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Capítulo 60. Peter

Atualizado: 12 de set. de 2025



Bervely voltou para Blackburn sozinha.

Ela refez o caminho que os seus pés já tinham aprendido, deixando o vento secar o sangue de Mordred em suas roupas, a mente estranhamente vazia—talvez um efeito colateral da maldição Imperius, ou uma acumulação das sessões de tortura ou ainda, as repetidas invasões à sua mente? 

Ou, talvez Bellatrix tivesse conseguido enfim quebrar alguma coisa dentro dela. Bervely não só não estava mais com medo– ela também não estava mais preocupada com o que seria exigido dela dali em diante. O que quer que acontecesse a partir de agora, já não importava. Não é como se ela tivesse alguma escolha na questão. Se ela não fizesse o que lhe fosse pedido, um deles usaria o Imperius para forçá-la. A última lição deixara claro que ela não tinha um pendor natural para resistir ao feitiço – não quando realizado pela varinha de Bellatrix, pelo menos – e a bruxa certamente não iria lhe ensinar aquela lição. 

Bervely estava tão distraída com essa linha de pensamento quando alcançou Blackburn Hall que ela quase não viu o fantasma no corredor. 

Estava lá, um rosto fundo encovado, os olhos azul-pálidos, uma camisola branca diáfana ondulando numa das correntes de ar misteriosas da casa. Era a primeira vez que Bervely via um fantasma em Blackburn Hall, mas não estava surpresa. Um lugar como aquele, e uma família como os Lestrange – eles deveriam ter pelo menos um punhado de almas torturadas que não tinham encontrado resolução em vida. 

— Você não devia ter voltado aqui — disse o fantasma, e Bervely percebeu que não era fantasma coisa nenhuma. 

Charlotte

Bervely não a vira de perto desde o seu retorno, e agora entendia por quê Monstro e os outros elfos achavam que ela estava morrendo. Charlotte parecia a um passo de seu cadáver, o rosto fundo e sem cor, o que antes tinham sido brilhantes olhos azuis, agora duas esferas opacas no rosto fundo. 

— Você não devia ter voltado aqui — Ela repetiu, a voz asmática e esfiapada como o resto de sua aparência. — Ela vai destruir você. 

— Obrigada pelo aviso, mas eu meio que estou percebendo essa parte por conta própria — Bervely disse sem sorrir, o sangue seco em seu rosto repuxando a pele ao redor dos lábios. 

Charlotte não parecia ter mais comentários. Ela estava parada perto da porta na qual Bervely se encontrara com Rabastan há um par de semanas, após entreouvir a discussão entre ele e a noiva. A porta atrás de Charlotte estava entreaberta, mas nenhum barulho vinha lá de dentro. 

— Onde está o seu carcereiro? Te deu uma folga essa noite? 

Charlotte piscou, devagar e aparentemente confusa, olhando na direção para onde Bervely apontara com o queixo. 

— Rab? Ele não é meu carcereiro. Só está tentando ajudar.  

Bervely não estava com paciência para rodeios naquela hora da madrugada, coberta de sangue de cavalo e falando com a noiva-cadáver em pessoa.

— Eu o ouvi ameaçando você, na outra noite. 

— Você entendeu errado. 

— É mesmo? E o que exatamente… quer saber? Não me interessa. Boa noite, Charlotte. 

Charlotte a encarou por um longo tempo. Bervely teve a impressão de que a sua degradação física acompanhava uma psicológica, e ela estava tendo dificuldades para processar palavras tanto quanto parecia lhe custar ficar de pé no corredor. 

— Você sempre teve um pendor para interpretar as coisas exatamente como lhe servem melhor. Boa noite, Bervely.  

Charlotte fez um movimento lento para frente, arrastando os pés na direção da porta aberta, como que para indicar que aquela conversa estava encerrada. A luz do vitral detrás dela alcançou o seu perfil e fez cintilar algo pendurado em seu pescoço – o pingente vermelho pulsante. Peter. Bervely franziu o cenho com a lembrança da sua última conversa com Charlotte, sobre o túmulo de Hector, há muitos meses. 

Se eu morrer, quem vai tomar conta de Peter? 

Charlotte tinha dado a entender que aquela coisa – aquele artefato estranho do qual ela tirava magia para feitiços básicos – era o bebê de Hector, ou o que restara dele. Bervely ainda estava em negação sobre aquele ponto específico, porque a verdade era muito aterradora para engolir. Ela teria gostado de continuar assim, mas aquele ato de coitadinha de Charlotte era mais do que ela ainda podia suportar aquela noite. 

— O que é, então? Que está matando você? 

A voz de Bervely ecoou pelas paredes ocas do corredor, o eco das palavras que Sirius um dia tinha dedicado à Bellatrix eletrificando a sua espinha. Eu não vou a lugar nenhum antes de saber o que está matando você.

Exceto que ela não soara como Sirius, assustado, preocupado, pronto para partir ao resgate. Soara como Bellatrix- impaciente, sem compaixão, cavando até o fundo sem se importar com o dano. 

Não sou eu quem está coberta de sangue. 

Charlotte se virou devagar. 

— Por que você se importa? 

— Eu não me importo — Bervely apertou a boca. Sangue seco e amargo em sua língua. Ela soltou os lábios devagar. — Só estou perguntando por educação. 

Charlotte tentou um sorriso, cinzento e quebradiço como o resto dela. 

— O que mais nos mata, senão os pecados da nossa juventude? — Distraída, ela tocou o pingente vermelho entre as dobras de seu camisolão. — Vá dormir, Bervely. Limpe o rastro de sangue atrás de si, sim? Ou vai acabar atraindo pragas para dentro de casa. 

Bervely ficou para o lento e torturante processo que era assistir Charlotte voltar ao seu quarto, um passo arrastado de cada vez. Se ela estava tão mal, porque sequer saía da cama? E se não era Rabastan o problema, então o quê? 

— INFERNOS! — Bervely bradou, lançando o béquer que estava em sua mão do outro lado da estufa, onde se estraçalhou em um milhão de pedaços contra um vaso de galiopéria. — Não é isso! Não é nada disso! Não é… ugh!

Ela deixou o rosto afundar-se nas mãos. Não ajudava que o seu corpo pesasse uma tonelada desde que acordara, ou que as suas mãos tremessem quando não estavam ocupadas. Ela estava ficando doente? Era uma péssima hora para ficar doente, a uma semana do baile do sagrado vinte e oito e sem nenhum avanço em descobrir a formulação de Amnésia. Não ajudava que ela só se lembrava que precisava produzir a poção quando chegava ao laboratório, e encontrava Monstro lhe esperando com os frasquinhos contendo as suas memórias secretas. 

Se não as colocasse de volta em sua cabeça logo, elas podiam se degenerar. Severus a prevenira a nunca demorar mais do que três dias para reabsorvê-las – e já fazia sete. Se Bervely não conseguisse reproduzir Amnésia, ela podia muito bem perdê-las para sempre. Ela não pretendia arriscar levá-las em suas sessões com Bellatrix, que estavam cada vez mais pessoais, e ela certamente não as iria levar consigo para o baile do sagrado vinte e oito. 

E então havia aquela questão lá no fundo de sua cabeça, que Bervely estava começando a considerar… de que talvez estivesse melhor sem as memórias em questão. Afinal, o que quer que fosse, estava sobrevivendo bem sem elas até então… 

Não ajudava que Bervely não tinha dormido muito naquela noite– certamente não mais do que duas horas, antes do dia amanhecer. Ela tinha esfregado o sangue de Mordred da sua pele por horas, e mesmo assim o cheiro metálico continuava impregnado em seus poros, preso dentro do seu nariz. O momento em que o coração do cavalo tinha batido pela última vez sob a sua palma ia e voltava à sua consciência o tempo inteiro, distraindo-a da sua investigação. 

Era só um cavalo, Bervely. Um cavalo que fora um presente de Voldemort, ainda por cima. Será que o Lorde das Trevas ficaria irritado com Bellatrix por tê-lo usado como sacrifício em uma lição? Ou era exatamente o tipo de coisa distorcida que ele esperava de sua comensal da morte favorita? 

Eu não vou embora antes de saber o que está matando você. 

Sua cabeça reagiu, uma pulsação surda num ponto profundo entre as suas têmporas. Doía toda vez que ela pensava em Sirius, fosse aquele das memórias de Bellatrix, ou das suas. Doía pensar em Hogwarts. E na guerra. E em Severus, e no que diabos ele tinha colocado dentro daquela poção que ela não conseguia descobrir sozinha. 

Foco, Bervely. Foco, foco, foco, foco. 

Ela respirou fundo, olhando para os ingredientes que já tinha conseguido debridar. Valeriana. Pó de asfódelo. Crista de Dove. Ela já decidira que a poção tinha que ser quíntupla – cinco ingredientes principais, perfeitamente equilibrados para alcançar o estado gasoso. Ela achava que o quarto ingrediente, o que provia o solvente, era éter. E então, havia o quinto. O que faria a ignição da poção, a ligação dos demais, a catalisador da fórmula… 

Severus teria usado um catalisador ao mesmo tempo fácil de ser obtido e difícil de ser descoberto. As possibilidades de catalisadoras eram infinitas – havia pelo menos uma dúzia de classes diferentes, e não ajudava que Bervely não tivesse cursado a matéria no Instituto Flamel – já que abandonara a sua formação em alquimia antes do semestre dedicado ao assunto.

Mas porquê ela tinha deixado o Instituto Flamel? Não fazia sentido, e a sua cabeça produziu a mesma pulsação dolorosa e vaga de antes. Bervely choramingou dentro das mãos. Trocaria a frustração de não saber respostas para metade de suas perguntas por um cruciatus de Bellatrix a qualquer tempo. 

— Monstro! — Bervely chamou, por entre os dedos apertados. — Monstro! 

O elfo demorou alguns minutos daquela vez. Ele estava coberto de poeira da cabeça aos pés, com um espanador caindo aos pedaços na mão. 

— Minha senhorita? Está pronta para recuperar as suas mem-?

— Eu preciso de um livro — Bervely o interrompeu, sem paciência para a ladainha de sempre. — Mil e Um Catalisadores Alquímicos, Libatius Borage. Deve ter um volume em Hogwarts, ou… — Ela apertou os olhos, tentando pensar. — No Instituto Flamel? Acha que consegue roubar um volume? Ou comprar um, eu suponho. Não, não compre um. Você teria que ir na Floreios e Borrões, vai chamar atenção indesejada, vão querer um nome… 

Ela se atrevia a usar um nome falso para obter produtos na Travessa do Tranco, onde todo mundo usava um nome falso. No Beco Diagonal eles tendiam a ser mais diligentes com aquele tipo de coisa. 

— Monstro pode roubar — O elfo assentiu, os olhos largos franzidos para ela. — Mas, a senhorita já olhou na biblioteca da casa? 

Bervely piscou, surpresa. Ela tinha se esquecido da biblioteca de Blackburn. Ela não se lembrava do quão diversa era a coleção de poções e alquimia na casa Lestrange, mas aquele não era um livro tão raro. 

— Boa ideia. Pode procurar para mim? 

Monstro torceu o esfregão entre as mãos, inquieto. 

— Monstro não pode. Monstro foi expressamente proibido de fuçar em Blackburn, minha senhorita. 

— Por quem? 

— Madame Bellatrix — Monstro disse baixinho, como se tivesse medo de ser pego pronunciando o seu nome. — Há muito tempo, quando madame achou que Monstro estava investigando para a Ordem da Fênix. 

— Ah. Você tem a minha permissão para fuçar de novo. 

— Não funciona assim, minha senhorita. Uma ordem de sua mãe só pode ser desfeita pela sua mãe. 

— Argh! Certo. Que seja. Suma da minha frente, então. 

Monstro fez uma reverência profunda e clicou para a inexistência. Bervely deu um suspiro pesado, se preparando psicologicamente para deixar o sótão e se aventurar pela casa. 

Bervely, que tinha aberto a porta para a estufa numa das paredes do sótão, atravessou de volta ao sótão e deu uma olhada no andamento da polissuco, confirmando que a poção progredia como esperado, alcançando um tom verde-musgo profundo e a consistência de sopa de legumes (ou de vômito, a depender da perspectiva). Enquanto produzia a receita tradicional, ela se dera conta de que sabia de uma receita adaptada da poção, que não só melhorava o seu gosto, mas aumentava a duração das transformações de uma hora por gole para oito horas por gole. Ela não fazia ideia de onde a aprendera– ou para que a usara, visto que sabia a receita de cor– e a mera tentativa de descobrir a tinha deixado com dor de cabeça. 

Talvez ela estivesse doente… Talvez o seu cérebro estivesse derretendo. Tanto cruciatus não podia ser bom para o juízo de ninguém. 

A biblioteca de Blackburn era escura como o resto da casa, com estantes compridas e volumes preenchendo muito das paredes, do chão ao teto. Era muito menor que a de Hogwarts – apenas um salão de teto alto, ao invés dos labirinto de estantes encontrados no castelo – e dava para ver que crescera de acordo com as necessidades da família Lestrange, e não da educação mágica básica de um bando de crianças. Uma das maiores seções, ao lado esquerdo da enorme lareira, cobria destilados e outras bebidas mágicas. Outra parte inteira era sobre a cultivação de trigo de fogo. Havia uma série das enciclopédias mágicas mais famosas. E então, espremida numa série de prateleiras perto de um assento sob uma janela, ela achou a sessão de poções e alquimia. 

Bervely reconheceu muitos dos volumes que tinha usado ao longo dos anos. Mil Ervas e Fungos Mágicos. Produção Padrão de Poções, quarta edição. Até Engarrafe-se, de Miranda Pepper, que fora professora de Bervely em Durmstrang. De fato, havia uma prateleira inteira dedicada a Miranda Pepper, incluindo os seus livros mais recentes, Encaldeire-se e Enconche-se. Alguém ali devia ser um fã da pocionista estrangeira.  

Nenhum sinal de Mil e Um Catalisadores Alquímicos, no entanto. Outros livros de Libatius Borage, mas não o que ela precisava. 

— Achou o que estava procurando? 

Bervely se virou, sem dar a satisfação de parecer que tinha sido pega cometendo algum crime. 

Era Rodolphus Lestrange. Bervely não cruzava muito com o padrasto. O homem nunca estava em casa, e quando estava, tendia a ficar fora do seu caminho. Azkaban o tinha desgastado, como ao seu irmão, mas não ao ponto de arrancar o charme felino de sua postura, ou a diversão cáustica dos seus olhos cor de vinho tinto. 

Bervely não gostava dele– nunca tinha gostado. Não quando ele a tinha-na tratado com indiferença em sua infância, e certamente não agora, quando seus olhos de raposa lhe acusavam, como se ela fosse a criminosa na sala.

Bervely ajeitou a postura e ponderou as suas opções. Hostilidade estava ficando cansativo, e talvez um pouco de cordialidade a levasse mais longe naquelas circunstâncias. 

—  Não posso dizer que eu tenha. A seleção de poções dessa biblioteca deixa muito a desejar. 

Rodolphus deslizou seus passos felinos precisos na direção de Bervely, até parar tão perto que ela teve que lutar contra a vontade de se recuar. Mas ao invés de olhá-la, ele escorregou um dedo longo pela seleção de livros a que ela se referia. 

— Não é nenhuma biblioteca de Hogwarts, isso é verdade. Do que precisa?

Bervely franziu, estranhando o tratamento prestativo pouco característico. 

— Mil e Um Catalisadores Alquímicos. Libatius… 

— Borage — Ele assentiu com reconhecimento. — Não, eu temo que nunca encomendei esse.

— Você comprou esses livros? — Ela perguntou, chocada. Rodolphus Lestrange, um fã de Miranda Pepper? E aquelas compras tinham que ser recentes, a maioria daqueles livros tinha sido lançada enquanto ele e Bellatrix estavam em Azkaban. 

— Achei que a biblioteca poderia usar uma atualização. Não que haja grandes leitores nessa casa, além de mim e Charlotte — Ele ainda estava dedilhando os livros, investigando as lombadas. Seu dedo parou sobre um volume, e Rodolphus deslizou o livro para fora da prateleira e na direção dela. — Ah. Talvez esse aqui sirva. 

Bervely leu o título do volume que ele estendia em sua direção: Compêndio de Catalisação Alquímica Básica e Avançada

— Talvez — Ela ponderou, ainda desconfiada, aceitando o livro. 

— Yatz é um alquimista andino muito pouco comentado na Inglaterra — Rodolphus explicou, ao ver Bervely ler o nome do autor. — Mas ele tem uma Ordem de Merlin em Alquimia, primeira classe. 

Ela assentiu, se afastando de Rodolphus com a desculpa de abrir e folhear o livro. Ainda podia sentir os olhos dele pousados nela enquanto fingia investigar o índice. 

— Projeto especial para o lorde das trevas? 

— Sim — Bervely mentiu, a voz neutra. 

— Severus deve tê-la treinado bem, se Milorde acha que você é capaz de substituí-lo. 

Bervely tentou não parecer muito interessada à menção de Severus. 

— Eu não tenho nenhuma intenção de substituí-lo. Ele vai retomar o seu posto quando voltar… do que quer que esteja fazendo.

O marido de Bellatrix soltou uma risadinha duvidosa. Bervely se contraiu com a reação— Rodolphus devia saber de alguma coisa sobre o paradeiro de Severus. Algo que ela talvez fosse capaz de arrancar dele, se jogasse suas cartas corretamente…

— A verdade é que eu não sou tão boa quanto ele — Bervely disse, escolhendo suas palavras com cuidado. Ela tinha que parecer vulnerável e desinformada, se queria que aquilo funcionasse. — O projeto em que eu estou trabalhando se beneficiaria muito de uma consulta com Severus. 

Silêncio. Ela ergueu o rosto quando ficou claro que a resposta dele não viria, e achou o comensal da morte sorrindo, os braços cruzados, o olhar de quem está obtendo entretenimento de algo ao mesmo tempo adorável e digno de pena. Ao contrário do sorriso de Bellatrix, o de Rodolphus repuxava a pele do canto dos seus olhos. 

— Então, por que você não o consulta? — O comensal devolveu, num tom de condescendência velada. 

— Eu não sou suposta a entrar em contato com ele. Ele me fez prometer que eu não iria. 

— O que a faz pensar que eu possa? — Ele perguntou, respondendo a pergunta que ela não ousara dizer em voz alta, os olhos de gato sobre ela. 

Bervely se aprumou, parando de se fingir de desinformada.

— Você pode? 

Ele sorriu de novo. Rodolpuhus tinha um monte de dentes, todos impossivelmente brancos para quem tinha passado quatorze anos em Azkaban.

Talvez. Por um preço. 

É claro. O problema é que ela pagaria… bem, quase qualquer preço para se certificar que Severus estava bem, e de quebra conseguir algo que a ajudasse com a reprodução de Amnésia. A sua ansiedade devia ter vazado para o seu rosto, apesar de sua tentativa de permanecer inexpressiva, porque o sorriso condescendente de Rodolphus virou algo mais carnívoro. Bervely teve a impressão de que o preço que ele estava prestes a pedir devia ser algo pervertido. 

O bruxo inseriu a mão no bolso do seu colete e tirou um pedaço de pergaminho. Com um movimento elegante da mão no ar, ele produziu uma pena. 

— Escreva o seu recado para Severus, e eu vou ver o que posso fazer para entregá-lo. 

O inferno que ela ia. 

— Você ainda não disse o seu preço. 

— Depois que eu cumprir a minha parte do acordo. Assim você não tem como voltar atrás. 

Ah, a arte de fazer pactos com demônios. Ela hesitou, com papel e pena na mão. 

— Eu não tenho a vida toda, garota — Rodolphus suspirou, embora ele não parecesse com pressa nenhuma, aquele sorrisinho predador brincando em seus lábios. 

Bervely considerou o que ela não faria por aquele favor. Além do mais, ela duvidava que o preço de Rodolphus fosse pior do que qualquer coisa que Bellatrix a forçaria a fazer no círculo de pedras nas próximas noites. 

Ela se curvou e escreveu a sua mensagem.

Qual o segredo da sua poção favorita? 

Não precisava assinar, sabia que Severus reconheceria a sua caligrafia. E ele saberia do que ela estava falando, se ele não estivesse sob o efeito de Amnésia quando lesse…  Mas ela não podia arriscar algo mais específico, que pudesse denunciá-la, ou a ele, se parasse nas mãos erradas. 

Quando a resposta de Severus veio, não chegou no formato que Bervely esperava. Era uma manhã de sábado, dois dias depois da sua interação com Rodolphus na biblioteca, e Bervely estava tomando café da manhã sozinha na sala de refeições.

Ela tendia a chegar “atrasada” para  café da manhã sempre que podia, para evitar cruzar com os demais moradores da casa. Até onde sabia, Charlotte e Rabastan quebravam o jejum em seus respectivos aposentos, e Bellatrix e Rodolphus tomavam café da manhã juntos de manhã cedo, no solário do quarto andar. 

Bervely apreciava a solidão do salão de refeições, especialmente em seu atual estado de humor. Bellatrix não entrara em contato para mais aulas desde a última vez – pequenas bênçãos, ela supunha – mas os sintomas de seu mal estar persistiam. A pulsação surda prosseguia no centro de seu cérebro como um tambor abafado, e às vezes ela se esquecia do que estava prestes a fazer por minutos inteiros, ou se pegava fitando o nada, a meio caminho de… alguma coisa. 

— Senhorita Black? — Um elfo chamou a atenção de Bervely, parado perto da sua cadeira. Era uma criaturinha pálida de orelhas curtas, que Bervely se lembrava de ter visto em algum ponto em Blackburn mas que normalmente não cruzava seu caminho. Ele trazia algo em uma bandeja, coberto por um lenço de veludo. 

— O quê? 

— Mestre pediu que Kay entregasse à senhorita a resposta do seu recado. 

— Ah. E o seu mestre, quem é? — Aquela era uma casa de muitos mestres. Bervely preferia ser clara nesse ponto. 

— Senhor Lestrange — Bervely estreitou os olhos para o elfo com impaciência. — Senhor Rodolphus Lestrange —  O elfo esclareceu rápido. 

— Certo. Deixe em cima da mesa, vou olhar em um segundo. 

O elfo fez uma cerimônia e deixou a bandeja com o objeto misterioso sobre a mesa. Bervely esperou, o coração palpitando de ansiedade, até o elfo sumir de vista. A resposta de Severus, enfim. Então, ao menos ele estava vivo… 

Ela puxou o lenço, revelando uma pequena gaiola dourada, não muito maior do que uma taça de vinho. Lá dentro, o passarinho mais azul que já tinha visto na vida, miúdo como o seu dedo mindinho. 

Bervely franziu para o animal, que em retorno, piscou para ela olhinhos escuros de conta, sem dar nenhum pio. Bervely procurou por uma carta, uma explicação, um recado. Nada. 

Intrigada, ela colocou a gaiolinha em sua palma e a ergueu à altura dos olhos, observando o animal mais de perto. Era só um filhote – as penas ainda eram azul vibrantes, as manchas pretas na borda das penas quase invisíveis. Bervely só reconheceu a que espécie pertencia porque ela tinha trabalhado com aquele mesmo tipo de pena recentemente, para a poção da verdade do Lorde das Trevas. 

O pássaro era um Dedo-Duro. Suas penas eram ingredientes essenciais de Veritaserum. Um tipo infeliz de pássaro, Dedos-duros eram incapazes de cantar, exceto quando estavam morrendo. Nesta ocasião, eles regurgitavam todos os sons que tinham ouvido durante a vida, de trás para frente. 

Dedos-duros também tinham ficado famosos por transmitir mensagens secretas entre bruxos durante a primeira guerra-bruxa, quando as corujas estavam sendo interceptadas e rastreadas por bruxos das trevas. Quase tinham entrado em extinção, e essa era uma das razões pelas quais produzir Veritaserum era tão caro. 

Ela fez uma careta. Se aquele Dedo-duro tivesse uma mensagem secreta para ela, Bervely ia ter que matá-lo para ouví-la. 

Ela levou a gaiolinha com o Dedo-Duro para a estufa, onde estavam distribuídos os seus trabalhos em andamento com Amnésia. Desconfiava que o pássaro trazia uma única mensagem, e que esse seria o quinto ingrediente, o segredo da “poção favorita de Severus”. 

Uma vez a porta da estufa selada, ela o retirou da gaiolinha e o segurou na palma da mão. O pássaro continuou olhando para ela com aquela confiança inocente que só as criaturas mais vulneráveis eram capazes de demonstrar. Ele ainda era novo demais para voar. Bervely acariciou a cabeça minúscula com a ponta do dedo, então envolveu o pescocinho minúsculo com a curva do seu indicador. Sentiu a pulsação ínfima, de um coraçãozinho menor do que a cabeça de um alfinete, contra a parte interna do seu dedo.

É só um pássaro. Não muito pior do que um cavalo. 

Exceto que sob Imperius a sua mão tinha estado firme, e agora ela estava tremendo. 

Sobretudo, lhe parecia um desperdício enorme executar o filhote de Dedo-Duro em troca de uma mensagem. Uma criatura tão rara, tão valiosa, cujas penas mal tinham crescido por completo. Provavelmente as penas nem haviam atingido a funcionalidade ainda, sendo o pássaro tão jovem. E havia tantas poções incríveis a serem produzidas por aquelas penas, no ápice do seu desenvolvimento. Poções da verdade, da sinceridade, da nostalgia e até… 

Poções da memória. 

Bervely relaxou o dedo em torno do pássaro. Como ela pudera deixar aquilo passar?  Severus respeitava ingredientes de poções, especialmente os raros. Ele jamais admitiria tal desperdício– exceto que se alguém interceptasse a sua mensagem, alguém sem o conhecimento de poções e de Severus, esse alguém teria matado o pássaro para conseguir a mensagem. Mas não havia nenhuma mensagem. Ele tinha lhe enviado, de propósito, um Dedo-Duro mal saído do ovo. Novo demais para servir para ingrediente, e provavelmente novo demais para registrar sons. 

— Você não é um mensageiro — Bervely sussurrou para o passarinho. — Você é o ingrediente. Ou ainda, a pista do meu ingrediente. 

Bervely o colocou de volta na gaiola com cuidado e correu de volta ao sótão, onde ela estava guardando as sobras dos ingredientes que não tinha usado em Veritaserum ou na Polissuco. Ainda lhe restavam duas penas de Dedo-Duro. Ela tinha estranhado como aquele ingrediente em especial, tão raro, tinha vindo em excesso para a produção requerida pelo Lorde das Trevas. 

Mas e se aquilo não tivesse sido um erro de cálculo? E se Severus tivesse lhe enviado não uma, mas duas mensagens pelo pássaro: a primeira, o quinto ingrediente de Amnésia, a segunda, a informação de que ele sabia o que Bervely vinha fazendo em Blackburn? Ele sabia que ela teria penas de Dedo-Duro sob a sua posse, ou teria enviado um pássaro adulto. Talvez ele próprio estivesse auxiliando o Lorde das Trevas na obtenção dos ingredientes que ela precisava, enquanto estava cuidando… do que quer que fosse a sua tarefa naquele momento. 

Bervely voltou para a estufa com uma das exuberantes penas azuis de Dedo-Duro adulto nas mãos, um sorriso amplo no rosto. O Dedo-Duro filhote lançou um olhar alarmado para a pena em sua mão quando ela se aproximou da mesa. 

— O quê? Não fui eu quem a retirei, ok? Não me olhe desse jeito — Ela se defendeu, desconfortável. 

O pássaro pareceu relaxar. Ou então, era tudo sua imaginação. Era possível que estivesse ficando ligeiramente desequilibrada. 

Quatro horas mais tarde, Bervely conseguiu obter o líquido leitoso que, em contato com o ar, ondulou para fora em espirais complexas de vapor. 

— EU CONSEGUI! — Ela gritou, extática, erguendo a poção no ar. — EU CONSEGUI! EU CONSEGUI! 

Mas é claro, não havia ninguém para comemorar aquele pequeno milagre com ela. O Dedo-Duro em sua gaiolinha a espiou com perplexidade, incapaz de compartilhar de sua vitória. 

Mas não importava. Bervely ainda precisava testar a poção, e ela obviamente não podia testar em si mesma porque, no minuto em que bebesse Amnésia, se esqueceria de que a bebera até que fosse lembrada por alguém. Felizmente, ela sabia onde encontrar uma cobaia sempre ansiosa para lhe fazer mais um “favor”. 

— Monstro! 



— Então? Conseguiu a resposta que queria?

Bervely foi pega de surpresa pela voz de Rodolphus no breu do corredor. Estivera a caminho da cozinha – ela tinha perdido a hora do jantar, e estava faminta – e tinha sinceramente esperado que não encontraria ninguém vagando àquela hora da noite, mas qual era a sua sorte... 

— Sim — Bervely assentiu com economia. Não pretendia dar ao homem mais informação do que o necessário. Além do mais, ela sabia o que vinha agora. O pagamento. — O que quer em retorno?

Ele lhe disse o seu preço. O pedido fez Beverly desejar que ela tivesse estado certa sobre os favores pervertidos. 

— Então? — Rodolphus pressionou, quando ela não lhe disse nada por quase um minuto inteiro. 

— Não sei porque acha que eu posso ajudar com isso. 

— O que eu acho não importa. Eu fiz a minha parte, agora você faz a sua. 

Bervely não podia ver o rosto de Rodolphus no escuro, e tinha dificuldade de interpretar o tom de sua voz. Ele não soava ameaçador, apenas… prático. E o mais absurdo é que soava certo de que  Bervely podia fazer o que ele estava pedindo. 

— E se ela não quiser a minha ajuda? 

— Sei que vai descobrir um jeito de persuadi-la. 

Bervely desconfiava que aquilo não era um elogio. Mas, acordo era acordo. 

— Vou ver o que posso fazer a respeito. 

Ela pegou o vislumbre de um gesto dele na direção da porta do quarto alguns metros adiante. Ela só viu a sombra da mão de Rodolphus, envolta em uma manga larga de uma camisa de linho branca, por conta da luz pálida que vinha do vitral atrás dele. 

— O quê, agora

— Por quê, tem algum compromisso mais importante essa noite? — Rodolphus zombou. 

Bervely tinha, na verdade. Ela havia confirmado que a sua Amnésia funcionava – Monstro tinha se esquecido quem ela era com sucesso por cinco minutos inteiros, até ela lhe devolver a memória de sua identidade e provocar um acesso de desculpas auto-punitivas no elfo – e o seu plano seguinte era recuperar as suas próprias memórias assim que estivesse de barriga cheia. Quanto mais tempo pudesse mantê-las seguras em sua cabeça, melhor seria, ou assim lhe prevenira Severus. Com a segurança de que tinha Amnésia em mãos na próxima necessidade, não havia mais desculpas para deixá-las arrolhadas nas mãos de Monstro. 

— Não, eu suponho que eu não tenha — Ela suspirou, com a sensação de que Rodolphus não ia deixá-la em paz enquanto ela não cumprisse a sua parte. Isso, e havia aquela parte dela, que estava com receio do que encontraria nos frasquinhos.  

*

Bervely bateu na porta que o comensal da morte tinha indicado. Uma voz quase inaudível lhe respondeu lá de dentro. 

— Quem é? 

Bervely umedeceu os lábios, ainda contrariada. Como era que quanto menos ela queria se envolver, mais acabava envolvida? 

— Bervely. 

Silêncio. Tão longo que ela teve a certeza de que estava sendo ignorada– nenhuma surpresa aí. Ela teria feito o mesmo, se fosse Charlotte a bater à sua porta no meio da noite. 

— Entre. 

Beverly empurrou a pesada porta de madeira e deslizou para dentro dos aposentos de Charlotte. O lugar fora decorado em tons de azul claro e creme, como o interior de uma caixa de jóias. Também cheirava como uma, do tipo que não era aberta há muito tempo.  

Charlotte estava na cama, se confundindo com os lençóis de cetim cor de creme. Exceto que os lençóis cintilavam sobre a luz de uma vela em sua cabeceira, enquanto que Charlotte era opaca– a pele cerosa, o cabelo quebradiço e embaraçado. Os olhos desbotados, mais cinzentos do que o vivo azul que Bervely tinha aprendido a odiar, porque se pareciam tanto com os de Wendy Darling. 

— O que você quer? — Charlotte perguntou com uma dose saudável de desconfiança. A sua voz era um fio esgarçado, mal capaz de se projetar até onde Bervely estava. 

Bervely se aproximou da cama devagar. 

— Então é verdade. Você está morrendo. 

— Veio se vangloriar? — Charlotte resmungou, e começou a tossir uma tosse horrível, asmática, que sacudia o seu corpo todo. A tosse desalojou o pingente acomodado entre as dobras de sua camisola e Bervely captou o brilho vermelho e pulsante do objeto. Era como se lembrava– um poliedro que parecia feito de rubi, exceto que o interior, escuro como um coração, pulsava. Era como olhar dentro do corpo de alguém, como expor algo que devia ser protegido por ossos, músculos e pele. O cordão que ligava o pingente à Charlotte tinha a cor de carne, com partes azuladas como veias. 

Peter. Com quantos anos ele estaria agora? Seis anos

Quem vai cuidar de Peter, se eu não estiver mais aqui? 

— Eu quero saber — Bervely explicou, cada uma das três palavras saindo com grande esforço. Mas as próximas saíram mais fáceis, talvez porque ela estava mesmo curiosa. Talvez porque as tivesse ouvido antes, recentemente, e estivessem ecoando em sua cabeça desde então. — Me diga o que está matando você. 

O cão de Charlotte, deitado aos pés da sua cama, rosnou quando Beverly chegou perto demais. Charlotte ergueu uma mão pesada e pousou sobre ele. 

— Tudo bem, Dragão. Ela não vai me fazer mal — E para Beverly, estreitando os olhos opacos. — O que você ganha em troca? 

— Só a satisfação da minha curiosidade mórbida. 

Isso fez Charlotte sorrir, o que não era algo que ela devia estar fazendo. Pequenas rachaduras se abriram em seus lábios quando eles se curvaram para cima. 

— Você não devia ter voltado para essa casa — Ela repetiu o que tinha dito no corredor há alguns dias. Bervely perguntou o quanto Charlotte saberia sobre o “treinamento” de Bellatrix. Sobre Mordred. Charlotte sempre tivera um pendor para saber o que acontecia dentro daquela casa, mesmo quando não tinha elfos ao seu serviço. Bervely não duvidava que o seu passatempo, ultimamente, fosse espionar os assuntos da casa através dos servos de Blackburn, para preencher o seu tempo, enquanto definhava. 

— O quê? Acha que eu não me encaixo aqui? — Bervely perguntou com sarcasmo, se sentando na ponta da cama, apoiando as costas em uma das colunas de sustentação do dossel. 

— Eu acho que você se encaixa bem demais — Charlotte refutou. — E esse é o problema. 

— Alguns teriam argumentado que você não deveria ter voltado à essa casa — Bervely comentou, inclinando a cabeça ligeiramente para indicar a situação decrépita dela. — Os ares de Blackburn não parecem estar lhe fazendo muito bem. 

Charlotte negou. O gesto pareceu exigir cada milímetro de sua força. 

— Isso não tem nada a ver com Blackburn. 

— E nem Rabastan? — Bervely buscou confirmação. Charlotte suspirou. 

— É Peter. É ele quem está me matando, se quer mesmo saber. 

Beverly deixou os olhos pousarem no objeto, que no geral ela preferia evitar olhar. A pulsação lhe deixava inquieta. A mera existência da coisa parecia uma abominação. 

— Bem, por que não para de usá-lo, então? Não é lá um acessório muito gracioso. 

— Não é tão simples — Charlotte mordiscou o lábio inferior. Sangue vermelho-claro aflorou na superfície da pele partida. Charlotte não pareceu se dar conta. — Ele está ligado a mim. Precisa de mim para continuar vivo. 

Ela se inclinou para mostrar a Bervely o ponto onde as correntes de carne penetravam a sua pele, na parte de trás do seu pescoço. Bervely tentou manter a expressão neutra apesar de uma súbita onda de náusea. 

— E eu suponho que você precisa dele. Da magia dele, para brincar de bruxa e conseguir o passe para o clube Lestrange. 

Algo que parecia dor cruzou a expressão de Charlotte. Ela franziu, desviando os olhos. 

— Isso foi um erro.  

— Não brinca! — Bervely exclamou, soprando a sua incredulidade pelo nariz. — Transformar o bebê de Hector em um artefato de magia negra para que você pudesse explorar a magia dele por anos foi um erro? Não me diga que você tem um resquício de compasso moral, Charlotte! 

— Todos nós somos monstros à nossa própria maneira, Bervely. Eu não nego a minha parcela de monstruosidade, embora na época, eu achei que esse fosse o menor dos males. Eu fui persuadida… quando eu entendi as implicações dessa magia, é verdade, eu não pude interrompê-la. Eu não tive coragem, e agora eu estou pagando o preço — Ela encolheu os ombros. Um tanto patético, visto que ela mal podia erguer os ombros poucos centímetros. — Você perguntou o que estava me matando. O meu passado está. Peter está, mas não é culpa dele. 

— Eu ainda não entendo. Quem persuadiu você a fazer isso? E porque não a estava matando antes, mas agora está? Já fazem seis anos que Peter– que você– você já não deveria estar morta à essa altura?

Charlotte explicou, entre acessos de tosse e falta de ar, que o objeto era um Kolossoi – um artefato capaz de sustentar um feto fora do útero, desde que ele pudesse se alimentar do sangue e da energia vital da própria mãe no processo. Quando Charlotte tinha fugido da Mansão Malfoy após a morte de Hector, e corrido para o abrigo de Thor Carmichael, ficara claro que ela não conseguiria levar a gravidez a termo. Ela não tinha perdido o bebê ainda, mas a sua queda das escadas causara um severo descolamento de placenta que magia não podia resolver sem colocar a vida do bebê em risco. Decidido a não perder o seu único herdeiro, Thor convencera Charlotte a gerá-lo fora do útero, dentro do Kolossoi. 

Um plano, segundo Charlotte, temporário– mas o útero dela nunca se recuperou o bastante, e ela se recusara a se desfazer do Kolossoi. Não só porque Peter morreria, mas porque ela tinha percebido que uma vez grávida de uma criança bruxa, ela era capaz de fazer magia. Assim, ela levara a gravidez adiante. Exceto que Peter jamais poderia alcançar desenvolvimento completo dentro do Kolossoi– ele estava num estado suspenso, incapaz de crescer, limitado pelo próprio artefato que o continha, e que jamais poderia replicar a complexidade de um útero humano. 

— Funcionou por alguns anos sem problemas — Ela explicou a Bervely, incapaz de encará-la, ao invés disso olhando para as próprias mãos entrelaçadas sobre a coberta azul. — Eu o mantinha vivo, e ele me emprestava a sua magia. Até que Thor foi… detido — Ela olhou de relance para Bervely, uma nota do antigo ressentimento surgindo na superfície. — Era ele quem fazia a manutenção do Kolossoi. Ajustava a nossa ligação para que ele não tomasse muito da minha energia vital, para que não quebrasse o nosso equilíbrio. Esse tipo de magia tem a tendência de sair do controle, porque Peter quer.. crescer — A voz dela quebrou, os olhos marejados de lágrimas. — Mas ele não pode. Ele me mataria, e então a si próprio. Mas ele tem tentado. Ele tem tirado muito mais de mim do que eu posso oferecê-lo. Não é uma gravidez normal, entende? Nenhum corpo é suposto a carregar uma gestação tão longa. Como você disse, são seis anos. E sem Thor…   

Bervely tentou forçar a sua náusea para baixo, para conseguir formar palavras. Ela estava grata de que não tivera a oportunidade de comer antes daquela conversa. Embora ainda pudesse vomitar a sua revolta e indignação com Charlotte, ela supunha, porque ambos os sentimentos pareciam tão sólidos quanto furiosos em suas entranhas. 

— Não brinca — Foi tudo que ela conseguiu produzir por entre os dentes travados. — O que Rabastan quis dizer com “a sua teimosia vai matá-la?” O que ele quer que você faça? 

Se Charlotte estava surpresa de que Bervely tivesse ouvido a sua discussão com o futuro marido, ela não demonstrou. 

— Ele só está frustrado porque acha que enquanto eu tiver o Kolossoi, não posso engravidar. E ele quer herdeiros, óbvio. A Casa Lestrange não tem um herdeiro...  

Bervely esperou pelo resto, que Charlotte admitiu numa voz tão baixa que Bervely precisou fazer leitura labial. 

— …mas mesmo se eu sobreviver ao Kolossoi, eu não poderei lhe dar herdeiros. O feitiço me fez infértil. 

O fato de que Charlotte era uma das pessoas menos queridas não impediu Bervely de ter pena dela naquele momento. Aquele era um preço grande a se pagar por magia. 

— É por isso que você não se livrou do Kolossoi ainda? Para não ter que contar a Rabastan que não pode engravidar dele?

— Não! — Charlotte reagiu, se encolhendo como se Bervely tivesse erguido a mão para ela. — Eu não posso “me livrar” dele, Bervely, você não entende? Ele é o meu bebê. Ele é a última coisa viva de Hector que me resta. Eu não posso… eu não vou… 

Bervely a observou enquanto Charlotte soluçava. A sua repulsa pelo feitiço, misturada com a sua pena de Charlotte, e uma noção geral de que aquilo tudo era muito perturbador, estava tornando difícil pensar racionalmente. 

Mas então... não havia no quê pensar. Ela não dava a mínima para a ausência de herdeiros da casa Lestrange, ou o sucesso do casamento de Charlotte, mas ela conhecera Hector bem o bastante para saber o que ele pensaria de ter o seu filho pendurado em um pingente por seis anos, sem a chance de existir, de ser humano, de crescer e realizar o seu potencial

— Hector nunca iria aprovar algo assim. Você tem que saber que ele acharia repulsivo. Charlotte, você o conhecia melhor do que ninguém. 

Melhor do que eu. Ela tinha adorado Hector, mas fora Charlotte quem tinha roubado o coração dele. Foi para Charlotte que ele tinha revelado as partes mais verdadeiras dele, as que ele não tinha deixado nem mesmo Bervely ter acesso. Tinha sido com Charlotte que ele decidira fugir para construir uma vida longe dos olhos dos Malfoy. 

— Eu… eu s-sei — Charlotte admitiu entre soluços. Ao pé da cama, Dragão ganiu, inquieto com os sons de sua dona, a cauda bifurcada batendo impaciente contra o tapete. — Mas eu não p-posso… eu não posso simplesmente… deixá-lo ir. 

Ajude-a”, Rodolphus tinha lhe pedido como pagamento a seu favor. “Ajude Charlotte.”. 

O coração de Bervely afundou como se tivesse se tornado uma bola de chumbo. Agora ela entendia o que ele tinha querido dizer. 

— Não. Não sozinha, eu suponho.

Charlotte ergueu o rosto para ela, detectando a implicação em sua voz. 

Você quer me ajudar? 

Se Bervely não fosse, estava claro que ela morreria em breve. Se Bervely fosse ajudá-la, elas seriam cúmplices em um dos atos mais terríveis que a humanidade, trouxa e bruxa, era capaz de conceber. 

Infanticídio. 

Bervely engoliu a imensidão daquela ideia e abriu espaço para a frieza emocional que viera refinando no círculo de pedra de Bellatrix. Era a única explicação para a sua voz soar tão controlada quando ela disse:

— Eu acho que eu tenho uma ideia. O kolossoi é como uma gravidez, você disse? 

Charlotte assentiu, longas trilhas molhadas em seu rosto, os olhos enormes transbordando de dor. Bervely teve a impressão de se ouvir falar, de se ver de uma perspectiva exterior ao seu corpo, a voz sem inflexão. 

— Há certas poções que podem terminar uma gravidez indesejada.

Ela tinha uma específica em mente. Esperava que pudesse produzi-la com um pouco mais de competência do que a adolescente desesperada da qual tinha obtido a ideia. 

Purgabit Sordis não era uma poção complicada, e seus ingredientes não eram especialmente difíceis de conseguir. Bervely nunca a produzira antes – nunca tendo precisado interromper uma gravidez indesejada antes – mas ela não teve dificuldade em encontrar a receita na seção de poções da biblioteca. 

Era quase como se Purgabit Sordis estivesse esperando por ela. Os ingredientes, Bervely pediu a Monstro, que ficou feliz em recuperá-los na Travessa do Tranco. 

Também era o tipo de poção rápida de produzir. Um par de horas e a substância âmbar e transparente, com aparência e textura de uísque de fogo, estava esfriando no pequeno caldeirão de zinco. 

— Minha senhorita — Monstro, que tinha ficado na estufa para assistir Bervely trabalhar depois de lhe trazer os ingredientes, soou um tanto assombrado ao espiar o líquido resultante no caldeirão. — Essa é uma poção perigosa. Monstro sugere que minha senhorita talvez queira recuperar as suas memórias antes de fazer algo que se arrependa…?

Bervely precisou de um momento para entender do que Monstro estava falando. As memórias. Tinha se esquecido delas, é claro. Ela fez um aceno impaciente com a mão. 

— A poção não é para mim, Monstro. E as memórias podem esperar. 

Bervely sentiu algo deslizar de uma narina e limpou com a manga da camisa, impaciente. O vislumbre de um líquido escuro a fez parar e olhar de novo. Sangue. Desde quando hemorragia nasal era um sintoma de amnésia? Não importava, ela não tinha tempo para aquilo. 

Monstro arregalou os olhos para ela. 

— Minha senhorita, Monstro implora… 

— Agora não, Monstro — Bervely rosnou, o empurrando de sua frente com impaciência em sua busca por um frasco limpo para engarrafar Purgabit Sordis. 

O elfo saltou para fora do caminho de Bervely e continuou resmungando, mas ela o ignorou e fechou a porta da estufa atrás dele. Monstro estava proibido de acompanhá-la para fora da estufa, e tecnicamente ele nem tinha permissão de entrar em Blackburn sem ser chamado por um membro da família, então ele não teve opção senão deixá-la ir. 

Bervely voltou ao quarto de Charlotte com a poção ainda quente em seu bolso. Charlotte mal ergueu o rosto quando ela entrou. Sua respiração era como a de um passarinho, superficial e rápida. 

— É melhor irmos para o banheiro. Pode haver sangramento. 

De Charlotte, de si mesma… o que era a sua vida ultimamente, senão uma grande festa hemorrágica?

Charlotte franziu o cenho, sem fazer menção de se mover. Bervely achou que ela tinha mudado de ideia, então ela fez um sinal com a  mão em direção a si própria, claramente constrangida. 

— Eu preciso de ajuda. 

Bervely suspirou e sentou ao lado dela, passando um braço ossudo de Charlotte por cima do seu ombro e a ajudando a levantar da cama. Charlotte pesava quase nada, era como se os seus ossos fossem ocos. O Kolossoi parecia a coisa mais pesada nela, fazendo-a se inclinar para frente. Depois de algumas tentativas erráticas, Charlotte o acolheu com cuidado com a mão livre. Bervely a arrastou para o banheiro conjugado e ajudou a entrar na banheira de porcelana branca. 

Ela ligou a torneira de água quente com um aceno de sua varinha. Charlotte lhe lançou um olhar confuso. 

— Está pretendendo me afogar?

Bervely rolou os olhos. 

— Se houver sangue, é mais fácil de limpar se estiver dissolvido na água. 

— Ah — Charlotte disse, e não protestou mais. 

Bervely puxou um banquinho estofado de sob a pia e se sentou perto da banheira, ao lado de Charlotte, piscando com força. A dor em sua cabeça tinha aumentado exponencialmente nas últimas horas – ela estava tentando ignorá-la, mas mal podia manter os olhos abertos. A única coisa impulsionando-a a agir era o fato de que quando a poção esfriasse, iria perder o efeito, e que se Charlotte não se desfizesse do Kolossoi aquela noite, provavelmente não haveria outra em seu futuro. 

— Eu ajustei a poção para o seu peso e altura aproximados — Bervely explicou, a voz ecoando nas paredes do banheiro e de volta aos seus ouvidos, estranhamente oca e nociva à sua enxaqueca. — Ela é tóxica o bastante para parar o metabolismo de Peter, e em teoria não afetar o seu. Mas sinceramente, é difícil ser exata, na sua condição. Há uma pequena chance de que não vá funcionar, ou de que vá afetar… vocês dois. 

Na memória de Bellatrix, Purgabit Sordis tinha falhado em terminar a sua gravidez, em terminar Bervely– mas ainda tinha colocado a vida de Bellatrix em risco. Era uma poção traiçoeira e imprevisível, na melhor das hipóteses. Bervely só podia esperar que ela fosse uma pocionista melhor do que sua mãe aos dezesseis anos. Lhe ocorreu o que aconteceria se ela acidentalmente matasse Charlotte. Deixaria Bellatrix orgulhosa, era provável. E enfureceria ambos os Lestrange… 

Charlotte assentiu, sem parecer preocupada com a possibilidade. 

— Ele vai- Peter vai sentir dor?

A pergunta trouxe Bervely de volta à Charlotte. A despeito do quão desprezível ela era por ter aceitado criar o Kolossoi e mantê-lo por tantos anos, Charlotte estava se despedindo do seu bebê naquela noite. Da última parte de Hector que ainda existia. Seis anos era um longo tempo no qual se agarrar a um luto, a um fiapo de existência, a uma impossibilidade como aquela. 

Bervely olhou nos olhos de Charlotte e respondeu com sinceridade. 

— Não. Eu não acho que ele vá. Vai ser como cair no sono. 

Depois disso, a coisa toda demorou só alguns segundos. Bervely lhe deu a poção e Charlotte a bebeu até o fim, sem parecer se incomodar com o gosto ácido que Bervely suspeitava que a poção tinha. Ela entregou o copo vazio para Bervely, a mão frouxa, e Bervely o colocou no chão, entre elas, o vidro estalando contra o mármore mais alto do que deveria ser possível. 

— Você provavelmente também vai perder a consciência em alguns minutos — Bervely a advertiu. — Um dos ingredientes tem efeito sonífero.

Charlotte deixou a cabeça encostar na borda da banheira e aninhou o Kolossoi entre os seus braços, como um recém-nascido. Bervely não teve coragem de se mover. A poção – o veneno – faria efeito em poucos minutos, e ela não sabia bem o que esperar. O livro era enigmático nos efeitos secundários de Purgabit Sordis, dizendo que “perda de consciência e hemorragia devem ser esperados”, mas Bervely decidiu que se algo mais fosse acontecer, ela queria estar lá. 

Uma parte dela, relutante em admitir, não queria deixar Charlotte passar por aquilo sozinha. 

Charlotte estava cantarolando alguma coisa por entre os lábios fechados. Bervely reconheceu a canção de ninar – Narcissa costumava cantá-la para Draco dormir. Eu dei ao meu amor uma esmeralda… 

— Se eu não acordar — Charlotte se interrompeu baixinho, à beira da inconsciência. — Você pode levá-lo até Hector para mim? Ele teria gostado… de descansar… junto com o pai. 

Quando Bervely compreendeu o pedido, Charlotte já não estava mais acordada. Entre as suas mãos, a água foi se tingindo de vermelho lentamente, no ritmo das últimas pulsações do coração de Peter Carmichael, acomodado entre os dedos de sua mãe. 

O amanhecer encontrou Bervely aparatando aos fundos da propriedade Malfoy, rumo ao cemitério que ficava no coração do bosque. Nenhum feitiço a impediu, ou a delatou. O bosque devia reconhecê-la. E como não reconheceria? Ela tinha passado a melhor parte da sua infância ali, com Hector, Charlotte e Draco, num mundo muito mais mágico do que aquele que ela acabara de deixar.  

Achou o túmulo de Hector sem esforço. Os primeiros raios de sol refletiram no sino de ouro acomodado na lápide, e nas palavras engravadas sob ele. 

Hector Carmichael

1971 - 1990

— Olá, primo — Bervely saudou, a voz rouca mal soando como qualquer coisa que pudesse reconhecer como sua. 

Após alguns segundos de contemplação silenciosa, ela se ajoelhou ao lado do túmulo e começou a cavar com as próprias mãos. A terra macia por baixo da grama nova e das florzinhas minúsculas brotando aqui e ali como pequenos acidentes de cor. 

Não precisou cavar muito. O que pretendia enterrar era pequeno, menor que o seu punho. Ela tirou o embrulhinho do bolso do casaco. Não mais pulsante e agora frio, cuidadosamente envolvido em um lenço azul claro com as iniciais de Charlotte. 

Bervely acomodou Peter com cuidado no buraco que fizera sobre o túmulo de Hector e o cobriu com a terra fresca. 

— Eu sinto muito — Ela se dirigiu ao túmulo de mármore, imaginando Hector a observá-la enterrar o feto do seu filho na cova fresca. O mesmo que ela tinha ajudado a sacrificar aquela noite. — Eu queria– 

Um sorriso involuntário interrompeu suas palavras, brotando em seu rosto sem aviso. Ela imaginou ter ouvido a voz de Hector, soando decepcionado, mas não surpreso.  

Se não você, fadinha, quem mais seria? 

E outra voz, muito mais fria, cheia de promessa, ameaça e conhecimento profundo de sua verdadeira natureza:

Você vai matar, ao fim das minhas lições.  

— Você estava certa — Bervely disse em voz alta, como se Bellatrix estivesse ali também. Afinal, de uma forma ou de outra ela sempre estava. E se não a ouvisse agora, aquele era o tipo de lembrança que Bellatrix ia adorar revirar em sua próxima visita. 

Bervely não se demorou. Ela lançou um feitiço de impertubabilidade sobre o Kolossoi e deu meia volta, desaparatando do bosque com um floreio de sua varinha. 

De volta para casa. Afinal, a sua próxima lição a aguardava. 


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1 comentário

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sissi
sissi
19 de set. de 2025
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Não, eu não queria respostas sobre a Charlie, na real. Tenho ranço dessa menina.

Let me guess. O colar tá sugando a força vital dela?

A pergunta que não quer calar: O que a Bev vai fazer quando finalmente recuperar as memórias? Essa nova Bev? Porque eu me recuso a acreditar que ela não vai recuperar elas.

Yayy, ela conseguiu! Mas é claroooo que tem algum problema no meio. Por que nada é simples e fácil com ela. Eu juro, se ela não recuperar (e apagar de novo depois) as memórias até o fim do cap....

Honestamente, não tô surpresa com o Peter e tudo o mais. Tá de acordo com nossas teorias.

Ela vai... matar o Peter? Não vi…

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