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Capítulo 58. Amnesia





Harry se certificou que estava sozinho no banheiro feminino do segundo andar antes de apontar a varinha para a torneira com a pequena cobra prateada e ordenar: abra. O tubo largo que fazia as vezes de entrada para o subsolo secreto do castelo se abriu e Harry se lançou para a queda livre, com acostumado abandono.

Harry se certificou de que estava sozinho no banheiro feminino do segundo andar antes de apontar a varinha para a torneira com a pequena cobra prateada e ordenar: abra. O tubo largo que fazia as vezes de entrada para o subsolo secreto do castelo se abriu e Harry se lançou para a queda livre, com acostumado abandono.

Lá embaixo, os ossinhos estalaram sob os seus pés quando ele caiu sobre o que ele considerava o hall de entrada da câmara secreta. O mesmo som sussurrado escapou de seus lábios, Harry passou pela segunda porta, alcançando o antigo habitat do finado basilisco e, mais recentemente, os seus aposentos privados em Hogwarts.

Harry teria gostado de continuar ocupando a cama de Dino Thomas na Torre da Grifinória, mas logo tinha ficado claro, com o fechamento de Hogwarts e a partida de Bervely da escola, que o plano não seria o mais sensato. Bervely tinha deixado alguma poção Polissuco pronta — o suficiente para algumas semanas de disfarce ,— mas até Hermione conseguir reproduzir a receita com sucesso, Harry precisava economizar o que lhe restava da poção. Além disso, os ingredientes da polissuco — e muitos outros — estavam ficando escassos no mercado por conta da guerra bruxa. No fim, fingir que Dino Thomas decidira deixar o castelo com a maioria dos demais alunos nos dias que se seguiram a suspensão das aulas foi a decisao mais sensata- então restara a Harry recolher as suas coisas e, quando os demais colegas estavam entrando em carruagens ou usando a lareira para voltar para casa, fazer o caminho ate o único lugar do castelo que ele podia ter certeza que era o único habitante atual a ter acesso.

A câmara, com sua constante umidade cavernal, iluminação quase inexistente e os ossos do basilisco como decoração, não era dos esconderijos mais aconchegantes. Harry havia arrumado uma espécie de acampamento numa reentrância da caverna e feito ali a sua morada. Ao espaço ele incluíra meia dúzia de velas flutuantes roubadas do salão principal, um cobertor de veludo vermelho e algumas almofadas, trazidos respectivamente do dormitório e do salão comunal da Grifinória, o seu malão fazendo as vezes de mesa, e a sua firebolt, que Harry tinha pendurado cuidadosamente na parede à guisa de decoração.

Era ali que ele tinha passado a maior parte das últimas semanas, quando não estava em reuniões da Ordem, ignorando os convites de Remus e Hermione para que ele ficasse na Casa dos Gritos. Alguma parte de Harry ainda se agarrava a Hogwarts e a sua promessa à Dumbledore — e aos alunos que tinham decidido ficar. Não era porque eles achavam que Harry estava morto que Harry pretendia abandoná-los. Hogwarts era onde Dumbledore lhe mandara esperar, e Harry não via sentido em seguir a sua ordem pela metade — por mais que a sua preocupação com a ausência de notícias só aumentasse.

Ao menos ali embaixo, Harry não precisava usar a poção Polissuco o tempo inteiro. Ele tinha sentido o efeito passar no seu caminho de volta para Hogwarts, sob a capa da invisibilidade, e o fato de que não precisaria tomar outro gole até o dia seguinte era uma pequena bênção à qual ele estava disposto a se agarrar.

Harry se embrenhou em seu acampamento improvisado na reentrância da parede, recuperou uma pêra que afanara da mesa de café da manhã no salão principal em uma de suas rondas invisíveis, e puxou o livro da vez — Defensiva Avançada Contra Criaturas das Trevas. Harry escaneou o menu até encontrar “Vampiros”, subcategoria “Lapsos”, página 678. Localizada a página, apoiou o livro aberto sobre o malão de forma que a vela iluminasse ambas as páginas, e mal tinha começado a ler a primeira frase quando foi interrompido.

— A que pontos chegamos na degradação post-mortem do Garoto Que Desistiu. Lamentável.

Harry saltou, sua pêra rolando para um lado, o pesado livro caindo sobre o seu pé, o seu cocoruto encontrando o topo da caverna com um baque doloroso. Os olhos lacrimejando, ele apontou a varinha na direção da voz, tentando ver através do lusco-fusco da câmara.

— Quem está aí? — Ele exigiu, o coração na boca, enfim vendo uma sombra pequena se mover nas proximidades da entrada, por detrás da imponente ossatura das costelas do basilisco. — Hominus revelio!

Astoria Greengrass surgiu em sua linha de visão, as mãos erguidas no alto, as palmas brancas viradas para ele e uma expressão de quem estava sentindo um cheiro ruim sob o nariz.

— Wow — Os olhos dela pousaram no cadáver do basilisco, ainda caído onde Harry o deixara, há três anos. A maior parte da carne da criatura tinha ido embora, devorada por ratos. Os ossos estavam expostos, redondos e enormes como fora a criatura em vida. A cabeça do basilisco, voltada para a entrada, era a única parte quase intacta, exceto pelos buracos onde os olhos tinham estado, antes de Fawkes perfurá-los.

Astória encarou a forma decrepita e monstruosa do basilisco por tanto tempo que deu a Harry a chance de se aproximar dela, a varinha ainda apontada em sua direção, furioso.

— Como entrou aqui?!

— Esse era o…

— Basilisco, sim! Como você chegou aqui?

— Então é verdade? Foi você quem o matou?

Havia indignação no tom dela, misturada com admiração. A única coisa que Harry não estava ouvindo era o mínimo de senso de autopreservação, visto que a varinha dele estava apontada na sua direção.

— Pobre criatura — suspirou Astória.

— Essa pobre criatura estava petrificando estudantes, caso você não se lembre!

Astória se voltou para ele de novo, as sobrancelhas arqueadas como quem identificou um erro de cálculo fundamental.

— Não, eu não me lembro. Isso foi antes de eu entrar em Hogwarts, cabeçudo.

Harry respirou fundo, buscando paciência em suas reservas. Passar tanto tempo sozinho vinha tornando tolerância com outros seres humanos um tanto escassa, especialmente os que invadiam seu esconderijo sem serem convidados.

— Bem, agora você sabe. Agora se não se importa, como diabos você me seguiu até aqui?

— Eu adivinhei que você não teria deixado a escola — Astória respondeu, num tom de obviedade arrogante, refinado para fazer o seu interlocutor se sentir idiota por perguntar. — Então estive procurando pistas de sua permanência pelo castelo, perguntando aos habitantes mais perceptivos por qualquer coisa que pudesse denunciar você. Por fim, Murta me deu a informação de que eu precisava.

— Que informação? — Harry exigiu, contrariado. Ele tinha sido especialmente cuidadoso em não deixar Murta vê-lo sem a capa, sabendo do pendor da fantasma para fofoca. E ele sempre tentava garantir que ela não estava gemendo nos arredores antes de abrir a passagem da câmara.

— Ela me contou que o banheiro dela está sendo assombrado por outro fantasma. Um ainda fresco, que não se materializou por completo. E eu pensei– quem mais poderia ser, senão alguém recentemente morto e com assuntos seriamente inacabados? — Astória sorriu, muito feliz consigo mesma pela sua esperteza. — Eu tenho feito espreita no banheiro sempre que posso, esperando para flagrar você. O que ashsuhahsah significa, aliás? É ofidioglossia, não é?

Harry fez outra careta. A garota era esperta. Até demais para o seu próprio bem. Ou para o dele.

— Significa abra — Harry disse, de má vontade. Astória sorriu como se confirmasse as suas suspeitas.

— Fascinante. Como você aprendeu–

— Astória — Harry a interrompeu, abaixando a varinha ao decidir que ela não era uma ameaça imediata, mas ainda impaciente com a sua emboscada. — Por que você veio atrás de mim? O que você quer?

A pergunta pareceu surpreendê-la. Astória piscou um par de vezes, considerando. Que ela não tinha consciência dos seus motivos durante aquelas semanas de busca deixou Harry abismado.

— Eu sei lá. As coisas andam meio entediantes desde que as aulas foram canceladas, e a minha mente precisa de estímulo constante.

O que era, Harry decidiu, a desculpa mais esfarrapada para perseguir alguém que ele já vira na vida… mas também algo que ele teria feito, se fosse admitir, só pelo prazer de descobrir um segredo.

Harry pensou em pressioná-la, mas desistiu ao observar Astoria varrer a câmara com os olhos curiosos e deslumbrados de alguém incapaz de entender o horror que ele tinha vivido ali embaixo, em seu segundo ano. Ela só via o que os olhos podiam alcançar — a grandiosidade da câmara e da criatura cujos ossos jaziam lá dentro, e provavelmente o quão patético Harry devia parecer, tendo apenas o cadáver do basilisco como companhia.

— Mas já que eu estou aqui — Astoria disse por fim, após absorver os detalhes visíveis do lugar, e conseguir reorganizar os pensamentos — Eu queria mesmo dizer algo a você.

— Bem? — Harry perguntou, mais incisivo do que gostaria. Mas o seu tom não deteve Astoria.

— Você estava certo. Encorajar Neville a se tornar o novo Escolhido no seu lugar foi uma idiotice. Eu não esperava que o Ministério fosse levar ele embora. Não tenho notícias dele há semanas. Ele pode muito bem já estar morto, já ter sido encontrado por Você-Sabe-Quem, e o Ministério estar escondendo a morte dele como fez com a sua…

A voz dela, que começara soando tão firme e arrogante, quebrou num tremor que prenunciava lágrimas. A percepção fez Harry se compadecer.

— Não se preocupe, Neville está bem. Ao menos por enquanto.

Ela olhou para ele com tanta esperança que os olhos negros pareceram brilhar à semelhança das velas atrás de Harry.

— Como você sabe? Ele escreveu para você?

— Não posso dizer como sei. Vai ter que confiar em mim.

Astoria deixou os ombros caírem e apertou os olhos com a ponta dos dedos, como se as lágrimas não derramadas fossem uma irritação que ela pudesse desligar como um botão.

— Eu confio — ela disse por fim.

Harry estava ciente de que não merecia aquela confiança. Ele lembrava de ter prometido à Astoria que a escola não seria fechada, e no final não tivera muito a fazer a respeito. Até o fato de que o castelo ainda podia acolher os alunos que não estavam seguros em voltar para casa não era mérito dele — pois aquela fora a condição de Neville para aceitar ser treinado pelo Ministério.

Harry ajustou a capa negra da impotência que pesava em seus ombros e se concentrou em outras perguntas.

— Astória, por que você não voltou para casa com os outros?

Ela deu um sorriso triste.

— Eu fugi de casa no verão, esqueceu?

— Mas os seus pais certamente esperam que você volte para casa, num tempo como esse? Quero dizer, se você está em perigo…

— No que concerne aos meus pais, eles não precisam mais me proteger. Além do mais, em casa não é seguro — Astoria fez uma pausa, parecendo considerar se Harry era digno da próxima informação — Daphne, minha irmã mais velha, desapareceu. Ninguém sabe o que aconteceu com ela.

— Eu sinto muito — disse Harry, que não tinha visto o nome da garota na lista de desaparecidos recitada por Hermione nas reuniões da Ordem. — Você acha que ela pode ter se envolvido com comensais?

— Talvez. Ela seria estúpida a esse ponto. Ela teria querido seguir os passos de Olga — Astoria deu um suspiro pesado e balançou a cabeça. — Eu não quero falar da minha família fodida, Potter. O que há com você, qual é o plano?

Harry piscou, tentando seguir a mudança abrupta de assunto.

— Não tem plano nenhum. Só estou… esperando.

— A sua segunda morte chegar? — Ela sugeriu com um sorrisinho.

— A minha hora de agir — ele disse. Não tinha pretensão de dividir os seus segredos com Astoria Greengrass. Ele não tinha motivos para desconfiar que ela estivesse do lado deles, àquela altura, mas o fato de que ela o tinha descoberto e seguido até a câmara ainda o irritava.

A garota assentiu, pensativa.

— Desde que Nev foi embora, as reuniões da Armada tem sido um tanto inúteis. E para ser sincera, as suas eram mais úteis do que as dele. Você devia gastar esse seu tempo vago ensinando algo de útil para o resto de nós, ao invés de ficar aqui embaixo, roendo os ossos do basilisco.

Harry riu pelo nariz. Aquilo era tudo o que ele mais queria. E absolutamente fora do seu alcance.

— E o quê você sugere, que eu dê as caras em uma reunião da Armada e anuncie que a minha morte foi de brincadeirinha?

— Talvez haja outro jeito, um que não estrague o seu disfarce — ela cogitou, seus olhos correndo através do longo cadáver do basilisco. — Algum jeito de dar instrução remota, ou…

— Fantasmagórica? — Harry disse com sarcasmo, lembrando-se da teoria de Murta de que ele era um novo fantasma assombrando o seu banheiro.

Astoria olhou para ele com aquela expressão de bingo.

— É isso, Potter! Tudo o que precisamos é do seu fantasma!

Harry não estava com paciência para aquilo.

— Caso não tenha percebido, Astória, eu ainda estou vivo.

Astoria fez um gesto no ar, como quem estapeia uma mosca irritante. Naquele caso, a mosca devia ser a suposta falta de imaginação de Harry.

— Esse não é o único jeito de assombrar o castelo, o que aliás você já vem fazendo com bastante proficiência. Você não teria, por acaso, um jeito de ficar invisível?

Ela estava encarando a capa da invisibilidade empilhada aos pés do malão. Astória Greengrass definitivamente era esperta demais para o seu próprio bem.

Mas Harry não estava mais irritado com ela. Ele sentiu, como não sentia há muito tempo, o comichão de excitação fazendo cócegas na base das suas entranhas.

— Espero que tenha um bom nome para a sua assombração, porque O Escolhido já perdeu o apelo faz tempo.

Apesar das palavras carregadas de sarcasmo, Astória também sorria.

*

— Monstro! — Bervely chamou, no minuto em que a porta da estufa se fechou as suas costas.

As mãos dela ainda estavam tremendo. E os dentes. E alguma coisa dentro dela, que ela achava que podia ser a sua alma.

Papai Sirius ficaria orgulhoso.

Havia um motivo pelo qual ela não podia enfrentar um jantar na companhia do Lorde das Trevas com certas memórias em sua cabeça. Se Bellatrix era capaz de empurrá-la fora dos eixos com apenas um comentário, o que o Lorde das Trevas faria, se tivesse acesso às suas memórias mais preciosas?

Monstro estalou para a existência perto do pé da longa mesa de trabalho no centro da estufa e fez uma reverência profunda, o narigão raspando na terra batida sob os seus pés.

— Como Monstro pode ajudar a senhorita Black?

— A poção que eu deixei em sua posse. Você a tem com você?

Monstro produziu o frasquinho de poção branco-leitosa das dobras de suas vestes imundas.

— Monstro fez como minha senhorita pediu, tem carregado com ele para o caso de minha senhorita precisar com urgência.

Bervely recebeu Amnésia das mãos nodosas do elfo, as suas ainda tremendo.

— Minha senhorita está se sentindo bem?

Ela respirou fundo, buscando um autocontrole que não tinha certeza se ainda existia. A amostra que Severus lhe deixara estava acabando, visto que ela precisara tomá-la outras vezes desde que chegara em Blackburn– em duas outras ocasiões, Voldemort tinha aparecido para o jantar de domingo na Casa Lestrange.

Pelos seus cálculos, aquela seria a última vez que ela conseguiria absorver três doses inteiras, o suficiente para se livrar das três memórias que ele jamais poderia acessar.

Bervely se voltou ao elfo:

— Se lembra do que conversamos? Do que fazer, quando eu lhe entregar os três frascos?

Monstro assentiu, ansioso para agradar.

— Monstro deve guardar os frascos em um lugar secreto até mesmo da própria Srta. Black e só trazê-los de volta quando ela estiver sozinha, não parecer sob o efeito de nenhuma poção ou feitiço que afete a sua capacidade de julgamento.

Convencida de que Monstro tinha as instruções certas, Bervely destampou Amnésia e a colocou sob o nariz, enchendo os pulmões das espirais leitosas nas quais o líquido se tornava em contato com o ar. Para cada expiração prateada, Bervely se livrou de uma memória completa, a qual encerrou em cada um dos três frasquinhos autosselantes que trouxera consigo.

Potter, Sirius, Regulus.

Cada memória dispensada era uma ferroada aguda atrás de seus olhos, seguida de um desorientador vazio existencial. A coisa toda durava poucos segundos, nos quais ela assistiu Monstro receber as memórias e enfiá-las nas vestes.

A última inspiração, mais superficial, ela usou para se esquecer da própria Amnésia, como ditavam as instruções de Severus. Isso garantia que Voldemort, usando Legilimência, não saberia que havia algo a ser recuperado, ,e mais importante, sobre a própria existência da poção. Antes de expirar pela última vez, ela arrolhou e entregou o frasquinho de Amnésia – agora quase vazio a não ser por uma linha fina de poção em seu fundo – de volta para Monstro.

Quando Bervely terminou de expirar, Monstro já não estava mais lá. Bervely encarou o vazio onde ele estivera por longos segundos, confusa. O que ela estava fazendo ali…?

O jantar. Ela precisava limpar a terra sob as unhas e colocar as vestes apropriadas que Bellatrix separara para ela.

Bervely deu meia-volta e deixou a estufa para trás, a ausência de suas memórias tornando os seus passos muito mais leves.

— Bella me informa que o seu casamento já tem data marcada, Rabastan?

O tom do Lorde das Trevas veio carregado de zombaria. Se Rabastan percebeu, não deixou transparecer em suas feições, que permaneceram apáticas como de costume.

— No fim de maio, milorde.

— Se a noiva sobreviver até lá — comentou Bellatrix zombeteira, por cima de sua taça de Beaujolais.

O comentário fez Bervely erguer o rosto. Até então, ela vinha mantendo os olhos fixos em seu prato e a boca bem fechada. Parecia ser a melhor política para um evento sem intercorrências naquela casa– além do mais, Bervely estava indiretamente mantendo um olho na cobra sob a mesa.

Voldemort gostava de trazer Nagini, sua serpente devoradora de carne humana, para os jantares de domingo. Bervely não simpatizava com o animal, que gostava de deslizar por debaixo da mesa com indolência, o raspar de seu corpo contra o assoalho ascendendo os nervos de Bervely em pura agonia.

— Ora, Bella, não seja maldosa — Voldemort devolveu, os próprios olhos vermelhos cintilando de malícia. — Tenho certeza de que Rabastan está fazendo arranjos para que a saúde de sua noiva seja restaurada a tempo para a cerimônia.

Bervely se lembrou da conversa que entreouvira mais cedo. Você não tem muito tempo, Chalotte. Não tinha lhe parecido que Rabastan estava cuidando de Charlotte. E o que Bellatriz queria dizer, se ela sobrevivesse?

Charlotte não tinha comparecido a esse jantar ou aos outros. Não que o lorde das trevas fosse admitir a presença de um aborto à mesa, mas a verdade era que Bervely não tinha visto muito de Charlotte no resto do tempo, nas semanas desde o seu retorno a Blackburn. Charlotte parecia passar a maior parte do tempo em seus aposentos e pela primeira vez, Bervely supôs que era porque ela não estava em condições de andar pela casa.

— Não são como os da nossa raça, esse tipo abortado — Bella deu de ombros, denotando um fato tão inevitável quanto aborrecido. — Coisinha frágil e quebradiça. Mas então, Rab nunca teve um dedo muito bom para esposas.

Uma animosidade tempestuosa atravessou o espaço entre Bellatrix e o cunhado, reforçando a impressão de Bervely de que Bellatrix não era a pessoa preferida de Rabastan. Pensando no último cunhado que tinha antagonizado com Bellatrix e nas marcas de dente que ela supostamente deixara em sua carne, um sorriso espontâneo brotou em seu rosto. Antes que ela pudesse se livrar da expressão, Voldemort ergueu os olhos para ela, reconhecendo sua presença pela primeira vez desde que tinham se sentado à mesa.

Bervely — O jeito com que ele dizia seu nome, como algo que ele poderia consumir e cuspir os ossos fora, não falhava em fazer seu estômago se revirar. Os olhos fendados se pregaram nela e Bervely se aprumou, forçando o sorriso educado no rosto.

— Milorde.

Bellatrix, sentada do lado direito de Voldemort, lançou sobre ela uma advertência silenciosa e perfurante. Se comporte. Como se Bervely tivesse exibido senão o seu melhor comportamento, em presença do lorde das trevas até então. — Voldemort continuou — Tem-se adaptado bem em Lancaster? Bellatrix tem lhe fornecido tudo de que precisa para realizar os meus desejos?

Realizar os meus desejos. Voldemort certamente tinha um jeito especial de fazê-la se sentir suja. Bervely lutou contra o pensamento, forçando o sorriso a não azedar.

— Tenho tudo de que preciso, milorde.

Voldemort se demorou nela, e Bervely se manteve imóvel, como se ela fosse uma das pinturas da casa, posando para escrutínio e julgamento. Se ele estava tentando ler a sua mente, estava sendo muito sutil, porque dessa vez ela não sentiu a dor pungente da legilimência perfurar os confins de sua cabeça.

— Você deve saber que espero resultados o quanto antes.

Ela assentiu, a mão tão apertada em torno do garfo que os dedos ardiam.

— Você os terá, milorde.

Voldemort perdeu o interesse nela depois disso, e Bervely tentou se distrair da conversa deles– algo sobre o subsecretário de algum departamento do Ministério não estar colaborando com alguma coisa e precisar de “incentivo” – e baixou os olhos de volta às suas ostras. Não estava com fome. De fato, ela parecia ter deixado o seu apetite em Hogwarts, junto com o seu juízo e qualquer senso de autopreservação que lhe restava.

Nagini escolheu aquele momento para deslizar ao lado de sua cadeira. Bervely travou os dentes, assistindo ao enorme corpo roliço da cobra undular sob os seus pés. O que ela não daria para deixar aquela mesa e voltar ao sótão, aos caldeirões, à solidão das coisas esquecidas no andar de cima? Mas aqueles jantares seguiam um ritual que não devia ser interrompido pelo seu desconforto. Primeiro eles bebiam aperitivos na sala de visitas, conversando amenidades, depois vinham para a mesa e consumiam os cinco cursos de uma refeição servida por elfos invisíveis, e então havia o passeio nos jardins– entre Voldemort e Bellatrix, isso era. Rodolphus e Rabastan voltavam à sala de visitas para fumar alguma espécie de charuto de fumaça azulada e ela enfim podia voltar ao sótão, de onde observava as silhuetas de Voldemort e Bellatrix deslizarem pelos terrenos de Blackburn. Voldemort branco e alto, a pele de sua cabeça nua iridescente sob a luz da lua, e Bellatrix, um ponto escuro, o cabelo de seda negra ondulando com os seus passos, engolindo a luz.

A banalidade daqueles jantares era o que mais perturbava Bervely. O carpaccio de entrada não era acompanhado pela tortura de traidores do sangue, e nenhuma carne assada de nascido-trouxas era servida como prato principal. Se não fosse pela massiva cobra comedora de gente fazendo a ronda pela sala, eles quase pareceriam uma família sangue-puro qualquer, entretendo um convidado de honra com o qual tinham certa proximidade. Família. Se a garganta de Bervely já estava apertada, ela se trancou por completo com o pensamento.

A sobremesa foi servida, e Bervely ficou aliviada em saber que a tortura estava quase no fim. A sua cabeça pulsava, uma sensação que ela já tinha sentido antes e que tinha a ver com aqueles jantares, porque costumava passar quando ela voltava à sua estufa.

Os elfos invisíveis fizeram os últimos resquícios da refeição sumir, e Bervely se certificou de que Nagini não estava nos arredores de seus pés antes de se levantar.

— Bervely — Voldemort chamou, a voz distorcida sobressaltando-a. — Se importa em tomar o lugar de sua mãe essa noite?

Bervely olhou para Bellatrix a tempo de ver a confusão cruzar o seu rosto. A comensal já estava se posicionando ao lado de seu mestre, pronta para lhe dar o braço a fim de tomarem seu caminho para o lado de fora.

— Eu… — Ela começou, formulando uma resposta que não fosse causar uma crise. Bellatrix dissolveu sua expressão de surpresa e a substituiu por uma de aviso: não ouse recusar um pedido do lorde das trevas. Bervely engoliu o nó de desgosto em sua garganta. — É claro, milorde.

Voldemort lhe ofereceu o seu braço, coberto, como o resto dele, em vestes de aparência cara e antiquada, do tipo que os bruxos usavam há uns cinquenta anos.

Bervely aceitou o braço, sentindo o tecido rico sob os dedos. Sob o pano, a dureza era mais de osso do que de carne.

Voldemort a conduziu para os jardins sob os olhares e silêncios do resto da casa, o de Bellatrix o mais cortante entre todos.

Ventava mais nas colinas de Lancaster do que nas planícies da Escócia. Aquela era, portanto, uma noite atípica – o vento dera trégua e o ar estava estagnado, quase como se vítima de um feitiço anticinético. Atrás da casa, o trigo de fogo brotava em toda ferocidade, o cheiro terroso e ligeiramente carbonizado das plantas em crescimento os alcançando mesmo ali, nos jardins frontais da mansão.

Jardins era uma formalidade, pois a palavra não refletia a desolação do lugar. Os arbustos de Blackburn eram formas ressequidas, mantidas pelos elfos a grande custo– com a exceção do trigo de fogo, pouca coisa crescia com facilidade naquelas colinas. Os arbustos formavam uma espécie de labirinto, no qual Bervely preferia não ter que se embrenhar de braços dados com o Lorde das Trevas.

Felizmente, ele os conduziu para a esquerda, na direção descampada na qual Bervely enterrara Veritasserum mais cedo, e de onde podiam ver o contorno suave das colinas se perdendo na noite.

Sobre eles, um céu sem estrelas com uma tímida lua crescente se escondendo atrás de nuvens esgarçadas. Nagini os seguia com um ruído de trituração sobre a grama seca. Bervely tentou ignorar o som e a visão periférica da cobra deslizando na escuridão, cobiçando a pele exposta de sua nuca.

— A minha poção, Bervely, como está avançando?

— Está pronta, milorde, mas precisa maturar no escuro até a lua cheia. Mais uma semana e estará completa.

— Quando estiver, entregue-a a Bellatrix e ela a levará até mim.

— Sim, milorde.

Bervely não ousou perguntar a Voldemort o que ele faria com a poção da verdade que ela estava preparando. No caso improvável de que ele lhe contasse, ela preferia não saber.

— E então, eu terei outra missão para você.

Bervely assentiu, ocupada em manter a expressão neutra e a respiração sob controle. Ela não estava em perigo imediato. Voldemort não era uma ameaça à sua integridade física, não enquanto ela fosse colaborativa. Nagini não ia se enrolar em torno do seu corpo e sufocá-la até a morte, e então devorar a carne macia de suas entranhas e cuspir fora o que restasse dos seus ossos triturados.

Do canto do olho, Bervely viu o sorriso torcido que erguia o canto da boca sem lábios do lorde das Trevas. Aparentemente algo o divertía.

— Você deve saber que Nagini aprecia a sua companhia — ele disse, com um leve tom de sarcasmo no sibilo que era sua voz. — E hoje à noite, ela não está especialmente com fome.

Bervely, ligeiramente humilhada, não respondeu. Ela respirou fundo, discretamente ajustando a postura. As costas retas, o queixo erguido, o olhar fixo no caminho à sua frente. Ela imaginou se, de alguma janela de Blackburn, Bellatrix os estaria espiando, duas sombras na noite, braços dados, uma branca, a outra negra.

— Você sabe por que eu permiti que Bellatrix deixasse você voltar à Hogwarts, depois do nosso resgate a Azkaban? — Voldemort perguntou, num tom de quem tinha uma pequena curiosidade a ser saciada. Nada demais. Só uma conversa casual entre mestre e serva.

— Para a minha “primeira missão”? Mas ela nunca me disse que missão era essa.

— Não. Bella gosta de deixar as pessoas adivinhando. Um hábito irritante, não acha?

Bervely hesitou. Ela era suposta a concordar? Ou deveria demonstrar lealdade para com Bellatrix? Mas Voldemort não tardou a preencher o silêncio, algo que ela estava descobrindo que ele tinha tendência a fazer.

— A primeira missão de todo comensal da morte é se apresentar aos meus serviços. O que você fez, é claro, na noite em que me procurou para interceder pelo seu primo.

Aquela era uma leitura bem distorcida da situação, mas Bervely não verbalizou a sua discordância. Distorcer a verdade parecia ser um dos jogos preferidos do Lorde das Trevas, e ela, sozinha com ele na noite, preferia tê-lo em bom estado de espírito.

— Eu expliquei a Bella que naquela ocasião você teria pouco uso para mim. Quebrada pelo seu tempo em Azkaban, o seu treinamento ainda incompleto e sem uma motivação para me dar o seu melhor. Tempo sempre esteve na raiz da questão, como frequentemente é o caso. A sua mãe é impaciente… ela a queria antes. No minuto em que eu tirei Bella de Azkaban pela primeira vez, ela queria que eu clamasse os seus serviços. Mas como eu poderia? Você não estava pronta o suficiente para mim em nenhuma dessas ocasiões.

Bervely não disse nada. Ela não fazia ideia de por que Voldemort estava lhe dizendo aquilo tudo de novo. Ele já tinha despejado uma versão dos seus motivos na noite em que Bervely o procurara. Era quase como se ele quisesse… assegurá-la do seu lugar ali. Da sua pretensa competência para serví-lo. Da sua prontidão.

Estranho.

— Você deve estar sentindo falta do seu padrinho — Voldemort continuou naquele tom de conversa, mas dessa vez o comentário fez Bervely parar. Ela ergueu o rosto para a face ofídica do Lorde das Trevas, sem conseguir esconder a sua fome por notícias de Severus.

— Onde ele está?

Voldemort sorriu. A expressão acentuava a inaturalidade dos seus olhos de cobra, a ausência de lábios e a estranheza de seus dentes miúdos e afiados. Bervely teve a impressão de ver o contorno de uma língua bifurcada no interior escuro de sua boca, e desviou o olhar rápido.

— Não importa. Você deve seguir as recomendações que ele lhe deu e não procurá-lo. Se continar sendo uma boa garota, e se a poção que está produzindo para mim se provar boa, pode ser que eu retribua o favor com as notícias que almeja.

O coração de Bervely deu um giro doloroso no peito. Isso significava que Severus estava bem? E que a razão da sua retirada de Hogwarts era, como ela temia, para realizar algum serviço ao Lorde das Trevas?

Ela segurou as perguntas, sabendo que não obteria as respostas agora. Não antes de provar a sua competência.

— Você tem notícias do jovem senhor Malfoy, Bervely? — Voldemort perguntou, alguns passos mais tarde.

Bervely não respondeu, embora o aperto de ansiedade tivesse se intensificado à menção do primo.

— Eu entendo que Draco completará a maior idade em breve — Continuou Voldemort, indiferente à tensão de Bervely, ou ao seu silêncio. — Bem a tempo do baile anual do Sagrado Vinte e Oito, no qual ele é esperado a se apresentar oficialmente como chefe da família Malfoy.

Bervely se contraiu com aquela nova onda de preocupação.

— Draco não vai à festa nenhuma. O nosso acordo…

Voldemort fez um sinal de descaso, a sua mão pálida e aracnídea cortando a escuridão. De novo, aquele sorriso afiado e animalesco no rosto, que parecia mais fome do que divertimento, desfigurando a sua face.

— Pouco me importa qual versão do jovem Malfoy comparecerá ao baile. As alianças políticas que a família Malfoy pode assegurar para a nossa causa são valiosas demais para que ele não o faça. Severus me diz que você tem algum talento em metamorfomagia?

Bervely compreendeu o que ele estava insinuando.

— Eu disse que não faria missões de campo.

— Você disse que não mataria ou torturaria em meu nome. O que exijo é que represente o seu primo num evento puro-sangue, senhorita Black. Quando veio até mim e me pediu para tomar o lugar do senhor Malfoy, o que achou que isso incluiria, senão tomar o lugar de Draco?

E ali estava, a armadilha que ela mesma tinha montado para si mesma. Bervely entendeu que se não aceitasse, Voldemort teria a desculpa perfeita para arrancar Draco de Hogwarts e fazê-lo cumprir as suas obrigações de herdeiro. E depois daquela, viriam outras. E nem todas seriam para danças e socialização numa festa puro-sangue.

— Muito bem — ela assentiu, mal reconhecendo a própria voz. — Farei o que quer. Comparecerei como Draco ao bendito baile.

— Boa garota — Voldemort apreciou, os olhos vermelhos cintilando de satisfação. Ele mudou o curso de sua caminhada e Beverly, que ainda estava de braços dados com ele, não teve opção senão segui-lo. — Melhor eu devolver você para sua mãe. Não queremos deixar Bellatrix com ciúmes da nossa recém-adquirida… proximidade.

Bervely conseguiu segurar o pouco que havia em seu estômago até chegar em casa. À porta de Blackburn, Bellatrix os aguardava– os olhos negros cintilando como adagas à visão de seu mestre e filha de braços dados, caminhando tranquilamente em sua direção.

Ao menos aquela noite, Voldemort era o único que parecia estar se divertindo.

— Você deve tomar as suas memórias de volta, minha senhorita. Por favor, Monstro implora! Minha senhorita fez Monstro prometer que não se passaria mais de três dias antes de você tomá-las de volta.

— Não antes que eu consiga fazer mais da poção, elfo. Me deixe em paz.

Monstro não ficou satisfeito com a sua resposta, mas então, nem estava Bervely. Monstro tinha lhe explicado o que os três frasquinhos continham– memórias que ela não queria que Voldemort visse. Ela não fazia ideia do que as memórias continham, encerradas dentro dos frasquinhos, mas deveriam ser perigosas, se queria deixá-las fora do alcance do Lorde das Trevas.

— Eu preciso encontrar Severus. Ele passou anos desenvolvendo a poção– mesmo que eu tivesse o que preciso, seria impossível reproduzi-la em duas semanas.

— O que tem em duas semanas, minha senhorita? — Monstro se interessou.

— Um baile. Um maldito, estúpido, desnecessário baile puro-sangue.

No qual ela não se atreveria a aparecer com aquelas memórias em sua cabeça, para o caso de Voldemort também estar planejando fazer uma aparição. E se não fosse ele, os demais… como ter certeza de que poderia se passar por Draco, com memórias perigosas rondando a sua cabeça? E se mais gente na comunidade puro-sangue fosse boa em oclumência? E se alguém colocasse Veriasserum em sua bebida enquanto ela não estivesse olhando?

— Monstro pode conseguir o que minha senhorita precisa para desvendar a poção. Monstro traz aqui tudo de que ela precisa…

Severus, Monstro. Eu preciso de Severus — ela murmurou, enterrando o rosto nas mãos. Aquela pulsação… persistente… infernal… no fundo de sua cabeça. Efeito da ausência de suas memórias ou do seu crescente desespero?

— Monstro pode tentar encontrar o Severus de senhorita Black–

— Não! — Bervely ofegou. A última coisa que ela queria era colocar Severus em perigo porque ela estava em apuros. — Não. Eu vou me virar sozinha. Eu vou descobrir. Me deixe em paz, Monstro. Eu o chamarei de precisar.

Se apenas a sua cabeça parasse de doer por meio minuto, isso era.

Ela puxou um rolo de pergaminho e começou a rabiscar alguns ingredientes importantes para o debridamento do que lhe restava de Amnésia. Não era muito, e ela só teria uma chance. Mesmo que descobrisse a composição da poção, debridamentos não podiam explicar o processo pelo qual a poção era feita. Isso exigia experimentação. Tempo. Concentração. Moedas escassas naquele momento, e a pulsação incessante em sua cabeça não estava ajudando…

Monstro desaparatou com um estalo que a fez apertar os olhos de dor. Ele tinha levado os frasquinhos consigo– bom. Se os deixasse, talvez ela não resistisse à tentação de reabsorver as memórias. A agonia de recuperar aquelas partes dela que faltavam, agora que estava ciente delas, era quase insuportável. O que ela tinha decidido esquecer? O que estava faltando?

Foco, Bervely.

Há uma semana, Bervely tinha entregado o frasquinho de Veritasserum para Bellatrix, para que ela o levasse ao Lorde das Trevas. O seu trabalho devia ter agradado, porque em troca, ele lhe enviara um baú cheio dos pertences de Severus. Bervely os reconheceu, era tudo que o padrinho tinha levado consigo ao deixar Hogwarts. A sua balança de ingredientes, as suas conchas engravadas com S.S., o seu livro de anotações. Ela não sabia o que pensar do “presente” — por que Severus ia querer se desfazer de tudo aquilo? Ele não precisava mais dos seus utensílios de poções? E se não poções, o que estaria fazendo para o Lorde das Trevas?

Ou então, será que ele não precisava mais dos seus pertences porque estava… não. Severus não estava morto. Severus não ousaria estar morto.

Bervely tinha revirado as anotações dele de capa a contracapa, mas sem surpresas, não havia nada sobre Amnésia. Ela não duvidava que ele guardasse o conhecimento de como produzir a poção em um lugar especial bem longe de sua própria cabeça e fora do alcance de Voldemort. Essa era, afinal, a razão pela qual ele se mantivera em seus serviços e nos de Dumbledore por tanto tempo, um cuidadoso sistema de ocultamento de suas memórias contraditórias ao longo dos anos, provavelmente para ambos os seus mestres.

Voldemort também enviara a Bervely os ingredientes para produzir Polissuco– uma poção que ela, a essa altura, podia fazer de olhos fechados. Mas, porquê? Quando, em tempos recentes, ela tinha produzido Polissuco? O pensamento fez com que as pulsações dolorosas em suas têmporas aumentassem. Bervely fechou os olhos, enterrou o rosto nas mãos mais uma vez, brigando com uma onda de náusea.

Quando ela abriu os olhos, alguém estava batendo na porta. A voz abafada e aguda de um elfo chamou seu nome– mas a porta em que a criatura estava batendo não era a da estufa, mas a do seu quarto em Blackburn. Bervely se apressou em sair da estufa, atravessar a porta aberta na parede do quarto e recolher a maçaneta. Só então ela atravessou o quarto com passos largos, a saia longa se enrolando nos tornozelos, e abriu a porta com impaciência:

— O quê?

— Madame Lestrange a aguarda nos seus aposentos sem demora para a prova de vestuário.

Bervely rolou os olhos à guisa de resposta. A elfa lhe ofereceu uma reverência exagerada e um tanto desdenhosa, na opinião de Bervely, e sumiu de vista. Os elfos de Blackburn não eram os seus maiores fãs– ela culpava Charlotte por isso.

Bervely se recompôs, recuando o assunto de Amnésia para o plano de fundo. Não era em seu melhor interesse aparecer na frente de Bellatrix com os nervos a flor da pele, porque Bellatrix nunca perdia a chance de explorar uma presa fácil.

*

— Como está evoluindo a poção Polissuco? — Bellatrix perguntou assim que Bervely entrou na antessala dos seus aposentos. Duas vezes maior do que os que Bervely ocupava, tinha mobília de cedro vermelho e estofados em veludo carmim. A própria Bellatrix estava envolvida em robes da mesma cor, o volumoso cabelo negro arrumado no topo da cabeça num penteado que conseguia parecer ao mesmo tempo elegante e acidental.

— Vai levar mais algum tempo — Bervely disse, investigando o resto do quarto para ter certeza de que Rodolphus não estava presente.

— Ficará pronta a tempo do baile, no entanto?

A pergunta de Bellatrix respondeu outra, que Bervely não tinha se dado ao trabalho de perguntar: o objetivo da poção Polissuco, e a razão pela qual Voldemort enviara entre os ingredientes uma instrução para que Bervely preparasse a poção em um terço do tempo– bem como os ingredientes especiais que a possibilitariam fazê-lo.

— Eu não preciso de Polissuco para me passar por Draco.

— Não é para você — Bellatrix fez um sinal de “não se preocupe com isso” com a mão, indicando que Bervely se aproximasse da área onde ficavam os guarda-roupas e os espelhos. Vestes masculinas de gala flutuavam suspensas no ar– um conjunto elegante de colete, calça de alfaiataria e camisa de seda, todas com intrincados bordados com motivos de serpentes, em linha cor de prata. — O que acha?

Bervely se aproximou para admirar o bordado. Era encantado e se movia suavemente sobre o tecido, acompanhando a luz. — Parece algo que Lucius Malfoy usaria.

— Exato. Uma coisa que não se pode criticar a respeito daquele verme era o seu guarda-roupas.

Bervely, que a cada menção de Lucius pela mãe precisava se segurar para não pedir detalhes sobre a tortura que ela sabia que Bellatrix o infligira após a morte de Narcissa, mordeu a ponta da língua.

Bellatrix a deixou sozinha, sumindo por detrás dos divisores de treliça, e Bervely se desfez de suas próprias vestes, substituindo-as pelas peças de vestuário encomendadas ao herdeiro Malfoy. Cada uma delas folgada e longa demais em seu corpo, as pernas das calças cobrindo os seus pés e as mangas da blusa de seda cobrindo as suas mãos, mas com alguma concentração e monitoramento pelo espelho, Bervely as preencheu com as formas de Draco.

A estrutura magra e ossuda do primo preencheu as vestes com perfeição. Ela observou o reflexo de Draco e decidiu que ele parecia um jovem príncipe triste.

Bellatrix retornou depois de alguns minutos e analisou a metamorfomagia de Bervely com criticismo nas pálpebras pesadas.

— Podia ser pior — ela admitiu, o que era o mais perto de um elogio que Bervely tinha ouvido sair de sua boca em muito tempo. — Mas, porque você o faz parecer doente?

Bervely se voltou para o reflexo. Ela estava certa – o Draco que a olhou de volta, com os círculos de cansaço sob os olhos azuis-acinzentados, o cabelo longo sobre o rosto e uma palidez ainda mais acentuada do que o seu normal, tinha uma aparência convalescente.

— É como ele se parecia, da última vez que o vi — ela explicou, o rosto de Draco se franzindo em um viço, no espelho. — Desde Narcissa…

— Não vai funcionar — Bellatrix a cortou, se aproximando para espiar Bervely mais de perto. — Ele deve parecer saudável e capaz se pretende convencer a sociedade bruxa de que está à altura de assumir a chefia da Casa Malfoy.

Exceto que ele não quer nada disso, Bervely cerrou os olhos, consternada.

— É claro.

Ela trouxe mais cor ao rosto de Draco e mais carne e músculo aos seus ossos. Quando abriu os olhos de novo, o reflexo no espelho era de um jovem que dormia noites completas, se alimentava de forma saudável e praticava exercício com regularidade. Um que não tinha perdido ambos os pais no espaço de três meses.

Melhor — Bellatrix a informou, num tom que indicava que Bervely estivera sendo intransigente um minuto antes com a pura intenção de irritá-la.

Ela passou a analisar os vincos e dobras das vestes, se certificando de que se vincavam e se dobravam nos locais certos, checou o comprimento das mangas da blusa branca de seda e o caimento do colete. O paletó das vestes tinha golas altas, feitas para acentuar o rosto pontudo de Draco, distinta característica dos Malfoy. A gravata fora feita na cor exata dos seus olhos tempestuosos.

Bellatrix estava ajustando a gola sob o queixo de Bervely quando recomeçou a falar, num tom casual de conversa que ela raramente usava com Bervely.

— Não sei se está ciente, mas como madrinha de Draco, eu era suposta a treiná-lo em certas habilidades mágicas importantes para a sua vida adulta.

Bervely, que estava tentando não respirar com as mãos de Bellatrix tão próximas de seu rosto, nada disse.

— A sua interferência e subsequente acobertamento da covardia do seu primo interromperam esse processo — Bellatrix continuou, pousando os olhos sobre ela.

Bervely focou os seus próprios olhos no reflexo daquela interação, através do espelho. A rosa em seu braço não parava de formigar diante da possibilidade de que, diante de um movimento em falso, as peles de Bellatrix e Bervely fariam contato. Se por estar impaciente que acontecesse, ou antecipando o seu desconforto, Bervely não sabia.

— Hum. Acho que ele vai sobreviver à decepção — ela murmurou, só com um décimo da insolência que tinha calculado.

Foi o suficiente para os dedos gelados de Bellatrix se fecharem em cada lado do seu queixo, forçando Bervely a encará-la. Uma chicotada gelada correu pela sua espinha. A rosa se desenrolou como a cauda de um gato irritado. Bervely engoliu um protesto de agonia.

— Esse é o problema. Eu não acho que ele vá. E eu não acho que você vá, tampouco, no lugar dele.

Bervely fez o possível para sustentar o olhar de Bellatrix. Queimava, queimava em seu braço, como ácido, e também em seu peito, em seus pulmões, tornando difícil até mesmo a respiração mais superficial.

— Por que eu não sobreviveria? É só um baile — Bervely conseguiu formular, num tom de voz relativamente neutro e livre de insolência. Ela tinha certeza de que as garras de Bellarix iam deixar marcas em seu queixo.

— Você carece de certas habilidades, Bervely. Narcissa falhou com você, ela a amaciou ao invés de endurecê-la. E então ela a deixou escapar e você atrofiou o seu potencial sob a influência de todos aqueles… traidores e amantes da escória com quem resolveu se amigar— Bellatrix suspirou, contrafeita. Bervely se perguntou se ela era fisicamente incapaz de se referir a Sirius pelo nome. — Mas não se preocupe. O Lorde das Trevas, em sua infinita generosidade, a aceitou de volta, a despeito das suas muitas falhas. Eu, seguindo o seu exemplo, estou disposta a ensiná-la o que precisa saber, preencher as lacunas da pobre educação mágica que teve até aqui.

Bellatrix abriu aquele sorriso borda-de-faca que fazia os seus olhos negros faíscarem. Ela esperou um segundo – para a informação assentar, Bervely supôs – e removeu as garras da sua pele, deixando um ardor pulsante onde tinham se cravado.

Bervely tentou algumas inspirações superficiais, sem querer dar a Bellatrix a satisfação de achar que a tinha afetado com aquele pequeno monólogo. Ela eventualmente localizou a fonte de sua voz:

— O Lorde parece achar que eu estou pronta. Ele me disse na outra noite. Aquela em que ele me levou para passear no jardim em seu lugar, se lembra?

— Milorde é sábio — Bellatrix respondeu com suavidade evasiva, sem morder a isca. — Mas ele não está ciente de todos os aspectos envolvidos em serví-lo de forma competente. Certas coisas…. muitas coisas, eu precisei descobrir sozinha.

Bervely não estava nem um pouco curiosa para descobrir que coisas eram aquelas, mas não lhe parecia um convite do qual ela podia declinar educadamente.



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