Capítulo 59. No Círculo de Pedras
- Ly Anne B.

- 10 de mar. de 2024
- 32 min de leitura
Atualizado: 26 de dez. de 2025
Aviso: Esse capítulo contém cenas de tortura e violência explícita.
A garotinha que Bervely fora teria dado um braço por uma oportunidade de aprender magia com Bellatrix. A Bervely do tempo presente estava… intrigada. Talvez uma das coisas que ela tinha deixado num daqueles frasquinhos fosse o seu senso de auto-preservação, porque não lhe ocorreu temer pela sua segurança diante daquele convite. Lorde Voldemort precisava que ela se passasse por Draco no baile puro-sangue; era de se supor que Bellatrix não pretendesse lhe causar nenhum dano importante até lá.
Por volta das onze horas daquela mesma noite, Bervely checou o andamento da poção polissuco, que estava cozinhando lentamente no caldeirão de zinco no “seu” porão, e mais uma vez ignorou as súplicas de Monstro para que ela recuperasse as memórias presas nos frasquinhos.
“A senhoria fez Monstro prometer… não mais de três dias, minha senhorita, ou coisas horríveis podem–”
Bervely o ignorou com um aceno impaciente de sua cabeça. Não ainda. Alguma coisa na ausência daquelas memórias fazia Bervely se sentir mais firme em suas pernas, mais leve em seu peito. A pulsação dolorosa em sua cabeça, que ela supunha vir do espaço vago que as memórias tinham deixado ao ser retiradas, diminuíra para uma batida surda que ela quase podia ignorar, desde que estivesse concentrada em outras coisas.
Um novo conjunto de vestes selecionadas por Bellatrix esperavam por Bervely em seu quarto. Dessa vez, uma túnica negra feita de um tecido de caimento pesado e textura quase líquida. Bervely a colocou e desceu para o ponto de encontro definido por Bellatrix mais cedo: os estábulos de Blackburn Hall, uma série de três construções abandonadas flanqueando os campos de trigo de fogo. Eles eram usados para a destilação do uísque de fogo, e portanto o local com a maior concentração de elfos nos terrenos de Blackburn.
Nenhum dos elfos estava à vista. Bellatrix aguardava no exterior da terceira construção, a sua silhueta um recorte mais escuro do que a noite, cabelo e capa ondulando ao sabor do vento que voltara a chicotear Lancaster com sua costumeira fúria.
Ao lado dela, o cavalo negro no qual Bervely vira Bellatrix cavalgar algumas vezes durante as últimas semanas. Mordred, era o seu nome. De perto, o animal era tão sombrio como Bervely esperara que um animal de estimação de Bellatrix seria – os olhos completamente negros se perdiam na cabeça escura, o corpo ao mesmo tempo poderoso e esquálido – cada músculo do animal cavado em sua pele, fazendo-o parecer mais pedra do que carne.
— Vamos — Bellatrix fez um sinal para o norte com o queixo, e elas começaram a andar. A comensal trazendo o cavalo pelas rédeas negras, Bervely seguindo o ritmo de seus passos na noite.
Elas caminharam por quase uma hora – ou assim pareceu a Bervely. As diversas perguntas que lhe ocorreram – porque não podiam aparatar, ou porque não estavam cavalgando, e se não estavam calvagando, por que o cavalo precisava vir com elas – foram devidamente mordidas antes de escapar dos seus lábios. Se aquele era algum tipo de teste de resistência, ela não ia dar o braço a torcer tão rápido.
Os campos que atravessam eram indiscerníveis – colinas queimadas e descampadas onde nada crescia a não ser o trigo de fogo que produzia Blackburn. Eventualmente elas começaram a subir – e Bervely teve o primeiro vislumbre de um círculo de pedras coroando o topo da colina que elas escalavam.
Círculos de pedra não eram raros em território de bruxos – eram usados para amplificar ou isolar magia e podiam ser muito úteis em certos rituais. Aquele parecia antigo, imperturbado pelas hordas de trouxas que tinham dessacrado muitos outros ao longo dos séculos, depois que o estatuto do sigilo tinha proibido bruxos de protegerem seus círculos com maldições contra-invasores.
Elas chegaram ao topo alguns minutos mais tarde– Bervely ligeiramente ofegante, Bellatrix com a expressão imperturbada de quem fazia o percurso com frequência. A bruxa liberou as rédeas do cavalo e se posicionou no centro do círculo, erguendo os braços devagar. O ar estalou em resposta, as longas pedras verticais cintilando pálidas contra a noite. Quando Bellatrix baixou os braços de novo, o vento parou de soprar e os sons do mundo se tornaram abafados, como se uma cortina tivesse se erguido entre as duas.
Uma suave distorção no espaço entre as pedras indicou que estavam dentro de uma zona de isolamento mágico. Nenhuma energia produzida dentro do círculo se dissiparia para o exterior, e nenhuma energia do exterior perturbaria a magia feita dentro do círculo. Bervely podia apostar que elas, o cavalo e o próprio círculo estavam invisíveis para qualquer um que se atrevesse a passar por aquele fim de mundo desolado naquele momento.
— Arranjo perfeito para um sacrifício humano — Bervely disse, com um pequeno sorriso de zombaria. — Devo começar a me preocupar?
Bellatrix rolou os olhos pesados para ela e estendeu a palma branca para cima em sua direção.
— Me deixe ver a sua varinha.
Bervely precisou negociar com o seu braço para que pescasse a varinha entre as dobras da sua túnica e entregasse a Bellatrix.
A comensal analisou a varinha sob a luz fraca de uma lua quarto minguante que mal as iluminara em seu caminho até ali, mas que parecia se amplificar dentro do círculo. Bervely correu os olhos da mãe para o cavalo; duas figuras graciosas e letais à sua própria maneira, e imaginou como ela, em sua túnica negra e rosto pálido, se encaixava naquele quadro.
Supunha que completasse aquele quadro. Não tão graciosa, e certamente não tão letal, mas não exatamente dissonante…
— Essa varinha nunca foi muito leal a mim, nos anos em que me pertenceu —Bellatrix comentou num tom pensativo, girando a varinha de Bervely entre os dedos. Aquela era a mesma varinha que Narcissa tinha guardado quando Bellatrix fora presa em Azkaban, e presenteado a Bervely quando ela completara onze anos. — O quão bem ela lhe serve?
— Nunca tivemos grandes problemas — Bervely respondeu, mantendo a voz casual e a nota de sarcasmo necessária para passar a impressão de que não estava nervosa.
— Já tirou uma vida com ela?
Bervely fez uma pausa proposital, franzindo o cenho. Ela já tinha feito algumas coisas malignas com a varinha– incluindo colocar fogo na mansão de Carmichael– mas assassinato não estava na lista.
— Não.
Ela falhou em incluir o sarcasmo dessa vez. Não devia se sentir envergonhada de que a resposta fosse não. Aquilo era estúpido…
— Dizem que um bruxo e sua varinha nunca atingem sincronia total até que ela seja usada para tirar uma vida.
Bervely tentou ignorar o seu coração acelerando com o rumo que aquela conversa estava tomando.
— Ensinam um pouco diferente em Hogwarts.
Bellatrix lhe devolveu a varinha, segurando-a pela ponta para que Bervely pudesse recebê-la pela base, o que Bervely fez com grande sentimento de alívio. Ainda que achasse estar relativamente segura de danos naquela noite, preferia não estar desarmada dentro de um círculo de isolamento mágico com a comensal da morte que chamava de mãe.
— Você sabe qual é o meu feitiço preferido, Berverly? — Bellatrix perguntou, virando-se de perfil de forma a acariciar o longo focinho do cavalo ao seu lado, a mão branca em profundo contraste com a pelagem de veludo negro.
— Eu vou chutar Avada Kedrava, para não sair do tema.
Isso provocou um sorriso em Bellatrix. E um arrepio de satisfação em Bervely, imediatamente seguido de desgosto por si mesma.
— Avada Kedrava é um feitiço covarde. Algo tão precioso não devia ser tirado com tanta facilidade.
— Não deixe o Lorde das Trevas ouvir você, ele parece ser especialmente apegado a um bom Avada.
— Por sua praticidade — Bella deu de ombros. — Às vezes, Milorde precisa tirar alguém do caminho. Não é disso que eu estou falando.
O cavalo, Bervely notou, parecia apreciar a carícia distraída de sua dona. Os olhos do animal estavam fechados, a cabeça inclinada para frente. Ele era uma criatura e tanto, pensou Bervely, observando a interação dos dois numa tentativa de se distrair do tópico de Bellatrix, e com isso controlar os seus batimentos cardíacos.
O animal não percebeu a mão desocupada de Bellatrix sacar a própria varinha e apontar para o seu peito, abaixo da pata esquerda. Mas Bervely sim.
— O que você…?
— Crucio — Bellatrix sussurrou baixinho, docemente para o animal.
O cavalo se contraiu, caindo sobre as patas dianteiras dobradas, um urro poderoso escapando da boca cerrada e enorme. Bervely recuou, tapando os ouvidos por reflexo. Ela nunca tinha ouvido um som tão torturado, tão cheio de agonia, ser produzido por algo não humano. Bellatrix não se afastou, nem deixou de afagá-lo– não quando o cavalo se contorceu, e não quando ele esperneou. Bervely esperou – desejou que o animal mordesse os dedos dela fora, ou a atingisse com as patas, ou lhe desse uma cabeçada, mas nada disso aconteceu. O animal não parecia saber que Bellatrix era a fonte de sua agonia.
Ela não se deu conta de que estava gritando para que Bellatrix parasse até a comensal suspender a maldição e o animal silenciar, resfolegar e cair trêmulo no chão, reduzido à uma sombra de sua majestade anterior.
Bervely deixou as mãos caírem devagar, o corpo inteiro contraído e eletrificado de horror. A comensal da morte se ergueu calmamente. As faces de Bellatrix estavam coradas, os olhos brilhando, satisfação acendendo seu rosto como a visão de um amante teria.
— E aí está. Entende do que estou falando?
Bervely não fazia ideia do que ela estava falando– e o mais importante, ela não queria fazer. Bellatrix veio andando em sua direção e alguma coisa urgiu que Bervely se defendesse– apontasse a varinha para Bellatrix, corresse dali– ou ela seria a próxima. Ela permaneceu imóvel.
Bellatrix parou a centímetros dela e tocou o seu rosto com a ponta do indicador. Bervely sentiu o cheiro amargo do suor do cavalo impregnado na mão da comensal, enquanto ela traçava uma lágrima que Bervely não tinha se dado conta que derramara.
— Medo — Bella suspirou, esfregando o indicador e o dedão juntos, espalhando a lágrima recolhida na ponta dos dígitos. — É o que eles colocaram em você. E é o que vamos trabalhar para extrair, se queremos encontrar a sua melhor versão.
— Eu não tenho medo de você — Bervely disse, mas sem muito efeito, porque a sua voz saiu contraída através dos músculos apertados de sua garganta.
— Não de mim, criança. Da dor. De causar dor. De sentir dor. Até mesmo de presenciar dor alheia. É inútil ter medo da dor, Bervely. Ela está em todos os lugares. Você deve fazer dela a sua maior aliada. — Gentilmente, Bellatrix ergueu a mão de Bervely, que ainda segurava a varinha, e a apontou na direção de Mordred. — Sua vez. Me mostre o que pode fazer.
O cavalo ainda estava no chão, a cabeça apoiada sobre a grama, os olhos escuros e amedrontados presos em Bervely como se soubesse que mais estava por vir. A ideia de usar a maldição imperdoável no animal fez o interior de Bervely se contorcer num nó apertado.
— Não — Ela disse por entre os lábios apertados.
— Tem certeza? — Bellatrix perguntou, sem se afetar, a mão ainda segurando a de Bervely, ajudando-a a apontar. — Por que, sabe… se não for ele, será você.
A ponta da varinha de Bellatrix tocou a base das suas costelas. Bervely fechou os olhos, incapaz de encarar a miséria nos olhos do cavalo por mais um segundo.
— Eu disse ao Lorde das Trevas que tortura não seria parte do nosso acordo.
— Eu não sou o Lorde das Trevas, Bervely. Eu sou a sua mãe. O meu único compromisso é com a melhor versão de você.
Bervely se concentrou na sensação de outra lágrima queimando uma trilha pelo seu rosto e então esfriando em contato com ar, na direção dos seus lábios apertados.
Bellatrix esperou, mas ela nunca fora a mais paciente das criaturas.
— Bervely?
— Não.
— Muito bem. Vamos ver de quantos você precisa para mudar de ideia. Crucio.
Muito como Mordred tinha feito, Bervely se contraiu com o primeiro choque da maldição imperdoável em seus nervos. A sensação era de mil agulhas incandescentes, cada uma com um propósito, cada uma costurando seu caminho dentro dela – dentro dos seus ossos, através dos seus músculos, pelo interior de sua pele. A dor era mais do que insuportável– era feita do mundo inteiro, era tudo que ela era, explodindo no interior de cada célula e se encontrando nas bordas para formar uma única, gigantesca, intransponível esfera de agonia.
À princípio, ela tentou não gritar. Depois, ela não tentou mais nada– tentar fazia doer mais, tentar se conter e tentar resistir e tentar…
— Não resista— Veio a voz de Bellatrix, de algum lugar do outro lado do fogo branco brilhante de dor. — Não é esse o nosso propósito, hoje.
Como se ela pudesse.
Bervely se sentiu cair no chão, joelhos primeiro, mãos em seguida, cada músculo, osso e junta contraídos numa tentativa vã de conter Crucio em alguma área restrita do seu corpo, alguma área que ela pudesse… que pudesse… que…
— Ande, Bervely. Não seja teimosa.
Bellatrix estava gritando. Gritando para ser ouvida através dos gritos de Bervely. Não que Bervely se lembrasse de ter começado a gritar. Não que ela conseguisse parar. Não que adiantasse.
TUM. TUM. TUM. TUMTUMTUMTUMTUMTUM.
O seu coração ia explodir. A morte, a morte estava vindo– ninguém podia sentir tanta dor e resistir – Ela esperava… ela queria…
— Não esse tipo de rendição — Bellatrix reclamou. Bervely teve a vaga impressão de que a comensal estava segurando o seu rosto com a mão que não apontava a varinha contra ela. Como ela fizera com Mordred, acariciando enquanto o desmantelava — Ainda não estamos nessa lição.
Alguma coisa estourou; Bervely sentiu, um pop macabro no meio da sua agonia, um que ela soube mais do que sentiu, mas que devia ser ruim… Tinha começado. Ela ia explodir, uma célula de cada vez, e ela queria…
— Por favor — Bervely se ouviu implorar. — Por favor.
Só que as suas palavras saíram em borbulhas. Algo quente enchia sua boca, algo líquido. Bervely começou a tossir, engasgando com a dor, com o ar, ou talvez com a sua própria língua.
Bellatrix suspendeu o feitiço. O alívio foi glorioso, mas momentâneo. À ele se seguiu de outras dores – as externas, pulsando lentas e familiares. O seu pulso direito, sobre o qual ela tinha caído. Os joelhos que tinham recebido a maior parte do seu peso. A garganta que parecia em carne viva.
Bervely sugou o ar pelo nariz, devagar, tentando descobrir se podia. Ela permaneceu de costas, imóvel na grama, concentrada em existir. Apenas existir.
A presença de Bellatrix ao seu lado se deslocou ligeiramente e algo macio tocou o seu rosto. Bervely eventualmente entendeu que a comensal estava esfregando um lenço de seda na lateral da sua boca.
— Você mordeu sua língua.
Parecia um detalhe pouco importante, mas a sua boca estava cheia de algo quente e metálico. Bervely voltou a cabeça para o lado oposto ao que Bellatrix estava e cuspiu na grama.
Ela ousou abrir os olhos depois do que pareceu outra eternidade, demorando alguns segundos para conseguir foco. Encontrou Bellatrix com um sorriso nostálgico no rosto, os olhos cintilando do que parecia ser empolgação.
— Pronta para tentar de novo?
— Hmm? — Bervely não tinha certeza do que ela ainda podia entender palavras.
Bella fez um sinal com a cabeça na direção da enorme sombra negra atrás delas. O cavalo estava de pé novamente, turvo aos olhos de Bervely.
Bervely olhou para a sua mão esticada na grama, descobrindo que a sua varinha ainda estava firme em seu punho. Não que Bervely pudesse senti-la– onde não doía, o seu corpo estava dormente, como se reagisse ao trauma das agulhadas se recusando a sentir qualquer outra coisa.
— Vamos lá, criança. Você é mais forte do que isso.
Ela era, Bervely pensou. Ela costumava ser. A adolescente enraivecida que tinha arrancado Sirius de Azkaban teria reagido àquele ataque. Essa mal conseguia se concentrar na raiva que devia estar sentindo de Bellatrix.
Nem na humilhação que estava lhe alcançando agora.
Bellatrix se levantou e estendeu a mão em sua direção. O gesto despertou alguma coisa nela. Irritação. Não ia usar ajuda para levantar, não da mesma mão que a tinha derrubado.
Ela usou a força de sua irritação para se reerguer em suas pernas, a língua ainda pulsando como um segundo coração em sua boca. Cuspiu de novo, mais sangue na grama, e estreitou os olhos para Bellatrix, ignorando a pulsação no pulso machucado. Ignorando também – com menos sucesso - a irritação da rosa, que ondulava em seu braço num queimor revoltado, como se julgasse Bervely pessoalmente responsável pela punição que as atingira.
— Ótimo, você ensinou sua lição. A dor é uma dádiva. A minha melhor amiga. O que vem agora? Fazer da morte a minha amante?
Bellatrix riu. Ao contrário dos sorrisos cortantes que não alcançavam o resto do seu rosto, as risadas de Bellatrix sacudiam o seu corpo inteiro e faziam Bervely se lembrar da maníaca em grilhões com a qual ela tivera um breve encontro em Azkaban. A que gostava de arrancar olhos com as unhas, e coisas do tipo.
— Oh, criança. Nós mal começamos. O Cruciatus que lhe infligi agora foi uma mera amostra do que Dor pode ser. Então, gostaria de tentar?
Bellatrix fez um sinal exagerado de encorajamento na direção do cavalo negro. Mordred tinha perdido o interesse nelas, agora que Bervely parara de gritar, e estava arrancando tufos de grama seca do canto de uma das pedras do círculo, de costas para elas.
— Eu não vejo como isso pode me ajudar — Ela disse, com desdém forçado. A mão da varinha pesava uma tonelada e Bervely sabia que não seria capaz de erguê-la contra o animal nem se ele tivesse lhe feito uma ofensa. Se Mordred sentisse um décimo da dor que ela tinha acabado de sentir, ela sabia que não o faria.
Não fazia sentido torturar uma criatura inocente daquela maneira.
— Se fosse um pouquinho menos teimosa, poderíamos estar avançando nessa questão.
Bervely deu de ombros, um movimento que pareceu mais uma contração involuntária do seu corpo, e que ascendeu a um novo ponto de dor na base do seu pescoço, provavelmente consequência de como ela o tinha contraído ao receber o primeiro choque do feitiço.
As duas ficaram em silêncio por alguns segundos. Um silêncio bom, pensou Bervely. Suspenso no tempo. Isolado do mundo. Seus ouvidos estavam zunindo. De certa forma, ela se sentia… anestesiada. Embriagada, até. As dores secundárias não importam, eram insignificantes diante de Cruciatus. Ela tinha sorte. Estava viva. Tinha provado o seu ponto–
Bellatrix soltou um longo suspiro contrafeito e apontou a varinha para ela mais uma vez.
— Crucio.
Enquanto Bervely se desfazia em pétalas abrasivas de agonia, Bellatrix voltou a se aproximar e sussurrar coisas para ela. Coisas como eu quero que você abrace o que está sentindo, ou não tente lutar contra o inevitável, criança teimosa. Quando Bervely pareceu prestes a desmaiar, ela interrompeu a maldição e a deixou tomar alguns fôlegos. Lhe ofereceu a oportunidade de testar o feitiço em Mordred novamente e, na ausência de resposta, retomou a sua lição.
Crucio. Crucio. Crucio. Os intervalos entre uma suspensão e outra do feitiço foram ficando mais longos. A sua contra-oferta parou de acontecer entre elas; Bellatrix não mais parecia se importar com a teimosia de Bervely em torturar o cavalo, ou então isso nunca fora uma parte importante da lição. Com o ínfimo fiapo de razão que Bervely ainda conseguia reunir, ela concluiu que Bellatrix estava se divertindo. A intenção nunca fora levar Bervely a executar uma maldição imperdoável. Era só uma desculpa para levá-la aos confins ardentes da dor excruciante. De novo. E de novo. E de novo.
— Você sofre com graça — Murmurou Bellatrix em um dos intervalos, limpando as lágrimas de Bervely no lenço manchado. — Deve ser de família.
Bellatrix nunca havia sido tão doce, tão presente, tão afetuosa com ela quanto naquele momento. Pena que Bervely só estava interessada em morrer.
Mas não. Morte não era a lição daquela noite.
— O que você quer de mim? — Bervely perguntou, em um dos agora raros intervalos entre um e outro Cruciatus, entre uma e outra respiração ofegante e úmida. Sua boca estava cheia de sangue de novo– ela não estava certa se tinha mordido a própria língua mais uma vez, ou se vinha da sua garganta. As suas coxas estavam encharcas e pelo cheiro, ela supôs que tinha perdido o controle da bexiga em algum momento.
Mal conseguiu reconhecer a própria voz, quebrada e desesperada.
— Há beleza na dor, Bervely. Eu quero que você a encontre.
— V-você é insana. Eu quero que você vá apodrecer no inferno–
— Está bem ali, do outro lado do medo.
— Eu não estou com medo! — Bervely urrou, parando para tossir um coágulo de sangue no chão. — Eu estou furiosa.
A afirmação fraca e borbulhante fez Bella sorrir, encarando Bervely com as pálpebras pesadas de descrença.
— Você não me parece furiosa. Você me parece uma coisinha sangrenta e impotente, reclamando de sua fortuna.
— Bem, isso é porque você é uma–
— Crucio.
Bervely rolou em posição fetal, os punhos apertados, sentindo ondas de agonia varrerem por seu corpo sem encontrar resistência. Ela não podia resistir– seu corpo estava esgotado, seus músculos frouxos, sua esperança de que aquela tortura tinha um objetivo, esfiapada. Ela só ia ter que suportar. Bellatrix ia cansar. A deixaria em paz para morrer.
Eventualmente.
— Bom — Ela ouviu a mãe vibrar animada, através de várias camadas de sua própria, intransponível, desfabricação. — Acho que estamos fazendo algum avanço.
O feitiço foi suspenso mais uma vez. Estava começando a não fazer diferença. Quando Crucio terminava, havia uma outra dimensão de dor esperando por ela– feita de ódio, impotência e humilhação. A sua varinha ainda estava em sua mão– Bella não se dera ao trabalho de desarmá-la. Não importava – em seu estado, poderia ser um galho de árvore entre os seus dedos.
O ar frio da noite tocou a pele do seu braço esquerdo – Bellatrix estava erguendo a manga larga da túnica, revelando a rosa negra de seu esconderijo. A rosa, como o resto dela, pulsava e se contorcia e queria a morte. Bella fechou os dedos em torno do seu pulso, colocando as rosas em contato e estabelecendo a abertura de uma conexão direta entre as suas mentes, como quem abre caminho através da fumaça de um incêndio.
Uma onda discrepante de satisfação e expectativa alcançou Bervely. Em seu estado, demorou até que ela percebesse que aqueles eram os sentimentos de Bellatrix, não os seus.
— Você parece estar se habituando ao primeiro nível da maldição cruciatus. Vamos tornar as coisas um pouco mais interessantes.
O único jeito que Bervely conseguia cogitar que as coisas ficassem mais interessantes era se Bellatrix a virasse do avesso, como tinha feito com aquele coelho no labirinto durante a páscoa, e começasse a aplicar crucio diligentemente em cada um dos seus órgãos vitais.
— Oh, não seja dramática — Bellatrix suspirou, quando Bervely tentou se desvencilhar dela, puxando o braço para longe. Uma coisa era tortura física, mas ter Bellatrix em sua cabeça enquanto acontecia era um pouco mais do que Bervely estava disposta a permitir.
Ela ficou surpresa em descobrir que ainda tinha limites.
— Isso só vai machucar mais um pouquinho — Bellatrix prometeu, num tom que uma professora de primário usaria antes de colocar antiséptico no arranhão do joelho de um de seus alunos mais arteiros.
Bervely se contraiu, tentando sair do alcance de Bellatrix. O agarro de ferro da comensal não cedeu nenhum milímetro.
— Eu vou… — Bervely arfou, mas teve que tossir de novo, e cuspir mais sangue.
— O que foi isso? — Bellatrix inclinou a cabeça, interessada.
— Eu vou torturar o seu maldito cavalo.
— Ah, ótimo — A comensal sorriu amplamente e não se moveu. Bervely sentia a presença de Bellatrix em sua cabeça como um espinho se retorcendo em seu cérebro. Quando ela falava, a voz de Bellatrix reverberava tanto em seus ouvidos quanto dentro dela, em partes que nenhuma voz a não ser a sua própria deveria falar. — Vá em frente.
Bervely inclinou a cabeça, procurando foco. Mordred estava deitado, a cabeça nas patas, os olhos abertos, assistindo o espetáculo com uma dose significativa de tédio. Bervely o odiava – como ela odiava tudo mais dentro daquele círculo de pedra – e ela só precisava realmente dizer as palavras e tudo aquilo ia acabar. A sua varinha já estava apontada na direção certa, o braço direito estendido na grama como antes, a varinha entre os seus dedos rígidos e dormentes.
Ela abriu a boca. Pronunciou a maldição, na melhor de sua habilidade.
Nada.
Ela teve a impressão de que Mordred estava erguendo um cenho para ela.
— Adorável — Bellatrix zombou. — Mas você tem que querer fazê-lo sentir dor, sabe.
— Eu quero.
— Pelo visto, não o bastante.
Bervely fechou os olhos, liberando mais um par de lágrimas que correram por cada lado de sua têmpora e se perderam em seu cabelo. Bellatrix apontou a varinha para ela de novo. Dessa vez Bervely não ouviu o feitiço ser pronunciado, mas a dor a atingiu mesmo assim: quente, familiar, como uma onda de lava borbulhante, destruindo tudo em sua passagem.
Exceto que dessa vez a satisfação de Bellatrix também persistiu em sua consciência, potencializando o cruciatus como uma camada de sal na ferida aberta que ela estava cutucando.
E então Bervely sentiu outra coisa. Bellatrix dentro de sua mente em chamas, cavando. Revolvendo. Procurando… alguma coisa. Alguma coisa na qual ela pudesse se agarrar e puxar para a superfície.
Azkaban. Suas semanas na prisão, com frio, com fome e com medo do que o Olho de Horus ia fazer com ela quando tivesse a chance. O Olho de Hórus em sua cela no corpo do auror loiro, acompanhado do dementador. A mão em sua garganta, a boca vazia e aberta sobre o seu rosto, o dementador esperando pelo banquete de sua alma…
— Pare — Bervely implorou. — Isso não…
Bervely no cais de Azkaban, aguardando para entrar em Caronte e então… os gritos de Theodor. Os estalos e rasgos de sua carne e ossos repartidos entre os cães. O cheio de sangue no ar, o horror no rosto dele ao perceber os seus próprios animais lhe devorando… a sensação de impotência e culpa, assistindo-o sem poder reagir, sem poder salvá-lo…
— O quê– — Bervely tenta perguntar, tenta entender. Crucius ainda cavalga os seus nervos, imperiosa e cortante com suas mil e uma laminas, mas a agonia é dobrada, triplicada pela pesquisa e seleção de Bellatrix em suas memórias.
— Medo — Bellatrix responde a pergunta que ela não consegue formular — Não terá mais controle sobre você.
O subsolo da mansão de vidro de Thor. Amarrada sob a mira do ferro incandescente com o qual ele marcaria o olho de hórus em sua pele, e então tomaria controle do seu corpo. A carne chiando quando o ferro laranja-brilhante encontrou a sua pele– e ela sabe… está morta– para todos os efeitos…
— PARE — Bervely pede de novo, gritou, encontrando impulso na memória. Mas a voz não é a sua. Cheia de horror, cheia de temor pela própria integridade, como ela jamais soou antes.
Bellatrix cava mais fundo, indiferente à sua súplica.
Há medos mais profundos e ela quer trazer todos para a superfície, ao mesmo tempo, agora.
Bervely entende que isso a quebrará em mais pedaços do que será possível consertar. Ela, que vem mantendo todos esses cacos juntos com a cola da negação e dos muitos copos de uísque de fogo e do foco ferrenho em outras coisas, em outras pessoas… mas todos juntos, eles são mais fortes e maiores do que ela jamais foi…
Ela tem vinte anos no Instituto Flamel e está ouvindo de Remus que o seu maior medo se concretizou. Sirius está morto. Morto pelas mãos de Bellatrix…
Ela está na banheira de Severus e ela decide que a dor de perder Sirius nunca irá deixá-la, não pode deixá-la e ela afunda e aspira água para os pulmões. Quando ela percebe o que está fazendo, é tarde demais e ela entra em pânico, sentindo a vida escapar do seu corpo uma convulsão por vez…
Ela tem quatorze anos e o seu maior medo se concretizou– Hector, pálido e imóvel na neve. Morto pela sua poção. Pelas suas mãos…
— Por favor — Bervely ouve alguém implorar. A voz é a sua, mas ela não tinha nenhuma consciência de estar movendo os lábios.
Bellatrix a segura pelo braço mais firme e mergulha ainda mais fundo. A satisfação se desfaz, mas ela tem propósito e nada a impedirá. Elas estão tão perto, tão perto, agora.
Que Bervely está a ponto de se desfazer em fiapos de inexistência, não parece importante. Ou talvez seja tudo que importa.
Bervely mal completou seis anos e Bellatrix está gritando com o único adulto que já a tratou com gentileza. Bervely tem medo que ela irá matá-lo, como ela matou os pais de Charlotte.
Bervely tem cinco anos e o monstro de olhos vermelhos chamado Voldemort desenha uma flor em seu braço e abre uma rachadura em sua alma, na qual ele deixa Bellatrix entrar. Ela nunca mais vai embora.
Bervely tem cinco anos e Bellatrix foi embora e não vai mais voltar. Os homens maus do Ministério estão aqui para levá-la– ela nunca mais verá sua mãe–
— EU DISSE JÁ CHEGA! — Bervely estoura, arrancando seu braço das garras da mulher. E antes que ela possa mesmo decidir racionalmente, seu outro braço se ergue e a ponta da sua varinha faz mira e ela grita: — CRUCIO!
Bellatrix cai para trás com o impacto do feitiço, o cabelo negro se abrindo atrás dela como um leque. Bervely entende que ela está causando dor dessa vez, porque ela, Bervely, a sente também, através da ligação entre as suas consciências. A sensação é como a dela foi– uma onda de agulhas costurando seu caminho através dos nervos da sua mãe – mas ao invés de gritar, Bellatrix ri.
Ela gargalha, feliz, extática, insana. Bervely não suspende o feitiço, ela não acha que sabe como. O Cruciatus está fluindo do seu ódio, da sua humilhação, da sua carne e do seu coração abusados e é irresistível, é puro poder estraçalhando-a tanto quanto estraçalha Bellatrix, mas é revigorante.
O feitiço é interrompido quando ela atinge a exaustão e não pode mais manter o braço erguido.
Silêncio preenche o círculo de pedras. Os únicos sons são a respiração arquejada de Bervely, a tranquila de Mordred, e os gemidos – ou risadas? – de Bellatrix.
A comensal se levanta, em movimentos tão lentos que Bervely tem certeza que a machucou. Mas tudo que ela lê no rosto de Bellatrix é triunfo, insuportável e distorcido pela discrepância da situação.
E algo mais.
Orgulho.
Ela recupera o equilíbrio e chega perto o bastante para dar batidinhas na bochecha de Bervely, que ainda está tremendo, como o resto dela.
— Eu sabia que você tinha em você.
Bervely deixa os olhos fecharem – ela não pode suportar a expressão no rosto de Bellatrix. Também não pode suportar o inchaço em seu peito, o fato de que o elogio distorcido a faz se sentir satisfeita consigo mesma. Ela tem a impressão de que talvez ainda esteja chorando, mas deve ser de exaustão, porque ela não está mais queimando, ela está mais fria do que jamais se sentiu antes.
Bervely não se lembra como elas voltam para Blackburn naquela noite, mas ela acha que deve ter sido no lombo de Mordred, já que nenhuma das duas está em condições de aparatar, ou de longas caminhadas pelos campos de Lancaster sob uma noite que, lentamente, se dissolve em dia.
*
Depois daquela noite, toda noite em que Bellatrix não estava fora de casa em algum serviço para o Lorde das Trevas, ela mandava convocar Bervely em seu quarto. Bervely vestia a túnica negra e Bellatrix a esperava junto aos estábulos, acompanhada de Mordred. Elas caminhavam juntas em silêncio até o mesmo local, independente das condições do vento, e subiam a mesma colina coroada pelo círculo de pedras.
Como prometido, Bervely se tornou íntima da sua própria dor. Ela aprendeu as sequências do seu corpo sob Cruciatus, os padrões de agonia em seus nervos, as respostas de seus músculos e dentes e da sua voz. E ela revisitou todas as memórias aterradoras de sua vida que Bellatrix pode encontrar no caminho, e compreendeu as suas nuances e razões pelas quais elas ainda a aterrorizavam…
Quando Bervely ficava furiosa o suficiente para reagir, enraivecida o bastante para empoderar o seu Cruciatus e virá-lo contra Bellatrix, ela descobriu uma janela para aprender sobre a dor dela. Com a rosa aberta – a rosa respondia à dor como um girassol ao sol do meio dia – Bervely tinha acesso ao núcleo de Bellatrix, tanto quanto ela tinha ao seu.
Vislumbres do seu treinamento com Lorde Voldemort. Vislumbres de sua infância e sua adolescência e até de do seu tempo em Azkaban. Dor entremeava todas elas e Bervely também aprendeu a puxá-las para a superfície, nem que fosse por alguns segundos no limiar entre a agonia e a devolução. E ela se descobriu faminta o suficiente por esses vislumbres para que as sessões de tortura se tornassem almejadas, ao invés de temidas.
Ela nunca tinha estado tão próxima de Bellatrix, e nunca compartilhara tanto. Se a maldição cruciatus era o elemento capaz de provocar essa conexão…
— Você não a teme mais — disse Bellatrix certa noite, talvez a sexta ou sétima desde a primeira vez que tinha trazido Bervely até o círculo de pedras.
Aquela noite, quando elas cobriam o seu ritual no qual Bellatrix lhe pedia para torturar Mordred e Beverly negava (ela ainda não via sentido em torturar o cavalo), Bellatrix erguera a própria varinha e Bervely não tinha se contraído em preparação para a o choque do feitiço, ou erguido a própria varinha para se defender.
Ela tinha esperado, a expressão séria e concentrada, os olhos presos no de Bellatrix, decidida a lidar com o que viria. Como se alguma coisa tivesse enfim virado ao avesso dentro dela e a convencido a não deixar Bellatrix puxar e remexer em sua cabeça dessa vez. A dor física era extrema e agonizante mas era sempre a mesma, e a essa altura, familiar a Bervely. Por outro lado, a dor psicológica, causada pela seleção e exposição cuidadosa de suas memórias mais dolorosas era uma afronta e uma humilhação pelas quais Bervely estava cansada de passar.
Além do mais, ela sempre queria pular para a parte na qual ela estava cavando a mente de Bellatrix.
Bellatrix estava certa. Ela não mais temia cruciatus – ela estava ansiosa por cruciatus.
— O que significa que podemos prosseguir para a próxima lição — Mais uma vez, Bellatrix fez um sinal na direção de Mordred. Hoje o cavalo tirava um cochilo, enrolado em si mesmo com a cabeça pousada sobre as patas, desinteressado na escola de arte das trevas de sua dona. — Eu quero que você o sacrifique.
Bervely sentiu um pequeno sorriso incrédulo despontar no canto esquerdo de sua boca.
— Desculpe, o quê?
— Mate-o — Bellatrix repetiu, com a simplicidade de quem diz “passe a manteiga”.
O sorriso de Bervely se dissolveu como espuma. Então ela tinha estado certa sobre a próxima lição– ela ia precisar matar, depois de torturar. E se ela matasse o cavalo naquela noite, quem Bellatrix ia pedir para que ela matasse, na próxima? Bervely teve um vislumbre de algum nascido-trouxa amarrado e amordaçado esperando-a no círculo de pedras da próxima vez.
— Eu não vou matar o seu cavalo.
— Não se preocupe, ele não vai levar para o lado pessoal — disse Bellatrix com um sorrisinho condescendente, como se a maior preocupação de Bervely fosse ferir os sentimentos de Mordred.
— Eu pensei que Avada Kedrava fosse para covardes — Bervely disse, lembrando a conversa da primeira noite.
Tentando ganhar tempo.
— Oh, ele é. Além do mais, duvido que poderia lançá-lo. Cruciatus é mais fácil, só exige o desejo de machucar alguém. Avada Kedrava pede por uma compulsão destrutiva que, honestamente, eu não acho que você possua. — A comensal soava quase conformada. Como se Bervely tivesse nascido defeituosa, e não houvesse muito que ela pudesse fazer a respeito. — Felizmente, há meios mais práticos de lidar com a questão.
Bellatrix produziu alguma coisa das dobras da capa e ofereceu para ela. Bervely viu o punho de uma faca de prata cintilando sob as estrelas.
— Não, obrigada.
— É um presente, Bervely. Não seja mal-agradecida.
Bervely deu dois passos adiante e aceitou a faca. Era trabalhada em motivos astrológicos, luas e estrelas esculpidos no punho de prata, e uma lâmina fina com inscrições rúnicas em ambos os lados. Tinha o peso certo e, quando Bervely fechou os dedos ao redor do punho, percebeu que este se encaixava perfeitamente em sua mão.
— Então o quê? Se eu não matar o seu cavalo, você vai me matar? — Ela zombou. — Até que eu fique puta o suficiente para matar você? Eu acho que tem algo mal-planejado na pedagogia dessa lição.
A comensal da morte sorriu com tranquilidade para a sua impertinência.
— Não, você está certa, isso seria contraprodutivo. Mas, a boa e velha Cruciatus ainda pode lhe dar um incentivo.
— Eu não acho que…
— Crucio — Bellatrix suspirou, ligeiramente entediada. Bervely caiu em seus joelhos de novo, pega de surpresa.
Mas ela não gritou. Não mordeu a língua, não se perdeu nas dobras de agonia contraindo os seus músculos. Quando ela conseguiu recuperar o fôlego que tinha perdido com o primeiro impacto, usou o fio de racionalidade que lhe restava em meio à explosão de dor para achar algum foco, para resistir à invasão mental que sabia vir em seguida.
Bellatrix veio até ela e segurou o seu braço esquerdo, os dedos sobre a rosa, permitindo uma marca se enrolar na outra sobre a sua pele, um par de vinhas se encontrando no jardim solitário de seus corpos.
— Eu prometo que você vai matar — Bella sussurrou em seu ouvido, num tom tão suave, tão assegurador, que ela poderia estar consolando Bervely. — E você vai perceber que a morte não é o monstro que a convenceram de ser– a morte é libertação, alívio, e misericórdia. E às vezes, se você fizer direito, a morte é gloriosa.
— Você…. é…. doente… — Bervely rangeu por entre os dentes, a cruciatus tornando seu sangue em lava, seus ossos em farpas, suas vistas em nada.
Bellatrix tomou o comentário como elogio, abrindo um amplo sorriso no rosto insano, e mergulhou à caça de alguma memória perdida nos confins de Bervely a qual ainda não tivesse dessacrado.
O problema com a segunda lição de Bellatrix, Bervely decidiu, é que a comensal estava subestimando a sua teimosia. Uma coisa era torturá-la por horas a fio e esperar que ela não reagisse – essa técnica tinha o seu mérito, Bervely precisava concordar, embora a aposta de que ela não teria ficado louca, ou morrido de dor antes de aprender a reagir fora um pouco alta. Mas então, Bellatrix parecia saber o que estava fazendo, e Bervely tinha certeza que quando ela queria apenas causar dor e eventual loucura em alguém, ela tinha outros métodos, muito menos pedagógicos.
Mas agora que Bervely estava começando a entender a relação entre dor e controle – e como um diminuía senão a intensidade, o impacto do outro – ela queria passar mais um tempinho explorando as possibilidades contidas ali, antes de se tornar uma assassina de cavalos.
Crucio, pensou Bervely com ferocidade, quando ela pôde. Bellatrix estivera revolvendo uma memória particularmente dolorosa de Bervely; ela acabara de voltar de Azkaban para a Casa dos Gritos, tinha tomado um longo banho de banheira para lavar todo o sangue e sujeira do corpo, e acabara de perceber que ela nunca poderia lavar o que Azkaban a tornara naqueles par de meses: uma sombra de si mesma, um fracasso de todos os seus sonhos de se tornar uma alquimista, uma cúmplice de comensais da morte, o fantoche de uma assassina.
A sensação de afundar os dedos no crânio de Olleant e furar seus olhos ainda estava viva em suas mãos, e estaria lá para sempre. Acima de tudo, Bervely estava exausta de sua impotência e mais ciente do que nunca de que ela estava entranhada naquela guerra e ia continuar perdendo as pessoas que amava até não restar mais ninguém. As bordas da memória eram borradas, como partes estivessem faltando, mas Bervely não se surpreendeu que ela não estivesse extremamente afiada no registro de suas lembranças, dada as circunstâncias.
Ela se lembrava com especial claridade, no entanto, de segurar a lâmina com a qual tinha cortado o cabelo embaraçado, e imaginar a sensação de afundá-la em seu pulso.
Morte pode ser libertação, alívio e misericórdia.
Odiava que Bellatrix estivesse certa. Até hoje, Bervely não sabia bem o que a tinha impedido. Se ela voltasse agora para aquele momento, ela o faria sem hesitação. Ela não tinha nada a perder. Ela…
Pare de mexer com a minha cabeça!, Bervely pensou, furiosa. Em algum lugar lá fora, Bellatrix estava rindo, não a sua gargalhada maníaca dos grilhões, mas uma risadinha empolgada e ofegante de quem estava tendo o melhor passeio de sua vida.
Crucio, Bervely repetiu, procurando pelos nós onde as rosas se encontravam, e empurrando a dor na direção contrária. Ela tentou se agarrar a alguma coisa – qualquer coisa – que não fosse a sua dor. A sua desistência. O seu desejo de obliteração ou de alívio.
E então encontrou: uma adolescente de cabelos negros e olhos fundos encarava duas partes de um espelho rachado ao meio. Ao contrário das outras vezes, aquele não foi um vislumbre passageiro, mas uma memória ancorada e tão real que Bervely conseguia ver através dos olhos da garota, conseguia sentir a agonia em sua pele e o medo pulsando em suas entranhas.
Ela estava grávida do traidor de sangue, a sua vida estava arruinada e não havia nada que pudesse fazer a respeito. Todas as suas tentativas de se livrar da criança tinham sido inefetivas até então, e a última quase a matou. Purgabit Sordis. O gosto da poção venenosa ainda preso em sua língua– ou talvez aquele amargor viesse da sua vergonha. Da sua humilhação, da sua incapacidade de manter as pernas fechadas e a mente focada no que era importante.
Se ela não era boa o suficiente para ficar longe da escória e nem para se livrar do parasita crescendo em seu interior, qual era o ponto em estar viva? O Lorde das Trevas nunca ia aceitá-la, não quando carregava a escória dentro de si. Ela viu a sua vida se desenrolar, e não era a que ela tinha planejado. Em qualquer variação, era uma vida na qual ela se submete aos desejos de um homem – Rodolphus, ou de qualquer outro sangue puro no qual os seus pais decidissem amarrá-la para justificar a sua barriga inchando mês após mês – e ela seria como a mãe, ou a tia, ou as outras mulheres Black – objetos de decoração inúteis descontando a sua infelicidade, o seu rancor e frustração, nas gerações seguintes.
Em uma vida amaldiçoada como essa, ela preferia a morte. A garota se inclinou, os olhos presos em um dos cacos de vidro grande e afiado o suficiente para penetrar a pele e cortar uma artéria. Ela precisaria ser rápida e precisa. Ela precisaria ser corajosa…
— Já chega — A voz de Bellatrix rosnou nos ouvidos de Bervely, a arrancando da memória com um puxão brusco. A comensal não estava mais rindo.
Bervely piscou seu caminho para fora da memória, ofegante e sem nenhum sangue no rosto.
— Essa era você — ela disse, um tanto pateticamente.
Bellatrix também estava pálida, e havia uma seriedade mortal em seus olhos.
— Agora que já terminou o seu tour, Bervely — Ela disse friamente. — Não se esqueça porque estamos aqui. Mate o cavalo.
Bervely ainda estava segurando o seu presente, a bonita faca de prata que se moldava perfeitamente ao interior da sua palma, tanto que parecia uma extensão dela.
— Você ia se matar — Ela continuou, ignorando a ordem. — O que a impediu?
Bellatrix curvou os lábios num falso-sorriso e prometeu:
— Eu lhe mostro quando completar a lição do dia.
Ou, pensou Bervely, ela podia arrancar a resposta por si mesma.
Bervely largou a faca e agarrou o pulso de Bellatrix, de forma que agora eram os seus dedos apertando a pele branca desenhada em negro da comensal. Num movimento súbito que ela tinha treinado com Sirius há muito tempo, no único verão no qual eles tinham passado juntos e ele a treinara para combate – ela jogou o peso do corpo para frente de forma a girar e derrubar Bellatrix sobre as costas. A comensal resistiu, mas Bervely a tirara do seu centro de gravidade e a surpreendera o suficiente para que tivesse a dianteira. Uma vez em cima de Bellatrix, ela alcançou e apontou a varinha para o pescoço da comensal com uma mão, a outra pressionando o braço de Bellatrix contra a grama seca, a rosa se contorcendo entre os dedos, a varinha de Bellatrix apontando para a borda do círculo de pedras e para longe de Bervely.
— Crucio — Bervely cantou entre os dentes antes que Bellatrix pudesse reagir.
A maldição lhe deu a brecha para voltar à memória, que Bervely caçou com afinco através das barreiras da mente de Bellatrix, todas maleáveis agora, como se ela fosse um fantasma atravessando uma série de paredes sólidas, mas inúteis contra a sua natureza.
Não era o momento exato onde tinha sido interrompida, mas parecia um minuto ou dois depois – Bellatrix estava vermelha e furiosa e parecia ter acabado de gritar com uma jovem Madame Pomfrey – e voltara ao seu uniforme da escola, quando a porta da enfermaria se abriu atrás dela.
“Acordou virada, priminha?”
O garoto que tinha acabado de entrar tinha o mesmo rosto bonito que Bervely vira em fotos da época– e o mesmo sorriso torto que ela vira pessoalmente um milhão de vezes antes.
Sirius.
A garota que era Bellatrix ergueu a varinha para ele – a varinha que pertencia a Bervely atualmente – e o ameaçou a sair de sua frente, muito embora ela não parecesse muito ameaçadora. Bervely assistiu pelos olhos dela Sirius erguer a varinha de volta, embora ele também não aparecesse ameaçador. Havia medo, preocupação e desafio em seus olhos escuros.
“Eu não vou a lugar nenhum sem saber o que está matando você.”
Ela mesma está, pensou Bervely, tão inundada de adoração pelo adolescente e profundo ódio de sua presença e do que ele fizera com ela que os sentimentos batalhavam em seu corpo, deixando os seus joelhos – não, os joelhos da garota na memória, de Bellatrix - fracos.
— Imperius — Ela ouviu, em algum ponto fora da memória.
Seu corpo relaxou imediatamente. Sua mente ficou branca– abençoadamente branca e livre como o topo de uma nuvem. Bervely relaxou a mão – porque era o que ela devia fazer — e deixou Bellatrix ir.
O olhar no rosto de Bellatrix era ilegível, mas alguma coisa nociva e perigosa cintilava em seus olhos escuros.
— Você está perdendo o foco — disse Bellatrix, num tom zeloso e preocupado que, não fossem as garras da sua maldição imperdoável em Bervely e a nota cortante discernível nas palavras, teria sido credível. — Vamos ver se um empurrãozinho na direção certa ajuda você.
Não, Bervely pensou, furiosamente, teimosamente. Não, não, não.
A sua resistência era fútil. Bellatrix era a gravidade, e ela estava tentando alçar voo para longe sem possuir um par de asas. A despeito da sua vontade, ela se viu abaixando-se e recuperando a faca de prata no chão, trazendo-a de volta ao conforto de sua palma.
Agora. Mate o cavalo, disse Bellatrix, não com palavras, mas com um olhar significativo na direção de Mordred.
Não, pensou Bervely, apertando os dentes e tentando contrair os músculos, mas nenhum deles estava ao seu serviço no momento. Mesmo uma parte dos seus pensamentos tentava convencê-la a parar de resistir. Apenas uma muito pequena se rebelava e se sacudia.
Em vão.
Bellatrix a fez andar até Mordred, acompanhando Bervely de perto. Ao perceber a aproximação de Bellatrix, Mordred se levantou e abaixou a cabeça na direção dela, quase como em uma reverência. Bellatrix respondeu correndo uma mão do topo da cabeça do cavalo, entre as suas orelhas, até o focinho úmido. Mordred era alto o suficiente para que o seu peito – musculoso e enorme, duas vezes mais largo do que ela – estivesse na altura do seu rosto.
— Mordred foi o primeiro presente que recebi do Lorde das Trevas — Bellatrix explicou, a voz distante, abafada. — Ele o enviou para me buscar em St. Catchpole depois que eu pari você. Um bom animal. Milord o escolheu de uma ninhada especial, antes que ele fosse sacrificado. Mordred nasceu com algo faltando. Ele não é capaz de sentir medo. Milord achou que ele faria boa companhia.
Bellatrix deu um raro sorriso que não a fazia parecer sem alma, ou prestes a esfaquear um inocente. Ela apontou para um pouco na jugular do cavalo, onde Bervely podia ver a poderosa pulsação de sua carótida, tão larga quanto o seu pulso.
— Aqui — Bellatrix disse, desnecessariamente.
O seu último ato de crueldade foi retirar o feitiço no último minuto; quando o braço de Bervely estava erguido, e a lâmina da faca já estava alinhada com a pulsação do animal. Mal Bervely tinha sentido a liberação do seu próprio corpo e a recuperação da sua agência, Bella cobriu a sua mão com a dela e empurrou a lâmina, decisiva e inevitável, no pescoço do animal.
Sangue impossivelmente escuro e quente espirrou sobre ambas quando Bervely puxou a lâmina, as mãos da mãe cobrindo as suas. E continuou esguichando a cada batida do coração de Mordred, que esperneou e lutou e guinchou, incapaz de impedir o ferimento de lhe drenar a vida.
Bervely assistiu sem se mover, a faca ainda entre os dedos, grudenta e pesada. Não demorou mais do que dois minutos – que pareceram durar uma a vida inteira, cada suspiro agonizado de Mordred uma pequena eternidade, cada batida do seu poderoso coração um pequeno terremoto sob os pés de Bervely.
— Ela é gloriosa, você vê — Bellatrix suspirou ao seu lado, como se elas estivessem assistindo um pôr do sol particularmente inspirador. — Você fez isso. Vá até ele. Ouça a última batida. Ela é sua.
Bervely se ajoelhou com Mordred, que tinha perdido a força nas pernas e enfim parado de lutar contra o inevitável. A poça de sangue se acumulando sob ele poderia ter preenchido ao menos cinco corpos humanos. Ela nunca tinha visto tanto sangue na vida. Empapando suas vestes, amornando as suas pernas, se infiltrando pelos seus sapatos e ensopando as suas meias.
Me desculpe, ela pensou, colocando uma mão sobre a ferida. Já se fora o tempo que Bervely tinha o pendor para culpar a si mesma pelos atos de crueldade de outros, e não havia nenhuma parte dela que não culpava Bellatrix por aquele assassinato frio. Mas ainda assim, ainda assim, ela sentia muito. Ela sentia muito por existir, e por ser a razão pela qual Bellatrix estava fazendo de Mordred uma lição da sua deseducação mágica.
O coração do animal pulsou uma última vez, então silenciou sob a sua palma.
Bervely se inclinou para frente, encostando a testa contra o pescoço ainda quente do animal, deixando o forte cheiro metálico no ar tomar cada partícula de seus pulmões.
— Você é um monstro — Bervely murmurou, cansada, contra a pelagem grudenta de sangue na qual se agarrava.
— Minha querida. Não sou eu quem está coberta de sangue.

Começando o cap com um good old disclaimer de violência, let's gooo.
AH MEU DEUS!!!!IDFHKAUIDGBAS A garotinha que ela fora! A atual está INTRIGADA! Começando assim, já vi que vou amar esse cap. Percebe-se que tenho uma quedinha por quando a história vai no rumo IRN kkkk. SIM> Bev, você deixou o senso de autopreservação nas memórias (minha teoria, uma das coisas que influencia o jeito que ela tá agindo agora é porque ela não lembra que o Sirius tá vivo, ou seja, não lembra que tem um Black que precisa que ela viva assim como ela precisa que ele viva, e todos aqueles sentimentos de apegação que ela demorou IRN inteira pra entender) (Sim, estou numa onda IRN hoje,…