Capítulo 61. Sopro de Dragão
- Ly Anne B.

- 2 de set. de 2025
- 45 min de leitura
Atualizado: 12 de set. de 2025
— Dino, uma palavra? — Remus chamou, antes que Harry pudesse deixar a sala após o fim de mais uma reunião da Ordem da Fênix.
Harry trocou um breve olhar com Hermione, confirmando que a encontraria lá embaixo na sala de pesquisas, e voltou para perto da mesa, onde Remus estava enrolando os pergaminhos usados durante a reunião cuidadosamente em uma pilha.
— Eu tenho ouvido alguns rumores estranhos. Aparentemente, há um novo fantasma vagando por Hogwarts.
— Oh? — Harry franziu. — Isso é estranho.
— Muito — Remus ergueu o rosto, pregando os olhos cor de âmbar no rosto de Harry daquele jeito penetrante que só um lobisomem às vésperas de lua cheia era capaz de fazer. — Mais estranho ainda, parece que ele tem retirado livros de Defesa Contra as Artes das Trevas da sessão reservada da biblioteca. Madame Pince me informou que a tal entidade invisível assinou a retirada como “Pontas”.
Harry esperou, o rosto quente, sem fazer nenhuma admissão de culpa que não fosse absolutamente necessária. Ele tinha retirado os livros da biblioteca, e Astória, sua parceira em crime, insistira que ele assinasse a retirada com algum nome, para que a bibliotecária não achasse que os volumes tinham sido roubados e iniciasse alguma investigação. Harry tinha usado o apelido do seu finado pai como assinatura num ímpeto de rebeldia, mas diante do tom de Remus, estava pensando que talvez essa tivesse sido uma má ideia.
Remus o olhou longamente, o rosto sério e o mínimo vinco entre as sobrancelhas castanhas.
— O que quer que esse novo fantasma esteja planejando, espero que ele tenha cuidado — Disse Remus por fim, suavizando a sua expressão. — E se ele precisar de ajuda, talvez eu possa oferecer alguma. Eu sei que eu não sou James ou Sirius, mas eu também tive minha dose de experiência como um fora da lei em meus dias de Hogwarts.
Harry abriu um raro e relutante sorriso para o ex-professor.
— Se eu vê-lo por Hogwarts, vou passar o recado.
Remus retribuiu o sorriso, tão constrito quanto o do próprio Harry. Ao se levantar para sair, Harry pegou um vislumbre do espelhinho redondo que Remus usava para se comunicar com Regulus Black, o que o levou a perguntar:
— Alguma notícia de Bervely?
Remus evitava falar sobre o desaparecimento de Bervely durante as reuniões da Ordem. Ela também nunca fora oficialmente incluída na lista de “desaparecidos” da Ordem, porque tecnicamente ela tinha ido embora por vontade própria. E porque, Harry desconfiava, Remus ainda não queria chamar atenção para o fato; não enquanto não soubessem a verdadeira razão da sua partida.
Remus acompanhou o olhar de Harry até o espelho, balançando a cabeça em negativa.
— Ainda não, mas acho que teremos alguma pista muito em breve.
— Oh? — Harry não se lembrava de nada do tipo ser discutido na reunião. Eles tinham falado longamente sobre os vários setores do Ministério que poderiam estar sob o controle de Voldemort, e sobre a relutância do Ministério Francês em prestar ajuda à Inglaterra, mas nada que implicasse menção à filha mais velha de Sirius.
— Descobrimos que haverá um baile puro-sangue na semana que vem. Alguns membros da Ordem vão se infiltrar para angariar qualquer informação útil para nós. Eu acho que, se Bervely tem estado em associação com, uh, o lado puro-sangue da família, o baile será uma boa oportunidade de descobrir.
O assunto da tal festa também não tinha sido discutido durante a reunião– Harry já tinha desconfiado antes que os tópicos discutidos abertamente em reuniões da Ordem eram apenas a ponta do iceberg das ações que Remus coordenava e compartimentaliza entre eles, mantendo uma política de compartilhar apenas o absolutamente necessário para cada parte fazer o seu trabalho.
— Você já tem candidatos o suficiente para se infiltrar? — Perguntou Harry, ansioso por uma oportunidade de fazer alguma coisa útil para a Ordem, qualquer coisa que não fosse respirar poeira com Hermione sobre livros e pergaminhos antigos no porão da Casa dos Gritos.
Mas Remus pegou a sua intenção no ar e balançou a cabeça.
— Nem pensar, muito perigoso para você, Harry. Além do mais, já temos sim gente suficiente.
— Quem?
— Segredo de estado — Ele lhe deu uma piscadela, dando o assunto por encerrado, mas Harry teve a impressão de que Remus tinha olhado muito brevemente na direção do espelho redondo onde, por vezes, a face de Regulus Black flutuava.
*
Faça da dor a sua amiga, tinha sido a primeira lição de Bellatrix. Lição a qual Bervely desconfiava que talvez tivesse absorvido bem demais, porque agora dor tinha preenchido a medula dos seus ossos, enrijecido os seus músculos, incapacitando-a de deixar a sua cama.
E então, havia a vergonha, infinita e paralisante vergonha de seus atos. O que ela era suposta a fazer com aquele repúdio devorador de si mesma? De quem ela se tornara naqueles meses em Blackburn Hall?
Talvez fazer a vergonha a sua vadia fosse a sua próxima lição, mas Bervely não achava que ia conseguir voltar ao círculo de pedras tão cedo, a não ser arrastada.
Mas Bellatrix não apareceu para arrastá-la. Bervely ouviu batidas ocasionais em sua porta algumas vezes por dia, mas ela as ignorou, do mesmo jeito que ignorou qualquer necessidade de comer ou se movimentar, a não ser para se arrastar ao banheiro e de volta para cama de dramáticos dósseis. Ela manteve as cortinas pesadas de veludo bem fechadas, e esperou que a ausência de sol e comida fosse ao menos colocá-la em um torpor inconsciente… mas ainda não tinha tido essa sorte. Dormir era a segunda melhor opção, e Bervely se viu caindo em longos períodos de sono que não faziam nada para repousá-la, mas ao menos ajudavam a passar o tempo.
— Minha senhorita — Chamou Monstro baixinho ao pé da sua cama. — Tem algo que Monstro pode fazer? Monstro se preocupa…
Bervely rolou, virando-se de costas para o elfo doméstico, desejando que ele evaporasse em uma nuvem de fumaça e nunca mais retornasse para atormentá-la.
— Você não devia estar aqui, Monstro. Você não é suposto a vagar por Blackburn.
— Monstro não está vagando. O bem estar dos membros da família vem em primeiro lugar na lista de prioridades de Monstro.
Bervely tentou reunir forças para fazer um comentário irônico sobre a lista de prioridades do elfo, que parecia incluir apenas os Black que ele aprovava, mas não achou a inspiração necessária.
Devia fazer cerca de três dias desde que ela tinha voltado do cemitério onde enterravam Peter, e enfim aceitara recuperar as memórias que Monstro vinha guardando dela. Reabsorvê-las tinha sido mais ou menos como engolir uma parte inteira de si mesma que ela tinha se esquecido que existia, e que se tornara muito, muito ressentida e pronta para vingança pela negligência de uma semana.
Uma parte melhor dela. Uma da qual Bervely nunca devia ter separado, para início de conversa. Ela se lembrou de onde tinha aprendido aquela versão mais efetiva da Polissuco – para o disfarce de Potter, é óbvio. E ela também se lembrou de que Sirius estava vivo, e do que ele tinha lhe dito em sua última discussão em Grimmauld Place.
Meu maior medo é que você se torne alguém como ela*.
E se isso não fosse o mesmo que vestir as roupas de Bellatrix, falar como Bellatrix e servir ao lorde das trevas como Bellatrix… Bervely não sabia mais o que seria.
E o pior de tudo… é que ela não estava odiando o processo. Ela não estava odiando aprender como reagir à maldição cruciatus. Ela não tinha absolutamente odiado cavar nas memórias de Bellatrix e descobrir as dores do passado da mãe, e embora ela tivesse odiado cada minuto da tortura e do sacrifício desnecessário de Mordred, ela tinha ajudado Charlotte a sacrificar o seu filho com Hector, e ela devia estar se sentindo monstruosa por isso, mas ela só conseguia se sentir terrivelmente aliviada de que a magia negra de Thor Carmichael tinha sido interrompida de uma vez por todas, e que Peter estava enfim descansando em paz com o seu pai, e não mais servindo de bateria de magia para Charlotte.
Supunha que monstros não se sentiam monstruosos, mas Bervely sabia, com a clareza de quem finalmente abre os olhos depois de sete dias tateando no escuro, que Sirius reconheceria aquela parte podre dela, a parte que ele temera tanto que ela abraçasse, se ele pudesse vê-la agora.
E então, havia Regulus. A mera tentativa de conjurá-lo em sua memória a fazia se retorcer. Ela estava servindo ao monstro pelo qual Regulus abdicara da própria vida para fugir – literalmente – e vivendo sob o teto da mulher que o caçara e matara, ou teria matado, se tudo tivesse corrido como planejado.
Então não, Bervely não estava muito disposta a sair da cama e descobrir o que mais Bellatrix queria ensiná-la no círculo de pedras. Ela só queria fechar os olhos e ficar imóvel, fingindo que sua vida não tinha escapado tão fora do seu controle. O que ela daria por uma dose forte de Poção do Sono Sem Sonhos – ou até de poção do Morto Vivo… mas ao mesmo tempo, ela sabia que não seria capaz de produzi-las, porque ela teria que voltar para o sótão, onde a polissuco de Lorde Voldemort estava cozinhando em fogo baixo, bem como ele requisitara.
Mais batidas em sua porta. Bervely ignorou. Elfos de Blackburn vinham anunciar almoços e jantares; ela sempre fingia que estava dormindo. As cortinas do seu quarto eram pesadas, mas mesmo elas deixavam entrever sinais de que o dia tinha virado noite e dia de novo, de novo, e de novo.
Monstro voltou, depositando uma cesta de biscoitos recém-feitos na sua mesa de cabeceira. Em seu estupor sonolento e desinteressado, ocorreu a Bervely que Monstro não podia cozinhar em Blackburn. Ele devia ter feito aqueles biscoitos em Grimmauld Place e trazido para ela. A imagem quase provocou alguma faísca de calor em meio ao frio que se instalara em seu peito, mas então se dissipou rápido, porque ela não merecia esse tipo de conforto. Mostro só estava fazendo aquilo porque era obrigado, porque ela era uma Black, e ele não era suposto a deixá-la definhar.
Como Snape conseguia? Como ele mutilava suas memórias mais importantes para fora de sua cabeça e depois as reabsorvia, e então coordenava o que quer que tinha feito para Voldemort na ausência delas com o seu retorno, e com as implicações que traziam de volta? Como ele equilibrava o homem obcecado pelo seu amor de infância e o agente-duplo que sem dúvida traía ambos os lados numa base regular, por anos a fio?
Severus devia ser algum tipo de deus, ou um psicopata como muitos acreditavam. Mas não Bervely. Ela era só humana, e o peso dos seus ossos e da sua consciência de repente eram demais para o seu corpo humano carregar pelos corredores mal-iluminados de Blackburn.
E por isso, ela continuou na cama.
*
— Bervely Black! Porque eu ouço dos meus elfos que você não tem saído da cama nos últimos quatro dias?
Bervely abriu os olhos com relutância, lutando contra a percepção de que ela não estava sonhando com Bellatrix em seu quarto, parada ao pé da sua cama, e visivelmente insatisfeita com a informação.
— Cinco — Bervely corrigiu, a voz rouca de desuso, cobrindo o rosto com o braço para barrar a visão de Bellatrix.
— Levante-se desta cama imediatamente.
Bervely murmurou um “não, obrigada”, o braço ainda cobrindo os olhos, e rolou de costas para a comensal da morte.
Bellatrix não devia ter lhe ensinado a não temê-la, porque naquele momento Bervely pouco se importava se a comensal da morte pretendia lhe torturar ou obrigá-la a levantar com um Imperius. Ao menos um imperius não a faria escolher suas ações. Até onde sabia, livre arbítrio era o veneno da humanidade, e Bervely estava pronta para o antídoto que a tiraria de sua própria miséria.
O silêncio se alastrou por alguns segundos a mais do que ela supunha que a paciência de Bellatrix teria resistido.
— Eu espero que isso não seja sobre o cavalo. Nem você pode ser tão dramática.
— Ah, mas eu sou — Bervely resmungou, encontrando um fiapo de ironia no qual se agarrar para responder aquela pergunta. — Eu tenho essa coisa contra tomar um banho de sangue contra a minha vontade. Você não entenderia.
Ela sentiu mais do que viu Bellatrix rolar os olhos, e ouviu seus passos agudos, resultado de algum salto inclemente contra o assoalho, estalar na direção das janelas. Bervely se contraiu em preparação para o que adivinhou que ia acontecer, e um segundo mais tarde ouviu o chiado das cortinas sendo arrastadas nos trilhos e sentiu a luz inundar o quarto, tentar penetrar através de seus olhos apertados e violentar suas retinas.
— Abra os olhos e olhe lá fora. Bervely.
Ela bufou, mas obedeceu, devagar e dolorosamente. Não porque estivesse cedendo à ameaça velada na voz da comensal, mas porque a sua curiosidade, que ela achava que tinha morrido afogada no sangue de Mordred, resolvera dar sinal de vida.
Porque Bellatrix queria que ela olhasse pela janela?
Quando os seus olhos penosamente se acostumaram ao novo nível de iluminação, ela distinguiu a silhueta da mãe contra as janelas compridas do quarto. Metida num elegante vestido preto colado ao corpo, o cabelo em um coque alto e cuidadosamente caótico no topo da cabeça, uma de suas gargantilhas góticas adornando o pescoço, arrematada por uma ametista do tamanho de um punho.
Qual era a ocasião?
Bellatrix insistiu para que Bervely olhasse para o lado de fora. Bervely suspirou, jogou cada perna de uma tonelada para fora da cama e se arrastou para a janela.
Lá embaixo, na faixa de terreno entre a casa e o início das plantações de trigo de fogo, alguém tinha revitalizado o gramado e armado uma tenda branca festiva e um pequeno promontório ornamentado por um arco de flores azuis. Bervely mal tinha registrado aquela arrumação quando os seus olhos detectaram o massivo cavalo negro de Bellatrix reluzindo sob o sol, mordiscando a grama fresca, como uma assombração de meio dia. Definitivamente não morto.
— Como…? — Ela se virou para Belatrix, confusão rapidamente virando fúria por baixo da sua apatia. — Você me enganou! Me fez acreditar que eu o tinha matado!
— Oh, não, você o matou. Tanto quanto Mordred pode ser morto. O cavalo é imortal, e portanto, perfeito para as nossas lições.
Bervely não entendia o tom de triunfo e suposta genialidade com que Bellatrix disse aquilo. Mordred tinha morrido – ele tinha sangrado até o coração parar, disso Bervely tinha certeza. A ideia a fez pensar em Regulus – que também tinha sangrado até o coração parar, só parar retornar, do outro lado da morte, dias mais tarde. Seria o cavalo um vampiro– cavalos sequer podiam ser vampirizados?
— Como? — Ela perguntou de novo, a voz rouca pelo pouco uso e pouca hidratação de sua garganta, dessa vez exigindo a explicação.
Bellatrix pareceu feliz em responder.
— Milord usou Mordred em alguns experimentos com sangue de unicórnio, há muitos anos. Infelizmente os efeitos não foram ideais – ele se tornou agressivo, com tendências canibais e quase impossível de controlar. Foi preciso lobotomizá-lo — Ela deu um suspiro trágico, como se a lobotomia do seu cavalo morto-vivo fosse um pequeno desastre acidental.
Bervely sabia quais eram os efeitos do sangue de unicórnio. Eles impediam alguém de morrer, mas as consequências eram nefastas o suficiente para inviabilizar o uso do ingrediente como uma solução confiável para a imortalidade.
Não se envolvesse uma boa dose de lobotomia, ao que parecia. Ao menos, isso explicava a estranha apatia do animal.
— Uma bela história — Bervely disse, dando meia volta nos pés e as costas para a janela, curiosidade saciada, pronta para voltar a se afundar na cama. — Mal posso esperar para matá-lo de novo. Amanhã, quem sabe?
Bellatrix a observou se arrastar de volta à cama de dossel com uma crítica sobrancelha erguida. A expressão a deixou parecida com Narcissa o suficiente para Bervely desviar o olhar, perturbada.
— Você certamente não está pensando em voltar para essa cama? A sua presença é requerida no evento de hoje.
Um arrepio de mal presságio a tomou de assalto. Evento? Ela se virou com os olhos largos para Bellatrix, sem tempo ou espírito de disfarçar a sua apreensão:
— Milorde…?
— Absolutamente não. Milorde tem coisas mais importantes para fazer do que comparecer ao casamento da enjeitada. Eu, infelizmente, não tenho a mesma sorte. Nem você — Bellatrix completou com ameaça velada, apontando um dedo comprido na direção dela. — O elfo trará as suas vestes em breve.
Bervely piscou. O casamento de Charlotte. Ela tinha se esquecido completamente.
— Por que você tem que comparecer?
Se tinha alguém que desprezava Charlotte mais do que Bervely, essa pessoa tinha que ser Bellatrix. A mulher deu de ombros, se curvando para olhar o próprio reflexo no espelho da penteadeira de Bervely.
— O casamento não é válido sem testemunhas, e eu e Rodolphus somos as únicas disponíveis.
— E por que eu preciso comparecer? — Ela perguntou, desgostosa. Bellatrix lhe deu um olhar atravessado, pelo espelho.
— Seu eu preciso ser submetida a essa tortura, você também será, cria do meu ventre, sangue do meu sangue.
Bervely franziu para o raciocínio tortuoso. Aquilo era novo. Bellatrix raramente fazia referência ao fato de que ela era… bem, sua mãe. E quando o fazia, era para lembrá-la de suas obrigações como oferenda – e portanto serva – do Lorde das Trevas. Não das suas “obrigações sociais” no seio apodrecido da família Lestrange.
— Ande logo, vá lavar esses cinco dias de auto-piedade decadente, o efeito é verdadeiramente bárbaro em você.
O vestido que Bellatrix escolhera para ela era cor de cobre, com uma cintura bem marcada e busto em formato de coração, sem mangas. Não teria sido muito impressionante, não fosse o tecido, que lembrava o fundo de um lago raso, os tons acobreados cintilando ligeiramente diferentes a depender de como a luz batia sobre a trama dos fios.
Bervely se lavou e se vestiu, se arrastando para o jardim sem fazer nenhum esforço adicional para ajeitar o cabelo ou sumir com as olheiras profundas que tinham tomado morada permanente sob os seus olhos. Ela não achou que os noivos iriam se importar, de uma forma ou de outra.
A presença do cavalo-morto vivo de olhos opacos circulando no plano de fundo não ajudou em nada a sensação de que Bervely estava comparecendo a uma cerimônia assombrada. Mas a despeito de seus sentimentos contraditórios, fazia um dia claro e ensolarado em Lancaster, e a noiva, ainda visivelmente frágil, escolhera um vestido branco diáfano que teria servido bem em uma fada dos contos trouxa de que ela gostava tanto.
O brilho tinha voltado aos olhos de Charlotte, bem como a cor à sua face. Em contraste, Rabastan ainda parecia um fantasma que se esquecera que estava morto– com sua estatura rígida e ossuda, os olhos fundos e a perpétua expressão de apatia – imutável mesmo no dia do seu casamento.
Rodolphus, de braços dados com Bellatrix e usando ostentosas vestes de veludo cotelê cor de chumbo, voltara a ignorar a existência de Bervely como fizera a vida inteira, o que para ela estava ótimo.
Charlotte fez um pequeno aceno na sua direção ao passar por Bervely a caminho do altar improvisado, onde Rabastan aguardava com o mesmo nível de interesse de quem espera pela entrega do jornal pela manhã.
O mestre de cerimônias, um bruxo tão velho e encolhido que parecia ter sido tirado de dentro de uma caixa apertada na última hora para efetivar o casamento, começou a murmurar ritos em latim quando Charlotte se uniu à Rabastan sob o arco de flores – lilases azul-miosótis, da cor dos olhos da noiva.
A coisa toda passou como um borrão aos olhos desinteressados de Bervely. Ela já tinha decidido que não acreditava mais em casamentos – e certamente não naquele casamento. Rabastan queria herdeiros para dar prosseguimento ao nome de sua família, e Charlotte queria pertencer à uma família, qualquer uma– desde que Bellatrix assassinara os seus pais, há tantos anos. Felicidade ou amor não faziam parte daquela equação.
Eles estragaram você, Bellatrix tinha lhe dito, no círculo de pedras. Convenceram você a acreditar em coisas que não existem.
Talvez Bellatrix não estivesse tão errada. Ao menos, no mundo no qual Bervely agora pertencia.
Não houve festa após a cerimônia. Mas antes que Bervely pudesse voltar ao seu quarto e retomar o seu ciclo de autocomiseração, Charlotte a agarrou pelo braço.
— Obrigada — Ela disse, rápida sob a respiração cansada. Ainda era visivelmente difícil para ela ficar de pé por tanto tempo, sob o sol, em seu atual estado físico. Bervely podia ver as feridas em seus lábios partidos, e o vestido de noiva tinha uma gola alta, certamente para esconder os hematomas em seu pescoço onde o Kolossoi costumava se ligar ao seu corpo. — Nada disso teria sido possível se não fosse a sua ajuda na outra noite.
Bervely não conseguiu encontrar os olhos de Charlotte, porque a gratidão que havia neles era perigosa.
— Não precisamos revisitar a questão — Ela disse, num resmungo impaciente, querendo que Charlotte a soltasse logo.
Charlotte não a liberou. Bervely poderia ter se desvencilhado facilmente, mas era o dia do casamento de Charlotte. Ela não queria ser grosseira.
— Rabastan também está grato pelo que fez por nós.
Bervely espiou o noivo, que esperava há alguns metros delas, olhando por cima do ombro de Charlotte. Rabastan não parecia grato. Rabastan parecia com alguém que nunca tinha realmente deixado a sua cela em Azkaban.
— Certo — Bervely disse, ansiosa para encurtar a conversa. Mas Charlotte se inclinou em sua direção e murmurou em tom de confidência:
— Eu gostaria que Draco pudesse estar aqui hoje, mas ele não respondeu ao meu convite.
Bervely evitou demonstrar o seu alívio com a informação. Se depois de tudo que ela vinha fazendo para manter Draco seguro, ele aceitasse o convite de Charlotte e viesse bater em Blackburn Hall para um casamento, ela teria que afogá-lo em seu caldeirão.
— Você tem notícias dele? — Charlotte insistiu. — Sabe onde ele está?
— Longe do alcance dessa família — Ela respondeu, esperando que ainda fosse verdade. Ela absolutamente não tinha arriscado contato com Draco desde que deixara Hogwarts. Parte dela acreditava que ele estava melhor sem se comunicar com ela, e a outra tinha medo do que poderia acontecer se ele lhe dissesse que não estava indo bem.
A mão de Charlotte relaxou sobre o braço de Bervely, mas não se moveu.
— Em breve será o aniversário dele. Acho que devíamos enviar alguma coisa.
Bervely estava bem ciente de que era quase aniversário de Draco, visto que a ocasião coincidia com o baile do Sagrado Vinte e Oito ao qual Draco era suposto a se apresentar como chefe da família Malfoy. Mas para Charlotte, ela apenas deu de ombros.
— Acho que Draco já tem tudo que precisa. Mas vou ver se posso pensar em alguma coisa — Completou, com a impressão de que a noiva-cadáver não a deixaria ir se ela não cedesse um pouco naquela dolorosa interação.
O rosto de Charlotte se abriu em um sorriso luminoso, como se Bervely tivesse prometido que ia planejar alguma festa surpresa para Draco, onde todos estavam convidados e haveria dança e música até o dia amanhecer.
— Obrigada — Charlotte repetiu, radiante, e com um último apertão em seu braço, se virou e foi se juntar ao recém-adquirido marido sob o arco de flores azuis.
*
Segurar a familiar moeda de latão entre os dedos trouxe a Harry um estranho senso de tranquilidade – mesmo sob a capa da invisibilidade, coberto da cabeça aos pés, invisível para a única outra ocupante da sala de aula. De repente, ele não se sentia tão perdido sobre o seu lugar no mundo, sobre quem ele era suposto ser. Mesmo sob efeito de Polissuco, usando um corpo que não era seu. Mesmo presumido morto. Enfim, ele estava fazendo alguma coisa.
— Será que alguém vem? — Ele perguntou, a voz distorcida com um feitiço para soar mais grave do que a de Dino atravessando a distância entre ele e Astória. A garota, que estivera escrevendo “bem-vindos de volta” no quadro negro com um giz enfeitiçado, se virou na direção geral dele com um rolar impaciente de olhos.
— Não tem nada de interessante acontecendo no castelo hoje. Eles vem, nem que seja para matar o tédio.
— Encorajador — Harry resmungou, virando-se para a janela sob a qual tinha se instalado. A vista da sala de aula lhe oferecia gramado verde esmeralda e uma fatia do lago negro cintilando como uma jóia sob o sol de maio. Num ano “normal”, eles estariam se preparando para os exames finais no mês seguinte, passando horas na biblioteca, se preocupando com notas, memorização, e prática de magia avançada. Não que Harry jamais tivesse um ano “normal” em Hogwarts, mas pela primeira vez desde o ano do basilisco, o restante da escola estava experimentado disrupção semelhante à dele em grande escala.
— E se você parar para pensar, já tivemos piores professores de Defesa. Se lembra de Lockhart? E nem me deixe começar com aquele maluco do Olho-Tonto…
— Não sou nenhum professor de Defesa — Harry a interrompeu. — Só quero ajudar.
— É, certo. O que quer que o faça manter os nervos em cheque, Pontas.
Ela pronunciou o apelido num tom de zombaria, como tinha feito desde que Harry o anunciara como o apelido daquela sua nova identidade– o fantasma do Sr. Pontas, um renomado professor de Defesa em vida, retornando para o posto após anos viajando pelo mundo.
A ideia tinha sido de Astória, bem como a insistência inicial – qual era o problema, eles já tinham um fantasma como professor, ninguém ia achar estranho – e além do mais, não é como se alguém estivesse tomando conta da matéria, desde que a escola tinha fechado oficialmente.
Os professores que permaneciam em Hogwarts ainda tentavam manter uma oferta de aulas para aqueles que queriam manter algum senso de rotina – mas Harry vira muitos dos estudantes remanescentes na escola ignorando as tentativas dos professores, e ao invés disso matando tempo do lado de fora do castelo ou vagando por corredores, compartilhando informações nervosas do que sabiam acontecer do lado de fora.
Mas, Astória conseguira lhe convencer de que ao menos os membros remanescentes da Armada estariam interessados em retomar as aulas de Defesa– se nada, porque continuar aprendendo a se defender de magia das trevas só podia ajudá-los no futuro. Harry não precisara de muito convencimento, para falar a verdade. Se fingir de fantasma era uma opção muito melhor do que se fingir de Dino– ao menos como fantasma, ele podia inventar uma nova identidade e não se submeter a nenhuma expectativa de agir como o seu antigo colega de casa. E era mais libertador, e certamente menos claustrofóbico, do que passar a maior parte do tempo enfiado na câmara secreta.
Astória lhe ajudara a retirar os livros da biblioteca, para planejar algumas aulas. Ela até aceitara ser a sua “auxiliar física” - partindo do príncipio que, como fantasma, Harry não era suposto a poder mover objetos ou escrever notas no quadro negro.
A decisão de usar a sala de Defesa Contra as Artes das Trevas, no entanto, requerera algum convencimento extra. Harry teria se sentido mais confortável na Sala Precisa – mas naquela parte, Hermione, com a qual ele tinha dividido o seu plano, concordava– não havia motivo para continuar agindo às escondidas como nas reuniões da Armada. Por que não dar aos demais estudantes restantes no castelo a chance de se juntar a eles, se assim desejassem? Os que tinham ficado no castelo, afinal, eram os que não podiam voltar para casa, ou porque não estavam seguros do lado de fora, ou porque já não tinham mais para onde voltar.
A única ressalva ao plano viera de Rony, com o qual Harry tinha dividido a sua ideia pela lareira, na noite anterior, numa chamada à Toca tarde da noite.
— Você não tem medo de ser amaldiçoado?
Antes que Harry conseguisse entender o que o amigo estava sugerindo, Hermione retrucou impaciente ao seu lado:
— Rony, nunca foi provado que o cargo é mesmo amaldiçoado…
— Você diz isso , mas Snape sumiu do mapa, não sumiu, mal conseguiu completar o ano letivo antes de evaporar no ar…
— Eu não vou ser professor. Não tecnicamente — Harry os interrompeu, antes que outra das intermináveis discussões entre os dois deslanchasse. — Só vou tomar a sala emprestada.
Mas naquele momento, quando o relógio bateu as dez horas e os colegas começaram a entrar– Harry já não estava tão certo. Meia dúzia de estudantes chegaram na sala em bando, espiando curiosos ou duvidosos na direção de Astória, mas aceitando o seu convite de que tomassem cadeiras no grande círculo que ela organizara à pedido de Harry.
E então mais outros foram entrando, enchendo os assentos. Um monte de rostos familiares– Susana Bones, Luna Lovegood, Miguel Corner, Antônio Goldstein. Dois garotos do sétimo ano da Corvinal que Harry achava se chamar Jones e Patt, mas com quem nunca falara antes. Lilá Brown entrou acompanhada de uma garota alta da sonserina que Harry achava ser quinto ano, de olhos e desconfiados como se aquele pudesse ser, secretamente, um sacrifício de sonserinos. Nos dez minutos seguintes, os colegas continuaram a chegar, e Harry teve a impressão de que praticamente todos os alunos restantes em Hogwarts estavam ali. A sala estava quase cheia – quase todas as quarenta e cinco cadeiras ocupadas, rostos curiosos ou duvidosos ou entediados no aguardo do que quer que fosse acontecer agora.
O frio em seu estômago estava alcançando o ponto de congelamento quando a última pessoa entrou– Gina. Um breve olhar na direção de Astória, sentando-se ao lado de Luna.
Harry, que não tinha contato com Gina há algum tempo, sentiu um misto de desconforto e urgência se enrolar no peito. Ele tinha adquirido o mau hábito de acompanhar a movimentação dos alunos pelo mapa do Maroto durante o dia, e acabara descobrindo muito mais do que gostaria sobre a rotina de Gina nos últimos tempos.
Ela parecia cansada, o semblante pesado e distante preocupando-o. Ele já devia ter feito alguma coisa a respeito, ao menos avisado a alguém que Gina podia estar em apuros. Mas quando Harry mencionara o fato a Astória, ela tinha rolado os olhos e lembrado-o de tomar conta da própria vida…
Astória foi fechar a porta, quando pareceu que ninguém mais estava vindo. Harry se aprumou em seu local à janela, longe do grupo. Eles tinham testado o feitiço em sua voz, que o faria soar sempre próxima de Astória, dando a impressão de que o fantasma estava se movimentando com ela pela sala. Coisa de Hermione, é claro. Honestamente, o que eles todos fariam, não fosse Hermione?
Harry desejou que ela estivesse ali – parecia errado ter uma reunião da Armada, ou o que quer que aquilo fosse– sem ela, mas ultimamente a Ordem vinha ocupando todo o seu tempo, e ela mal vinha em Hogwarts se pudesse evitar.
— Obrigada por virem a esta aula extra-oficial e estritamente não aprovada ou regulamentada de Defesa Contra as Artes das Trevas — Astória saudou, muito formal, ignorando os olhares céticos de alguns estudantes, especialmente os do sétimo ano que certamente tinham vindo por curiosidade e agora deviam estar se arrependendo do que parecia ser o plano de uma quintanista entediada para ocupar sua manhã. — E não, ao contrário de seus desejos mais profundos, não sou eu quem vai ensiná-los a chutar algumas bundas das trevas na próxima hora e meia. Esse seria o nosso novo professor fantasma substituto, o Sr. Pontas.
— Olá — Disse Harry, a voz grave e incorpórea ecoando pela sala, vindo do que parecia ser um ponto à esquerda de Astória, quando na verdade ele estava há muitos metros à sua direita. — É um prazer retomar o posto depois de tanto tempo.
— Professor Pontas ensinou em Hogwarts uns cento e tantos anos atrás — Astória explicou, seguindo o plano que eles tinham decidido juntos, demonstrando tanta autoridade no assunto que era difícil não levá-la a sério. — Eu espero que vocês entendam o tamanho do privilégio que é ter um professor retornando ao posto quando ele poderia, ao invés disso, continuar desfrutando de sua aposentadoria eterna bem longe daqui, como tem feito nos últimos séculos.
— Eu não me importo. Não quando Hogwarts precisa tão desesperadamente de mim.
Astória pareceu se segurar para não rolar os olhos para Harry.
Luna ergueu uma mão pálida no ar.
— Eu pensei que o Sr. Pontas era recém-morrido? Por não ser corpóreo e tudo mais.
— Oh, não eu tenho um corpo, senhorita…?
— Lovegood — Luna ofereceu, olhos curiosos na direção que a voz distorcida Harry parecia vir. — Mas prefiro poupá-los da horrenda visão.
— O Sr. Pontas teve uma morte violenta. Terrivelmente desfigurado, coitado — Disse Astória num tom prático que desencorajava perguntas.
Luna assentiu em profunda compreensão. Harry ouviu alguém murmurar “cargo amaldiçoado, eu disse a você”. Ele sorriu, pensando em Rony.
— Se ninguém tem mais perguntas constrangedoras para o nosso professor, vamos sem demora à primeira lição. Magia defensiva básica não verbal!— Ela apontou para o primeiro item no quadro, escrito em sua caligrafia cheia de pontas.
Aquela era a sua deixa. Harry deslizou do banco da janela, sabendo bem que não devia se mover entre eles para não correr o risco de tropeçar em alguém e ter a capa desalojada, mas incapaz de ficar sentado, a empolgação do momento tomando o melhor dele.
— Podem se levantar, todo mundo. Varinha sem punho. Achem uma dupla com o mesmo nível que o seu…
Quase duas horas mais tarde, os quarenta e cinco estudantes da primeira aula “extra-oficial” da vida de Harry começaram a deixar a classe, murmurando excitados. Harry também estava – pela primeira vez em muito tempo – quicando de energia e com um sorriso incontível no rosto. O início tinha sido difícil – incapaz de circular entre os colegas e corrigir ou ajudar com a lição – mas ele e Astória faziam um bom time, no que ela era rápida a reagir de acordo com os comentários de Harry, e parecia tão interessada quanto ele em fazer a aula ser útil para os colegas. Harry tinha conseguido angariar uma boa noção de onde todo mundo estava em sua capacidade de defesa não verbal, e depois disso ele tinha dividido a turma em níveis com a ajuda de Astória, e distribuído atividades práticas para cada um deles, corrigindo ou aconselhando onde via oportunidade, circulando pelo exterior da sala, enquanto que os estudantes mantinham a prática restrita ao interior do círculo de cadeiras.
O processo tinha ido muito mais suavemente do que Harry previra. O tom nos murmúrios excitados indicava que os colegas tinham tido uma experiência semelhante– vários deles tinham agradecido o “Sr. Pontas” antes de deixar a sala, e perguntando quando seria a próxima aula.
— Próxima semana, mesmo horário — Astória prometeu sem titubear.
Eles não tinham exatamente discutido aquilo, mas Harry não se importou com a promessa. Ele teria feito aquilo todos os dias da semana.
— Bom trabalho, Professor Pontas — Astória murmurou, quando Harry se aproximou dela pela direita, o movimento da capa deslocando ar e fazendo-a consciente de sua aproximação. — Cada vez um morto mais proficiente.
— Você não é a pior auxiliar de fantasma que eu já vi — ele respondeu, sem bom humor vazando pela sua voz. Astória tentou sem muito afinco reprimir um sorriso, acenando a varinha para apagar as notas no quadro negro.
Atrás deles, alguém pigarreou. Astória se virou como um gato pego de surpresa, mas era só Gina, que tinha se demorado recolhendo a mochila sem que eles percebessem.
— Greengrass, eu gostaria de dar uma palavrinha com o professor Pontas, se não se importa.
— Por que eu me importaria? — disse Astória, com cara de quem se importava.
— A sós — Gina acrescentou. Harry teve um mau presságio ao ouvir o tom da voz da garota ruiva.
— Muito grato pela sua assistência, a Srta. Greengrass — Harry disse para Astória, tentando usar o tom que um professor fantasma usaria.
— Professor — Astória, uma expressão de limão azedo no rosto, recolheu as coisas e deixou a sala, passos vagarosos, como que para testar a paciência de Gina.
Gina esperou até os passos de Astória ficarem distantes, então acenou a varinha até a porta e a fechou. Então ela andou exatamente na direção de Harry, parou à sua frente e, estendendo a mão adiante, agarrou a capa e a tirou com um puxão.
Harry nem teve tempo de reagir, muito mais surpreso com o fato de que ela podia localizá-lo tão facilmente, do que com a revelação em si. Ele tinha tido o cuidado de tomar a poção polissuco naquele dia, só para o caso de que se revelasse acidentalmente. Gina o encarou por um tempo– uma expressão inescrutável em seu rosto, embora sem aparentar surpresa em encontrá-lo sob a capa. Harry a encarou de volta, achando que os olhos dela tinham, talvez, mudado de cor. Pareciam mais ambar do que castanho. Mais acesos.
Então eles se encheram de lágrimas, e Harry teve certeza de que alguma coisa estava muito errada. Gina pigarreou, como que para clarear a voz.
— Você deve saber que Dino Thomas– o verdadeiro Dino Thomas – faleceu em seu sono na noite passada. A mãe dele me enviou uma carta esta manhã.
Harry piscou aturdido, a notícia atingindo-o como um balaço no peito.
— Ele esteve internado, em coma no hospital St. Mungus, nos últimos oito meses. Ela achou que eu teria gostado de saber — Gina continuou, a voz falhando por um momento e se firmando de novo. — Visto que eu era uma “boa amiga” para o seu filho. Visto que eu e Dino costumávamos nos corresponder, mesmo depois que terminamos. Ela me disse para avisar para os outros amigos dele, porque agora que ele está morto, não precisa mais ser um segredo que ele esteve escondido no St. Mungus todo esse tempo porque um comensal da morte tentou matá-lo no verão passado, e ela estava com medo que eles voltariam para terminar o trabalho.
Harry engoliu, aturdido com as muitas implicações da informação. Ele não mais poderia frequentar as reuniões da Ordem como Dino. Ele não tinha mais uma identidade alternativa para andar por aí. E o que diabos isso tudo importava? Dino, o seu amigo Dino, estava morto. Mais uma vítima de Voldemort, mais uma das pessoas próximas a ele, que Harry não pudera salvar. E ali estava Harry, se importando com a sua própria segurança, a sua própria vida, quando gente muito mais nobre e importante estava morrendo lá fora…
— Você tem alguém cuidando disso? — Gina perguntou, uma amargura tingindo a voz — Tem alguém a postos para ir calar a boca da mãe de Dino, antes que ela arruíne o seu disfarce?
— Gina, ela sabe… eu achei… eu achei que ela sabia. Eu achei que Dumbledore… achei que Dumbledore tinha dito a ela.
— Bem. Ótimo. Por que não queremos que a morte de Dino coloque você em algum perigo desnecessário.
Harry sentiu o calor emanar de Gina – ondas de calor, como se ela fosse uma fornalha, como se o que ela estava sentindo agora – aquela estranha mistura de rancor e descrença em seu rosto – quisesse emanar dela para machucá-lo.
— Eu sinto muito. Dino era meu amigo também, você sabe…
— Você sequer se lembra do que essa palavra significa, Harry?
A onda de alívio que o atingiu ao confirmar que ela sabia quem ele era, que ela era uma pessoa a menos para a qual mentir, quase o distraiu do significado da pergunta.
— Como assim? — Harry disse, com uma nota de desespero mal contida. — É claro que eu–
Mas Gina respondeu com um empurrão, as palmas firmes contra o seu peito, imprimindo contra ele toda a sua força, bem sobre a cicatriz em forma de estrela em seu peito. Harry se curvou, pego de surpresa com o impacto, e em seguida com o ardor de sua pele no ponto de contato. Um cheiro de queimado se alastrou no ar. Harry olhou para baixo e notou que as mãos de Gina tinham aberto queimaduras no suéter azul de lã que ele estava usando.
— Você não tem o direito de mentir para a gente desse jeito! — Gina exclamou, fumegando. Literalmente fumegando, fumaça branca espiralando de sua pele e de seu cabelo em contato com o ar frio da sala. — Você tem alguma ideia– mamãe está inconsolável, ela considerava você como um filho! E eu… eu…
— Eu sinto muito.
— O inferno que você sente!
— Gina, se eu pudesse, eu teria lhe contado…
— Mas Hermione e Rony sabem, não sabem? — Ela disse por entre os dentes. — Por que eles não estão se acabando como se você estivesse morto. Eles estão estranhamente consolados com a sua ausência. Por que, eu me pergunto? Por quê? Por que o túmulo é falso! Por que aquele velório foi uma piada para todo mundo, não foi? Não, Harry, não! — Ela ergueu a mão quando Harry tentou se aproximar, a despeito do calor alarmante que ela emitia. Harry achou que a pele da sua palma parecia em brasas — Você não teria me contado. Você nunca me considerou parte do seu grupo seleto de Pessoas Que Importam. Eu nunca preenchi a cota, nem depois que você achou que sentia algo por mim!
— Foi para a sua proteç–
— Não ouse — Ela apontou o dedo na cara dele. Harry viu uma fagulha estalar na ponta de sua unha, como a extremidade de um fio desencapado. — Eu nunca estive “protegida”, com ou sem as suas mentiras. Eu fui atacada por um dragão, Harry. Parece que eu estou protegida? Parece que você faz alguma diferença na minha vida, se eu sei ou não a verdade sobre Harry Potter?
— Não — Harry disse rápido, achando que era a resposta certa. O calor emitido pela garota aumentando, fazendo a pele dele arder, como se ele estivesse muito perto de uma lareira acesa, mas Harry não ousou se afastar.
— Não — Gina assentiu, os olhos ao mesmo tempo cheios de fogo e de lágrimas. — Mas ter a sua amizade poderia ter feito alguma diferença. Agora, nunca vamos saber.
Ocorreu à Harry apontar a hipocrisia de Gina sobre amizades, quando ela parecia vir passando um tempo anormal com Draco Malfoy no banheiro dos monitores. Mas Harry não encontrou coragem para fazê-lo. Não naquele momento, não daquele jeito. Se Gina estava sob a influência de Malfoy, era algo que Harry precisava investigar cuidadosamente, não confrontá-la quando ela já parecia à beira de uma combustão espontânea.
— Eu sinto muito — Harry repetiu, com a maior sinceridade que ele era capaz de colocar nas palavras.
— Eu não acho que eu me importo com o que você sente. Não quando você parece se importar tão parcamente com o sentimento de todo o resto do mundo. Todos chorando pela sua morte, bando de babacas.
— Gina.
Mas ela se virou e foi embora. Harry fechou a mandíbula devagar quando ela sumiu pela porta, fumaça devorando o ar no seu encalço.
*
Junho, 1997
Me encontre atrás da pedra engraçada. Tem algo que preciso lhe mostrar.
G.
Draco leu e enrolou o bilhete rápido, enfiando-o no bolso antes que alguém visse e perguntasse do que se tratava. Ele estava, é claro, sendo paranóico. Os poucos sonserinos que restavam no castelo após a suspensão das aulas não demonstravam especial interesse em sua vida. Os seus velhos companheiros de crime– Crabble, Goyle, Blaise, Pansy e Daphne– tinham optado por voltar para casa, e mesmo se não tivessem ido, as relações entre eles estavam no mínimo balançadas ultimamente. Era como se, desde que Lucius tinha sido preso, e depois beijado pelo dementador– Draco tivesse adquirido alguma doença contagiosa que eles preferiam não arriscar adquirir.
A doença, Draco sabia, se chamava status. Ou a falta dele.
Bem, que todos os seus colegas com famílias intactas e casas seguras fossem para o inferno.
Ele esperou alguns minutos antes de olhar na direção da garota ruiva sentada do outro lado da mesa – o mais distante dele. Gina Weasley ergueu as sobrancelhas, como quem diz “então?” Draco estreitou os olhos da maneira mais perigosa que sabia. Isso fez Weasley rolar os olhos. Weasley, como Draco viera a descobrir no último par de meses, não tinha uma noção saudável do perigo.
Ela estava usando um dos horrorosos suéters Weasley aquela manhã. Rosa pálido, com um G.W. bordado em linha marrom e fora decorado com uma galhada de cervo e uma bola vermelha na curva do G. Rosa era uma péssima cor para Weasley, brigando com seu cabelo vermelho-pimenta. O suéter estava apertado nela– o único aspecto que Draco apreciava na hedionda peça de roupa.
Weasley terminou o próprio café da manhã – ela sempre comia duas fatias de torrada, uma com queijo, outra com geleia, e meio copo de café com leite – e deslizou para fora do banco, tomando o caminho para fora do castelo. Ela sumiu para o átrio, o cabelo obscenamente vermelho sacudindo no alto da cabeça no ritmo dos passos, e Draco se viu apressando o próprio café da manhã, contra o seu melhor julgamento.
Uma coisa estranha tinha acontecido em Hogwarts, desde que as aulas tinham sido suspensas em abril. Apesar das quatro mesas das casas ainda estarem dispostas lado a lado no salão principal, os alunos restantes tinham pouco a pouco começando a fazer as refeições na mesma mesa. A escolhida tinha sido a mesa da Lufa-Lufa, uma das duas mesas centrais. Menos mal. Draco jamais teria seguido a tendência, se a escolhida tivesse sido a mesa da Grifinória.
Essa era só mais uma das muitas, pequenas mas significativas mudanças, que vinham fazendo com que Draco se sentisse uma pessoa diferente. Ele não precisava mais manter o “modo” sonserina ativo o tempo inteiro, porque ninguém mais parecia se importar com a divisão das casas. As aulas que ainda aconteciam uma vez por semana combinavam todas as casas, e às vezes dois ou três anos na mesma sala, porque eles eram tão poucos. E ele não precisava antagonizar com Potter, explicitamente ou em sua cabeça, desde que o idiota tinha feito o favor de morrer. E, Draco não precisava impressionar Severus, ou se preocupar com as expectativas de Lucius.
E, ele já não recebia mais cartas de casa. Naquele ensolarado sábado de junho em que, em uma vida anterior, Draco estaria se refastelando em uma cesta de suas comidas preferidas preparada pelos elfos e enviada por sua mãe, ele estava ao invés disso engolindo o café da manhã às pressas para se encontrar com uma traidora de sangue atrás de alguma pedra nos terrenos da escola.
Naquele passo, ele podia muito bem começar a trocar o próprio nome em breve.
Draco Não-Foy? Draco Falhoy? Draco Doninha-Covarde-Se-Escondendo-Atrás-das-Paredes-de-Hogwarts? De uma coisa ele sabia– ia manter Draco como primeiro nome. Como uma boa veste negra de alfaiataria, ia bem com tudo.
— Não se apresse em meu benefício, Malfoy — Weasley zombou, quando Draco entrou em seu campo de visão, espremendo os olhos para o sol atrás dela.
Weasley tinha decidido esperar em cima da pedra na qual marcara aquele encontro, apoiada sobre os cotovelos, o rosto voltado para o sol como se fosse um girassol exótico, vermelho ao invés de amarelo.
A pedra engraçada era um marco conhecido da orla do lago de Hogwarts, posicionando-se numa posição estratégica para ver sem ser visto, do ponto de vista do castelo. A parte “engraçada” vinha do seu formato– dependendo do ângulo em que se olhava, ela se parecia com um enorme pepino distorcido ou o aparelho reprodutor de um gigante, petrificado e casualmente esquecido a meio caminho de um mergulho nas águas negras.
Weasley estava estirada na parte comprida e oblonga da pedra. Quando ela ficava sob o sol daquele jeito, o seu cabelo se tornava cor de laranja incandescente, e os olhos brilhavam dourados, e ela não parecia exatamente humana, de um jeito que fazia os pêlos nos braços de Draco se arrepiarem.
— Seria de se pensar que você teria o bom senso de não torrar sob o sol, visto a sua tendência a explodir numa bola de fogo quando fica de cabeça-quente — Ele disse, enfiando as mãos nos bolsos da calça, tentando ignorar os arrepios.
Draco estava em preto – calças pretas, uma camisa preta de mangas compridas. O tipo de roupa confortável o bastante para o interior fresco do castelo, mas que estava certa a cozinhá-lo em poucos minutos sob o sol.
— Engraçado você mencionar. Eu estava imaginando que talvez, se eu ficar no sol por tempo o bastante, eu conseguirei acumular mais calor para usar mais tarde. Eu tenho a impressão de que a minha pele consegue acumular energia solar.
Draco inclinou a cabeça, interessado. Ele já tinha ouvido falar de dragões que obtiam a sua energia do sol. Mas eles normalmente eram verdes, e Weasley definitivamente não estava esverdeando. Ele estava prestes a apontar o detalhe quando ela o interrompeu:
— Eu estou zoando, Malfoy. Eu não consigo fazer isso. Eu acho — Ela franziu, pensativa por um segundo, mas dispensou a ideia, pulando de um pensamento para outro com a rapidez de uma lebre inquieta. — Não foi por isso que eu chamei você aqui.
— Você queria me mostrar uma coisa — Ele repetiu a segunda parte do bilhete, um tanto inquieto porque, apesar de seu constante uh, contato, com a garota, ainda havia parte dele que se sentia ofendido por atender tão prontamente quando ela o conjurava no meio do dia. — O que é que não podia esperar por hoje a noite, na segurança do banheiro?
O banheiro dos monitores tinha se tornado o seu local de encontro preferido, desde a suspensão das aulas. Com a maioria dos monitores fora do castelo, o banheiro estava praticamente abandonado, se tornando o local perfeito para as investigações sistemáticas do estranho estado de Weasley. O fato de haver uma banheira onde ela podia se jogar se as coisas saíssem do controle era um ponto forte a favor do local. E Draco não podia negar que gostava da parte em que ele a ajudava sair da banheira, encharcada e pingando. Ao menos um par de vezes, ela o tinha puxado para a água com ela, porque Weasley era uma peste impossível. O pensamento quase fez um sorriso despontar em seu rosto. Draco fez esforço para contê-lo, e acabou tornando a expressão em uma careta.
— Não faça essa cara — Gina repreendeu. — O tempo está bom hoje, e você pode usar um pouquinho de sol nessa cara pálida.
— Eu me queimo no sol, Weasley. Se você tem algo para me mostrar, você tem cerca de um minuto antes que eu exploda em chamas. Ou derreta, a depender do nível de umidade do ar.
Ela murmurou algo como “bebezão fresco”, escorregando da pedra fálica com graça e caindo sobre os pés.
— Aqui não. Venha comigo.
Draco ficou aliviado e ligeiramente tenso em segui-la na direção da orla, e então floresta adentro. Aliviado porque, entre as árvores, as chances de serem vistos juntos eram muito menores. A tensão se devia às lembranças desagradáveis que Draco tinha da floresta de Hogwarts. Desde o seu primeiro ano, ele tinha pesadelos ocasionais em que se perdia na floresta e dava de cara com o lorde das trevas em pessoa. No sonho, ele sempre queria beber o sangue de Draco, que o tornaria jovem, loiro e imortal para sempre.
Weasley parecia saber onde estava indo. Draco se concentrou no balanço do rabo de cavalo dela, de um lado para o outro como um pêndulo, praticamente um instrumento de hipnose. Será que ela sabia que dia era hoje? É claro que não. Weasley estava preocupada com as próprias questões combustíveis de sua vida, e não havia espaço para muito mais.
Não que Draco se importasse. Ele também estava colocando energia e tempo anormal nas questões dela, principalmente porque isso o impedia de lidar com as suas próprias.
— Aqui — Ela disse, parando em uma área arbitrária da floresta. Árvores de raízes altas os circundavam, e barulhos estranhos estalavam e se arrastavam e farfalhavam ao redor deles, do jeito que florestas tinham o costume de fazer. Weasley estava parada sob uma nesga de sol dourado, incidindo sobre o seu ombro esquerdo. — Acho que estamos longe o bastante do castelo.
— Lugar perfeito para um assassinato discreto.
— Só se você não ficar calado — Ela disse, sorrindo.
Draco se pegou percebendo que ela estava sorrindo. Alguma coisa tinha chateado Weasley a algumas semanas, e ela não vinha sorrindo muito desde então. Ele não a pressionara– eles não eram confidentes nem nada do tipo– mas ver o sorriso de volta no rosto dela o trouxe alguma espécie estranha de alívio.
— Apenas me mostra logo o que é. Não me diga que você cresceu escamas durante a noite.
Eles meio que estavam esperando as escamas– mas Weasley se aterrorizava toda vez que Draco as mencionava. A pele dela vinha mudando – ainda suave e macia, mas tinha adquirido uma espécie de resistência subcutânea, e mais interessante ainda, se tornara resistente ao fogo, após descamar umas sete vezes em razão dos danos das combustões espontâneas.
Draco estava pensando nas escamas, mas Weasley começou a tirar o suéter por cima da cabeça e ele perdeu o fio do raciocínio.
— Qu– Ele começou, mas mordeu a língua. Hey, se ela queria lhe oferecer um nu frontal de boa vontade no dia do seu aniversário, não seria ele a impedi-la.
Mas Weasley estava usando uma espécie de top verde-claro sob o suéter, que deixava os ombros de fora mas cobria as partes mais interessantes do seu torso. Ela se virou de costas e Draco percebeu que as alças do top se uniam atrás do pescoço e na cintura, deixando as suas costas nuas.
Weasley tinha boas costas. Nem mesmo a explosão de sardas perturbava a visão do desenho de sua espinha, da curva suave da cintura e o contorno de músculos suaves mas que, ele suspeitava, resistiriam sob a pressão de suas mãos. Draco sempre apreciara o que a posição de batedora fazia com ombros, braços e costas das jogadoras de quadribol.
Então, havia aquele par de cicatrizes. Duas pequenas meias-luas na altura das omoplatas, do tipo que se curara sem se fechar por completo. Draco as vira uma vez antes, depois do episódio com as asas, na fatídica noite em que Draco tinha tentado.. Dar um mergulho, e Weasley o arrancara da água.
Eles vinham tentando trazer as asas de volta desde então, sem sucesso. Tinham experimentado de tudo para manifestá-las, mas elas pareciam ter se desintegrado no ar para nunca mais voltarem.
Draco não sabia o que pensar sobre isso. Ele tentava, ativamente, não pensar sobre aquela noite. Ele não sabia como navegar as muitas camadas de humilhação e vergonha e auto-comiseração que encobriram a raiz da questão.
Mas então, asas. Draco voltou a sua atenção à floresta e Weasley semi-nua diante dele, porque alguma coisa estava acontecendo.
Uma hora elas não estavam lá, e na outra... O par de asas cor de rubi se desenrolou das costas de Weasley como as velas de um barco. Com um vum de deslocamento de ar elas se abriram, lançando uma baforada de calor na direção de Draco.
— Uou! — Ele exclamou, dando dois passos para trás por reflexo. As pontas eram pontudas, bem pontudas, como as extremidades de garras. As asas em si tinham a textura de um couro fino, ligeiramente translúcido, com estrutura de cartilagem mais escura. — Uau. Como…?
Weasley se virou para ele, um sorriso radiante preenchendo o rosto inteiro.
— Eu fiz mais alguns experimentos ontem, depois que você foi embora. Eu descobri como chamá-las. Eu só preciso dar ao fogo, uh, um formato. É estranho, eu sei.
Draco deu a volta em torno dela – ele não podia parar de encará-las.
— Você consegue controlar?
Weasley respondeu abrindo e fechando as asas devagar, e depois rápido, em sincronia, movendo ar ao redor deles, erguendo as folhas secas no chão.
— Mas não consigo voar com elas. Nem sei como começar.
— Provavelmente de um lugar alto? — Ele sugeriu. — Você pode se jogar e deixá-las fazer o trabalho.
— Sim, esse parece um bom plano, se o que eu estiver querendo for partir o meu crânio em pedaços.
— Posso…? — Ele sentiu o rosto queimar, e não tinha nada a ver com o calor que as asas de Weasley emanavam. Ele mal conseguiu formar a pergunta, mas ele precisava perguntar, porque ele precisava…
— Sim, vá em frente.
Draco esticou uma mão pálida no ar e, com reverência, correu a ponta dos dedos sobre a borda da asa esquerda, que Weasley manteve o mais imóvel possível. Era tão macia quanto parecia. E resistente. E quente. Como tudo nela era quente. Draco viu a espinha de Weasley se esticar, como se o seu toque tivesse provocado nela alguma reação.
Os pêlos do braço dele se arrepiaram em resposta, e a sensação viajou dos seus nervos até a sua espinha e a base de seu estômago.
— Puta merda, Weasley. Você tem asas.
— Eu sei, certo? — Ela disse, a voz ainda carregada do sorriso que ele vira antes. — Ah, e à propósito. Feliz aniversário.
Draco recolheu a mão, os dedos formigando. Ela se virou para ele, a expressão em seu rosto agora mais guardada, aguardando por sua reação.
— Como você sabia?
— Todo ano você recebe uma cesta ridiculamente enorme na mesma data, com mais comida do que a minha família consegue comer em uma semana. Não precisa ser nenhum gênio para deduzir que é seu aniversário.
— Todo ano, menos nesse — Draco se pegou murmurando.
— É. Sinto muito — Gina disse, adivinhando o pensamento que vinha com a sombra no rosto dele. Os olhos dela ainda brilhavam com aquele tom castanho-dourado que Draco tinha julgado ser culpa do sol, mas que agora ele percebia que vinha do que quer que queimasse dentro dela. Ele percebeu que não a via sob boa iluminação o suficiente, e fez uma nota mental para endereçar o problema no futuro.
— Você não tem que sentir nada — ele disse.
— Não é assim que funciona para os seres humanos.
— E garotas-dragão saberiam disso, como? — Draco zombou, porque as benditas asas ainda estavam ondulando devagar atrás dela, emoldurando as suas costas.
E os dedos de Draco ainda estavam formigando para tocá-las de novo. E para tocar… outras partes dela, ele odiava admitir. A pele cheia de sardas-Weasley, que ele era suposto a repudiar. O chamativo cabelo laranja no rabo de cavalo hipnótico. Os lábios dela, que eram cheios e vermelhos o tempo inteiro, como se Weasley estivesse constantemente com febre.
Ele acompanhou o movimento dos lábios em questão, que estavam formando palavras. Draco tinha a consciência de estar encarando, mas nenhuma vontade de desviar os olhos, porque quando ela deu outro sorriso, ele sentiu coisas se debatendo entre as suas costelas. Coisas que se assemelhavam com asas de dragão inquietas.
— Garotas-dragão sabem de tudo um pouco.
E com isso, ela deu um passo adiante, e o beijou. Sem nenhum aviso, justificativa ou demonstração de bom-senso. Tão quente que ele achou que seus lábios iriam derreter de encontro com os dela.
Não derreteram. Ao invés disso, espalharam o calor para dentro dele, se desenrolando em seu peito e na base do seu estômago e em regiões mais ao sul, lava borbulhante. Sopro de dragão. E tudo que Draco conseguiu pensar foi: finalmente.
Finalmente. Finalmente. Finalmente.
*
Bervely retornou do sótão de Blackburn no fim da tarde, uma garrafinha de líquido denso e cor de lama em sua mão, a maçaneta em forma de rosa na outra. Ela passara o dia terminando os últimos passos de Polissuco no laboratório improvisado, enquanto mantinha o olho em outra poção, essa produzida em segredo dentro da estufa – poção revigorante. A poção que vinha lhe ajudado a se manter de pé nos últimos dias, ao que ela só poderia agradecer Monstro, que mais uma vez fora o seu contrabandeador de ingredientes.
— Você vai se atrasar — Bellatrix disse quando ela entrou, em um tom distraído. Estivera lhe esperando no quarto, analisando o próprio reflexo no espelho da penteadeira de Bervely. Talvez até usando a sua escova de cabelo, que estava posicionada num ângulo diferente do qual Bervely a deixara de manhã. — A polissuco de milorde, você a trouxe?
Bervely andou até a mãe e deixou o frasquinho em questão ao seu lado, sobre o tampo da penteadeira. Bellatrix pescou o rosto dela pelo espelho, o cenho franzido.
— E qual é o problema com você?
— Nenhum. Preciso me arrumar, ou, como disse, vou me atrasar.
Em poucas horas, Bervely era suposta a comparecer ao baile do Sagrado Vinte e Oito, passando-se por Draco. Também acontecia de ser o aniversário de dezessete anos de seu primo. Ambos os fatos estavam se acumulando para azedar o humor de Bervely— ela tinha enviado Monstro com uma mensagem para Draco, mas o elfo voltara um par de minutos mais tarde para lhe informar que Hogwarts tinha tomado medidas contra a entrada não autorizada de elfos-domésticos e ele poderia tentar entrar, mas dispararia alarmes.
Ah, sim, e porque quando ela tomasse o lugar de Draco no infeliz baile, precisaria assumir a sua posição como chefe da casa Malfoy publicamente, em frente à nata da comunidade bruxa puro-sangue. E ela não estava no espírito de socializar.
— Espere um minuto — Bellatrix ordenou. Bervely parou a meio caminho do banheiro com um suspiro. — Eu tenho algo para você.
Bervely se preparou para o que estava por vir. O último presente oficial de Bellatrix tinha sido a cabeça de Thor Carmichael em uma caixa forrada de pétalas de flores. Ela se virou devagar.
— O quê?
— Chegue mais perto.
Bervely obedeceu, relutante. Bellatrix tirou algo do bolso– algo brilhante e prateado e familiar. Era Duas Serpentes, o anel de Lucius Malfoy. E agora de Draco– exceto que Bervely o tinha roubado ao deixar Hogwarts.
— Um dos dois presentes de Milorde para Draco. Você deve usá-lo hoje à noite, vai legitimar a sua posição no evento. Não levá-lo consigo levantaria suspeitas.
— Duas Serpentes não vai responder a mim, eu não tenho sangue Malfoy.
Bellatrix abriu o seu sorriso afiado preferido e tirou outra coisa do bolso das vestes – um frasquinho longo, arrolhado e selado com cera, repleto de um líquido rico, denso e vermelho-escuro .
— Que oportuno que conservei algum, só para o caso.
Na mão de Bellatrix, as serpentes metálicas do anel se contorceram interessadas na direção do frasquinho, as cabeças minúsculas, as línguas bifurcadas da espessura de agulhas se projetando para fora.
Bervely sabia melhor do que fazer perguntas. Ela estendeu a mão e recolheu o frasco – quente, como se repleto de sangue recém-obtido, mas Bervely desconfiou ser o resultado de um feitiço de aquecimento – e estendeu a outra mão para receber o anel, mas Bellatrix fechou os dedos e o tirou do seu alcance, encarando-a com olhos estreitos.
— Essa noite é importante, Bervely. Tudo deve ir de acordo com o plano.
Bervely exalou, trabalhando as revoluções de impaciência e irritação se enrolando dentro dela, muito como as duas serpentes do feio anel de Lucius.
— Eu só preciso convencer todo mundo de que Draco é um exímio dançarino, e portanto, digno da liderança da Casa Malfoy. Qual a dificuldade, realmente?
Bellatrix estreitou os olhos mais ainda com a resposta mal-criada.
— Você não deve tratar o assunto com leviandade, garota. A casa Malfoy ainda tem uma cadeira no Conselho, eu devo lembrá-la, e continuará tendo enquanto não perder a sua credibilidade diante do Sagrado Vinte e Oito. Você decidiu interferir e tirar Draco da equação, portanto você deve assumir as responsabilidades dele, de acordo com as expectativas do Lorde das Trevas. Você acha que conhece dor, mas acredite em mim quando digo que nada do que fizemos naquele círculo de pedras vai se comparar ao que Milorde fará se você decepcioná-lo.
Bellatrix disse aquela última parte com uma rara nota de implicação pessoal que fez Bervely hesitar em sua postura de vamos-logo-com-isso. Bellatrix parecia falar com experiência própria. Ela já tinha decepcionado Voldemort? Como isso era sequer possível de alguém cuja vida parecia revolver em torno, a favor e em servitude ao lorde das trevas?
Bervely assentiu, séria, olhando nos olhos da mãe. Ela só queria acabar logo com aquilo, e discutir com Bellatrix era contraprodutivo.
— Não precisa se preocupar. Tudo irá de acordo com o plano.
A comensal abriu os dedos de novo, oferecendo-lhe Duas Serpentes. As duas cobras de prata se remexeram impacientes na mão de Bervely, ansiosas pelo sangue no frasquinho selado.
Bellatrix usou as unhas compridas, pintadas de um lustroso roxo-escuro, para quebrar o selo de cera do frasco de sangue. O cheiro metálico alcançou as narinas de Bervely, e em sua palma esquerda, as serpentes cresceram em inquietação, os minúsculos olhos de esmeralda apontados na direção do frasco.
— Espalhe-o sobre a sua mão e entre os seus dedos. O anel só precisa reconhecê-la uma vez e então continuará respondendo, desde que não seja removido.
— E porque eu iria querer tirar um acessório de tamanho bom gosto? — Bervely resmungou, recebendo e girando o frasco nos dedos, deixando o sangue pseudo-fresco se derramar sobre a palma branca e manchar a sua pele de vermelho escuro. A sua garganta trancou para a sensação viscosa entre os dedos, e ela se perguntou porque, apesar da exposição mais constante à sangue – de cavalos, sangue Malfoy ou o seu próprio – ela estava ficando mais, e não menos suscetível ao seu efeito.
— Isso deve bastar — Instruiu Bellatrix.
Bervely pousou o frasco vazio na penteadeira e usou a mão limpa, deslizando o anel pelos seus dedos sangrentos – anelar e indicador. As serpentes ajustaram-se em torno dos dedos de Bervely num abraço justo, provaram do sangue em sua pele, e não se dando por satisfeitas, abocanharam as garras minúsculas em sua pele e sugaram do seu próprio. A dor era ínfima comparado às agulhadas de, digamos, um Cruciatus.
Por fim as serpentes se acomodaram num abraço perfeitamente ajustado à circunferência de ambos os seus dedos, voltando à imobilidade, suas pequenas escamadas escurecidas do sangue seco.
Pelo espelho, ela viu os olhos de Bellatrix cintilarem, satisfeitos. Mais uma batalha vencida, mais um grilhão em torno de Bervely. Ela teve a impressão de que Duas Serpentes não seria tão fácil de retirar como fora de colocar, mesmo se ela assim desejasse.
— Milorde ficará satisfeito.
— Ele estará no baile?
O sorriso de Bellatrix se intensificou para algo faminto.
— Talvez. Se tivermos sorte.
Bervely teve a impressão de que talvez o Sagrado Vinte e Oito fosse receber mais atrações do que estava em sua programação para a noite.
E não era problema seu, pensou Bervely, ecoando o que estava se tornando o seu mantra nos últimos tempos.
— O elfo trará as suas vestes em alguns minutos. A carruagem estará aguardando nos jardins às oito em ponto. Não se atrase.
*
Bervely tomou um longo banho quente em sua banheira para acalmar os nervos, e usou o espelho de corpo todo atrás da porta do armário para guiar a sua metamorfomagização em Draco, atenta aos mínimos detalhes. Ela até mesmo reproduziu a cicatriz que Sectumsempra deixara no peito do primo– só para o caso. Mas, como Bellatrix lhe orientara na ocasião dos testes das vestes, Bervely o fez parecer mais saudável e bem alimentado do que Draco tinha estado da última vez que o vira. Intimamente ela esperava que ele estivesse mais saudável e bem alimentado do que quando ela o deixara.
Ela também esperava que ele tivesse tido um bom aniversário, e que alguém tivesse lhe feito companhia. A lembrança da garota Weasley lhe veio à mente, mas talvez fosse muito otimista pensar que Draco não a teria afastado, dando continuidade à sua tendência de isolamento e auto-sabotagem.
Um dos elfos de Blackburn trouxe as vestes de gala de Draco, já ajustadas e engomadas à perfeição, e Bervely deslizou o seu novo corpo para dentro delas, concentrando-se em se acostumar com o seu novo tamanho e densidade. Draco era mais alto que ela, e apesar de sua magreza, ele era mais pesado, com uma massa muscular mais significativa do que a sua. Nada que ela não pudesse dominar em alguns minutos de prática, ajudava por mais alguns goles de poção revigorante.
Quando o elfo se foi, Bervely trancou a porta do quarto e abriu a porta da estufa na parede oposta. Sob a mesa, enterrada debaixo de um dos muitos vasos de plantas sem planta nenhuma, ela recolheu uma dose de Amnésia que pedira a Monstro para deixar para trás. Ela tinha combinado que ele devia passar mais tarde para recolher as três memórias e guardá-las em segurança até o seu retorno – isso a impediria que ela produzisse a memória de Monstro recebendo as memórias de sua mão.
Não, naquela noite, ela queria ter certeza de que não só as memórias, mas a própria existência de Amnésia estava protegida. Como sempre– e por efeito da própria poção– ela esqueceria de sua existência assim que os frascos saíssem de vista, e só se lembraria quando os visse novamente.
Pela última vez, Bervely prometeu a si mesma. Não porque ela achasse que não ia precisar de Amnésia de novo, mas porque tinha a impressão de que outra ressaca mnemônica como a que tinha sofrido da última vez que reabsorvera as memórias poderia ser o seu fim. Ou a forçaria a dar um fim em si mesma, o que dava no mesmo.
Com uma mão trêmula, Bervely se forçou a aspirar amnésia para dentro do seu sistema, e com cada expiração subsequente, se livrar de tudo que era perigoso demais para ser levado ao baile do Sagrado Vinte e Oito com ela.
*
Quinze minutos mais tarde, aquela elegante versão de Draco Malfoy atravessou a extensão de Blackburn e encontrou uma carruagem particular aguardando na frente da casa. Exceto que a carruagem não estava vazia.
A jovem dentro da carruagem portava um exuberante vestido de baile prateado, a saia volumosa em muitas camadas e o busto justo, bordado e sem mangas, deixando os ombros e colo expostos. O lustroso cabelo preto fora arrumado no topo de sua cabeça num penteado elaborado que lembrava o de um botão de rosa, uma franja lateral sobre os olhos negros. Apenas o sorriso afiado em seu rosto parecia errado.
Bervely parou à porta, horrorizada, olhando para… si mesma.
— Surpresa — Disse a Bervely da carruagem, cujos olhos cintilavam, deliciados com o choque da Bervely real. A sua cópia inclinou a cabeça, irônicamente curiosa. — Você certamente não achou que eu a deixaria meu querido primo ir, sozinho e desamparado, ao seu primeiro baile puro sangue?
Era a sua voz. Os seus lábios, e o seu rosto e o seu corpo. Bervely entendeu, enfim para que o Lorde das Trevas precisava de polissuco. Ou melhor, para quem.
— Entre logo, Bervely — Disse Bellatrix, soando como ela em timbre, mas com um tom tão tipicamente imperativo que por um momento Bervely achou que tinha ouvido a voz de Bellatrix escapar dos seus lábios. — Não queremos ofender os nossos anfitriões com atrasos desnecessários.
Bervely manejou o corpo de Draco para dentro da carruagem, movendo-se devagar contra a densidade de mais aquela–desagradável– surpresa. Ao seu lado, o equivalente ao seu pior pesadelo sorriu exultante para ela, deslumbrante em seu vestido de festa.


Oláa.
Kkkkkkk o contraste de ir das crônicas de Bev Rose Black para a Vida Normal de Harry Potter.
Okay, mas ela tomou Amnésia??!! O suspense tá me matando. Aêeee, ela lembrou! E agora não consegue conciliar as duas versões de si kkkkk.
Tô amando essa amizade do Harry com a Ast. Claro que a Gina ia perceber kkkkk. Ué, a Ast se importa? Ela tá gostando do Harry? E o Neville? Isso, Gina! Jogue umas verdades nele! Pera, no banheiro?? Draco e Gina, o que vocês estão fazendo? Ah sim, pesquisa. Ahhhh é aniversário dele! Será que ele vai ir no evento de algum jeito? Ou só ficar sabendo depois que alguém se passou por ele?
FINALMENTEEEE!!! Qual é…