculiar. Harry segue um coelho e atravessa um espelho atrás do animal, onde ele fica preso. Harry descobre no material escondido dentro do espelho que a mãe esteve pesquisando sobre Voldemort durante a primeira guerra. O espelho produz uma duplicata de Harry, que Anne e Harry rendem. Encontram o livro roubado por Regulus, escondido entre as coisas de Lily — trata-se de um diário, como o de Tom Riddle, mas de uma garota aliada a Voldemort — Hildegard Dumbledore. Enquanto estão lá, os dementadores atacam Godric's Hollow. A duplicata de Harry se aproveita da confusão e desaparata atrás de Dumbledore. Anne o segue, enquanto Harry fica para ajudar a vila a combater o ataque.
No topo do monte Tor, Anne tenta chamar por Sophia, mas quem aparece é Hildegard, que conjura Voldemort e lhe conta sobre a existência da Canção. Voldemort mata Hildegard, tortura Johanne para ouvir a canção de Lily, que ela obteve em Godrics Hollow, e usa um Imperius para forçá-la a apunhalar o que ele pensa ser o verdadeiro Harry Potter, usando o punhal que Sirius trouxe do outro lado do véu.
Em Godric's Hollow, Sirius é atacado por dementadores para proteger Bervely (que veio ajudar junto aos demais membros da Ordem). Sirius ainda tem uma alma, mas o ataque queima o restante do seu cerne mágico, e ele perdeu não só a habilidade de fazer magia, mas também a memória dos últimos seis meses (desde o seu retorno do véu).
Bervely é informada por Snape que Lucius Malfoy está desaparecido desde que atacou o filho (e indiretamente matou a esposa) no Natal, e que Bellatrix também sumiu. Bervely sonha com Bellatrix torturando Lucius, e convidando-a a participar.
Por conta da condição vulnerável de Sirius, Bervely e Remus o convencem a passar um tempo com Regulus entre os vampiros, onde ele estará protegido dos impactos diretos da guerra. Yas Darkmoon, uma das prisioneiras de Azkaban que conseguiu escapar com Bervely, se voluntaria a ir com Sirius e manter um olho nele, por se sentir em dívida com Bervely por ela ter salvo a sua vida.
Johanne, que ficou em Avalon após o seu encontro traumático com Voldemort, é cuidada por Sophia. Tentando juntar as peças do que aconteceu no monte Tor, ela tem uma visão na qual Morgana LeFay lhe revela a natureza da Canção– uma poderosa magia para influenciar o destino do mundo mágico e salvá-lo da destruição causada pelas ações de Voldemort. Anne descobre que o seu acidente na floresta há tantos anos, a sua cegueira, e a sua conexão mental especial com Harry tem relação com a sua participação na Canção de Morgana.
Com a morte de Hildegard, Sophia se torna a nova Senhora do Lago de Avalon.
Harry, que está se recuperando do dano que o assassinato de sua duplicata lhe causou, compartilha com Dumbledore o que aprendeu sobre a Canção, e eles discutem o que ela significa para o destino de Harry. Dumbledore explica a Harry que Voldemort pensa que ele está morto e que isso é uma vantagem que eles devem manter. Harry deve continuar a se fingir de morto, enquanto Dumbledore promete ir à procura de mais informações sobre os versos da Canção– mais especificamente, do esconderijo mencionado no último verso.
Post-"Mortem"
Harry usa polissuco para se passar por Dino Thomas em Hogwarts, com a ajuda de Snape. A escola está focada na ausência de Harry Potter, em luto pelas perdas no último ataque a Godric's Hollow. Anne, de volta a Hogwarts, tenta lidar com o trauma de sua interação com Voldemort e a suposta ausência de Harry. Daphne e Astoria Greengrass têm uma discussão no corredor, porque Astória não retornou para casa no Natal, e Astória é defendida por Grifinórios.
Anne decide se mudar de volta para Corvinal, pois nunca se sentiu confortável na Grifinória. Bervely desconfia que Dino Thomas é Harry Potter disfarçado e informa o fato a Anne, ajudando a reuní-los novamente.
Bervely obtém notícias de Sirius através de Regulus, usando o espelho de duas faces de Sirius. Anne visita Harry em um sonho lúcido pela primeira vez.
Gina Weasley, promovida a apanhadora da Grifinória na ausência de Harry, tem uma combustão espontânea durante o jogo e confessa a Harry (disfarçado de Dino) que tem acontecido desde que ela foi atacada pelo dragão no verão.
Harry e Anne prosseguem se encontrando em sonhos, compartilhando confissões e intimidade física, mas se limitam a encontros acordados para não colocar o disfarce de Harry em risco.
Em fevereiro, os estudantes pró-mestiços planejam uma festa de São Valentim nas masmorras.
Draco suspeita que os sonserinos estão planejando algo ruim para a festa e informa Bervely, com medo de receber a culpa caso não o faça. Regulus convida Bervely a visitá-lo (e a Sirius) na noite de São Valentim, mas ela recusa, pois precisa ficar de olho nos estudantes.
Neville convida Astória para a festa. Harry, que teve seu convite recusado por Anne, decide ir com Gina. Bervely se infiltra na festa disfarçada de adolescente para manter um olho nos sonserinos.
Na festa, Bervely e Oliver Wood (convidado por Katie Holmes, de quem está atualmente noivo) dançam e ele informa que estará assumindo aulas de voo em Hogwarts, e a convida para o seu casamento no próximo verão. O evento é interrompido por um ataque de cobras metálicas automultiplicadoras, enfeitiçadas para picar nascido-trouxas. Bervely, Harry, Oliver e outros ajudam na evacuação dos estudantes, mas cinco vítimas vão para a ala hospitalar em estado de envenenamento grave.
Com a ajuda de Anne e Harry, Bervely produz o antídoto que salva a vida dos estudantes, incluindo Neville e Katie Holmes. Rony e Hermione descobrem que é Harry disfarçado de Dino, pois o ouviram usar ofidioglossia na confusão das cobras. Hermione o adverte que Astória também o ouviu usar Ofidioglossia.
Minerva McGonagall confronta Bervely sobre a participação de Draco nos acontecimentos da noite e ela o defende. Ela descobre que Draco é inocente do assassinato de Cho (que foi, de fato, um suicídio). Daphne Greengrass é suspensa pelo ataque das cobras multiplicadoras, que ela inseriu na festa, aumentando a animosidade entre as casas.
No último jogo da temporada, Astória captura o pomo de propósito para dar a vitória à Grifinória, casa rival. Gina Weasley tem outra combustão espontânea. Astória é reselecionada para a Grifinória e sugere a Harry que sabe do seu disfarce– e não concorda com a sua decisão de se manter escondido.
Bervely é chamada à Casa dos Gritos, e descobre que a gravidez de Tonks faz com que ela sofra terríveis dores e está em risco de vida durante as luas cheias. Bervely tenta adaptar a poção mata cão para a prima, e acaba na enfermaria após testá-la. Ela insiste em adaptar a poção, com ajuda de Harry e Anne.
Na Páscoa, Bervely é desviada de seu plano de visitar Regulus e Sirius em Gomorra, ao ser informada que Draco escapou do castelo sem permissão, e desconfia que ele aceitou o convite da “Casa Lestrange” para o Natal, atraído por Bellatrix.
Snape ajuda Bervely a proteger as suas memórias com uma poção (Amnésia), caso ela cruze com Voldemort em sua missão de resgate.
Em Blackburn Hall, Bervely e Draco são submetidos a um jantar em família com Charlotte e Rabastan (que anunciam seu noivado), e Bellatrix e Rodolphus Lestrange. Após o jantar, Bellatrix separa Draco e Bervely e, uma vez tendo-a encurralada, informa a filha que Voldemort a aguarda quando ela estiver pronta, e a lembra que ela foi prometida a ele, como serva, em seu nascimento, e não pode escapar do seu destino. Bellatrix dá uma pista que ajuda Bervely a descobrir como produzir a poção mata-cão para Nymphadora.
Bervely consegue realizar a poção com sucesso. Após a sua ausência na Páscoa, Regulus para de lhe responder pelo espelho, e ela tem a impressão de que há algo errado com Sirius, que Yas não quer lhe contar.
Harry segue Rony e Hermione em segredo no feriado, e descobre que os amigos se alistaram secretamente na Ordem e tem comparecido às reuniões.
Anne confessa a Harry que se sente manipulada pela Canção, e não sabe se o que eles sentem um pelo outro é real ou provocado pela magia poderosa de Morgana que conecta os seus destinos juntos. Eles dormem juntos pela primeira vez, mas ao acordar, Anne tem uma visão terrível do que o mundo seria caso a Canção de Morgana não existisse, incluindo a morte de Harry e o triunfo de Voldemort.
Anne visita St. Mungus para se despedir da avó, que vai ser eutanasiada após ter perdido a alma para dementadores, e descobre que Dino Thomas está na ala de irrecuperáveis, entre a vida e a morte, após ter sido atacado no verão anterior. Anne decide aceitar a proposta de Sophia de retornar a Avalon e aprender a controlar a sua visão, deixando Hogwarts no mesmo dia, despedindo-se de Harry por carta.
O Ministro da Magia visita Hogwarts para investigar uma denúncia de que o desaparecido Harry Potter está morto, e ao não encontrar Dumbledore, ameaça fechar a escola se não ouvir do diretor em breve. Em resposta, Dumbledore renuncia a Hogwarts por correspondência, deixando a sua posição para Minerva. Snape em seguida deixa a escola, sem grandes explicações, relegando Bervely a assumir todas as suas turmas de poções.
Avalon apresenta o suposto corpo de Harry Potter ao Ministério (na verdade, o corpo da duplicata de Harry, que a ilha tem guardado desde então) e a morte de Harry Potter é oficialmente confirmada. Neville informa à Armada que ele poderia ter sido o Escolhido. Logo a informação vaza e os jornais passam a chamá-lo de “Novo Escolhido”. Neville e Astória revelam a Harry que vazaram a informação de propósito, e Harry adverte Neville de que ele acabou de se colocar na mira de Voldemort de propósito.
Bervely toma a frente da produção de polissuco para Harry e atualiza a fórmula para maior eficiência. Hogwarts celebra um velório simbólico para Harry, no qual o Ministro comparece e emite uma ordem de fechamento à escola. Neville faz uma barganha na qual se oferece para ser treinado e servir ao Ministério, em troca de que eles deixem Hogwarts permanecer aberta para aqueles que desejam ficar.
Draco recebe a notícia de que Lucius foi enfim capturado na noite anterior e beijado por dementadores. Nymphadora convida Bervely para ser madrinha do seu filho. Bervely pede a Remus para entrar na Ordem, e Remus recusa (pois Sirius o fez prometer que não a deixaria se alistar). Bervely deixa a Casa dos Gritos furiosa e ao retornar a Hogwarts encontra Draco se afogando no lago negro.
Com a ajuda de Gina Weasley (da qual Draco tem se aproximado, desde que eles interagiram na festa de São Valentim), ela consegue salvar Draco e descobre que ele lançou uma maldição de afogamento em si mesmo. Draco revela que Bellatrix espera que ele assuma o lugar de Lucius entre os comensais, e virá buscá-lo se ele não se apresentar em breve. Bervely requisita uma audição com o Lorde das Trevas, na qual concorda em tomar o lugar de Draco entre os comensais, em troca de que o garoto seja deixado em paz.
Maio, 1997
Três semanas após o velório de Harry Potter
Do corredor do primeiro andar da Casa dos Gritos, através da porta entreaberta que dava acesso ao quarto onde a Ordem fazia as suas reuniões, Harry ouviu a voz tensa de Remus reverberar no ar estagnado. Até onde Harry sabia, nenhum membro da Ordem tinha chegado para a reunião daquela noite, mas o fato de que o seu ex-professor parecia ter companhia o fez hesitar no corredor.
— Não, eu não sei para onde mais ela poderia ter ido — ele ouviu Remus dizer, uma constrição de cansaço presente em sua voz com frequência nos últimos tempos. — Eu já verifiquei todos os lugares em que pude pensar. O Hospital St. Mungus, St. Catchpole com Andrômeda, até mesmo em Avalon com Anne. A minha última esperança é que ela tivesse encontrado o caminho até você.
A voz que respondeu Remus era distante, mas familiar o bastante para fazer Harry se inclinar na direção da fresta e se concentrar.
— Se ela tivesse tentado chegar aqui, eu saberia — Harry conseguiu divisar a resposta, num tom que fazia par à preocupação do lobisomem. — E quanto a Snape? Ela foi até ele, da última vez, não foi?
Houve uma pausa antes de Remus responder, mesmo que o seu interlocutor – Sirius, Harry suspeitava – tivesse deixado no ar o que acontecera “da última vez”.
— Eu não tenho como contactar Severus, no momento — foi a resposta de Remus, e pelo tom, Harry podia adivinhar que as sobrancelhas dele estavam franzidas daquele jeito que ficavam quando ele não queria mentir, mas não podia falar toda a verdade.
Uma expressão que Harry vinha vendo no rosto do ex-professor com certa frequência, desde que ele assumira as operações da Ordem da Fênix.
— Ele está em missão?
Mais uma pausa hesitante.
— Eu não poderia dizer.
— Não poderia, ou não vai? — Uma nota de impaciência na resposta.
— Eu não sei — A resposta de Remus, dessa vez, soou como se proferida entre dentes, carregada de frustração. — Mas não, não acho que Bervely esteja com ele. Pelo que eu soube, Severus deixou bem claro antes de partir que ela não deveria procurá-lo em nenhuma hipótese.
Dessa vez o silêncio dentro da sala foi introspectivo, e Harry cogitou se deveria parar de entreouvir a conversa e anunciar a sua presença, ou voltar mais tarde. Exceto que, no minuto em que ele se movesse, o piso antigo da Casa dos Gritos gemeria sob os seus pés, anunciando a sua presença.
Antes que ele pudesse decidir, Remus falou de novo.
— Isso é tudo culpa minha — havia derrotismo em sua declaração. Outros sentimentos que não eram estranhos ao lobisomem, ultimamente. Harry desistiu de tomar uma decisão e apurou os ouvidos mais ainda, curioso.
— Explique.
— Ela me pediu para entrar na Ordem. Eu recusei. Isso aconteceu uma noite antes de ela deixar a escola.
— E porque você não quis… ah, me deixe adivinhar. Sirius?
Harry franziu. Se aquele não era Sirius… com quem Remus estava falando? O suspiro do lobisomem foi audível através da fresta.
— Ele me fez prometer que eu deixaria Bervely o mais longe de tudo isso quanto possível.
— O idiota — O seu interlocutor misterioso devolveu, soando ao mesmo tempo consternado e afetuoso.
Um movimento atrás de Harry o fez virar e olhar por cima do ombro; Hermione apareceu no topo das escadas, uma pilha de pergaminhos mal-equilibrada nos braços, uma expressão de quem estava se preparando para lhe dar uma bronca. Harry fez sinal para ela manter silêncio, um dedo sobre os lábios. A garota o olhou feio, mas se aproximou a passos mais leves do que Harry jamais poderia.
— O que você acha que está fazendo? — Ela perguntou apenas movendo os lábios. Harry apontou para dentro do quarto e disse uma palavra só:
— Bervely.
Hermione franziu, mas não tentou impedi-lo. Harry voltou a sua atenção para a fresta a tempo de ouvir a voz do interlocutor de Remus finalizar uma pergunta:
— …não acha que ela poderia ter ido…?
Mais uma vez, ele não terminou a pergunta, mas os dois pareciam saber onde mais Bervely poderia ter ido, sem a necessidade de falar o destino em voz alta.
— Eu não quero cogitar a possibilidade muito mais do que você. Mas onde mais?
Passos atrás deles anunciaram a chegada de mais alguém – Harry e Hermione se viraram a tempo de ver Tonks surgir no início do corredor, ainda em seu uniforme de auror, o rosto corado do esforço de subir as escadas carregando a barriga enorme e uma pilha de caixas-arquivo nos braços.
— Hey, vocês dois! Uma ajudinha aqui, se não se importam?
Hermione lançou seu Olhar Feio para Harry e empurrou seus pergaminhos em cima dele, indo ajudar Tonks com as caixas. Harry equilibrou sua carga nos braços e olhou para a porta, a tempo de ver Remus aparecer sob o umbral.
— Achei que vocês estavam demorando — ele disse, a expressão de quem agora entendia o porquê. — Entrem, precisamos preparar a reunião. Dora, você trouxe os… ah, ótimo. Andem, andem.
Harry entrou primeiro, procurando com olhos ávidos pela sala atrás de quem Remus estava falando, mas tudo o que ele viu foi um espelho redondo flutuando no ar perto da mesa, mais ou menos na altura do rosto de um homem adulto sentado. Havia um homem no espelho, mas não era Sirius, e sim a versão mais jovem e pálida dele. Harry reconheceu Regulus Black, mas tentou não demonstrar; ainda estava usando a aparência de Dino Thomas e não achava que os dois já teriam sido apresentados.
— Regulus, esse é o Dino — Remus informou, ao voltar para a sala de reunião. — O nosso mais recente recruta. — Dino, esse é Regulus Black.
— Sr. Black — Harry comprimentou, em sua melhor expressão de neutralidade educada no rosto modificado por polissuco.
— Sr. Thomas — Regulus devolveu, seus olhos fendados, de pálidas pupilas azuis, deslizando dele para Hermione, que vinha entrando com todas as caixas de Tonks nos braços. — Hermione?
— Oi, Regulus — ela disse, sem olhá-lo duas vezes, passando pelo espelho para depositar sua carga sobre a mesa. — Como vai tudo?
— Sob controle.
— E Almofadinhas? — Ela perguntou, provavelmente para o benefício de Harry. A pergunta fez Regulus sorrir e ao mesmo tempo provocou um vinco em sua testa.
— Impaciente. Intratável. O de sempre.
— Mande as nossas lembranças para ele — ela pediu, sorrindo para Harry por detrás do espelho. Harry fez um esforço para fingir que estava confuso com aquela conversa, o que não foi muito difícil, visto que ele nunca tinha sabido que Hermione e o irmão de Sirius se tratavam por primeiros nomes.
— Farei isso — Regulus disse e se voltou para Remus novamente. — Remus? Sobre o que estávamos conversando…
— Eu aviso se descobrir mais alguma coisa — Remus prometeu, o peso de sua culpa ainda mal disfarçado na voz. Regulus assentiu.
— Farei o mesmo. Se puder perguntar–
Mas antes que o vampiro pudesse completar o seu raciocínio, mais passos do lado de fora anunciaram que alguém mais vinha chegando para a reunião.
— Melhor você ir — Remus advertiu Regulus. Com um aceno de despedida, o reflexo do vampiro desapareceu do espelho, que se tornou escuro, como se o seu duplo tivesse sido coberto, onde quer que se encontrasse. Remus recuperou o espelho flutuante do ar e o guardou dentro do bolso da sua jaqueta de tweed.
— Regulus também está na Ordem? — Harry perguntou, tomando o lugar ao lado de Hermione. Sem interromper a sua tarefa– abrir os diversos pergaminhos que trouxera do andar de baixo e colocá-los em ordem sobre a mesa, ela assentiu.
— Sim, desde que ele voltou para Gomorra. Mas ele nunca fica para as reuniões. Remus acha que nem todos os membros da Ordem acreditariam que ele mudou mesmo de lado depois da sua, uh, morte. Ele tem me ajudado com a pesquisa — Hermione completou, ao ver a expressão curiosa de Harry e adivinhar a sua próxima pergunta — Desde que Remus recuperou o espelho de duas vias das coisas de Bervely em Hogwarts, Regulus tem me ajudado a desvendar a coisa toda com os dementadores.
“A coisa toda com os dementadores” era um dos muitos tópicos que Hermione estava pesquisando para a Ordem, segundo Harry descobrira nas últimas semanas. Ele ficara surpreso em saber que a prisão de Austin Neveu tinha sido, em parte, causada por Hermione – enquanto ela investigava os dementadores, Hermione tinha cruzado com o nome de Neveu, que tinha feito o mesmo tipo de pesquisa durante a primeira guerra, e tinha informado a sua descoberta para Tonks. A auror, por sua vez, descobrira que Neveu tinha se exilado na França por todos aqueles anos, mas retornara recentemente à Inglaterra– mais ou menos na mesma época em que Voldemort tinha planejado e sucedido em seu levante a Azkaban, tomando o controle dos dementadores.
Tonks conseguira localizar Neveu e arrancar uma confissão dele– e acabara descobrindo que Voldemort o obrigara a colaborar com o seu plano de controlar as criaturas das trevas. Se Neveu tinha sido vítima de uma maldição Imperius ou sido convencido por outros meios, eles ainda não sabiam– e enquanto isso, Hermione estava tentando descobrir como Neveu tinha ensinado Voldemort a controlar os dementadores– algo que também não viera à tona em sua confissão.
Os passos do lado de fora se revelaram pertencer a aproximadamente metade da família Weasley– incluindo Arthur, Gui, e os gêmeos em seus paletós berrantes idênticos, listrados de roxo e verde brilhante, com a logomarca das Gemialidades Weasley estampada no peito – e Rony.
Rony acenou animado para eles e veio se sentar perto de Harry.
— Achei que vocês já estariam aqui. Como vai tudo?
Harry deu de ombros.
— Na mesma.
— O mesmo lá em casa. Mione?
— Ronald — Hermione disse seca, sem olhar na direção dele por mais de um par de segundos. Ela em seguida se ergueu da cadeira, como se acometida por uma necessidade urgente de recuperar algo nas prateleiras abarrotadas do fundo da sala.
Rony franziu num semblante de dor, como se a reação fria de Hermione fosse o equivalente a um chute em sua canela.
— Ela nunca vai me perdoar, vai?
Harry não se pronunciou. O pecado de Rony tinha sido anunciar que voltaria para a Toca, quando Hogwarts suspendera as aulas há três semanas. Ele tinha convidado Hermione e Harry para irem com ele, é claro. Mas Harry não podia; ele tinha prometido a Dumbledore que ficaria em Hogwarts, e a mudança de Dino Thomas para a casa dos Weasley poderia chamar atenção desnecessária ao seu disfarce. E Hermione… Harry não ficara surpreso em saber que Hermione tinha decidido ficar. A desculpa oficial da garota era a Ordem (“Remus precisa de mim aqui”), mas Harry tinha a impressão de que ela ficara por ele, Harry.
E talvez ela tivesse esperado que Rony ficaria por ela, mas isso não aconteceu. Rony tinha escolhido a família, e Harry não podia culpar o amigo– mas secretamente, havia uma parte dele que estava apoiando Hermione em seu ressentimento.
Os demais membros da Ordem – ao menos aqueles confortáveis em compartilhar a sua identidade para os demais, e que portanto compareciam às reuniões regularmente, foram chegando e preenchendo as demais cadeiras ao redor da mesa oval da sala.
Kim Shacklebolt, Hestia Jones, Olho-Tonto Moody, Stanislau Shumpike (que segundo Harry aprendera na reunião anterior, assumira a condução do noitibus Andante e vinha usando o seu novo posto para investigar para a Ordem)... A última a chegar foi Tonks, claramente retornando da cozinha, uma xícara de chá fumegando em uma mão, a outra esfregando a barriga proeminente sob o uniforme esticado.
Ela se sentou do lado de Remus e se inclinou para esfregar a mão dele – esbarrando na própria xícara no processo e fazendo o chá quente se derramar sobre o mapa que Hermione acabara de trazer dos fundos da sala. O líquido rapidamente encharcou a Escócia e começou a dissolver Everdeen e arredores.
— Ops. Hermione, eu sinto–
— Não se preocupe — Com um movimento distraído de sua mão, Hermione fez o chá voltar para a xícara e os pontos no mapa retornarem ao seu perfeito estado.
— Estamos esperando mais alguém, Remus? — Moody rosnou à porta, fazendo a menção de fechá-la.
Havia uma cadeira vazia ao lado de Kim. Os olhos do lobisomem flutuaram até lá, mas ele negou.
— Não, suponho que não estamos.
— Snape — Hermione murmurou ao lado de Harry, que assentiu, tendo chegado à mesma conclusão por si próprio.
Aquela era a terceira reunião da qual Harry participava como membro oficial da Ordem – ou melhor, Dino participava. Após tê-lo encontrado na Floresta Negra no dia do seu “velório” em Hogwarts, Remus oferecera a Harry a oportunidade de se alistar– usando a desculpa de que Dino já era maior de idade. Harry, que achava que a proposta de Remus tinha como motivação ou piedade, ou um desejo de ficar de olho nele, não pensou duas vezes em aceitar; ou ele fazia alguma coisa para ajudar, ou ficaria louco em breve, assombrando os corredores de uma Hogwarts cada vez mais deserta de moradores e atividades.
Logo ficou claro que Remus não pretendia enviá-lo em uma missão de campo tão cedo, mas Harry não estava reclamando. Pesquisar com Hermione, como nos velhos tempos (ou quase– visto que Rony só aparecia para as reuniões), e ficar por dentro do que estava acontecendo no mundo mágico, ocupava o seu tempo. Todas as notícias depressivas e esmagadoras incluídas.
A mais recente sendo o não-oficialmente declarado desaparecimento de Severus Snape. A cadeira vazia do seu professor mais odiado ao mesmo tempo que irritava, intrigava Harry. Estaria Remus omitindo o que sabia para Regulus, ao dizer que não poderia dizer onde Severus estava? E porque Severus teria dito a Bervely para não ir atrás dele em nenhuma hipótese, quando os dois sempre tinham parecido a Harry tão aliados como uma cobra e sua pele?
— Hermione — Remus chamou, quando todos se acomodaram, as portas e janelas tinham sido magicamente seladas, e os feitiços de proteção contra espionagem tinham sido reativados a contento. — Qual a primeira pauta de hoje, se não se importa?
Hermione se curvou eficientemente sobre um dos seus muitos pergaminhos espalhados pela mesa e espiou as próprias anotações caprichadas.
— Os vampiros domésticos que… ah, sim, continuam desaparecendo das casas bruxas que os abrigam, ocasionalmente atacando bruxos que tentam impedi-los, independente de seus status de sangue. Houve mais dois casos no jornal essa semana.
Ela produziu dois recortes do Profeta diário cuidadosamente etiquetados, à guisa de ilustração.
Ao lado de Harry, Rony esfregou o pescoço em remanescência. O vampiro que vivia em seu sótão, Harry se lembrou, tinha-no atacado no verão anterior. O ataque a Rony havia sido um dos primeiros casos do que agora pareciam dezenas através do país.
— Lapsos — Nymphadora corrigiu, e diante de alguns olhares confusos, explicou: — É como eles são chamados pelo Departamento de Criaturas. São vampiros cuja transformação falhou. Eles ficam abobalhados, perdem toda a noção de si mesmo e só funcionam num nível muito básico, obedecendo às necessidades como comer e dormir. Normalmente não são perigosos… exceto desde que esses ataques começaram.
— Já descobrimos como eles estão fazendo isso? — Héstia interpelou, se voltando para Tonks. — Não tem nada que aquele Neveu possa lhe dizer? Ele sabia sobre os dementadores, não pode estar por trás desses Lapsos também?
— O DELM não acha que Neveu esteve por trás do comportamento incomum dos Lapsos — Tonks disse. — Afinal ele foi preso há semanas e continuamos vendo ataques acontecerem. Se foi algo que ele começou, alguém mais está dando continuidade…
— Isso não significa que ele não saiba de nada — Gui interpelou. — Os ataques dos dementadores também não pararam desde que Neveu foi preso.
— Isso é diferente. Os dementadores estão obviamente fora de controle, atacando para se reproduzir, não organizados como antes. E, eles certamente não estão desaparecendo.
Harry sentiu Hermione se contrtair ao lado dele; ela tinha tomado para si a responsabilidade de descobrir como conter os dementadores, visto que tinha sido por sua “culpa” que Voldemort perdera o controle das criaturas com a prisão de Neveu. Desde que Neveu tinha sido retirado de circulação, os dementadores não tinham dizimado nenhuma outra vila como fizera à St. Sensille e Godrics Hollow, mas estavam reproduzindo e se espalhando através do país com velocidade preocupante, causando tanto, ou talvez mais caos, do que antes.
Sem chegar à uma conclusão sobre o assunto, eles seguiram para a segunda pauta (Neville Longbottom e o uso de sua imagem para propaganda ministerial), e à terceira (atividades suspeitas na Travessa do Tranco, que sugeriam que os comensais da morte tinham um novo– ou recém-recuperado- pocionista a seu serviço), e a quarta (novos ataques à membros do governo bruxo que defendiam os direitos dos meio-sangue, e uma coincidente onda de demissões que sugeria ação comensal dentro nos altos níveis de recursos humanos do Ministério)…
Harry acompanhou as discussões intervindo o mínimo possível, pois prometera a Remus que não chamaria atenção para si mesmo durante as reuniões– mas absorvendo todos os detalhes que podia. A cada reunião da Ordem ele precisava combater a crescente e velha conhecida sensação de impotência, que continuava tão presente quanto estivera antes do seu alistamento. Exceto que agora ele tinha muito mais informação para mantê-lo acordado, rolando no seu saco de dormir, quando a noite chegava.
*
— Ao que você acha que Remus estava se referindo, quando sugeriu a Regulus que Bervely poderia ter ido… — Harry fez um gesto vago no ar, para indicar o vácuo da conversa.
A reunião havia chegado ao fim, e ele e Hermione estavam recolhendo os documentos recém-utilizados– mapas anotados, recortes de jornal, planos e notas detalhadas de uma ou outra questão, fotos de comensais da morte conhecidos e desaparecimentos recentes– enrolando-os ou encaixotando-os de novo e empilhando-os nas prateleiras tortas detrás da mesa.
A maioria dos membros da Ordem já tinham ido embora, exceto pelos Weasley mais velhos – Arthur e Gui – que discutiam algo em sussurro com Remus perto da porta.
Hermione olhou para eles antes de responder, no mesmo tom baixo que Harry usara.
— A mãe dela, eu suponho.
— Bella–Bellatrix? — Harry corrigiu o tom de voz, baixo mas ainda ultrajado. — Por que ela faria isso?
Hermione deu de ombros.
— Eu não disse que eu concordo, só disse que acho que era o que eles queriam dizer. Você não?
A opção tinha ocorrido a Harry, mas ele a descartou quase imediatamente. Bervely tinha deixado Hogwarts de forma suspeita, no meio da noite e sem muita justificativa, era verdade– mas ela também tinha deixado para trás instruções suficientes para que eles pudessem reproduzir não só a sua versão melhorada da poção Polissuco, para que Harry pudesse continuar usando o disfarce de Dino Thomas, mas também a receita da sua adaptação da Poção Mata-Cão, que permitia que Tonks sobrevivesse às luas cheias enquanto o seu bebê se transformava dentro da barriga.
Harry, que tinha passado tempo o suficiente com Bervely nas masmorras naquele ano para saber que nada no mundo era mais importante para ela do que Anne e Sirius, não conseguia conciliar o que ele sabia de Bervely com a ideia de que a jovem passara para o outro lado só porque Remus tinha lhe negado entrada na Ordem da Fênix.
Ele disse isso a Hermione, mas a garota só deu de ombros outra vez.
— Nós sabemos que ela herdou a impulsividade de Sirius. Talvez tenha se arrependido, mas era tarde demais para voltar atrás.
Harry balançou a cabeça, teimoso.
— Se ela estivesse com Voldemort, ele já saberia… uh, sobre você-sabe-o-quê.
Hermione ergueu os olhos para ele com alguma comicidade.
— “Você-sabe-o-quê“? É como você está se referindo a sua situação, agora?
— Não enche, Mione.
— É melhor do que “a minha morte”. Estou feliz que passamos dessa fase.
Harry estava pronto para argumentar que não tinham passado, não, mas Rony, que tinha saído com Fred e Jorge e estivera até então esperando pelo pai e irmão mais velho no corredor, voltou para a sala e parou ao lado deles.
— Mione, você tem um minuto?
Qualquer sombra de sorriso sumiu do rosto de Hermione, como se tivesse sido lavado com sabão. Ela olhou para Rony, muito séria.
— O que você quer?
O rosto de Rony atingiu o tom exato da pena de farosutil com que Hermione tinha feito as anotações em código da reunião– um profundo vermelho-consternado.
— Só… uma palavra.
— Isso já foram três palavras.
— Eu vou esperar lá embaixo — Harry anunciou, sem estômago para fazer audiência para mais uma das não-discussões dos amigos. Aquela dança vinha acontecendo depois de cada reunião– Rony tentava convidar Hermione para passar o fim de semana na Toca, ou o que fosse– e Harry tinha que lidar com a os seus sentimentos contraditórios quando ela se recusava a ir com Rony (“muito ocupada com a Ordem”)– uma parte dele sentida pelo amigo, a outra egoisticamente satisfeita de que Hermione não iria passar tempo com os Weasley e deixá-lo para trás.
O que o tornava, definitivamente, uma pessoa horrível. Remoendo o pensamento e a onda de auto-aversão que o acompanhava, Harry desceu as escadas até o primeiro patamar da Casa dos Gritos– e virou à esquerda, encontrando o armário sob a escada. Uma vez dentro do minúsculo e escuro quartinho, Harry puxou a varinha do bolso e apontou para a parede oposta à porta:
— Ario.
A parede se dissolveu, dando acesso a um segundo lance de escadas. O primeiro degrau ficava ao nível do chão e os demais se desenrolavam para baixo, até o subsolo. Ou, como Hermione gostava de chamar quando estava de bom humor, a sua “central de pesquisas”.
O cômodo tinha o mesmo tamanho do andar superior, mas sem nenhuma de suas divisões– era, ao invés disso, um amplo salão sem janelas, de teto baixo e luz esparsa, cuja mobília consistia em uma mesa de madeira similar àquela da sala de reuniões (Harry suspeitava de uma duplicata) e uma cama de solteiro de alvenaria, anexada à parede oposta. As quatro paredes tinham como forro lâminas de um material que, à primeira vista, Harry pensara ser metal, mas logo descobrira ser prata. O subsolo tratava-se de uma caixa de prata capaz de conter a fera que, ocasionalmente, passava as noites ali, em luas cheias nas quais não tinha a chance de beber a poção mata-cão.
Mas no momento a sala abrigava a mesa, e a mesa estava soterrada em pilhas de livros, anotações, pergaminhos, mapas e instrumentos de pesquisa de todo tipo, a maioria contrabandeado de Hogwarts. Do outro lado, um massivo espelho de corpo inteiro fora apoiado contra a parede, se recusando a refletir o aposento; ao invés disso, preferira guardar o reflexo do último lugar em que estivera: a sala de estudo da casa dos pais de Harry em Godric 's Hollow.
A parede que o espelho deveria estar refletindo, por sua vez, fora transformada em um gigantesco mural de notas, coberto da caligrafia apertada de Hermione, e ocasionalmente, da rebuscada de Remus, que Harry reconheceu de suas aulas do terceiro ano.
Uma das notas em evidência na parede, escrita em letras graúdas, continham os sete versos da Canção de Morgana, como Harry a ouvira pela primeira vez no feriado de Natal, pela voz de sua mãe, na memória recuperada por Anne em seu quarto de infância. Harry não se demorou nos versos; ultimamente, pensar na Canção apenas o irritava.
A terceira e quarta peças de mobília– se é que podiam ser considerados assim– era um par de caldeirões– um de zinco e um de aço, cada um apoiado em um suporte de ferro, de forma que o conteúdo em seu interior era aquecido por chamas controladas logo abaixo. Ambos os caldeirões tinham sido trazidos do laboratório de Bervely nas masmorras de Hogwarts – Harry reconheceu as iniciais B.B. carvadas perto da base, na caligrafia dramática de Bervely. Ao lado dos caldeirões, organizados numa pilha mais modesta sobre a cama, estavam os livros de notas de poções que Bervely deixara para trás, destinados especificamente à Hermione, cheio de cuidadosas notas.
Por que Bervely teria se preocupado em proteger o bebê de Tonks, à própria Tonks e o disfarce de Harry, se pretendia se aliar ao Lorde das Trevas?
Hermione voltou pouco depois, sozinha e de cara feia, batendo a porta atrás de si com um pouco mais de violência do que o necessário. Ela passou direto por Harry e foi verificar o andamento de ambas as poções, que estava produzindo à risca seguindo as instruções que Bervely deixara.
— Vai estar pronta em alguns dias, eu acho — disse Hermione, o cenho franzido. — O quanto de polissuco você ainda tem?
Harry não precisou checar a garrafinha em seu bolso para saber.
— O suficiente. Não se preocupe comigo, Mione. O que Rony queria?
Ela soltou um grande e longo bufo que o lembrou Bichento, em seus momentos mais irritados.
— Notícias. Suas, minhas. De Gina.
Gina, ao contrário do irmão, tinha decidido ficar em Hogwarts. Por que razão, era um mistério para Harry– mas não um no topo da sua lista de urgências, se ele estava sendo sincero.
— Só isso?
Os lábios de Hermione se crisparam ainda mais.
— E porque eu não volto para a Toca com ele.
Silêncio. Harry mudou o peso de uma perna para a outra, desconfortável.
— E por quê você não volta? Você não precisa ficar aqui o tempo todo.
— É mais fácil desse jeito — Ela disse, se mantendo ocupada em checar as notas da poção, ajeitando o caldeirão sobre o suporte, fazendo um feitiço complexo que Harry sabia servir para verificar a temperatura do líquido borbulhando no caldeirão da esquerda.
— Você sabe que não precisa ficar aqui por minha causa, não sabe?
Ela dessa vez olhou atravessado na direção dele.
— Quem disse que eu estou ficando aqui por sua causa?
Harry ergueu as sobrancelhas, os braços cruzados, cético. Hermione rolou os olhos para longe dele de novo, e deixou escapar um suspiro de rendição.
— Você precisa de mim mais do que Rony, no momento. Se ele não entende isso, não tenho mais nada para dizer para ele. Não foi ao velório dele que nós fomos, há três semanas.
Harry não discutiu com o argumento. Ele estava imensamente grato por ter Hermione por perto. Ele teria preferido ter Rony também, mas ele supunha que se ele, Harry, tivesse uma família, ia querer ficar perto dela quando o mundo estivesse se acabando.
Uma vez satisfeita com a evolução de ambas as poções, Hermione foi para a mesa de trabalho e puxou uma cadeira, começando a fazer notas furiosas sobre um pergaminho, se esquecendo momentaneamente da existência dele.
Por detrás dela, as anotações na parede-tornada-quadro de anotações captaram a atenção de Harry novamente. Ao redor da Canção de Morgana havia uma explosão de anotações em letras miúdas. Aquele era outro dos projetos de Hermione – ela estava decidida a entender a Canção– especialmente, o que o Esconderijo poderia ser. Harry supunha que ele também devia estar, mas ultimamente, Harry estava mais pendurado em outro verso.
Eu dei ao meu amor um passarinho, que em sua cabeça fez um ninho.
Harry dividira com Hermione a teoria de Anne sobre aquele verso– de que Anne era o passarinho, e que ninho era uma metáfora para a capacidade dela de acessar a mente de Harry–e fazer a sua oclumência por ele. E de que essa conexão entre eles estava ligada ao que eles sentiam um pelo outro. Hermione desenhara uma seta ligando a palavra “Anne?” à passarinho, e entre parênteses“compulsão amorosa?”.
E então Hermione mencionara qualquer coisa sobre uma lenda antiga envolvendo Morgana LeFay e Arthur Pendragon, seu meio-irmão e rei da Bretanha. A lenda contava que eles tinham sido magicamente manipulados a se deitarem juntos e produzir um herdeiro. O herdeiro em questão, uma criança profetizada para unir os saxões e os bretões, assim salvando a magia pagã da perseguição católica. Hermione apontara a semelhança da situação– historiadores mágicos acreditavam que a profecia sobre o herdeiro seria responsável pela compulsão mágica não-natural entre Morgana e seu meio-irmão, forçando-os a torná-la realidade, e historiadores se dividiam entre aqueles que defendiam amor verdadeiro entre Morgana LeFay e Arthur, e aqueles que acreditavam que eles tinham sido manipulados.
A história não ajudara em nada a diminuir a sensação de amargo descontentamento no peito de Harry. No espaço em que ele tinha aberto para Anne ocupar, ela deixara ácido borbulhante, após a sua partida sorrateira para Avalon.
— Você está fazendo aquela cara.
Harry piscou para fora de seus pensamentos e encontrou o rosto franzido de Hermione, ainda debruçada sobre uma pilha de notas, a pena no ar.
— Que cara?
— A sua cara de Anne-Me-Abandonou.
— Eu não tenho uma–
— Peça para Remus mandar uma mensagem para ela, Harry. Você o ouviu, ele tem algum meio de comunicação com Avalon.
— E o que é que eu diria? — Ele devolveu com irritação. — Nada mudou desde que ela foi embora! Ainda estamos involuntariamente conectados por uma canção mágica escrita há um milênio que quer que a gente faça–uh, conexões mentais significativas.
Hermione franziu os lábios, sem argumentos. Harry sentiu a acumulação da agonia em suas pernas, a palpitação dolorosa em seu peito implorando para que ele se movesse, para que fosse gastar aquela energia destrutiva antes que começasse a quebrar coisas ao redor deles.
— Vou voltar ao castelo — Harry anunciou, se pondo de pé. Hermione, que voltara às anotações furiosas, fez uma careta para o pergaminho.
— Por que não passa a noite aqui? Remus tem um quarto perfeitamente–
— Boa noite, Mione.
Harry agarrou a capa da invisibilidade jogada na cama e se cobriu com ela, desaparecendo.
— Tome cuidado — Ela disse num tom vencido, quando a porta se abriu e depois de alguns segundos, se fechou como se tivesse vida própria.
Harry passou pela sala sem se deter, ignorando Remus e Tonks abraçados no sofá, falando aos sussurros. Eles também mal notaram quando Harry passou, invisível, em direção ao alçapão na sala de estar.
Harry deslizou silenciosamente túnel adentro, aliviado em ser engolido pelo escuro, o qual atravessou sem precisar acender a varinha– àquela altura, já tinha as suas voltas e reviravoltas guardadas na memória muscular de suas pernas.
Dentro do bolso esquerdo, a carta que Anne tinha lhe deixado à guisa de despedida ainda ocupava espaço, uma lembrança física constante de que nada que ele pudesse lhe dizer a faria mudar de ideia.
Harry também tinha as palavras da carta de Anne queimadas em sua memória, depois de relê-la algumas dezenas de vezes, nos dias seguintes à sua partida.
Você tem a sua missão, Harry, e eu tenho a minha. E no final de tudo isso, quando nos encontrarmos de novo, eu quero estar pronta para fazer a minha parte. Eu o conheço o suficiente para saber que vai querer fazer a sua, também.
“Quando nos encontrarmos de novo”, Harry pensou com amargura. A ironia era que eles ainda se “encontravam”, toda noite. Ou ao menos, Harry se encontrava com Anne, em seus sonhos.
Se ela estava mesmo lhe visitando, ou se tudo era uma produção de sua mente, Harry não podia dizer. De manhã, ele nunca se lembrava exatamente o que eles tinham conversado, só do olhar desolado de Anne, e do fato de que ele nunca parecia capaz de segurá-la em seus braços.
*
Veritaserum estava pronta, e Bervely estava muito orgulhosa de si mesma.
Orgulho. Uma palavra estranha à situação, visto para quem ela tinha produzido a poção da verdade em tempo record.
O baú com os ingredientes necessários para realizar aquele pequeno milagre tinha chegado logo após a sua chegada – ou melhor, retorno — à Blackburn Hall. Não tinha vindo com um bilhete com instruções, o que ela desconfiava que era um teste em si mesmo. O Lorde das Trevas pretendera testar o seu conhecimento em poções, ao enviá-la a combinação de ingredientes e deixá-la adivinhar o que deveria produzir com eles. Pedra da lua, língua de víbora, feijões suporíferos e penas de Dedo-Duro– o que mais ela poderia ter feito com aquela combinação específica de ingredientes? Qualquer idiota com o mínimo de conhecimento em poções avançada saberia.
Para cumprir o desejo do Lorde das Trevas, Bellatrix lhe deu acesso ao sótão de Blackburn Hall– um dos poucos lugares que, quando pequena, Bervely não tinha triangulado em suas perambulações infinitas pela casa assombrada. O sótão vinha servindo de repósitório para diversas gerações de artefatos que a família Lestrange preferira colocar fora de vista ao longo dos séculos – candelabros empodeirados, espelhos manchados, quadros de familiares traidores, tapeçarias corroídas por traça-de-fogo, baús cheios de pertences de esposas falecidas, e até uma estátua decaptada de Igrantes Lestrange, o infame inventor do uísque Blackburn. Agora, o espaço de janelas empoeiradas também se tornara laboratório de poções improvisado de Bervely, a serviço do Lorde das Trevas.
Não que Bervely estivesse reclamando. Os seus primeiros dias de volta à Blackburn Hall poderiam ser piores do que longas horas debruçada sobre um caldeirão, produzindo uma poção proibida e perigosa para um bruxo cruel e sem escrúpulos. Isso e a eventual refeição em família em um dos salões de refeições da casa.
Com um profundo suspiro de exasperação, Bervely decidiu que não podia mais adiar um passeio para fora do porão. Veritaserum estava pronta, e o próximo passo requeria que ela fosse enterrada antes do nascer do sol.
Bervely engarrafou o líquido turvo e o selou com uma rolha enfeitiçada, guardando-o no bolso de sua capa negra. Então ela a vestiu – por cima das vestes negras de botões que tinham vindo de Hogwarts com ela – e, considerando o quão ventoso parecia lá fora, se o sacudir intenso do trigo-de-fogo que ela via pela janela era testemunha – agarrou o cachecol de tartan cinza jogado sobre uma antiga poltrona, e o enrolou em torno do pescoço.
Com um pensamento tão intenso que era quase uma oração, Bervely desejou encontrar o caminho livre até os jardins da mansão. Via de regra, ela preferia ficar fora do caminho dos demais habitantes.
Blackburn era, afinal, assombrada; infelizmente, não por fantasmas. Bervely não tinha problemas com fantasmas– mas ela execrar o arrepio constante que fazia vida na base de seu estômago, toda vez que ela andava pelos corredores lusco-fusco de Blackburn, o chão rangendo sob os pés, a impressão irreparável de que estava sendo seguida, observada, medida e espreitada por alguma coisa escondida nas sombras.
E então, havia as vozes que a casa carregava — sussurros dos habitantes, trazidos por correntes de ar impossíveis — e ocasionalmente, sussurros de gente que Bervely sabia que já não estava viva há muito tempo.
Bervely se enrijeceu ao atravessar o corredor principal do segundo andar, os dentes apertados, uma mão firme em torno de sua varinha. Ela não se atrevia a acender um lumus e irritar os quadros desagradáveis dos antepassados Lestrange, ou chamar a atenção dos elfos da casa, que sempre pareciam estar em seus calcanhares.
“…a sua teimosia irá matá-la, sabe disso, não sabe?”
Bervely parou. Ela ouvia os sussurros, mas raramente compreendia o que diziam. Aquela voz fora clara, e familiar. Era um dos homens da casa– Rodolphus ou Rabastan, não tinha certeza.
“Eu não posso– oh, por favor, Rab, eu preciso de mais tempo.”
Rabastan, então. E a resposta, chorosa e carregada, fora de Charlotte. Beverly se orientou, tentando descobrir de onde as vozes vinham. Poderia ser do quarto de Charlotte no fim do corredor, ou de Rabastan do lado oposto, ou outro, mas era difícil definir porque a casa distorcia e ecoava os sons em suas estruturas ocas, brincando com eles, jogando-os aqui e ali como num jogo de pique-pega nefasto.
“O seu tempo está acabando, Charlotte. Não me force a tomar uma providência-”
“Não! Rab por favor, eu vou resolver, eu juro que vou–”
Bervely saltou ao sentir alguma coisa passar por cima do seu pé– pelo ruído raspado de muitas pernas no carpete, uma aranha, das muitas que Blackburn abrigava. A criatura correu na direção oposta que viera, até se tornar inaudível. Bervely soltou a respiração que tinha prendido. Ela tinha conseguido não emitir um som de surpresa, mas o mesmo não se podia dizer do assoalho, que resmungara sob o seu movimento súbito.
Antes que Bervely pudesse alcançar a escada e sumir do corredor, Rabastan surgiu por uma porta, tão subitamente que ele podia ter aparatado sob o umbral.
— O que pensa que está fazendo? — Ele exigiu, num tom tão opressivo quanto o que usara com Charlotte a um par de segundos. Bervely parou no topo da escada e ergueu o queixo na direção dele. Havia pouca luz no corredor, a maioria vindo da janela alta na extremidade oposta, por detrás da qual brilhava uma esquálida lua crescente.
Bervely só conseguia divisar a magreza rígida de Rabastan, como a lâmina de uma faca.
— Passando — Bervely disse, fazendo questão de fazer a voz soar tão firme quanto a de Charlotte soara aterrorizada. Não daria a Rabastan o gosto do seu medo.
— Então devia passar sem escutar a conversa alheia, Black. Para o seu próprio bem — ele acrescentou, a mão casualmente no bolso das vestes, onde a sua varinha devia estar.
Bervely franziu, mesmo sabendo que ele não pudesse ver a expressão em seu rosto.
— Se não quiser ser ouvido fazendo ameaças de morte à sua futura esposa, talvez não devesse fazê-las, para começo de conversa. Sabe que essa casa tem ouvidos e bocas.
A linha do queixo de Rabastan se retesou, o antebraço da mão que ele colocara no bolso se contraiu. O que ele pretendia, atacá-la? Oblivá-la? Bervely se preparou para se defender de qualquer uma dessas coisas, os seus próprios dedos se fechando em torno da sua varinha. A voz de chorosa de Charlotte soou de dentro do quarto do qual Rabastan tinha brotado:
— Rab? Quem está aí com você?
Ele respondeu sem desprender os olhos de Bervely.
— Ninguém importante. Vá descansar, Charlotte.
— Eu estou com tanto frio. Será que você pode–
— Vá descansar, Charlotte… — Rosnou o comensal da morte, voltando-se para dentro do quarto.
Bervely aproveitou a deixa para exercitar a sua suposta liberdade de ir e vir, e quando o comensal olhou de novo para o ponto onde ela estivera, ela já tinha feito um favor a si mesma e se dissolvido nas sombras da casa, tomando a direção das escadas para o andar de baixo.
Bervely deslizou para a noite gelada de Lancaster com o coração pulsando em sua garganta. Rabastan Lestrange era um dos motivos pelos quais Bervely preferia passar a maior parte do seu tempo dentro do sótão naquelas últimas semanas. O comensal da morte, com seus olhos mortos e voz rasgada e silêncios ocos, lhe causava constante inquietação. Ela nem podia começar a compreender como Charlotte podia cogitar se casar com alguém como ele.
Mas então, talvez ela estivesse começando a se arrepender, se o medo que Bervely ouvira em sua voz era algum indício.
Não é da sua conta, Bervely lembrou a si mesma.
Aquele vinha sendo o seu mantra desde que ela retornara. Bellatrix tinha passado a noite fora de casa e voltou deixando um rastro de sangue à sua passagem? Não era da sua conta. Rodolphus tinha aparatado no saguão carregando um pacote que parecia do tamanho e peso exato de um corpo humano? Não era da sua conta. Charlotte estava recebendo ameaças de morte do seu futuro marido?
Certamente não era da sua conta.
Nisso, Rabastan Lestrange estava certo. Ela não ia se envolver nos assuntos daquela família de psicopatas. Não era para isso que ela estava ali. Ponto.
Com a respiração mais estável, Bervely ignorou os jardins bem podados dos terrenos frontais da mansão e ao invés disso virou à direita, na direção das plantações de trigo-de-fogo. Mais adiante, um vasto descampado se desenrolava colina abaixo, a grama nua sob a luz fraca do luar, o vento assobiando em sua liberdade e zombando do fato de que era fim de primavera, e a temperatura não dava indícios de aumentar tão cedo.
Bervely ajeitou o cachecol em torno do pescoço e escolheu um ponto de referência na vastidão descampada – uma pedra larga e lisa que poderia ter sido um patamar, ou observatório ou até as ruínas de um gazebo, mas que agora não passava de um detalhe sem importância na paisagem. Ia servir para o seu propósito.
Ao chegar perto do local, ela escolheu um ponto de terra plana e se ajoelhou no chão para cavar, com a ajuda de um feitiço de remoção de terra. Parou quando conseguiu um buraco de cerca de meio metro de profundidade, por uns quinze centímetros de largura. Com cuidado, tirou o frasquinho de veritaserum do bolso e o colocou dentro da terra. Pensou em usar magia para enterrar a poção, mas decidiu usar as mãos– o contato com a terra úmida, recém-removida, acalmaria os seus nervos.
Mesmo concentrada em seu trabalho, Bervely sentiu o cheiro metálico no ar antes mesmo de a rosa anunciar a presença. Ela ergueu o rosto bem a tempo de ver Bellatrix aparecer em seu campo de visão – montada num cavalo negro que era só couro e osso, o pelo reluzindo sob a tênue luz da noite, no mesmo tom do cabelo de sua cavaleira. O par se aproximou com lentidão o suficiente para dar tempo a Bervely de achatar a área que cavara, selar o perímetro com um feitiço de imperturbabilidade e se levantar, limpando as mãos imundas nas vestes.
— O quê, em nome de todas as estrelas, você está fazendo, cavando buracos na terra à essa hora da noite?
— Servindo o Lorde das Trevas — Bervely disse, sem olhar na direção de Bellatrix ou do animal que ela montava. Aquele cavalo horrendo, que Bellatrix parecia ter trazido dos confins do inferno, lhe dava arrepios.
— Quando milorde me pede para enterrar alguma coisa, normalmente preciso de buracos bem maiores.
Humor de comensal da morte. Bervely lutou contra uma vontade quase irresistível de rolar os olhos e ao invés disso esperou, calada. Bellatrix nunca se dirigia a ela a não ser quando queria alguma coisa.
— Você deve se aprontar, o Lorde das Trevas nos fará uma visita essa noite.
Dessa vez, Bervely precisou de toda a sua força de vontade para não torcer o rosto em profundo desconforto.
— De novo? Ele deve gostar muito da comida Lestrange.
— Não seja insolente — Bellatrix a admoestou. — Lave bem essa terra de suas unhas e não me apareça para jantar com milorde nestas vestes horrorosas.
Às vezes, Bellatrix soava exatamente como Narcissa Malfoy. E ali estava um pensamento com o qual Bervely nem sabia como começar a lidar.
— Sim, senhora — ela suspirou. Certas batalhas chez Lestrange não valiam a pena.
Bellatrix sorriu. Era ao mesmo tempo a expressão que Bervely mais esperava ver em seu rosto e a que mais retorcia as suas entranhas.
— Boa garota — Bellatrix espetou a barriga do cavalo com a espora no fundo de suas botas e usou as rédeas para mover o animal na direção da casa. Ela esperou até captar o olhar de Bervely para completar, o sorriso corrosivo ainda em seu rosto: — Papai Sirius ficaria orgulhoso.
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